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entre irmaos

A Fragilidade do Vidro e o Som das Teclas

O sol de Seul nasceu pálido, filtrado pelas cortinas de veludo cinza do quarto de Yoongi. Ele não havia dormido mais do que três ou quatro horas. O peso daquela mão pequena na sua, a lembrança do pânico cru nos olhos de Jimin e a forma como a palavra "hyung" havia saído de seus lábios — como um pedido de socorro e uma oferta de paz ao mesmo tempo — reverberavam em sua mente como uma nota de piano desafinada.

Yoongi levantou-se, vestiu seu robe de seda escura e desceu para a cozinha. Ele esperava encontrar o silêncio habitual, mas o som de louça batendo suavemente o interrompeu. Jimin estava lá, parado diante da ilha de mármore, segurando uma xícara de café com as duas mãos, como se tentasse extrair todo o calor possível dela. Ele vestia um suéter de lã oversized que o fazia parecer ainda menor.

Ao ver Yoongi, Jimin encolheu os ombros, um reflexo instintivo que fez o estômago de Yoongi se revirar de culpa.

— Bom dia — murmurou Jimin, os olhos fixos na superfície negra do café.

Yoongi caminhou até a cafeteira, servindo-se sem olhar diretamente para o outro.

— Você está melhor? — A pergunta saiu mais seca do que ele pretendia, mas era o máximo de preocupação que ele conseguia verbalizar sem se sentir exposto.

— Sim. Obrigado por ontem. E desculpe pelo... pelo espetáculo. Eu não costumo perder o controle assim.

Yoongi finalmente o encarou. As olheiras de Jimin pareciam mais suaves sob a luz da manhã, mas a palidez de sua pele ainda denunciava a noite conturbada.

— Não foi um espetáculo — disse Yoongi, encostando-se no balcão. — Foi uma reação. Meus pais não estão em casa, foram para uma conferência em Busan. Teremos a casa por conta própria pelos próximos dois dias.

Jimin assentiu, parecendo aliviado e tenso ao mesmo tempo. O silêncio se estendeu, mas não era mais o silêncio cortante de antes. Havia uma curiosidade cautelosa no ar.

— Por que você toca piano no subsolo? — perguntou Jimin, quebrando o gelo. — O som é lindo, mas parece que você está tentando escondê-lo.

Yoongi tomou um gole de café, sentindo o amargor queimar sua garganta.

— Música não é uma profissão aceitável para um Min — respondeu ele, com um sorriso cínico. — É um passatempo, segundo meu pai. Um desperdício de intelecto, segundo minha mãe. Eu toco lá embaixo porque é o único lugar onde o julgamento deles não chega.

Jimin deu um passo à frente, a hesitação dando lugar a uma empatia inesperada.

— Eu entendo o que é ter que esconder partes de si mesmo para sobreviver. Mas você não precisa mais esconder, não é? Eles não estão aqui.

Yoongi arqueou uma sobrancelha.

— Você está me desafiando, Park Jimin?

— Talvez — Jimin deu um meio sorriso, o primeiro que Yoongi via sob a luz do dia. — Eu nunca tive nada que fosse meu, Yoongi. Nem meu corpo, às vezes. Mas você tem esse talento. É um desperdício ter medo de usá-lo.

A menção ao passado de Jimin fez Yoongi apertar a xícara com força. A imagem de estranhos tocando Jimin, comprando sua dignidade por algumas notas de won, despertou nele uma fúria protetora que ele não sabia que possuía. Ele queria apagar cada memória ruim de Jimin, mas sabia que, por enquanto, ele mesmo era uma dessas memórias ruins.

— Vá se trocar — disse Yoongi, virando as costas. — Vamos sair.

— Para onde?

— Você disse que o linho incomoda sua pele. Vamos comprar roupas que não façam você parecer um boneco de ventríloquo do meu pai.

O shopping em Gangnam era um templo de luxo e futilidade, o tipo de lugar que Yoongi frequentava por obrigação, mas que Jimin olhava com um misto de fascinação e pavor. Yoongi o levou a uma boutique discreta, longe dos logotipos chamativos, onde a qualidade era medida pelo toque do tecido e não pelo brilho da etiqueta.

Enquanto Jimin experimentava moletons de algodão egípcio e calças de tecidos macios, Yoongi observava-o pelo reflexo dos espelhos. Ele via as cicatrizes leves nos pulsos de Jimin, marcas que contavam histórias de desespero que Yoongi mal conseguia processar. Cada vez que Jimin saía do provador e pedia a opinião de Yoongi, a frieza do herdeiro derretia mais um pouco.

— Esta é boa? — perguntou Jimin, vestindo um cardigã bege que o deixava com uma aparência angelical e suave.

— Serve — mentiu Yoongi, sua voz falhando levemente. Na verdade, ele achava que Jimin era a coisa mais bonita que já havia entrado naquela loja.

Na volta para casa, o carro estava cheio de sacolas e um silêncio confortável. Jimin parecia exausto, sua cabeça pendendo contra a janela do carro enquanto observava a paisagem urbana passar.

