Voltar ao resumo

Ela tem dona

Entre o Dever e o Abismo

O silêncio que se seguiu à fala do capitão foi tão denso que Giovanna podia jurar que conseguia ouvi-lo. Ela descruzou os braços lentamente, as unhas cravando na palma das mãos. O nome de Christopher ecoava em sua mente como um sino fúnebre, mas a menção a Maya e Ana Clara transformou o incômodo em um alerta de perigo iminente.

— Vocês perderam o juízo? — Giovanna disparou, a voz baixa, mas carregada de uma fúria contida. — Colocar a Maya diante daquele homem, agora? Vocês sabem exatamente o que está em jogo aqui.

O representante do Ministério Público, um homem de terno cinza impecável e expressão burocrática, ajustou os óculos e pigarreou.

— Inspetora, compreendemos o seu envolvimento pessoal, mas Christopher alega que as acusações de abuso e desvio de fundos mágicos são uma conspiração. Para o tribunal, o depoimento da esposa é crucial. E o de Ana Clara, como confidente e testemunha ocular de vários episódios, é indispensável para fechar o cerco.

Giovanna soltou uma risada seca, desprovida de qualquer humor.

— Esposa? Ele ainda usa esse título? Christopher é um manipulador. Se vocês levarem a Maya para aquele tribunal, ele não vai se defender das acusações de tráfico. Ele vai atacar a moral dela.

O capitão suspirou, levantando-se e caminhando até a janela que dava para o pátio cinzento da delegacia.

— O que você quer dizer com isso, Giovanna?

— Eu quero dizer — ela deu um passo à frente, batendo com o indicador na mesa de metal — que a Maya está grávida. E Christopher sabe, ou vai descobrir em segundos, que o tempo de gestação não bate com o período em que eles estavam "bem". Ele vai usar a gravidez para pintar a Maya como uma mulher adúltera que armou contra o marido para ficar com a amante policial. Ele vai transformar o julgamento de um criminoso em um circo sobre a vida íntima de uma médica respeitada.

O promotor franziu o cenho, anotando algo rapidamente.

— Uma gravidez fruto de uma relação extraconjugal... Isso complica a imagem da testemunha perante um júri mais conservador de Magnostadt, de fato. Mas e Ana Clara? Ela é solteira, não tem esses vínculos.

— Ana Clara é o braço direito da Maya — Giovanna rebateu prontamente. — Se ele conseguir derrubar a credibilidade da Maya, ele derruba a da Ana também, rotulando-a como cúmplice de uma farsa por lealdade cega. Se vocês forçarem esse depoimento agora, estarão entregando a cabeça delas em uma bandeja de prata para os advogados dele.

— Mas sem elas — o capitão interveio, virando-se para Giovanna —, o caso enfraquece. Christopher tem contatos poderosos no conselho. Se não tivermos o lado humano, as vítimas diretas falando sobre o terror que ele impunha, ele pode sair com uma pena alternativa ou até uma prisão domiciliar de luxo.

Giovanna sentiu o estômago revirar. A ideia de Christopher livre, circulando pelas mesmas ruas que Maya, era um pesadelo que a perseguia desde que o caso começara. No entanto, expor Maya naquele estado, sob o estresse de um interrogatório agressivo e o risco de ter sua vida pessoal destroçada publicamente, era um preço que ela não estava disposta a pagar.

— Eu preciso de tempo — disse Giovanna, num tom que não admitia discussões. — Não intimem ninguém ainda. Eu vou falar com a Ana Clara primeiro. Ela é mais racional nesse momento. A Maya... a Maya precisa de proteção, não de um holofote.

***

Enquanto isso, no hospital, o dia de Maya estava longe de ser tranquilo. Entre uma consulta e outra, o peso do segredo que carregava parecia aumentar. Ela estava na sala de descanso, segurando uma xícara de chá de camomila, quando a porta se abriu bruscamente.

Ana Clara entrou, fechando a porta com o pé e jogando o jaleco sobre uma cadeira. Seus olhos estavam inquietos.

— Você viu as notícias? — Ana perguntou, sem preâmbulos.

