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Entre amor e sangue

O Veredito do Sangue e do Silêncio

O amanhecer no pampa nunca foi piedoso. A luz rasgava o horizonte como uma lâmina de prata, revelando a crueza da terra que, durante a noite, parecia mística. Para Joana, aquela manhã trouxe um frio que nem mesmo o pelego mais grosso ou o calor do corpo de Corte Real poderiam afastar. Ele havia partido antes do sol nascer, deixando apenas o cheiro de tabaco e couro nos lençóis e uma promessa vazia de retorno.

Joana caminhava em direção à vila para buscar mantimentos, o coração leve pelas promessas da noite anterior. No entanto, o destino tem formas cruéis de cobrar suas dívidas. Ao passar pelos arredores do acampamento da tropa imperial, ela avistou um grupo de soldados que riam alto, compartilhando uma garrafa de cachaça. Entre eles, um jovem soldado que ela reconheceu como um dos subalternos de Corte Real exibia algo que fez o sangue de Joana congelar.

Era um relógio de bolso, de prata fosca, com a gravação de uma pequena flor de lis na tampa. O relógio de Estevão. O presente de batismo que o irmão nunca tirava do pescoço.

— Onde você conseguiu isso? — A voz de Joana saiu como um chicote, fazendo os soldados saltarem.

O soldado, surpreso e um pouco ébrio, tentou esconder o objeto.

— Ora, moça... é um espólio de guerra. Encontramos no corpo de um farrapo metido a valente que tentou emboscar nossa retaguarda há duas semanas.

— Um farrapo? — Joana sentiu o chão oscilar. — Qual era o nome dele?

— Não sabemos, nem nos importamos — respondeu outro soldado, cuspindo no chão. — Mas o capitão Corte Real sabia. Ele mesmo deu o tiro de misericórdia. Disse que era uma questão de honra, vingança por um ataque anterior à nossa cavalaria. O infeliz nem teve tempo de rezar.

O mundo ao redor de Joana silenciou. O som do vento, o trote dos cavalos, o riso dos homens... tudo se transformou em um zumbido branco e ensurdecedor. Estevão estava morto. E não fora a guerra, o acaso ou uma bala perdida que o levara. Fora ele. O homem que, poucas horas antes, jurava amor eterno em seu ouvido. O homem que a beijava com a boca ainda suja de mentiras.

Ela não gritou. Não chorou diante dos soldados. Com uma dignidade que parecia vir de gerações de mulheres fortes daquela terra, ela deu as costas e caminhou. Cada passo pesava como se estivesse arrastando correntes. A imagem de Estevão, seu irmão mais novo, o rapaz que sonhava com a liberdade do Rio Grande, misturava-se à imagem de Corte Real, o amante fervoroso.

Quando chegou à pequena cabana, a luz do dia entrava pelas frestas, revelando a poeira dançando no ar. Ela se sentou à mesa de madeira bruta e esperou. A dor era uma presença física, uma mão fria apertando seus pulmões.

Horas depois, o som de cascos se aproximou. Corte Real entrou, ainda vestindo a farda que ele tanto orgulho tinha, o rosto iluminado por um sorriso que morreu no instante em que ele viu a expressão de Joana.

— Joana? O que houve? Você parece um fantasma...

Ela não se levantou. Apenas colocou sobre a mesa o lenço de Estevão, que ela carregava no bolso, e olhou para ele com olhos que pareciam ter envelhecido décadas em uma manhã.

— Estevão está morto, não está? — A voz dela era um sussurro, mas cortou o ar como um grito.

Corte Real estacou. A cor fugiu de seu rosto, e por um momento, o soldado implacável desapareceu, dando lugar a um homem acuado pela própria consciência.

— Joana, eu... — Ele tentou se aproximar, mas ela ergueu a mão, detendo-o.

— Diga a verdade. Pela primeira vez, olhe nos meus olhos e não seja um oficial, não seja um herói de mentira. Diga que você o matou.

Corte Real baixou a cabeça. O silêncio que se seguiu foi a confirmação mais dolorosa que Joana já recebera.

— Foi uma emboscada — disse ele, a voz rouca, quase inaudível. — Eles atacaram nossa retaguarda na calada da noite. Houve baixas, Joana. Muitos dos meus homens morreram. Quando o capturamos, ele se recusou a falar, a se render. Ele lutava pelo lado oposto, Joana! Ele era um rebelde, um inimigo da Coroa!

— Ele era meu irmão! — Joana finalmente explodiu, levantando-se e derrubando a cadeira. — Ele não sabia quem você era! Ele lutava por uma terra livre, e você o matou por vingança? Por uma farda?

