Endrick e Ancelotti
O Eco da Glória Solitária
O vestiário do Maracanã pulsava com o som de champanhe estourando e gritos de "campeão". O Brasil havia acabado de conquistar a Copa América, e a medalha de ouro no peito de Endrick brilhava sob as luzes fluorescentes. Ele havia sido o herói da final, marcando dois gols decisivos. A imprensa internacional já o chamava de "O Novo Rei". No entanto, enquanto os outros jogadores dançavam e postavam stories em suas redes sociais, Endrick sentia uma desconexão corrosiva. Ele se sentou em um banco de madeira, retirando as chuteiras sujas de grama, e olhou para o outro lado da sala.
Lá estava Igor Thiago. Ele não havia jogado um único minuto na final. Suas estatísticas no torneio eram modestas, quase irrelevantes para os analistas de desempenho. Mas Igor não parecia se importar. Ele estava ajoelhado ao lado de Carlo Ancelotti, que permanecia sentado em uma cadeira ergonômica, visivelmente exausto. A barriga de Carlo, agora em um estágio avançado, era um volume evidente sob o agasalho largo da seleção. Igor segurava uma garrafa de água para o treinador e passava uma toalha úmida em sua testa com uma delicadeza que parecia sagrada.
— Você foi gigante hoje, Igor — sussurrou Ancelotti, ignorando o fato de que o atacante não havia entrado em campo. — O suporte que você deu ao grupo... eu não teria conseguido sem você aqui.
— O senhor é quem é gigante, Carlo — respondeu Igor, com um sorriso calmo, ignorando a folia ao redor. — O bebê chutou muito durante o segundo tempo. Acho que ele gostou do barulho da torcida.
Endrick desviou o olhar rapidamente quando Igor começou a massagear os pés inchados de Ancelotti. Aquela deveria ser a sua glória. Aquele deveria ser o seu momento de intimidade com o homem que ele, em algum lugar profundo de seu ego ferido, ainda desejava. Mas ele fizera sua escolha. Ele escolhera o troféu. Ele escolhera a imagem limpa de um solteiro cobiçado pelas marcas de luxo.
— Ei, Endrick! — gritou um dos zagueiros, jogando uma camisa comemorativa nele. — Sorri, garoto! Você é o melhor do mundo! Por que essa cara de quem perdeu o ônibus?
— Só estou cansado — mentiu Endrick, forçando um sorriso que não chegava aos olhos. — Muita adrenalina.
Ele se levantou e caminhou em direção à área dos chuveiros, mas o caminho o forçou a passar perto de onde Ancelotti e Igor estavam. O silêncio entre ele e o treinador nos últimos meses era uma muralha de gelo. Ancelotti levantou os olhos e encontrou os de Endrick. Não havia ódio no olhar do italiano, o que era pior; havia apenas uma aceitação melancólica, a indiferença de quem já havia enterrado um luto.
— Parabéns pela partida, Endrick — disse Ancelotti, a voz rouca. — Você provou que eu estava certo sobre o seu talento.
— Obrigado, professor — respondeu Endrick, a voz travada na garganta. Ele olhou para Igor Thiago, esperando ver algum sinal de ressentimento ou inferioridade no homem que ocupava o seu lugar, tanto no coração de Carlo quanto na vida do filho que estava por vir.
Mas Igor apenas assentiu com a cabeça, um gesto de respeito entre colegas de profissão, mas com uma autoridade moral que fez Endrick se sentir minúsculo.
— Foi um belo gol, guri — disse Igor. — O Brasil precisava disso. Agora vai lá celebrar, você merece a festa.
Endrick não respondeu. Ele entrou no chuveiro e deixou a água quente cair sobre seus ombros. Ele tinha o ouro, tinha a fama, tinha a titularidade absoluta. Mas, ao fechar os olhos, a única imagem que via era a mão de Igor Thiago protegendo o ventre de Ancelotti enquanto os aviões da Força Aérea sobrevoavam o estádio.
Semanas depois, a temporada europeia estava prestes a começar, mas o mundo do futebol parou por um motivo diferente. A notícia do nascimento do filho de Carlo Ancelotti e Igor Thiago estampou as capas de todos os jornais, de Madrid a Londres, de Milão a São Paulo. A foto oficial mostrava Igor segurando o recém-nascido no colo, com Ancelotti ao seu lado, ambos transbordando uma paz que nenhuma final de Champions League jamais proporcionara ao treinador.
