*ENTRE GRITOS,... FAÍSCAS E LENÇÓIS BAGUNÇADOS*
O Eco das Escamas e do Trovão
O silêncio da cozinha era preenchido apenas pelo som da respiração pesada de ambos e pelo estalar ocasional da eletricidade que ainda percorria a pele de Ravi. Akira sentia cada centímetro daquele corpo menor contra o seu; a bancada de mármore parecia pequena demais para conter a intensidade do que estava acontecendo. O dragão apertou as coxas de Ravi com mais força, sentindo a textura da calça de moletom que, como de costume, pertencia ao seu próprio guarda-roupa.
— Você está tremendo, Raio de Sol — murmurou Akira contra a clavícula de Ravi, sua voz vibrando como um trovão distante dentro do peito. — É de raiva ou é o efeito do meu toque?
— É a vontade de fritar o seu cérebro, seu idiota — Ravi respondeu, embora sua voz tivesse perdido toda a agressividade de minutos atrás, soando agora rouca e carregada de uma necessidade latente. — Você acha que pode simplesmente me carregar, me beijar e fazer tudo ficar bem?
— Eu acho que funciona melhor do que qualquer desculpa esfarrapada que eu poderia inventar — Akira levantou o rosto, os olhos nublados agora brilhando com uma malícia dourada. — Você adora quando eu sou o monstro que você precisa domar.
Ravi soltou um riso seco, as mãos descendo dos cabelos de Akira para os seus ombros largos, sentindo as cicatrizes de queimadura que pareciam pulsar sob a pele branca. Ele odiava o quanto Akira o conhecia. Odiava como o dragão sabia exatamente onde tocar para transformar sua fúria em submissão, ou melhor, em uma parceria caótica.
— Eu não quero te domar, Akira. Eu quero que você pare de se destruir antes que eu não tenha mais nada para segurar — Ravi puxou o rosto de Akira para perto, seus narizes se roçando. — O gosto desse remédio... é como se eu estivesse beijando um cadáver químico.
Akira estremeceu. Aquela frase o atingiu com mais força do que qualquer descarga elétrica que Ravi já tivesse disparado. Ele sabia que o vício nos supressores e nos estimulantes de treino estava corroendo sua essência, mas a dor de ser "fraco" — de ser apenas um dragão cujas asas eram pequenas demais para voar de verdade — era algo que ele não conseguia encarar de frente.
— Então me limpa — desafiou Akira, a cauda pesada batendo contra os armários da cozinha, criando um som oco. — Tira esse gosto de mim. Usa a sua eletricidade, usa a sua boca, usa o que você quiser. Mas me faz sentir vivo sem precisar de uma pílula.
Ravi não precisou ouvir mais nada. Ele avançou novamente, mas desta vez não houve hesitação ou briga por espaço. Suas línguas se encontraram em uma dança desesperada, um embate de vontades onde o sabor amargo dos medicamentos de Akira lutava contra o frescor metálico de Ravi. O dragão soltou um rosnado baixo, profundo, e as pequenas asas em suas costas se abriram bruscamente, batendo contra o ar da cozinha, derrubando alguns papéis que estavam sobre a mesa.
Akira o puxou para mais perto, se é que isso era possível, sentindo o calor de Ravi irradiar através da camisa fina. Ele adorava como Ravi se perdia no momento, como o "coelhinho" estressado se tornava um predador elétrico. Ravi mordeu o lábio inferior de Akira com força, sentindo o gosto ferroso do sangue, e o dragão apenas sorriu entre o beijo. A dor era o seu combustível favorito.
— Mais — sibilou Akira, as mãos subindo para as costas de Ravi, as garras arranhando levemente o tecido da camisa. — Não para.
Ravi se afastou apenas alguns milímetros, seus olhos vermelhos brilhando intensamente na penumbra da cozinha.
— Você é um masoquista desgraçado — Ravi arfou, o peito subindo e descendo com rapidez. — E eu sou um idiota por alimentar isso.
— Nós somos o que somos, Ravi — Akira o pegou no colo com uma facilidade assustadora, tirando-o da bancada sem romper o contato visual. — Dois desastres procurando um lugar para cair. E eu escolhi cair em cima de você.
Ravi envolveu as pernas ao redor da cintura de Akira, sentindo a força bruta dos músculos do dragão. Eles se moveram em direção ao quarto, o trajeto marcado por beijos roubados e esbarros nas paredes. Akira não se importava com os hematomas que deixaria ou com o que quebraria pelo caminho; sua única fixação era o garoto em seus braços, o único que tinha a coragem de chamá-lo de mentiroso e a compaixão de amá-lo mesmo assim.