Maya suspirou, sentindo uma pontada de ansiedade.

— Não tive tempo nem de olhar o prontuário do último paciente direito, Ana. O que aconteceu?

— Christopher. O julgamento preliminar foi marcado. O burburinho nos corredores do tribunal já começou. Maya, eles vão nos chamar. Eu sinto isso nos meus ossos.

Maya sentou-se lentamente, a mão descendo de forma instintiva para o ventre ainda plano.

— Ele não pode me ver assim, Ana. Se ele desconfiar da gravidez... se ele souber que o filho não é dele, ele vai usar isso para me destruir. Ele vai dizer que eu planejei tudo com a Giovanna para nos livrarmos dele.

Ana Clara caminhou até a amiga e segurou suas mãos.

— Nós somos cúmplices em muita coisa, Maya. Eu te ajudei a esconder os encontros com a Giovanna, eu te ajudei a coletar provas contra ele no escritório dele... mas isso não é crime. O que ele fez, sim, é crime.

— Para a lei de Magnostadt, a intenção conta tanto quanto o ato — murmurou Maya, a voz trêmula. — Se ele provar que eu tinha um motivo pessoal para querer ele na cadeia, o depoimento perde o valor. E a Giovanna... a carreira dela pode acabar se acharem que ela usou o cargo para perseguir o marido da amante.

— A Giovanna sabe o que faz — Ana tentou confortá-la. — Ela é a melhor inspetora que essa cidade já viu. Ela não vai deixar isso acontecer.

Nesse momento, o celular de Ana Clara vibrou sobre a mesa. Era uma mensagem de Giovanna.

"Preciso falar com você. Agora. Me encontre no café da esquina em dez minutos. Não conte para a Maya ainda."

Ana olhou para Maya, que a observava com desconfiança.

— É do laboratório? — perguntou Maya.

— É... sim. Um resultado pendente — mentiu Ana, sentindo uma pontada de culpa. — Preciso descer rapidinho. Já volto, tudo bem? Tome seu chá.

***

O café estava quase vazio, exceto por um senhor lendo o jornal e o som constante da máquina de expresso. Giovanna estava sentada em uma mesa ao fundo, as costas voltadas para a parede, os olhos mapeando cada entrada. Quando viu Ana Clara, apenas fez um sinal discreto.

— Você está com uma cara péssima — disse Ana, sentando-se à frente dela.

— E vai ficar pior — Giovanna respondeu, empurrando um envelope pardo para o centro da mesa. — O MP quer vocês duas. Oficialmente.

Ana Clara empalideceu.

— Giovanna, a Maya não tem condições. Ela está instável emocionalmente, a gravidez está deixando ela exausta e, honestamente, ela tem pavor de ficar no mesmo recinto que ele.

— Eu sei disso — Giovanna rosnou, a frustração transbordando. — É por isso que eu chamei você. Você é a única pessoa que ela ouve, além de mim. E você é quem melhor conhece os podres dele que não envolvem a vida conjugal.

— O que você está sugerindo? — Ana perguntou, estreitando os olhos.

— Eu quero que você deponha primeiro. Quero que você apresente as provas que coletamos sobre o desvio de rukh e o contrabando de artefatos. Se o seu depoimento for sólido o suficiente para manter a custódia dele sem precisar da Maya, eu consigo barrar a convocação dela alegando questões de saúde.

Ana Clara ficou em silêncio por um longo momento, processando o peso daquela responsabilidade.

— E se o advogado dele me atacar? Se ele perguntar sobre você e ela?

— Ele vai perguntar — Giovanna admitiu, inclinando-se para frente. — E você vai dizer a verdade parcial. Que a Maya buscava proteção policial porque temia pela vida. Que a relação entre nós se desenvolveu depois que as investigações começaram. É um risco, Ana. Mas é o único jeito de manter a Maya fora da linha de tiro.

— Você está pedindo para eu ser o escudo dela — constatou Ana.