— Yoongi-hyung? — chamou ele, a voz quase um sussurro.

— O quê?

— Por que você está sendo legal agora? Na semana passada, você disse que eu fedia a desespero.

Yoongi manteve os olhos na estrada, suas mãos apertando o volante de couro.

— Porque eu sou um idiota, Jimin. Eu passei a vida toda sendo ensinado que as pessoas são ativos ou passivos, úteis ou inúteis. Quando você chegou, eu vi alguém que tinha passado por tudo o que eu temo — a perda de controle, a pobreza, a exposição — e ainda assim, você tinha uma dignidade que eu não conseguia quebrar. Isso me irritou.

— E agora?

— Agora eu percebi que o desespero não é seu. É meu. Eu tenho tudo e não sinto nada. Você não tem nada e sente tudo.

Jimin não respondeu, mas estendeu a mão e tocou levemente o braço de Yoongi. O toque foi breve, mas elétrico.

Ao chegarem na mansão, a atmosfera mudou. Sem a presença opressiva dos pais, o casarão parecia menos um museu e mais uma casa. Yoongi, impulsionado por um desejo súbito de provar a si mesmo que podia ser diferente, levou Jimin até o salão principal, onde um piano de cauda Steinway descansava, intocado, coberto por uma fina camada de poeira de prestígio.

— Você perguntou por que eu toco no subsolo — disse Yoongi, sentando-se no banco de couro. — Hoje, eu vou tocar aqui.

Jimin sentou-se no chão, encostado na perna do piano, olhando para cima com expectativa.

Yoongi começou a tocar. Não eram as peças técnicas e frias que seu professor de música exigia. Era uma composição própria, uma melodia melancólica que falava de solidão, de gelo e da primeira faísca de um incêndio. Seus dedos voavam sobre as teclas, e ele fechou os olhos, deixando que a música dissesse tudo o que sua língua travada não conseguia.

Quando a última nota desapareceu no ar, Yoongi abriu os olhos e encontrou Jimin chorando silenciosamente.

— O que foi? — perguntou ele, o pânico voltando. — Eu fiz algo errado?

— Não — soluçou Jimin, limpando o rosto com a manga do suéter novo. — É que... é a primeira vez que alguém me dá algo que não pode ser comprado. Sua música é... ela é de verdade.

Yoongi sentiu um nó na garganta. Ele se levantou e ajoelhou-se na frente de Jimin, quebrando a última barreira de distância entre eles.

— Jimin, olhe para mim.

Jimin obedeceu, os olhos vermelhos e úmidos.

— Eu sinto muito por tudo o que eu disse. Por cada palavra cruel. Eu não sabia quem você era. Eu só via o que eu queria ver para me sentir superior.

Jimin balançou a cabeça, um sorriso triste surgindo.

— As pessoas sempre veem o que querem em mim, Yoongi. Os homens na rua viam um objeto. Seus pais viram um projeto de caridade. Você viu um invasor. Ninguém nunca me viu de verdade.

— Eu estou vendo agora — afirmou Yoongi, sua voz carregada de uma intensidade que o assustou. Ele levou a mão ao rosto de Jimin, acariciando a maçã do rosto com o polegar. — Eu vejo alguém que sobreviveu ao inferno e ainda tem doçura nos olhos. Eu vejo alguém que eu não quero que saia desta casa nunca mais.

Jimin inclinou o rosto para o toque de Yoongi, fechando os olhos.

— Você é frio, Min Yoongi. Mas suas mãos são quentes.

— É o piano — sussurrou Yoongi, aproximando seu rosto do de Jimin. — Ele guarda o calor.

A tensão entre eles era quase palpável, um fio esticado prestes a romper. Yoongi podia sentir a respiração de Jimin, com cheiro de café e hortelã. Ele sabia que estava cruzando uma linha perigosa. Jimin era seu irmão adotivo, um órfão sob a proteção de sua família, alguém vulnerável. Mas, naquele momento, Yoongi não via hierarquias. Ele via apenas a alma que espelhava a sua própria solidão.

— Posso? — perguntou Yoongi, a voz rouca.

Jimin não respondeu com palavras. Ele apenas encurtou a distância, selando seus lábios nos de Yoongi.

O beijo foi hesitante no início, um encontro de incertezas. Mas logo se tornou profundo, carregado de uma fome que ambos haviam suprimido. Não era o tipo de beijo que Jimin estava acostumado a dar por obrigação; não havia pressa, não havia nojo. Era uma descoberta. Yoongi sentia o sabor das lágrimas de Jimin e a maciez de seus lábios, e cada fibra de seu ser gritava que aquilo era o certo.

Quando se afastaram, ambos estavam sem fôlego. Jimin escondeu o rosto no pescoço de Yoongi, respirando fundo o perfume de sândalo e piano.

— Se o seu pai descobrir... — sussurrou Jimin.

— Ele é um juiz — disse Yoongi, abraçando Jimin com força, como se pudesse protegê-lo de todo o mundo. — Mas ele não pode julgar o que eu sinto. Ninguém pode.