Endrick estava em sua cobertura em Madrid, cercado por assessores que discutiam seu novo contrato de patrocínio com uma marca de relógios. Ele olhava para a tela do celular, para a foto daquela família improvável. O menino se chamava Giovanni.
— Endrick, você precisa postar algo — disse o seu agente, sem tirar os olhos do laptop. — Um comentário de congratulações para o seu treinador e o seu companheiro de seleção. Vai pegar bem para a sua imagem de "bom moço".
— Eu não vou postar nada — disse Endrick, jogando o celular no sofá de couro.
— Não seja infantil. Todo mundo sabe que o Igor assumiu a paternidade desse... desse milagre médico, ou seja lá o que for. Se você ficar em silêncio, vão achar que você tem algum problema com o Igor.
— E se eu tiver? — Endrick se levantou, caminhando até a janela que dava vista para a capital espanhola. — Se eu disser que aquele filho era para ser meu? Que aquele lugar ao lado do Carlo era o meu lugar?
O agente parou de digitar e olhou para o jogador com uma mistura de choque e pena.
— Endrick... você teve a chance. Você mesmo me disse que não queria o escândalo. Você disse que o Ancelotti era velho demais, que a situação era bizarra demais. Você escolheu ser a estrela. O Igor Thiago escolheu ser o homem. Não dá para ter os dois.
Aquilo atingiu Endrick como um carrinho por trás, direto no tornozelo. Ele saiu da sala sem dizer uma palavra e dirigiu até o centro de treinamento. Ele precisava treinar. Precisava que a dor física substituísse a dor no peito.
Meses se passaram. A Seleção Brasileira se reuniu novamente para as Eliminatórias da Copa do Mundo. O clima era de celebração contida. Ancelotti havia tirado uma licença curta e agora retornava, trazendo consigo uma aura de renovação. Igor Thiago também estava lá. Ele não era mais apenas o centroavante reserva; ele era o símbolo de algo que os jogadores não conseguiam definir, mas respeitavam profundamente.
No primeiro treino na Granja Comary, Endrick tentou se aproximar de Igor. Ele precisava entender. Precisava saber como Igor conseguia ser tão feliz sendo "o segundo plano" na carreira, enquanto ele, Endrick, era o protagonista infeliz.
— Ele é bonito — disse Endrick, aproximando-se de Igor enquanto enchiam as garrafas de água após o treino. — O Giovanni. Vi as fotos.
Igor parou, olhou para Endrick e deu um sorriso genuíno.
— Ele é perfeito, Endrick. Tem os olhos do Carlo. É a coisa mais corajosa que eu já vi na vida.
— Você não se sente mal? — perguntou Endrick, a voz baixa, quase um sussurro para que ninguém mais ouvisse. — Todo mundo sabe que você não é o pai biológico. A imprensa especula, as pessoas falam... Você abriu mão de ser o protagonista para cuidar de um filho que... que você sabe que não começou com você.
Igor Thiago deixou a garrafa de lado e encarou Endrick nos olhos. Não havia deboche, apenas uma clareza cortante.
— Ser protagonista não é aparecer na capa do jornal, guri — disse Igor. — Ser protagonista é estar lá quando as luzes se apagam. O Carlo estava sozinho. Ele estava com medo. Ele tinha uma vida crescendo dentro dele e o homem que deveria estar ao lado dele fugiu porque estava preocupado com o "valor de mercado".
Endrick engoliu em seco, sentindo o rosto queimar.
— Eu era jovem, Igor. Eu não sabia o que fazer.
— Eu também sou jovem — rebateu Igor, calmamente. — Mas eu sei a diferença entre um troféu de metal e um ser humano. O Carlo não precisava do melhor jogador do mundo. Ele precisava de alguém que segurasse a mão dele quando ele sentia enjoo às três da manhã. Ele precisava de alguém que não tivesse vergonha de dizer ao mundo: "Eu amo esse homem e vou cuidar desse filho".
— Ele me amava — insistiu Endrick, uma última tentativa desesperada de validar seu ego.
