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entre bombas e folhas

Equação de Forças Opostas

O corredor do Colégio Militar de Elite parecia mais estreito naquela manhã de terça-feira. Robert caminhava com os livros apertados contra o peito, sentindo o peso dos olhares e a eletricidade que ainda vibrava em sua pele desde o encontro no gabinete de Ronaldo. Seus cachos 3a estavam perfeitamente definidos, mas seu interior era um caos de sensações. Ser um ômega naquele ambiente sempre foi um desafio de sobrevivência, mas agora, com a marca invisível da proteção de Ronaldo sobre si, tudo parecia ter uma nova camada de complexidade.

Ao dobrar o corredor em direção à sala de matemática, Robert sentiu uma mudança brusca na pressão atmosférica dos feromônios. O cheiro terroso e amadeirado de Ronaldo, que ele carregava impregnado em seu próprio suéter, foi subitamente cortado por algo frio, metálico e avassalador.

— Bom dia, Robert. Atrasado para a lógica, ou apenas perdido em devaneios literários?

Robert parou abruptamente. À sua frente, bloqueando a passagem com a imponência de um monólito, estava o Professor Bruno. Se Ronaldo era a força bruta disciplinada do exército, Bruno era a força bruta da exatidão fria. Com 1,88m de altura, ele conseguia fazer Robert se sentir ainda menor do que os seus 1,67m. Bruno era um homem branco, de pele muito clara que contrastava com uma barba preta, densa e meticulosamente aparada que cobria a mandíbula quadrada. A cabeça perfeitamente careca brilhava sob as luzes fluorescentes, e os óculos de armação grossa davam-lhe um ar de intelectual perigoso.

— Bom dia, Professor Bruno — respondeu Robert, a voz vacilante. — Eu estava apenas... organizando meus pensamentos para a aula.

Bruno deu um passo à frente. Ele era maciço. A camisa social branca parecia prestes a rasgar nos bíceps e nos ombros largos, uma forma física que desafiava a ideia de que matemáticos eram homens sedentários. Ele exalava um aroma de menta gélida e ozônio, um cheiro de alfa que tentava, deliberadamente, sobrepor o rastro de Ronaldo em Robert.

— Pensamentos são variáveis perigosas quando não estão sob controle — disse Bruno, baixando o olhar para o pescoço de Robert, onde o pulso do ômega batia acelerado. — Você parece tenso. O Professor Ronaldo tem exigido demais da sua... capacidade de interpretação?

Antes que Robert pudesse responder, o som rítmico e pesado de botas militares ecoou pelo corredor. A temperatura pareceu subir instantaneamente. Ronaldo apareceu vindo da direção oposta, o casaco de estampa militar oversized aberto, revelando a postura de ataque. Seus olhos escuros fixaram-se em Bruno com uma hostilidade que não precisava de palavras.

— Algum problema com o meu aluno, Bruno? — a voz de Ronaldo saiu como um rosnado baixo, a autoridade de um ex-militar se manifestando em cada sílaba.

Ronaldo parou ao lado de Robert, uma barreira física de 1,83m de puro músculo e pele negra retinta sob a luz. Ele não tocou em Robert, mas sua presença era como um escudo de calor que envolveu o ômega, combatendo o frio que emanava de Bruno.

Bruno soltou uma risada seca, ajustando os óculos com um dedo longo.

— De forma alguma, Ronaldo. Estava apenas comentando como a matemática exige uma precisão que, às vezes, a redação não consegue oferecer. Robert é um talento desperdiçado em metáforas, não acha? Ele tem uma mente que poderia ser... moldada por números.

— Ele tem uma mente que não precisa ser moldada por ninguém, exceto por ele mesmo — rebateu Ronaldo, estreitando os olhos. — E ele está sob minha supervisão acadêmica e... pessoal.

A tensão entre os dois alfas era quase palpável, uma corda esticada ao ponto de ruptura. Robert sentia-se no epicentro de um terremoto. Ele olhou para Ronaldo, notando como as veias no pescoço do professor de redação estavam saltadas, e depois para Bruno, que mantinha um sorriso cínico, seus olhos azuis gélidos brilhando atrás das lentes.

— Pessoal? — Bruno repetiu a palavra com escárnio. — Interessante. Eu não sabia que o regulamento permitia que veteranos de guerra escolhessem "portos seguros" entre os estudantes.

— O regulamento diz que eu devo proteger a integridade dos alunos contra qualquer distração desnecessária — Ronaldo deu um passo à frente, invadindo o espaço de Bruno. — E você está parecendo uma distração bem grande agora, matemático.

Robert, sentindo que a situação poderia escalar para algo físico, tocou levemente na manga do casaco militar de Ronaldo. O toque foi sutil, mas o efeito foi imediato. Ronaldo relaxou os ombros, embora seu olhar continuasse fixo no rival.

— Professor, a aula vai começar — sussurrou Robert, os cílios longos tremendo enquanto ele olhava de um para o outro.

Bruno inclinou a cabeça, ignorando Ronaldo por um momento para focar toda a sua atenção em Robert. Ele se abaixou levemente, ficando mais próximo do nível do rosto do rapaz, o cheiro de menta tornando-se sufocante.