Naquela noite, eles não dormiram em quartos separados. Jimin, ainda assombrado pelo medo do escuro, encontrou refúgio na cama de Yoongi. Não houve sexo; houve apenas o entrelaçar de pernas e braços, o som de duas respirações sincronizadas e a promessa silenciosa de que as sombras do passado não entrariam naquele quarto.

Yoongi observou Jimin adormecer, a expressão do menor finalmente serena. Ele percebeu que sua vida, antes uma linha reta de sucessos previsíveis, agora era um caos de emoções desconhecidas. Ele estava apaixonado por um garoto que o mundo considerava "quebrado", mas, enquanto acariciava o cabelo de Jimin, Yoongi percebeu que era ele quem estava sendo consertado.

No entanto, no fundo de sua mente, a frieza analítica de Yoongi ainda fazia um alerta. Seus pais voltariam em dois dias. A sociedade de Seul não perdoaria um escândalo envolvendo o herdeiro dos Min e um órfão de rua. A bolha de paz que eles criaram era frágil como vidro.

Mas, enquanto olhava para Jimin, Yoongi decidiu que, se o vidro tivesse que quebrar, ele se certificaria de que os cacos cortassem apenas a ele, e nunca mais a Jimin.

A manhã seguinte trouxe uma nova rotina. Yoongi não permitiu que Jimin ajudasse a governanta; em vez disso, ele mesmo preparou o café, algo que nunca fizera em vinte e quatro anos.

— Você está sendo doméstico demais, hyung — brincou Jimin, sentado à mesa, vestindo uma das camisas de seda de Yoongi que ficava enorme nele.

— Não se acostume — retrucou Yoongi, embora o brilho em seus olhos dissesse o contrário. — Só estou garantindo que você tenha energia. Vamos praticar piano hoje.

— Eu não sei tocar nada.

— Eu te ensino. Você disse que minha música é de verdade, então vamos ver o que a sua alma tem a dizer.

Eles passaram a tarde no piano. Yoongi sentou-se atrás de Jimin, cercando-o com seus braços para alcançar as teclas, guiando as mãos pequenas sobre o marfim. O contato físico era constante, faíscas de desejo misturadas com a pureza do aprendizado.

— Viu? — disse Yoongi no ouvido de Jimin. — Você tem ritmo.

Jimin virou o rosto, seus narizes se roçando.

— Eu tenho um bom professor.

O clima de romance foi interrompido pelo toque estridente do telefone de Yoongi. Era seu pai.

— Yoongi — a voz do Juiz Min era como um trovão. — Voltaremos mais cedo. Estaremos aí em uma hora. Prepare Jimin. Teremos um jantar com o Deputado Choi e sua filha. É importante que Jimin se comporte como um membro da família, e não como o... o que ele era.

Yoongi sentiu a raiva subir por sua espinha.

— Ele tem nome, pai. É Park Jimin.

— Não me corrija. Apenas garanta que ele não nos envergonhe.

Yoongi desligou o celular e olhou para Jimin, que tinha ouvido cada palavra. O brilho nos olhos de Jimin desapareceu, substituído pela velha máscara de submissão.

— Eu vou me trocar — disse Jimin, levantando-se do piano. — Vou colocar aquele conjunto de linho.

— Não — Yoongi segurou seu pulso. — Você vai usar o que quiser.

— Yoongi, não comece uma guerra por minha causa. Eu sei o meu lugar.

Yoongi puxou Jimin para perto, forçando-o a olhar em seus olhos.

— Seu lugar é onde você quiser estar. Se você quiser ser um Min, seja. Se quiser ser apenas o Jimin, seja. Mas não deixe que eles apaguem o que aconteceu nestas últimas vinte e quatro horas.

Jimin tocou o rosto de Yoongi, um gesto de despedida antecipada.

— As vinte e quatro horas foram um sonho, hyung. Mas o seu pai é a realidade. E a realidade sempre ganha.

Yoongi viu Jimin subir as escadas, e o silêncio da mansão voltou a ser pesado, frio e opressivo. Ele caminhou até o piano e fechou a tampa com um estrondo seco. A trégua havia acabado. O herdeiro e o órfão teriam que enfrentar o tribunal da família Min, e Yoongi sabia que, para salvar Jimin, ele teria que ser mais frio do que nunca — não com o garoto, mas com os monstros que o rodeavam, começando pelos seus próprios pais.

Ele subiu para o quarto e abriu o cofre onde guardava seus documentos pessoais e uma quantia considerável em dinheiro que vinha desviando de seus fundos de investimento há anos. Ele nunca soube por que estava guardando aquilo, mas agora, olhando para a porta fechada do quarto de Jimin, ele sabia.

Se a realidade tentasse destruir o que eles tinham, Yoongi estava pronto para queimar a realidade e construir uma nova, longe dali. O perfume do asfalto e o frio do mármore não seriam mais o destino de Jimin. Não enquanto Min Yoongi tivesse uma nota de música no coração e uma chama de rebeldia na alma.

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