— Eu estou pedindo para você salvar a família que ela está tentando construir — corrigiu Giovanna, os olhos brilhando com uma intensidade ferina. — Christopher é um monstro. Ele não quer apenas a liberdade; ele quer a destruição total da Maya. Ele prefere vê-la na miséria ou na cadeia do que vê-la feliz comigo.

Ana Clara respirou fundo, pegando o envelope.

— Eu faço. Mas você tem que prometer que, se algo der errado, você tira ela da cidade. Magnostadt não é o mundo inteiro, Giovanna.

— Eu prometo — disse a inspetora, embora soubesse que fugir seria o último recurso de sua alma orgulhosa.

***

De volta à delegacia, Giovanna não conseguia se concentrar nos relatórios. A imagem de Maya sorrindo naquela manhã, entre pães integrais e bilhetes de amor, contrastava violentamente com a frieza das paredes de concreto da sala de reuniões.

O capitão entrou em sua sala sem bater.

— Recebemos uma ligação do advogado de defesa — disse ele, jogando um cartão sobre a mesa de Giovanna. — Ele quer um acordo.

Giovanna arqueou a sobrancelha.

— Acordo? Christopher não faz acordos a menos que esteja perdendo.

— Ele quer entregar os nomes dos compradores dos artefatos em troca da anulação dos depoimentos da família e de "pessoas próximas". Ele alega perseguição pessoal e quer que o caso seja tratado puramente como crime financeiro.

— Ele quer silenciar a Maya — Giovanna concluiu, sentindo o sangue ferver. — Ele sabe que o depoimento dela sobre a violência doméstica é o que o manteria em uma prisão de segurança máxima. Se for apenas crime financeiro, ele paga uma fiança exorbitante e sai em dois anos.

— O que você acha? — perguntou o capitão.

Giovanna levantou-se, pegando sua jaqueta de couro.

— Eu acho que ele está com medo. E quando um homem como Christopher sente medo, é quando ele se torna mais perigoso. Diga ao promotor que não aceitamos acordos que envolvam o silêncio das vítimas.

— Você está jogando um jogo perigoso, Giovanna. Se isso vazar antes da hora...

— Já é perigoso desde o dia em que eu me apaixonei pela mulher dele — ela interrompeu, caminhando em direção à porta. — Agora, é apenas uma questão de quem atira primeiro.

Ao sair da delegacia, o ar frio da noite a atingiu. Ela pegou o celular e discou o número de Maya. No terceiro toque, a voz doce e levemente cansada do outro lado a fez fechar os olhos por um segundo, buscando forças.

— Oi, meu amor — disse Maya. — Já está vindo? Fiz aquele jantar que você gosta.

Giovanna engoliu em seco, forçando um tom de voz normal.

— Estou a caminho, linda. Só tive um dia longo.

— Aconteceu alguma coisa? — O tom de Maya mudou instantaneamente para a preocupação. — O caso do Christopher... teve alguma novidade?

Giovanna parou diante do carro, olhando para o horizonte onde as luzes de Magnostadt começavam a brilhar.

— Nada que a gente não possa resolver juntas — mentiu Giovanna, sentindo o peso daquela promessa. — Só me espera para o jantar. Eu te amo, Maya. Mais do que qualquer lei ou distintivo.

— Eu também te amo, Gio. Vem logo.

Ao desligar, Giovanna socou o teto do carro. A guerra estava declarada, e ela sabia que, para proteger Maya e o bebê, teria que descer aos níveis mais sombrios que sua profissão permitia. Christopher queria um espetáculo? Pois ela lhe daria uma execução profissional, peça por peça, até que não sobrasse nada de seu império.

Mas, enquanto dirigia para casa, uma dúvida a assaltava: até onde Ana Clara conseguiria sustentar a mentira perante o juiz? E quanto tempo levaria para que a vizinha invejosa, Júlia, percebesse que tinha em mãos a informação necessária para destruir a "santinha" do hospital?

O tabuleiro estava montado. As peças estavam em movimento. E, no centro de tudo, uma vida inocente começava a crescer, alheia ao fato de que seu nascimento seria o estopim de uma explosão que Magnostadt jamais esqueceria.