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Ele

O Labirinto das Intenções

A atmosfera dentro daquele banheiro pequeno parecia ter consumido todo o oxigênio disponível. O som abafado da música eletrônica que vinha do andar de baixo era apenas um ruído de fundo, uma batida distante que compassava o ritmo frenético dos corações de Julia e Ryan. Ela estava sentada no colo dele, sentindo cada músculo rígido do corpo do rapaz sob suas coxas. A Julia estudiosa, aquela que planejava cada minuto do seu dia com canetas coloridas e post-its, havia ficado do lado de fora daquela porta trancada.

Ryan deslizou as mãos pelas costas de Julia, sentindo a textura macia da pele dela onde o vestido azul se abria levemente. Ele interrompeu o beijo por um segundo, encostando a testa na dela, os olhos azuis-claros brilhando com uma intensidade predatória, mas carregada de um fascínio que ele não conseguia esconder.

— Você está jogando um jogo perigoso, Julia — sussurrou ele, a voz tão rouca que vibrou no peito dela. — Eu passei meses tentando decifrar o que acontecia por trás desses seus óculos e desses livros de física. Mas isso aqui... isso eu não previ.

Julia soltou uma risada curta, ainda ofegante, e levou as mãos ao rosto dele, sentindo a leve aspereza da barba por fazer.

— Você achou que eu era apenas uma equação para você resolver, Ryan? — Ela inclinou a cabeça, desafiadora. — Você gosta de testar os limites de todo mundo. Só não esperava que eu tivesse os meus próprios testes para você.

— E eu estou passando? — perguntou ele, com aquele sorriso de lado que geralmente desarmava qualquer resistência.

— Você está sendo uma distração muito eficiente — respondeu ela, antes de puxá-lo novamente para um beijo.

Desta vez, não havia hesitação. As mãos de Ryan desceram para as coxas de Julia, apertando-as com uma urgência que a fez soltar um gemido baixo contra a boca dele. O calor era sufocante, e a química entre eles, que antes era apenas uma troca de faíscas nos corredores da escola, agora era um incêndio descontrolado. Julia sentia que estava caindo, mas não tinha medo da queda; a sensação de perder o controle era, pela primeira vez na vida, viciante.

Ryan a ergueu levemente, ajeitando-a melhor em seu colo, enquanto seus beijos desciam para a linha da mandíbula e depois para o pescoço dela. Julia jogou a cabeça para trás, sentindo as mãos dele subirem por baixo do tecido do vestido, mapeando cada centímetro de sua pele como se estivesse descobrindo um território proibido.

— Ryan... — ela murmurou, a voz falhando quando ele encontrou um ponto sensível perto de sua orelha.

— Eu estou aqui — respondeu ele, a voz abafada contra a pele dela. — E eu não vou a lugar nenhum.

De repente, o som de batidas fortes na porta cortou o transe.

— Ei! Tem alguém aí? — Uma voz masculina e embriagada gritou do outro lado, seguida pelo som da maçaneta sendo forçada. — Abre logo, eu preciso usar o banheiro!

Julia congelou. O pânico súbito trouxe de volta a realidade. Ela olhou para a porta e depois para Ryan, que apenas revirou os olhos, claramente irritado com a interrupção.

— Vai embora, cara! Procura outro! — Ryan gritou de volta, sem soltar Julia, embora a intensidade do momento tivesse sido quebrada.

— Ah, qual é! — O cara lá fora resmungou, e seus passos se afastaram pelo corredor.

Julia respirou fundo, tentando reorganizar os pensamentos. Ela olhou para Ryan e percebeu que seu cabelo estava bagunçado, o batom dela estava borrado nos lábios dele e a camisa dele estava completamente amarrotada sob suas mãos.

— A gente devia sair daqui — disse ela, embora não fizesse menção de se levantar.

— Provavelmente — concordou Ryan, mas ele a segurou pela cintura, impedindo-a de sair de seu colo. — Mas antes, eu quero saber de uma coisa. Isso é só uma "experiência" para você, Julia? Um intervalo entre as suas sessões de estudo?

Julia sentiu o peso da pergunta. Ryan era conhecido por não levar nada a sério, por ser o mestre da lábia e o rei das ficadas casuais. Ver aquela centelha de dúvida — ou talvez vulnerabilidade — nos olhos dele a pegou de surpresa.

— Eu não faço "experiências" com pessoas, Ryan — disse ela, recuperando sua postura educada, mas com um novo brilho de audácia. — E você sabe que eu não sou de agir por impulso. Se eu estou aqui, é porque eu quis estar. Mas não ache que isso significa que você me ganhou.

Ryan deu um sorriso genuíno, um que não usava para as outras garotas.

— É por isso que eu gosto de você. Você é a única que não cai no meu colo de braços abertos. Eu tenho que lutar por cada centímetro de atenção seu.

— E você gosta da luta — afirmou ela.

— Eu adoro — admitiu ele.

Julia finalmente se levantou, ajeitando o vestido azul. Ela foi até o espelho acima da pia, tentando esconder o rubor nas bochechas e o brilho intenso nos olhos. Ryan se levantou logo atrás dela, observando-a pelo reflexo. Ele se aproximou, ficando tão perto que ela podia sentir o calor de seu peito contra suas costas.

— Você está linda, Julia. Mesmo toda bagunçada por minha causa.

— Cala a boca, Ryan — disse ela, sorrindo apesar de si mesma.

Ele pegou uma toalha de papel, molhou-a levemente e, com uma delicadeza que Julia nunca esperaria dele, limpou o rastro de batom no canto da boca dela. O toque era suave, quase uma carícia. Por um momento, o silêncio entre eles não era carregado de luxúria, mas de algo mais profundo, uma conexão que ambos tinham medo de nomear.

