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Encrenca e com as karens

Cicatrizes da Torre

O silêncio que se seguiu ao desabafo de JS no pequeno apartamento da Pavuna era denso, carregado com o cheiro de chuva que começava a cair lá fora e o som abafado do funk que vinha de algum vizinho distante. O peito de JS subia e descia com força, enquanto ele mantinha Aluap presa em seus braços, sentindo o corpo dela tremer. Ele sabia que tinha pisado na bola. Sabia que, na tentativa de ser o "homem justo" e o pai presente, tinha acabado por silenciar a mulher que ele moveu mundos para recuperar.

— Eu não quero ser um erro que você carrega, JS — Aluap murmurou contra a camisa dele, a voz ainda embargada. — Eu não quero ser a pessoa que traz caos pra tua vida. Mas eu não consigo ficar assistindo ela pisar em mim e ficar calada.

— Você não é caos, Aluap. Você é a única coisa que me mantém no eixo — ele respondeu, afastando-a um pouco para olhar nos olhos dela, que estavam vermelhos e inchados. — Eu agi por impulso. Ver aquela multidão, os caras da torre olhando, o moleque chorando... eu perdi a cabeça. Mas eu não devia ter te calado. Eu sei o veneno que a Alencar destila.

— Sabe? — Ela soltou um riso amargo e se desvencilhou do abraço, caminhando até a janela que dava vista para as luzes da comunidade. — Se soubesse, não teria me deixado lá sozinha enquanto levava ela pro canto. Você validou tudo o que ela disse sobre mim. Ela saiu como a vítima, a mãe exemplar, e eu saí como a "maluca da Pavuna" que não respeita nem criança.

— Eu não levei ela pro canto por carinho, Aluap! — JS aumentou um pouco o tom, mas logo se conteve ao ver o sobressalto dela. — Eu fui garantir que o moleque tava bem. É meu filho, caralho. Você sabe o quanto eu sempre quis ser pai, e o quanto dói saber que ele veio de uma situação que quase destruiu a gente.

— Exatamente! — Aluap virou-se bruscamente. — Ele é o seu sonho. E ele é o meu pesadelo constante porque me lembra do que você fez. E a Alencar sabe disso. Ela esfrega isso na minha cara toda vez que cruza o meu caminho. Ela disse que eu sou seca, JS. Que eu não sou mulher o suficiente pra te dar o que ela deu.

JS sentiu uma pontada de ódio genuíno por Alencar naquele momento. Ele conhecia a ex-amante o suficiente para saber que ela era mestre em atingir os pontos fracos alheios, mas não imaginava que ela chegaria a esse nível de crueldade.

— Ela falou isso? — A voz dele ficou grave, perigosa.

— Falou isso e muito mais. E você me mandou calar a boca. Me mandou entrar no carro como se eu fosse uma criança levada.

JS aproximou-se dela lentamente. A luz da sala, amarelada e fraca, criava sombras profundas em seu rosto. Ele era um homem da torre, acostumado a impor respeito com um olhar, mas ali, diante de Aluap, ele se sentia pequeno.

— Me perdoa. De verdade — ele disse, pegando as mãos dela. — Eu tava cego. Eu achei que, se eu abafasse a briga, o problema sumia. Mas o problema não é a briga, né? É como eu venho lidando com ela.

— Você deixa ela mandar no nosso relacionamento através daquela criança — Aluap disse, as lágrimas voltando a cair silenciosamente. — E eu sinto que estou sempre em segundo plano.

— Nunca. Você nunca tá em segundo plano — ele afirmou com convicção. — Eu vou resolver isso. Eu vou botar os pingos nos is com a Alencar. Ela tem o direito de ser mãe, mas ela não tem o direito de tocar no teu nome ou de te provocar. Se ela não aprender a respeitar a mulher que eu amo, a gente vai ter que resolver isso na justiça, com advogado, com o que for. Eu não vou deixar você passar por isso de novo.

— Você promete? — Aluap perguntou, a voz pequena, carregada de uma vulnerabilidade que raramente mostrava. — Porque se for pra ser assim pra sempre, JS... eu não aguento. Meu amor por você é gigante, mas minha dignidade também é.

— Eu prometo pela vida do meu filho, Aluap. Eu não quero te perder de novo. Eu quase morri quando a gente ficou separado. Eu não sou nada sem você.

Ele a puxou para perto novamente, desta vez colando suas testas. O calor do corpo dele começou a acalmar os nervos dela. JS começou a beijar o rosto dela, limpando o rastro das lágrimas com os lábios, um gesto de carinho que contrastava com a postura bruta que ele exibia nas ruas da Pavuna.

— Eu te amo tanto que chega a doer — ele sussurrou contra a pele dela. — E eu vou provar que você é a única. A Alencar é passado, é obrigação. Você é o meu presente, meu futuro, meu tudo.

Aluap suspirou, fechando os olhos e deixando-se levar pelo toque dele. O ressentimento ainda estava lá, uma cicatriz que demoraria a fechar, mas o amor que sentia por aquele homem era a sua âncora e seu naufrágio ao mesmo tempo.

— A gente precisa de limites, JS — ela disse, afastando-se o suficiente para encará-lo com seriedade. — Se ela vier com gracinha, eu não vou mais me calar. E eu espero que, da próxima vez, você esteja do meu lado.

— Eu vou estar. Eu te dou a minha palavra — ele respondeu, segurando o rosto dela com as duas mãos. — E amanhã mesmo eu vou ter uma conversa de homem pra mulher com ela. Vou deixar claro que, se ela continuar tentando atingir você, ela vai perder o pouco de consideração que eu ainda tenho.

— Você acha que ela vai parar? — Aluap perguntou com ceticismo.

— Se ela não parar por bem, vai parar por mal. Ninguém mexe com o que é meu, e você é a pessoa mais preciosa que eu tenho.

O clima pesado começou a se dissipar, dando lugar a uma urgência diferente. JS a beijou com vontade, um beijo que carregava o arrependimento, a promessa e o desejo acumulado de quem quase viu tudo desmoronar em uma tarde de sol. Aluap correspondeu, as mãos subindo para a nuca dele, puxando-o para mais perto, querendo esquecer o mundo lá fora, a vizinhança fofoqueira e a sombra de Alencar.

— Fica aqui comigo hoje — ele pediu entre os beijos, a voz rouca. — Esquece o resto. Só a gente.

— Eu não vou a lugar nenhum, JS — ela respondeu, sentindo o coração finalmente desacelerar. — Mas não me faz ter que lutar sozinha de novo.

— Nunca mais. No amor e na guerra, eu sou teu soldado, Aluap.

Eles se entregaram àquele momento de reconciliação, buscando um no outro a cura para as feridas que o passado e as intrigas alheias insistiam em reabrir. Naquela noite, na Pavuna, o silêncio no apartamento da Torre era finalmente de paz, embora ambos soubessem que, lá fora, a batalha pela felicidade deles ainda estava longe de terminar. JS estava decidido: protegeria Aluap, mesmo que isso significasse erguer muros ainda mais altos contra quem tentasse derrubá-los.