— A matemática é a linguagem do universo, Robert — disse Bruno, a voz suave e ameaçadora. — E o universo não tolera erros de cálculo. Se você precisar de ajuda para encontrar a solução correta... minha sala está sempre aberta. E eu garanto que sou muito mais preciso do que um homem que vive de memórias de trincheiras.

— Ele não precisa da sua precisão, Bruno. Ele precisa de espaço — cortou Ronaldo, colocando-se entre os dois novamente. — Vá para a aula, Robert. Agora.

Robert não esperou uma segunda ordem. Ele apressou o passo, sentindo os olhos dos dois alfas queimarem em suas costas. Ele podia ouvir, ao longe, a voz de Bruno provocando:

— Você está ficando possessivo, soldado. Cuidado para não perder a guerra por causa de uma pequena batalha de ego.

— Eu nunca perco o que é meu — foi a última coisa que Robert ouviu Ronaldo dizer antes de entrar na sala de aula.

A aula de matemática foi um suplício. Bruno circulava pela sala como um predador, parando diversas vezes atrás da cadeira de Robert. Ele não fazia nada proibido, mas a forma como ele se inclinava para apontar um erro em uma equação, deixando que o calor de seu corpo musculoso roçasse levemente nas costas de Robert, era uma declaração de guerra clara.

— Veja aqui, Robert — disse Bruno, sua barba preta quase roçando a orelha do rapaz enquanto ele apontava para o caderno com uma caneta. — Você tentou resolver pela emoção. Mas o X da questão é puramente racional. Você está deixando variáveis externas interferirem no resultado.

Robert apertou o brinco na orelha, tentando não tremer.

— Eu vou corrigir, professor.

— Espero que sim. Seria uma pena ver um ômega tão promissor se perder em cálculos errados por causa de... influências arcaicas.

Quando o sinal finalmente tocou, Robert foi o primeiro a sair. Ele precisava de ar. Ele precisava do cheiro de sândalo e de casaco militar. Ele correu para o pátio dos fundos, um lugar onde Ronaldo costumava ficar durante o intervalo, observando o horizonte como se ainda estivesse em um posto de guarda.

Lá estava ele. Ronaldo estava encostado em uma pilastra, os braços cruzados sobre o peito largo, a estampa militar camuflando-o parcialmente contra a folhagem do jardim. Ao ver Robert se aproximar, sua expressão severa suavizou-se instantaneamente.

— Ele te incomodou? — perguntou Ronaldo, sem rodeios.

Robert parou à sua frente, respirando fundo para recuperar o fôlego.

— Ele é... intenso. Ele fala como se tudo fosse um jogo de lógica.

Ronaldo descruzou os braços e puxou Robert para o espaço protegido entre seu corpo e a pilastra. A diferença de tamanho era reconfortante agora. Robert sentiu-se como um pequeno pássaro voltando para o ninho após uma tempestade.

— Bruno é um alfa que acredita que a força vem da frieza — rosnou Ronaldo, passando a mão grande pelos cachos de Robert, desfazendo a tensão que o outro professor havia deixado. — Ele não entende que a verdadeira força é o que você protege, não o que você domina.

— Ele disse que eu sou um erro de cálculo para você — sussurrou Robert, escondendo o rosto no peito de Ronaldo, sentindo o tecido grosso do casaco contra a bochecha.

Ronaldo segurou o queixo de Robert, forçando-o a olhar para cima. Os olhos do ex-militar estavam acesos com uma promessa feroz.

— Você é a única coisa que faz sentido nessa equação toda, Robert. Bruno pode ter os números, mas eu tenho a estratégia. E na minha estratégia, você é o objetivo principal. Eu não vou deixar ele chegar perto de você de novo. Entendeu?

— Sim, senhor — respondeu Robert, um sorriso tímido surgindo em seus lábios.

— Não me chame de senhor quando estamos sozinhos — Ronaldo murmurou, aproximando o rosto. — Aqui, eu sou apenas o homem que vai garantir que ninguém toque em um único cacho dessa sua cabeça.

Ronaldo inclinou-se e selou seus lábios nos de Robert. O beijo foi possessivo, marcado pela necessidade de reafirmar seu território após a incursão de Bruno. Robert correspondeu com urgência, suas mãos pequenas subindo pelos braços musculosos de Ronaldo, agarrando-se àquela força que era seu único porto seguro.

No andar de cima, na janela da sala de matemática, Bruno observava a cena. Ele ajustou os óculos, um brilho calculista nos olhos. Ele não estava acostumado a perder, e para ele, Robert não era apenas um ômega; era a peça que faltava para provar sua superioridade sobre o "soldadinho de chumbo".

— A ordem dos fatores pode não alterar o produto, Ronaldo — sussurrou Bruno para o vidro frio —, mas a adição de um novo elemento pode explodir toda a sua estrutura.

Lá embaixo, alheio ao olhar do rival, Robert se apertava contra Ronaldo, sentindo-se pequeno, frágil, mas profundamente amado. A guerra entre a lógica e a emoção estava apenas começando, e ele era o prêmio pelo qual os dois gigantes estavam dispostos a destruir tudo ao redor. Mas, sob o peso da camuflagem de Ronaldo, Robert sabia que, não importava o tamanho da ameaça, ele nunca mais teria que lutar sozinho.

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