— Vamos sair separados — sugeriu Julia. — Não quero a Lays e a Juliana fazendo um interrogatório agora.

— O que foi? — Ryan provocou, recuperando seu tom sarcástico. — Tem medo de que o seu fã-clube descubra que você tem uma queda pelo bad boy da escola?

— Eu não tenho uma queda por você, Ryan. Eu tenho um interesse antropológico em entender como alguém consegue ser tão irritante e convencido ao mesmo tempo.

Ryan soltou uma gargalhada alta.

— Antropológico, é? Vou lembrar disso na próxima vez que você estiver enroscada no meu pescoço.

Julia abriu a porta com cuidado, verificando se o corredor estava vazio. Antes de sair, ela olhou para trás uma última vez.

— A gente se vê na aula de segunda, Ryan. Tente não chegar atrasado.

— Eu vou estar lá na primeira fila, Julia. Só para te desconcentrar.

***

Julia desceu as escadas sentindo-se como se estivesse flutuando. O ar fresco da sala de estar, embora ainda cheio de gente, parecia revigorante. Ela encontrou suas amigas perto da pista de dança. Lays estava rindo de algo que um garoto dizia, enquanto Juliana parecia procurar por alguém.

— Onde você se meteu? — perguntou Juliana, assim que viu a amiga. — Você sumiu por quase meia hora!

— Eu... eu estava no banheiro. Tinha uma fila enorme — mentiu Julia, sentindo o rosto esquentar.

Lays parou de rir e estreitou os olhos, analisando Julia de cima a baixo.

— Sei. Uma fila enorme que deixou o seu batom borrado e o seu cabelo parecendo que passou por um furacão? — Lays deu um sorriso malicioso. — E, por coincidência, o Ryan também não está em lugar nenhum.

— Lays, não começa — pediu Julia, tentando manter a calma.

— Eu não disse nada! — Lays levantou as mãos em sinal de rendição. — Só acho que o "estudo de campo" hoje foi bem produtivo.

— Ele é um idiota, vocês sabem disso — Julia tentou reforçar, mas a convicção em sua voz era mínima.

— Um idiota que não tira os olhos de você — apontou Juliana, indicando com a cabeça a direção da escada.

Julia olhou e viu Ryan descendo as escadas com uma confiança renovada. Ele não olhou diretamente para ela de imediato; ele parou para cumprimentar Leo e alguns outros amigos, agindo como se nada tivesse acontecido. Mas, no momento em que ele pegou uma bebida, seus olhos buscaram os dela através da multidão. Ele levantou levemente o copo em um brinde silencioso e deu aquela piscadela que fazia o estômago de Julia dar voltas.

— Ju, você está bem? — perguntou Juliana, tocando o braço da amiga. — Você parece... diferente.

— Eu estou bem, Ju. Só... cansada. Acho que a festa já deu para mim.

— Ah, não! Agora que está ficando bom? — reclamou Lays. — O Ryan está vindo para cá.

Julia sentiu o coração disparar. Ela não estava pronta para outro confronto na frente de todo mundo. Mas Ryan não se aproximou delas. Ele passou pelo grupo, parando apenas o suficiente para sussurrar algo no ouvido de Leo, o namorado de Juliana, e depois seguiu em direção à saída da casa.

— O que ele disse? — Juliana perguntou a Leo assim que ele se aproximou.

Leo olhou para Julia com um sorriso confuso.

— Ele disse que a festa perdeu a graça porque a "melhor parte" já tinha acabado. E me pediu para garantir que a Julia chegasse bem em casa.

Lays soltou um grito abafado de empolgação.

— Meu Deus! Ele está totalmente na sua, Julia! O Ryan nunca se preocupa com ninguém chegando em casa.

Julia não respondeu. Ela apenas olhou para a porta por onde ele havia saído, sentindo uma mistura de alívio e uma estranha saudade. O desafio de Ryan era real, e ele tinha razão em uma coisa: ele estava bagunçando a ordem dela.

***

No dia seguinte, o sábado amanheceu preguiçoso. Julia tentou se concentrar nos livros de física, mas as fórmulas pareciam se transformar em traços do rosto de Ryan. Ela se lembrava do toque dele, do cheiro, da forma como ele a desafiava a ser algo além da "garota estudiosa".

Seu celular vibrou na mesa. Era uma mensagem de um número desconhecido.

"Física é importante, mas acho que você precisa de uma aula prática de química hoje à tarde. Passo aí às 16h? - R."

Julia encarou a tela por longos minutos. Sua mente dizia para ignorar, para manter a distância e focar no que era seguro. Mas seu coração, aquele que Ryan tinha acelerado sem nenhum esforço, queria ver até onde aquele labirinto de intenções a levaria.

Ela digitou a resposta com os dedos levemente trêmulos.

"16h15. Eu não gosto de impontualidade."

A resposta veio quase instantaneamente.

"Justo. Vou levar os livros, mas duvido que a gente vá ler."

Julia sorriu, fechando o livro de física. Pela primeira vez, ela não se importava em não ter o cronograma sob controle. Ryan era o caos, e ela, surpreendentemente, estava começando a gostar da desordem.

Ela sabia que suas amigas teriam mil perguntas, que a escola inteira falaria se os vissem juntos, e que Ryan ainda era o garoto que ficava com todas. Mas, enquanto se olhava no espelho e via o brilho diferente em seus próprios olhos, Julia percebeu que o teste de Ryan não era para ver se ele conseguia quebrá-la. Era para ver se ela era forte o suficiente para ser ela mesma, sem as amarras das expectativas alheias.

E Julia estava pronta para mostrar que era muito mais do que ele — ou qualquer outra pessoa — jamais imaginou. A química estava apenas começando, e a reação prometia ser explosiva.

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