Voltar ao resumo

Entre amor e estranhesas

Entre Acordes e Aquarelas Borradas

O refeitório da faculdade de artes era um organismo vivo, pulsante e, na maioria das vezes, barulhento demais para o gosto de Jeon Jungkook. No entanto, naquela quarta-feira específica, o caos parecia estar em segundo plano. O foco de Jungkook estava dividido entre o sanduíche de presunto — que, para sua surpresa, estava realmente bom — e o garoto à sua frente que não parava de gesticular enquanto falava sobre a teoria das cores.

Jimin era uma explosão cromática em meio ao seu cinza habitual.

— E então o professor Kim disse que o meu uso do azul era "melancólico demais" para um cenário de primavera — Jimin fez um biquinho adorável, cruzando os braços e quase derrubando a garrafa de água no processo. — Dá para acreditar? O azul pode ser o que ele quiser! Pode ser o céu, pode ser o mar, ou pode ser apenas... o jeito que a gente se sente em uma segunda-feira de manhã.

Jungkook engoliu o pedaço de pão e limpou o canto da boca com um guardanapo, observando Jimin com uma intensidade que faria qualquer outra pessoa recuar. Mas Jimin apenas sorriu de volta, os olhos sumindo em fendas de pura alegria.

— Você usa cores para esconder o que sente ou para mostrar? — Jungkook perguntou subitamente. Sua voz, embora baixa, cortou a tagarelice de Jimin como uma lâmina afiada, mas não dolorosa.

Jimin parou por um momento, a mão estagnada no ar. Ele inclinou a cabeça para o lado, pensativo.

— Acho que... um pouco dos dois — admitiu Jimin, o tom de voz baixando para algo mais íntimo. — Às vezes é mais fácil pintar um sol brilhante do que explicar para as pessoas que eu estou com medo de não ser bom o suficiente. E você, Jungkook? Por que só usa preto? É uma armadura?

Jungkook sentiu um leve desconforto, mas não era o tipo de desconforto que o fazia querer fugir. Era a sensação de ser lido, de ter alguém cutucando as camadas de poeira que ele acumulou sobre si mesmo.

— Preto é simples — respondeu ele, desviando o olhar para os próprios dedos longos. — Não exige nada de ninguém. Não engana. É o que é.

— Mas o preto também é a mistura de todas as cores, sabia? — Jimin se inclinou para frente, diminuindo a distância entre eles. — Se você misturar tudo o que existe na paleta, chega no escuro. Talvez você não seja vazio, Jungkook. Talvez você só esteja cheio demais de tudo e resolveu simplificar.

Jungkook sentiu o coração dar um solavanco estranho. Ele nunca tinha pensado por esse ângulo. Para a maioria, ele era apenas "o esquisito" ou "o depressivo". Ninguém nunca tinha sugerido que ele era uma mistura complexa de tudo.

— Você fala demais, Park Jimin — murmurou Jungkook, embora não houvesse nenhuma irritação em sua voz.

— É o meu charme — Jimin piscou, voltando ao seu estado vibrante habitual. — Ei, eu tive uma ideia!

Jungkook imediatamente ficou em alerta. As ideias de Jimin geralmente envolviam situações onde a gravidade parecia conspirar contra ele.

— O que foi agora?

— Hoje à tarde não temos aula no último período porque o auditório vai estar em reforma — Jimin disse, os olhos brilhando com uma travessura inocente. — Por que você não vem comigo até a sala de pintura 4? É a minha favorita, tem as janelas maiores e a luz do pôr do sol bate direto nos cavaletes.

— Eu tenho meus próprios desenhos para terminar, Jimin.

— Você pode levar seu caderno! — Jimin insistiu, chegando a segurar a ponta da manga do casaco de Jungkook. — Por favor? Eu prometo ficar em silêncio. Bom... em relativo silêncio. Eu coloco meus fones e você coloca os seus. Vai ser como estar sozinho, mas... acompanhado.

Jungkook olhou para a mão pequena de Jimin segurando seu casaco. Ele poderia dizer não. Ele deveria dizer não. Sua rotina era sagrada, seu isolamento era sua paz. Mas havia algo naquele "acompanhado" que soava tentadoramente novo.

— Sem sanduíches perto das telas — Jungkook cedeu, soltando um suspiro de derrota. — Eu não quero manchas de maionese nos meus esboços.

Jimin soltou um gritinho de comemoração que atraiu olhares de três mesas vizinhas. Ele corou violentamente, escondendo o rosto nas mãos, mas o sorriso ainda era visível entre seus dedos.

— Combinado! Te vejo lá às quatro?

— Às quatro — confirmou Jungkook, já se arrependendo um pouco, mas sentindo uma estranha expectativa borbulhando em seu peito.

