Engel
Sombras e Sussurros de Papel
O silêncio nos corredores da Paper School nunca foi algo reconfortante. Para Engel, o silêncio sempre foi o prelúdio de algo terrível, um sinal de que as lâminas da Senhorita Circle ou os dentes de Alice estavam à espreita. Mas desta vez, o perigo não veio de uma sala de aula ou de um caderno de notas rasgado. Veio de uma escuridão que ele não reconhecia, um vulto que o arrastou para longe da luz e o jogou em um pesadelo de couro e cordas.
Engel sentiu o chão frio contra sua pele. Sem o seu macacão preto habitual, ele se sentia vulnerável, exposto de uma maneira que nunca imaginou. Suas mãos, com aqueles dedos pontiagudos que ele costumava usar para proteger seus amigos, estavam presas. A mordaça de bola, que antes pressionava sua mandíbula de forma dolorosa, havia finalmente escorregado, deixando sua língua para fora enquanto ele ofegava, tentando recuperar o fôlego. Suas penas azuis e vermelhas estavam bagunçadas, e sua pequena cauda branca balançava freneticamente, batendo contra o piso em um ritmo de puro pavor.
Ele mal teve tempo de processar a liberdade momentânea de sua voz quando uma mão fria e pesada se chocou contra sua boca, abafando qualquer som que ele pudesse emitir. O vulto se inclinou sobre ele, uma silhueta distorcida que parecia absorver a pouca iluminação do local.
— Shhh... — a voz do vulto era um sussurro ríspido, como papel sendo rasgado lentamente. — Se você fizer um único som, Engel, eu farei você sumir. De verdade.
Engel arregalou os olhos. O choque percorreu seu corpo como uma corrente elétrica. Ele, que sempre fora o protetor, o jovem doce de cabelos brancos que se colocava entre o perigo e seus colegas, agora estava completamente à mercê de alguém que prometia sua eliminação total. O medo o paralisou. Ele assentiu levemente, os olhos úmidos, indicando que obedeceria.
O vulto soltou um riso baixo e seco, soltando a boca de Engel apenas para agarrá-lo pelos tornozelos e arrastá-lo mais para o fundo daquela sala desconhecida. Engel tentou se debater, mas a ameaça ainda ecoava em sua mente. Ele viu, com o coração batendo na garganta, quando o vulto se agachou aos seus pés.
Com movimentos lentos e deliberados, a figura começou a desamarrar os cadarços de seus sapatos pretos de salto pequeno. Engel sentiu o couro ser puxado e, um por um, seus sapatos foram jogados para longe, batendo na parede com um som surdo. Ele estava agora apenas com suas polainas listradas e as meias que cobriam seus pés.
— Por favor... — Engel tentou murmurar, mas o vulto apenas apertou seu calcanhar com força, silenciando-o com um olhar invisível, mas opressor.
As mãos do sequestrador subiram para as polainas azuis e vermelhas, removendo-as com uma eficiência assustadora. Logo em seguida, as meias foram puxadas. A pele de Engel entrou em contato direto com o ar gelado da sala, e ele encolheu os dedos dos pés instintivamente. Ele se sentia pequeno, despojado de sua dignidade e de sua força.
— Você é muito corajoso quando está cercado de amigos, não é? — o vulto comentou, enquanto deslizava os dedos longos pela sola do pé direito de Engel. — Mas aqui, você é apenas papel esperando para ser picotado.
Engel sentiu um calafrio. Antes que pudesse processar a provocação, o vulto começou a mover os dedos em movimentos rápidos e erráticos contra a planta de seus pés.
O choque inicial foi substituído por uma sensação agoniante e involuntária. Engel sentiu os músculos do abdômen se contraírem. Ele tentou fechar as pernas, mas o vulto as mantinha firmemente separadas.
— Mmmff! — Engel pressionou os lábios um contra o outro, lutando contra a risada que borbulhava em seu peito.
Não era uma risada de alegria. Era um reflexo torturante, uma reação física que ele não conseguia controlar. Suas penas no topo da cabeça tremiam violentamente e sua cauda branca chicoteava o chão de um lado para o outro.
— Tente não rir, Engel — zombou o vulto, intensificando o movimento dos dedos, focando agora no arco sensível de seus pés e entre os dedos pontiagudos. — Vamos ver quanto tempo sua obediência dura antes de você quebrar.
