Ela está morta
Entre o Veneno e a Redenção
O silêncio dentro da cabana era interrompido apenas pelo estalar da madeira velha sob o peso do vento e pelo som da respiração pesada de três mulheres marcadas pela tragédia. Malu Torres, que por tanto tempo operou nas sombras sob o nome de Luiza, sentia o peso de sua verdadeira identidade retornar como uma armadura enferrujada. O segredo que ela carregara para proteger a irmã agora era a única ponte que restava para salvar Giovanna de um destino pior que a morte.
Maya, sentada no chão empoeirado, abraçava os próprios joelhos, tentando conter o tremor que subia por seus braços. A revelação de Malu e a confirmação da psicose de Lorena haviam sido golpes mais dolorosos do que o impacto do carro contra a barreira.
— Como ela pôde? — Maya sussurrou, a voz embargada pelo choque. — Lorena estava lá, Malu. Ela me abraçava, ela sorria para mim enquanto, pelas costas, preparava a minha execução. Ela olhava nos olhos da Giovanna e mentia sem hesitar.
Malu soltou um suspiro longo, encostando a cabeça na parede fria da cabana.
— Lorena não tem consciência, Maya. Para ela, as pessoas são peças de um tabuleiro. Minha irmã é o prêmio principal, e qualquer um que se coloque entre ela e a Giovanna é um obstáculo a ser removido. Ela passou anos cultivando essa imagem de "melhor amiga fiel" enquanto afastava todos que realmente amavam a Gi. Inclusive eu.
Sarah, que tentava estancar um corte profundo na perna com um pedaço de tecido rasgado da própria camisa, interveio com a voz firme, apesar da dor.
— Não temos tempo para lamentar o caráter dela agora. Malu, você disse que tem aliados. Quem? A polícia da cidade está no bolso da Lorena ou da sua mãe.
— Nem todos — respondeu Malu, os olhos brilhando com uma determinação gélida. — O delegado aposentado, o senhor Valério, sempre soube que havia algo errado com a morte do meu pai e com a forma como a Clara assumiu tudo. Ele me ajudou a forjar minha saída do país. Se eu conseguir chegar até ele, ele pode conseguir reforços de fora da jurisdição local.
Maya levantou-se com dificuldade, apoiando-se na mesa capenga que ocupava o centro do cômodo.
— Eu não posso esperar por burocracia, Malu. A Giovanna acha que eu morri. Ou pior, ela acha que eu a traí e fugi com outra pessoa. Se eu não aparecer, a Lorena vai usar esse momento de fragilidade para se tornar a única âncora dela. Ela vai prender a Giovanna em uma teia de onde ela nunca mais vai sair.
— Você não entende — Malu caminhou até Maya, segurando-a pelos ombros. — Se você colocar os pés naquela fazenda agora, você morre de verdade. Lorena já anunciou sua morte. Se você aparecer viva, ela vai alegar legítima defesa ou vai fazer você desaparecer permanentemente antes que uma única palavra saia da sua boca. Precisamos ser cirúrgicas.
— E a Giovanna? — gritou Maya, as lágrimas finalmente transbordando. — Ela está sofrendo agora! Ela está sozinha com aquele monstro!
— Ela não está sozinha — disse Sarah, levantando-se com esforço e mancando até elas. — Ela tem a verdade, só que ainda não sabe disso. Malu, precisamos enviar um sinal. Algo que só a Giovanna reconheceria. Algo que a Lorena não possa interceptar.
Malu franziu a testa, pensando nas memórias de infância, nos códigos que ela e a irmã compartilhavam antes da toxicidade de Clara e Lorena destruir tudo.
— O medalhão — sussurrou Malu. — O medalhão de prata que nosso pai nos deu. Eu estou com o meu. A Giovanna guarda o dela em um cofre no escritório, um lugar onde nem a Lorena tem acesso. Se eu fizer o medalhão chegar até ela, ela saberá que eu estou viva. E se eu estou viva, tudo o que contaram a ela é mentira.
***
Enquanto isso, na Fazenda Torres, o ar estava impregnado de uma falsa melancolia. Lorena havia assumido o controle total da situação. Ela dispensara os empregados, alegando que Giovanna precisava de "privacidade para o seu luto", e agora movia-se pela casa como se já fosse a dona do lugar.
Giovanna estava sentada na penumbra da sala de estar, os olhos fixos em um ponto qualquer na parede. O choro havia cessado, substituído por um vazio anestésico.
— Você precisa comer alguma coisa, Gi — disse Lorena, aproximando-se com uma bandeja de chá e torradas. Sua voz era doce, aveludada, mas havia um brilho de triunfo em seus olhos que ela mal conseguia esconder.
— Eu não sinto fome — respondeu Giovanna, a voz oca. — Eu só sinto... nada. Como ela pôde, Lorena? Como a Maya pôde entrar naquele carro com aquele homem?