***

A sala de pintura 4 era, de fato, o que Jimin havia prometido. O cheiro de terebentina e tinta a óleo pairava no ar, um perfume que para qualquer estudante de artes era sinônimo de casa. As grandes janelas de vidro deixavam entrar uma luz dourada e oblíqua, pintando longas sombras pelo chão de madeira desgastado.

Jimin já estava lá quando Jungkook chegou. Ele parecia estar em seu elemento natural, vestindo um avental coberto de manchas de cores tão variadas que parecia uma obra de arte abstrata por si só. Ele estava lutando com um cavalete teimoso que insistia em escorregar.

— Precisa de ajuda? — Jungkook perguntou, aproximando-se silenciosamente.

Jimin deu um pulo, quase derrubando um pote de pincéis.

— Jungkook! Você veio! — Ele respirou fundo, tentando acalmar o coração. — Sim, esse cavalete está com a trava solta. Eu acho que ele me odeia.

Jungkook se aproximou e, com movimentos eficientes e calmos, ajustou a rosca de metal, prendendo a estrutura com firmeza. Seus braços, cobertos pelas mangas pretas, pareciam fortes e seguros. Jimin ficou observando-o, sentindo aquela pontada familiar de timidez que o deixava mudo por alguns instantes.

— Pronto — disse Jungkook, virando-se para Jimin. — Tente não chutá-lo.

— Vou tentar — Jimin riu, pegando sua paleta. — Onde você quer sentar?

Jungkook escolheu o canto mais afastado, onde a sombra ainda dominava, mas onde ele tinha uma visão clara de Jimin. Ele abriu seu caderno de desenhos de capa dura e pegou um lápis grafite 6B. Por um longo tempo, o único som na sala era o do grafite arranhando o papel e o das cerdas dos pincéis de Jimin batendo contra a tela.

Jungkook tentou se concentrar em seu desenho — um estudo de sombras de uma estátua grega que ele vira no corredor —, mas seus olhos teimavam em desviar para o garoto no centro da sala.

Jimin pintava com o corpo todo. Ele se inclinava para frente, mordia o lábio inferior em concentração, balançava levemente a cabeça como se seguisse uma música interna e, ocasionalmente, passava a mão na testa, deixando um rastro de tinta azul ou amarela em sua pele clara. Ele era o caos em forma de pessoa, mas na frente da tela, havia uma delicadeza surpreendente em seus movimentos.

— Você está me encarando de novo — disse Jimin, sem desviar os olhos de sua obra.

Jungkook sentiu o rosto esquentar — uma sensação que ele raramente experimentava.

— Não estou — mentiu ele, voltando a riscar o papel com mais força do que o necessário.

— Está sim. Eu consigo sentir. É um superpoder de quem é desastrado: a gente sempre sabe quando alguém está esperando a gente cair.

Jungkook soltou um riso nasalado, fechando o caderno por um momento.

— Você não caiu ainda. Estou impressionado.

— O dia ainda não acabou — Jimin brincou, finalmente virando-se para ele. — Quer ver o que eu estou fazendo?

Jungkook hesitou. Mostrar o trabalho em progresso era algo íntimo para ele, e ele supunha que para Jimin também fosse. Mas a curiosidade venceu. Ele se levantou e caminhou até o cavalete de Jimin.

Ao chegar perto, Jungkook parou. Não era uma paisagem, nem um objeto. Era uma explosão de formas fluidas que pareciam se mover. No centro da tela, tons de roxo profundo e azul meia-noite se misturavam, mas as bordas estavam sendo invadidas por pinceladas de um amarelo vibrante e quase branco.

— O que é isso? — perguntou Jungkook, genuinamente intrigado.

— É como eu vejo o silêncio — explicou Jimin, limpando um pincel em um trapo velho. — Às vezes o silêncio é escuro e pesado, como o meio da tela. Mas quando você está por perto... o silêncio começa a ganhar essas luzes aqui. Ele deixa de ser assustador e passa a ser... confortável.

Jungkook sentiu um nó se formar em sua garganta. Ninguém nunca tinha transformado sua presença em algo tão bonito. Para a maioria das pessoas, o silêncio dele era um muro; para Jimin, era uma tela esperando por luz.

— Eu... eu não sei o que dizer — confessou Jungkook, a voz quase sumindo.

— Não precisa dizer nada — Jimin sorriu, e desta vez era um sorriso calmo, sem a euforia de antes. — É por isso que é um silêncio confortável, lembra?