Engel balançava a cabeça de um lado para o outro, os cabelos brancos se espalhando pelo chão sujo. Ele mordia o lábio inferior com tanta força que sentia o gosto metálico do sangue, mas o estímulo era implacável. Cada toque parecia uma pequena explosão de nervos. Seus dedos dos pés se curvavam e esticavam em um ritmo frenético.
— Pare... por... favor... — ele conseguiu arfar entre um espasmo e outro, mas o som saiu mais como um soluço do que como um pedido.
— Eu disse para ficar quieto — o vulto relembrou, a voz carregada de uma diversão sádica. — Se você rir, eu elimino você agora mesmo. Se você gritar, será o fim.
A tortura continuou. O vulto usava as unhas agora, arranhando levemente a pele sensível dos calcanhares de Engel. O jovem sentia que ia explodir. Suas bochechas estavam vermelhas, e lágrimas de frustração e desespero rolavam por seu rosto, misturando-se à poeira do chão. Ele queria lutar, queria usar suas mãos afiadas para se libertar, mas a ameaça de "sumiço" era um peso maior do que qualquer dor física.
Na Paper School, ser eliminado não era apenas uma nota baixa; era deixar de existir. E Engel tinha pessoas pelas quais viver. Ele pensou em Claire, pensou em como ela ficaria se ele desaparecesse sem deixar vestígios. Esse pensamento o deu uma força momentânea para resistir, para prender o fôlego até que seus pulmões queimassem.
No entanto, o vulto parecia saber exatamente onde Engel era mais sensível. Ele mudou o foco para o centro dos pés, fazendo círculos lentos e depois ataques rápidos e leves que faziam o corpo de Engel saltar do chão.
— Hmph... hihi... não... — o som escapou. Foi curto, abafado, mas foi uma risada.
O vulto parou imediatamente. O silêncio que se seguiu foi dez vezes mais aterrorizante do que as cócegas. Engel congelou, seus olhos arregalados fixos na silhueta à sua frente. Suas pernas ainda tremiam por causa dos espasmos, mas ele mal ousava respirar.
— Você quebrou a regra, Engel — o vulto disse, sua voz agora desprovida de qualquer humor, tornando-se fria como o metal de uma tesoura.
— Eu não... eu não quis... — Engel começou a gaguejar, sua voz falhando. — Por favor, foi um acidente!
O vulto se levantou, a sombra projetando-se sobre o corpo frágil do rapaz no chão. Ele estendeu a mão para o pescoço de Engel, não para apertar, mas para deslizar os dedos de forma ameaçadora pela gola de sua camisa polo branca.
— Acidentes não são permitidos nesta escola. Você deveria saber disso melhor do que ninguém — o vulto disse, inclinando-se até que Engel pudesse sentir o hálito gélido em seu ouvido. — Agora, vamos ver como você lida com algo muito pior do que apenas dedos nos seus pés.
Engel fechou os olhos com força, desejando que tudo aquilo fosse apenas um pesadelo desenhado em uma folha de caderno. Mas o frio em seus pés descalços e o aperto das cordas em seus pulsos eram reais demais. Ele estava sozinho, desarmado e à mercê de uma escuridão que parecia conhecer todos os seus pontos fracos.
Enquanto o vulto se afastava para pegar algo em um canto escuro da sala, Engel tentou mover as mãos novamente. Seus dedos pontiagudos roçaram nas cordas. Ele precisava ser rápido. Ele precisava ser o herói que todos esperavam que ele fosse, mesmo que, naquele momento, ele se sentisse apenas como um pedaço de papel prestes a ser rasgado ao meio.
Ele olhou para seus pés, agora pálidos e vulneráveis, e sentiu uma onda de determinação misturada ao terror. Ele não morreria ali. Não daquele jeito. Mas, enquanto o vulto retornava com algo brilhante e afiado em mãos, Engel percebeu que a verdadeira prova de sobrevivência na Paper School estava apenas começando.
— Vamos recomeçar — disse o vulto, a lâmina refletindo a luz fraca. — E desta vez, Engel, tente não me decepcionar.
Engel engoliu em seco, o corpo tenso, esperando o próximo movimento do seu captor, enquanto o silêncio da sala era preenchido apenas pelo som de sua própria respiração acelerada e pelo balançar nervoso de sua cauda branca contra o concreto frio.