Lorena sentou-se ao lado dela, colocando a bandeja de lado e pegando a mão de Giovanna. As mãos de Lorena estavam quentes, quase febris.
— Algumas pessoas são mestres em disfarçar quem realmente são, querida. Eu tentei te avisar, mas eu sabia que você precisava ver por si mesma. A Maya era uma oportunista. Ela queria o nome Torres, queria o poder que você representa. Quando ela percebeu que você estava começando a questionar as coisas, ela decidiu fugir com o que podia.
— Mas ela morreu... — Giovanna soluçou, a imagem do carro em chamas voltando para assombrá-la.
— Foi o destino, Gi — Lorena apertou a mão dela com mais força. — O destino purificando o seu caminho. Agora, você não tem mais que se preocupar com traições. Eu estou aqui. Eu sempre estive aqui, não estive? Eu sou a única que nunca te deixou.
Giovanna olhou para Lorena. Por um breve segundo, algo na intensidade do olhar da amiga a fez recuar internamente. Havia uma possessividade ali que parecia sufocante.
— Você é muito boa para mim, Lorena. Eu não sei o que faria sem você.
— Você nunca precisará descobrir — prometeu Lorena, inclinando-se para beijar a testa de Giovanna. — Agora, por que você não vai para o quarto descansar? Eu vou cuidar da papelada com o doutor Elias. Vamos encerrar esse capítulo doloroso de uma vez por todas.
Giovanna assentiu mecanicamente e subiu as escadas. No entanto, ao passar pela porta do escritório, um impulso súbito a fez parar. Ela sentiu uma necessidade inexplicável de tocar em algo que fosse real, algo que não estivesse manchado pelos acontecimentos das últimas horas.
Ela entrou no escritório e trancou a porta. O silêncio ali era diferente; cheirava a madeira antiga e aos livros de seu pai. Ela caminhou até o pequeno cofre escondido atrás da moldura de um quadro e girou o segredo.
Lá dentro, repousava o medalhão de prata. Ela o pegou, sentindo o metal frio contra a palma da mão. Foi então que ela percebeu algo estranho. Havia um pequeno pedaço de papel dobrado sob o medalhão, algo que não estava lá na última vez que ela abrira o cofre, semanas atrás.
Com as mãos tremendo, ela abriu o bilhete. Havia apenas uma frase, escrita com a caligrafia inconfundível de sua irmã, Malu:
"As sombras mentem, mas o sangue não esquece. Espere pelo amanhecer no carvalho velho."
O coração de Giovanna deu um solavanco. Malu? Mas Malu estava em Londres, ou na Suíça... ou em qualquer lugar longe dali. E como ela teria tido acesso ao cofre?
Um estalo na porta a fez pular.
— Gi? Está tudo bem aí dentro? — A voz de Lorena veio do corredor, agora menos doce e mais inquisidora.
Giovanna rapidamente guardou o bilhete no bolso e o medalhão no peito, fechando o cofre em silêncio absoluto.
— Sim! — gritou ela, tentando manter a voz estável. — Só estava... procurando um documento do papai. Já estou saindo.
Ela abriu a porta e deu de cara com Lorena. A mulher a observava com os olhos semicerrados, como um predador avaliando uma presa que acabara de ter um pensamento independente.
— O escritório é um lugar triste, Gi. Cheio de fantasmas. Vamos para o quarto, sim?
Giovanna forçou um sorriso, o primeiro em horas, embora não chegasse aos seus olhos.
— Você tem razão, Lorena. Muitos fantasmas.
***
Na cabana, a tensão atingia o ápice. Malu terminava de conferir a munição de uma pistola antiga, enquanto Sarah tentava sintonizar um rádio de comunicação de baixa frequência.
— O bilhete foi entregue — disse Malu, olhando para o relógio. — O velho Tião, o caseiro que sempre foi fiel ao meu pai, conseguiu entrar na casa enquanto a Lorena estava distraída com a polícia. Agora, tudo depende da Giovanna ter a coragem de sair de lá.
Maya estava de pé junto à janela, observando os primeiros raios de sol começarem a tingir o horizonte de um laranja sangrento.
— Ela vai — afirmou Maya com uma certeza que surpreendeu as outras duas. — Giovanna pode estar ferida, pode estar confusa, mas ela não é burra. Ela vai sentir que algo está errado. O amor que sentimos uma pela outra... Lorena não pode apagar isso com fogo e mentiras.
— Se ela aparecer no carvalho velho — começou Sarah —, estaremos prontas. Mas se a Lorena a seguir...
— Então o confronto final acontecerá lá mesmo — interrompeu Malu, guardando a arma no coldre. — Eu não vou fugir desta vez. Eu fugi anos atrás para me salvar, mas agora eu fico para salvar a minha família.