— Talvez — disse Igor, começando a se afastar. — Mas ele confia em mim. E no final do dia, Endrick, a confiança vale muito mais do que o amor que foge no primeiro sinal de dificuldade. Você ficou com a camisa 9 e com as chuteiras de ouro. Eu fiquei com a família. Eu acho que saí ganhando.
Naquela noite, Endrick não conseguiu dormir. Ele saiu de seu quarto na concentração e caminhou pelos corredores silenciosos. Ao passar pela sala de fisioterapia, viu a porta entreaberta. Ancelotti estava lá, sentado em uma maca, lendo alguns relatórios. Ele parecia mais velho, com mais rugas ao redor dos olhos, mas havia uma serenidade em sua expressão que nunca estivera lá nos tempos em que eles se encontravam às escondidas.
Endrick pensou em entrar. Pensou em pedir perdão, em dizer que estava arrependido, em implorar por uma segunda chance. Mas então, ele viu Igor Thiago entrar na sala trazendo um copo de chá e um sanduíche.
— Você precisa comer, Carlo — disse Igor, colocando a mão no ombro do treinador. — Ou o Giovanni vai reclamar que o pai está ficando fraco.
Ancelotti sorriu, aquele sorriso que Endrick achava que era exclusividade sua, e encostou a cabeça no peito de Igor por um momento.
— O que eu faria sem você, Thiago? — perguntou o italiano.
— Você nunca vai precisar descobrir — respondeu o atacante.
Endrick recuou para as sombras. Ele percebeu que não havia espaço para ele naquela sala. Não havia espaço para ele naquela narrativa. Ele havia escrito sua própria história com letras de ouro, mas o papel estava frio e vazio.
No dia seguinte, o Brasil entrou em campo contra a Argentina. Endrick jogou como nunca. Ele driblou, correu, lutou. Ele queria que Ancelotti o visse, queria que o mundo visse que ele era o melhor. Ele marcou um gol de bicicleta que fez o estádio inteiro vir abaixo.
Ao comemorar, ele correu em direção ao banco de reservas, esperando um abraço, um olhar de validação de Ancelotti. Mas o treinador estava ocupado celebrando com sua comissão técnica, e a primeira pessoa que ele abraçou foi Igor Thiago, que estava no banco, pronto para entrar e dar o descanso necessário aos titulares.
Endrick parou no meio do campo, os braços abertos para uma torcida que o adorava, mas sentindo-se o homem mais solitário do planeta.
Após o jogo, no túnel para os vestiários, Endrick viu Igor Thiago segurando o pequeno Giovanni, que fora levado ao estádio por uma babá para encontrar os pais após o apito final. O bebê estava enrolado em uma bandeira do Brasil. Ancelotti se aproximou e beijou a testa do filho, e depois beijou Igor Thiago na frente de todos os fotógrafos e câmeras.
O escândalo que Endrick tanto temera nunca aconteceu da forma que ele imaginou. O público viu apenas uma história de amor e superação. Igor Thiago era o herói nacional, não pelos gols, mas pelo caráter.
Endrick passou por eles, a medalha de "Homem do Jogo" na mão. Ele parou por um segundo, olhando para o bebê. Giovanni esticou a mãozinha e tocou o dedo de Endrick por um breve instante.
— Ele tem o seu chute, professor — disse Endrick, com a voz embargada, olhando para Ancelotti.
— Ele terá o coração do pai dele — respondeu Ancelotti, olhando para Igor Thiago. — E isso é tudo o que eu desejo para ele.
Endrick assentiu, as lágrimas finalmente vencendo a barreira de seu orgulho. Ele seguiu em frente, caminhando sozinho para o ônibus da delegação. Ele tinha o mundo aos seus pés, mas pela primeira vez, ele entendeu que o mundo era um lugar muito pequeno quando não se tem ninguém para dividir o peso da coroa.
Enquanto o ônibus partia, ele viu pela janela Igor Thiago carregando Giovanni no colo, com Ancelotti caminhando ao seu lado, de braços dados. Eles não olhavam para as câmeras. Eles olhavam um para o outro.
Endrick colocou seus fones de ouvido, aumentou o volume para abafar o silêncio de sua alma e aceitou a verdade amarga: ele era o rei de um reino de papel, enquanto Igor Thiago, o reserva, o homem simples, era o verdadeiro dono do império que o amor construíra sobre as ruínas da covardia de um craque.