— Eu não sabia que era ele no início! — gritou Corte Real, o desespero aflorando. — Só descobri quando já era tarde demais. Quando o vi caído, com o relógio que você me descreveu tantas vezes... o mundo desabou sob meus pés. Mas o que eu poderia fazer? Se eu o poupasse, meus próprios homens me denunciariam por traição. Eu tive que... eu tive que terminar o que a guerra começou.

Joana caminhou até ele. Suas mãos tremiam, e por um momento, a adaga que ela usava para limpar caça, pousada sobre o balcão, pareceu chamá-la. Ela imaginou o aço frio penetrando o coração de Corte Real, devolvendo a ele a dor que ele lhe causara. Ela queria odiá-lo com todas as forças de sua alma. Queria que ele sofresse, que ele sangrasse, que ele sentisse o vazio que agora habitava o peito dela.

Mas, ao chegar perto o suficiente para sentir o calor dele, a mesma pele que ela acariciara com devoção, a força a abandonou. Ela não o matou. Em vez disso, ela o golpeou no peito com os punhos fechados, repetidamente, soluços violentos finalmente escapando de sua garganta.

— Eu te odeio! — ela gritava entre os soluços. — Eu te odeio por me fazer amar o assassino do meu irmão!

Corte Real não se defendeu. Ele aceitou cada golpe, cada insulto, as lágrimas também correndo por seu rosto marcado pelo sol. Ele a envolveu em um abraço desesperado, mesmo enquanto ela tentava se desvencilhar, empurrando-o com uma fúria que logo se transformou em exaustão.

— Mate-me, então — sussurrou ele contra o cabelo dela. — Se isso trouxer paz ao seu coração, Joana, pegue a faca e acabe com isso. Eu prefiro morrer pelas suas mãos do que viver com esse sangue nos meus sonhos todos os dias.

Joana parou de lutar. Ela encostou a testa no peito dele, ouvindo o coração que batia por ela, o mesmo coração que ditara a ordem de morte de Estevão. Era uma ironia cruel demais para suportar.

— Não posso — disse ela, a voz quebrada. — Esse é o meu castigo. Não conseguir te matar porque, apesar de tudo, eu ainda vejo o homem que me salvou da solidão. Mas você me matou por dentro, Corte Real. Cada vez que você me tocar, eu vou sentir o sangue de Estevão. Cada vez que você me beijar, eu vou lembrar que você mentiu enquanto meu irmão apodrecia em uma cova rasa.

— Eu vou compensar você — prometeu ele, segurando o rosto dela com as mãos trêmulas. — Eu vou te levar para o Rio, para a Europa, para onde você quiser. Vou dedicar cada segundo da minha vida a tentar obter o seu perdão.

Joana deu um passo para trás, afastando as mãos dele. Seus olhos, antes cheios de luz, agora eram poços de tristeza infinita.

— O perdão não existe para nós — sentenciou ela. — Existe apenas a sobrevivência. Você vai me levar daqui, sim. Vai me tirar deste pampa onde o vento sopra o nome do meu irmão. Mas não espere que eu sorria. Não espere que o amor que tínhamos seja o mesmo.

— Joana, por favor...

— Você escolheu o seu lado, Capitão — disse ela, voltando-se para a janela, olhando para a vastidão verde que agora parecia um cemitério. — Você escolheu a Coroa e a vingança. Eu escolhi você, e esse foi o meu maior pecado. Agora, ambos teremos que viver com as sombras.

Corte Real ficou parado no centro do quarto, a figura imponente do oficial subitamente reduzida a um homem quebrado. Ele percebeu que, embora tivesse vencido a batalha e mantido a mulher que amava, ele havia perdido a única coisa que tornava a vida digna: a pureza do olhar de Joana.

A guerra continuaria lá fora, com seus ideais de liberdade e império, mas dentro daquela cabana, a guerra já havia terminado, deixando apenas dois sobreviventes condenados a se amarem sobre as cinzas de um passado que nunca poderia ser restaurado.

Joana começou a juntar seus poucos pertences. Seus movimentos eram mecânicos, desprovidos de emoção. O pampa, através da janela, parecia mais silencioso do que nunca, como se a própria terra estivesse de luto pelo sangue derramado. Ela sabia que, para onde quer que fossem, o fantasma de Estevão caminharia entre eles, um terceiro passageiro em uma carruagem de luxo ou em um navio em alto-mar.

— Vamos — disse ela, sem olhar para trás. — Antes que eu mude de ideia e decida que o sangue realmente se paga com sangue.

Corte Real pegou a pequena bolsa dela, a mão roçando a dela por um instante. Joana não recuou, mas também não correspondeu. O toque, que antes era fogo, agora era apenas o encontro de duas peles frias.

Eles saíram da cabana. O sol estava alto, indiferente à tragédia humana. Montaram em silêncio e partiram, deixando para trás a terra que os vira nascer e se amar, carregando consigo o peso insuportável de um amor que sobreviveu à morte, mas que talvez nunca sobrevivesse à verdade.

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