Jungkook olhou da tela para o rosto de Jimin. Havia uma mancha de tinta turquesa na bochecha do menor e uma mecha de cabelo loiro caindo sobre seus olhos. Sem pensar muito, Jungkook estendeu a mão e, com o polegar, tentou limpar a mancha de tinta.

A pele de Jimin era macia e quente. No momento em que o dedo de Jungkook tocou seu rosto, Jimin parou de respirar por um segundo. O tempo pareceu congelar na sala de pintura. A luz do sol, agora em um tom de laranja quase vermelho, banhava os dois, criando uma aura quase mística ao redor deles.

Jungkook percebeu o que estava fazendo e começou a recolher a mão, mas Jimin foi mais rápido. Ele alcançou o pulso de Jungkook, mantendo a mão dele ali, contra seu rosto.

— Suas mãos estão frias — sussurrou Jimin, fechando os olhos e aproveitando o contato.

— As suas estão quentes demais — Jungkook respondeu, mas não se afastou. Pela primeira vez em anos, ele não sentiu vontade de se retrair.

— É para equilibrar — Jimin abriu os olhos, e a intensidade neles fez Jungkook se sentir vulnerável de uma forma que ele nunca permitira. — Você me dá calma, Jungkook. E eu te dou um pouco de barulho.

— Acho que eu posso me acostumar com esse barulho — admitiu Jungkook, permitindo que seus dedos deslizassem suavemente pela mandíbula de Jimin antes de finalmente soltá-lo.

Ele voltou para o seu lugar, mas o desenho da estátua grega não parecia mais interessante. Ele virou a página do caderno e começou um novo esboço. Desta vez, não eram sombras de mármore. Eram as linhas de um perfil delicado, de um nariz pequeno e de um sorriso que parecia capaz de iluminar até o canto mais escuro de uma sala de pintura.

— Jungkook? — Jimin chamou, algum tempo depois, quando o sol já começava a desaparecer no horizonte.

— Hum?

— Você ainda gosta de ficar sozinho?

Jungkook parou o lápis. Ele olhou para o desenho de Jimin em seu caderno e depois para o Jimin real, que agora estava limpando seus pincéis com um cuidado quase reverente.

— Eu achava que gostava — disse Jungkook, fechando o caderno com um estalo suave. — Mas acho que, na verdade, eu só estava esperando por alguém que não tivesse medo do meu silêncio.

Jimin parou o que estava fazendo e olhou para ele, os olhos brilhando com uma emoção que as palavras não conseguiam capturar totalmente. Ele não tropeçou, não derrubou nada e não gaguejou. Ele apenas caminhou até Jungkook e parou na frente dele.

— Eu nunca tive medo de você — disse Jimin com firmeza. — Eu só tive medo de que você nunca me deixasse entrar.

Jungkook se levantou, ficando alguns centímetros acima de Jimin. Ele estendeu a mão e, desta vez com mais confiança, bagunçou levemente os cabelos loiros do outro.

— Bem... você já entrou, Park Jimin. E agora que está aqui, é melhor não derrubar nada no meu coração. É um lugar meio bagunçado.

Jimin soltou uma risada cristalina que ecoou pela sala vazia.

— Ah, Jungkook... você não tem ideia. Eu sou um especialista em organizar bagunças. Ou pelo menos em torná-las mais coloridas.

Enquanto caminhavam juntos para fora da sala, deixando para trás o cheiro de tinta e a luz do crepúsculo, Jungkook percebeu que seu mundo não era mais apenas preto e branco. Havia um amarelo vibrante começando a vazar pelas bordas, e, pela primeira vez, ele não estava nem um pouco preocupado em tentar limpá-lo.

— Ei, Jungkook! — Jimin exclamou quando chegaram ao corredor.

— O que foi?

— Você esqueceu seu fone de ouvido na mesa.

Jungkook olhou para a mão estendida de Jimin, onde o objeto repousava.

— Fica com você — disse Jungkook, voltando a caminhar. — Assim você pode ouvir aquela música triste que eu gosto e pensar em como transformá-la em uma pintura feliz amanhã.

Jimin ficou parado por um momento, apertando o fone contra o peito, um sorriso imenso crescendo em seu rosto. Ele correu para alcançar Jungkook, tropeçando levemente no próprio pé no processo, mas desta vez, Jungkook estava lá para segurar seu braço antes que ele atingisse o chão.

— Viu? — Jungkook provocou, com um brilho divertido nos olhos. — Eu disse para tomar cuidado.

— Eu sabia que você ia me segurar — Jimin respondeu, entrelaçando seu braço no de Jungkook.

Eles saíram do prédio de artes sob o céu estrelado, um garoto que era puro sol e um garoto que era pura lua, descobrindo que, quando se encontravam, o eclipse era a coisa mais bonita que o mundo já vira.