As três saíram da cabana, movendo-se com cautela pela mata. A dor física era ignorada, substituída por um propósito maior. Elas chegaram ao grande carvalho, uma árvore centenária que ficava no limite da propriedade, longe da vista da casa principal.
Minutos se passaram, que pareceram horas. O som da floresta acordando era a única trilha sonora para a ansiedade delas.
Então, um movimento entre os arbustos.
Maya deu um passo à frente, o coração saindo pela boca.
— Giovanna? — chamou ela em um sussurro.
Uma figura emergiu das sombras. Era Giovanna, pálida, com o medalhão de prata pendurado no pescoço sobre a camisola. Ela parou, os olhos arregalados ao ver Maya viva e inteira diante dela.
— Maya... — Giovanna caiu de joelhos, as mãos cobrindo a boca. — Eu vi o carro... eu vi o fogo...
Maya correu até ela, envolvendo-a em um abraço desesperado. As duas choraram, um choro de alívio e dor acumulada.
— Foi uma armadilha, Gi — soluçava Maya. — Ela tentou nos matar.
Giovanna levantou o olhar e viu Malu saindo de trás do tronco da árvore. O choque em seu rosto foi substituído por uma compreensão avassaladora.
— Malu... você... você estava aqui o tempo todo?
— Eu nunca te deixei, irmã — disse Malu, aproximando-se e ajoelhando-se ao lado delas. — Eu só precisei me esconder para que a Lorena não pudesse nos destruir de uma vez só.
— Ela me disse que você a odiava — sussurrou Giovanna, olhando para Malu. — Ela me disse que você foi embora porque não me suportava mais.
— Mentira — disse Malu com firmeza. — Tudo o que ela disse, desde o dia em que nos conheceu, foi projetado para nos separar.
A reunião, no entanto, foi subitamente interrompida pelo som metálico de uma arma sendo destravada.
— Que cena emocionante — a voz de Lorena ecoou, vinda de trás de uma densa folhagem. — As irmãs Torres reunidas novamente, e a pequena traidora Maya voltando do mundo dos mortos.
Lorena emergiu das sombras, segurando um revólver com uma mão firme e profissional. Seus olhos não mostravam mais a doçura fingida; eram buracos negros de obsessão e loucura.
— Lorena, abaixe isso — ordenou Malu, colocando-se à frente de Giovanna e Maya.
— Ou o quê, Malu? — Lorena riu, um som seco e sem alegria. — Você vai me prender? Com que provas? Para o mundo, a Maya morreu em um acidente e você é uma foragida que ninguém sabe onde está. Se eu matar as três aqui e agora, eu serei a única sobrevivente de um ataque brutal de invasores na fazenda. Eu serei a heroína que tentou salvar a Giovanna até o fim.
Giovanna levantou-se lentamente, afastando-se do abraço de Maya. Ela olhou para Lorena com uma clareza que nunca tivera antes. As escamas haviam caído de seus olhos.
— Você nunca me amou, Lorena — disse Giovanna, a voz fria como o gelo. — Você só queria me possuir. Você é um monstro.
— Eu sou a única que te entende! — gritou Lorena, o rosto contorcendo-se em fúria. — Eu fiz tudo por você! Matei a sua paz, afastei sua irmã, limpei o seu caminho! Você deveria me agradecer!
— O seu tempo acabou, Lorena — disse Malu, fazendo um sinal discreto para Sarah, que se movia furtivamente pelo flanco.
— Não acabou até que eu diga que acabou! — Lorena apontou a arma diretamente para o peito de Giovanna. — Se você não for minha, não será de mais ninguém.
O dedo de Lorena começou a apertar o gatilho. O tempo pareceu parar. O sol finalmente rompeu a linha do horizonte, iluminando o clareira com uma luz ofuscante.
Um disparo ecoou pela floresta, espantando os pássaros e selando o destino de todos os presentes. Mas o sangue que manchou a grama úmida não era o de uma Torres.
Lorena caiu de joelhos, a mão pressionando o ombro onde a bala de Sarah a atingira. Antes que ela pudesse reagir, Malu estava sobre ela, desarmando-a com uma manobra rápida e derrubando-a no chão.
— Acabou — sussurrou Malu no ouvido de Lorena, enquanto a imobilizava. — A verdade finalmente amanheceu.
Giovanna e Maya se abraçaram novamente, observando a mulher que quase as destruiu ser finalmente contida. O sol agora brilhava intensamente, dissipando as sombras da fazenda e das vidas que, por tanto tempo, foram prisioneiras do engano.
A batalha física terminara, mas a reconstrução estava apenas começando. Sob o carvalho velho, as irmãs Torres e a mulher que as uniu novamente sabiam que, embora as cicatrizes permanecessem, o veneno de Lorena finalmente fora expelido. Elas estavam vivas. Elas estavam juntas. E, pela primeira vez em anos, a fazenda Torres pertencia a quem realmente tinha o direito de chamá-la de lar.