Ao entrarem no quarto, Akira jogou Ravi na cama com uma delicadeza que contrastava com sua aparência massiva. Ele se posicionou por cima, os chifres grandes quase tocando o teto baixo, a sombra de suas asas projetando-se contra a parede como uma criatura de lendas antigas. Ravi olhou para cima, e por um momento, a fachada de "saco de estresse" caiu completamente. Ele estendeu a mão, tocando a cicatriz no olho de Akira.
— Por que você faz isso, Akira? — a voz de Ravi era um sussurro quebrado. — Por que você finge que não dói?
Akira fechou o olho marcado, inclinando a cabeça para o toque de Ravi.
— Porque se eu admitir que dói, a dor se torna real, Raio de Sol. E se ela for real, eu posso não conseguir levantar no dia seguinte. Mas quando você está aqui... quando você me olha com esse ódio que eu sei que é amor... a dor vira outra coisa. Vira adrenalina. Vira você.
Ravi sentiu um nó na garganta. Ele odiava o quanto Akira era poético em sua própria autodestruição. Sem dizer uma palavra, Ravi puxou Akira para baixo, forçando-o a se deitar entre suas pernas. Ele queria sentir o peso total do dragão, queria que Akira soubesse que ele era capaz de sustentar cada quilo de músculo, escama e trauma.
— Eu não preciso que você seja forte o tempo todo — Ravi murmurou, as mãos percorrendo o peito nu de Akira, traçando as manchas vermelhas que pareciam chamas congeladas na pele pálida. — Eu só preciso que você seja meu. Mesmo quebrado. Mesmo viciado. Mas meu.
— Eu sou seu desde o primeiro momento em que você me eletrocutou e me chamou de lagarto superdimensionado — Akira riu, um som vibrante que desfez o clima pesado. — Você sabe que eu adoro quando você fica agressivo.
— Cala a boca e me beija logo, antes que eu mude de ideia e te jogue pela janela — Ravi rebateu, embora estivesse puxando Akira pela nuca.
O beijo que se seguiu foi diferente. Não era mais sobre a discussão ou sobre os remédios. Era sobre a entrega. Akira explorava cada centímetro do corpo de Ravi com uma fome que parecia insaciável, suas mãos grandes encontrando a pele macia sob a camisa, enquanto Ravi respondia com pequenas descargas elétricas que faziam os músculos de Akira saltarem em espasmos de prazer e dor.
Para Akira, Ravi era o único sol que não o queimava, mas que o mantinha aquecido. Para Ravi, Akira era o único caos que fazia sentido em sua vida organizada pelo estresse. Eles se "pegavam" não apenas para esquecer a briga, mas para reafirmar o pacto silencioso que tinham: enquanto o mundo exigisse que fossem soldados, heróis ou monstros, ali, naquele quarto, eles podiam ser apenas dois garotos se perdendo em um mar de sensações.
As horas passaram enquanto o entrelaçar de pernas e braços se tornava a única linguagem necessária. O gosto do remédio finalmente desapareceu, substituído pelo suor, pelo calor da pele e pelo cheiro de ozônio que Ravi sempre deixava no ar. Akira, exausto mas finalmente em paz, enterrou o rosto na curvatura do pescoço de Ravi, sentindo os batimentos cardíacos acelerados do outro.
— Ravi? — Akira chamou, a voz quase sumindo.
— Hum? — Ravi respondeu, os olhos fechados, uma das mãos acariciando distraidamente uma das escamas no braço de Akira.
— Obrigado por não me deixar sozinho com o meu próprio silêncio.
Ravi abriu os olhos e olhou para o teto, um pequeno sorriso surgindo no canto dos lábios.
— Não se acostuma, seu lagarto idiota. Amanhã eu ainda vou te obrigar a jogar fora aquele frasco de comprimidos.
Akira soltou uma risada baixa, apertando Ravi contra si.
— Eu sei que vai. E é por isso que eu te amo, meu pequeno raio.
Ravi deu um leve choque no peito de Akira, apenas o suficiente para fazê-lo rir de novo.
— Eu também te amo, Akira. Agora dorme, antes que eu decida te chutar da cama.
E ali, no abraço de um dragão e de um raio, a noite finalmente encontrou seu descanso, transformando a amargura da discussão na doçura de um cansaço compartilhado. O gosto do remédio havia ido embora, e pela primeira vez em muito tempo, Akira não precisou de nada além da presença de Ravi para se sentir invencível.