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Entre Lençóis e Relâmpagos

Sangue, Cinzas e o Peso do Orgulho

O ar dentro da taverna de Sleepy Hollow estava carregado com o cheiro opressivo de tabaco barato, cerveja fermentada e o calor úmido de corpos masculinos aglomerados em busca de abrigo contra a tempestade que rugia lá fora. Baltus Van Tassel, em um gesto de hospitalidade para acalmar os ânimos da vila após as recentes tragédias, havia aberto uma conta generosa para os homens da região. No entanto, a generosidade de Baltus servira apenas para lubrificar as engrenagens de um conflito que vinha se acumulando como eletricidade estática entre as árvores da floresta.

Ichabod Crane estava sentado a uma mesa de canto, longe do centro da algazarra. Ele segurava uma caneca de cidra quente, seus dedos longos e pálidos tamborilando nervosamente contra a madeira irregular. Ele tentava manter um semblante de dignidade científica, mas seu olhar, inevitavelmente, desviava-se para onde Katrina Van Tassel estava sentada, cercada por algumas das moças da vila. Ela parecia uma joia de ouro perdida em um monte de carvão, sua presença iluminando o ambiente sombrio.

Brom Van Brunt, no entanto, não estava disposto a permitir que o silêncio de Ichabod fosse interpretado como paz. Brom já havia bebido o suficiente para que sua cautela usual fosse substituída por uma agressividade barulhenta. Ele se levantou de seu banco, cambaleando levemente, e caminhou até o centro do salão, batendo sua caneca pesada em uma mesa vazia para atrair a atenção de todos.

— Olhem só para nós! — Brom exclamou, a voz ecoando pelas vigas de carvalho. — Homens que trabalham a terra, que enfrentam o inverno com os próprios punhos. E o que temos aqui para nos "liderar" na justiça? Um homem que tem medo da própria sombra e que carrega ferramentas de carniceiro em uma bolsa de couro.

Um riso coletivo e baixo percorreu a taverna. Ichabod sentiu o rosto esquentar, mas manteve os olhos fixos em sua cidra. Ele conhecia Brom; sabia que o homem era movido por uma insegurança bruta disfarçada de bravura.

— Senhor Van Brunt — Ichabod disse, a voz saindo mais trêmula do que ele gostaria —, não creio que minha aparência ou meus métodos de investigação sejam o assunto da noite. Estamos aqui para celebrar a resiliência da vila, não para medições de vigor físico.

— Métodos? — Brom deu um passo à frente, aproximando-se da mesa de Ichabod. — Seus métodos envolvem tremer diante de cada galho que estala na floresta. Você é um covarde, Crane. Um homem deslocado que tenta usar palavras difíceis para esconder o fato de que não passa de um esqueleto vestido de seda.

Ichabod finalmente ergueu o olhar. Seus olhos escuros estavam cansados, mas brilhavam com uma faísca de indignação.

— A ciência não exige músculos, Brom. Exige coragem para encarar a verdade, algo que o senhor parece evitar com a mesma frequência com que evita a sobriedade.

O salão ficou em silêncio. Brom estreitou os olhos, os punhos cerrando-se ao lado do corpo. Ele se virou para o lado, onde Katrina observava a cena com uma expressão de crescente preocupação. Em um movimento rápido e possessivo, Brom caminhou até ela e segurou seu braço, puxando-a levemente para que ela ficasse de pé ao seu lado.

— Veja bem, mestre Crane — disse Brom, com um sorriso cruel que não chegava aos olhos. — Uma mulher como Katrina, a flor de Sleepy Hollow, precisa de proteção. Ela precisa de um homem de verdade, alguém que possa carregar o peso do mundo e defendê-la com sangue, se necessário. Jamais de um homem... fraco. Um homem que mal consegue segurar uma espada sem que os dedos tremam.

Katrina tentou se soltar, seu rosto pálido de indignação.

— Brom, solte-me! Você está passando dos limites.

Mas Brom não a soltou. Ele a manteve por perto, usando-a como um troféu diante da plateia de camponeses.

— Admita, Crane. Você olha para ela com esses olhos de cão faminto, mas sabe que nunca poderá ser o que ela precisa. Você é uma farsa.

Algo se quebrou dentro de Ichabod Crane. Não foi a lógica, nem a razão, nem o medo que o governava há anos. Foi um impulso primitivo, uma explosão de adrenalina que ele nunca soube que possuía. A imagem de Brom segurando Katrina, tratando-a como um objeto de sua própria vaidade, obliterou qualquer pensamento de autopreservação.

Ichabod levantou-se tão rápido que sua cadeira voou para trás, batendo no chão com um estrondo. Antes que Brom pudesse reagir ou terminar sua próxima frase insultuosa, Ichabod atravessou a distância que os separava.

O primeiro golpe não foi técnico. Foi um soco desajeitado, movido por puro ódio, que atingiu Brom diretamente no maxilar.

O som do impacto — osso contra osso — silenciou a taverna instantaneamente. Brom cambaleou para trás, soltando o braço de Katrina por puro choque. Ele levou a mão ao rosto, os olhos arregalados enquanto processava o fato de que o investigador magricela acabara de agredi-lo.

— Nunca — sibilou Ichabod, a voz agora firme, carregada de uma fúria gélida — toque nela dessa maneira novamente.

Brom soltou uma risada rascante, cuspindo um pouco de sangue no chão de terra batida.

— Então o rato tem dentes! — gritou Brom, avançando como um touro enfurecido.

O que se seguiu foi um caos de violência desordenada. Brom era maior e mais forte, e seu primeiro golpe atingiu Ichabod no estômago, fazendo o investigador dobrar-se de dor. Mas, para a surpresa de todos, Ichabod não recuou. Ele se lançou sobre Brom, usando o peso do próprio corpo para derrubá-lo contra uma das mesas de carvalho.

Canecas de cerveja voaram, vidros se quebraram e o som de madeira partindo-se preencheu o ar. Eles rolaram pelo chão, uma massa de casacos escuros e músculos brutos. Ichabod lutava com uma ferocidade cega. Ele recebia golpes no rosto e nas costelas, mas revidava com uma intensidade que Brom não conseguia prever. Ichabod não lutava como um soldado; lutava como um homem que estava protegendo a única coisa que dava sentido à sua vida assombrada.

— Ela... nunca... escolheria... você! — Brom gritou entre os dentes, acertando um soco no olho de Ichabod que o fez ver estrelas.

Ichabod, com o lábio cortado e o rosto manchado de sangue, agarrou o colarinho de Brom e desferiu uma cabeçada desesperada contra o nariz do rival. O estalo foi audível. Brom soltou um urro de dor, levando as mãos ao rosto enquanto o sangue jorrava.

Homens da vila intervieram, puxando os dois para lados opostos. Ichabod foi arrastado por dois camponeses, seus pés chutando o ar, a camisa rasgada e o cabelo negro em total desordem. Brom estava sendo segurado por outros três, o rosto já começando a inchar, uma expressão de pura descrença em suas feições.

— Basta! — a voz de Baltus Van Tassel trovejou, entrando na taverna com a autoridade de um senhor feudal.

O silêncio voltou, mas era um silêncio pesado, carregado de fumaça e o cheiro metálico de sangue. Ichabod parou de lutar contra os homens que o seguravam. Ele estava ofegante, o peito subindo e descendo em espasmos violentos. Seu olhar, no entanto, buscou imediatamente o de Katrina.

Ela estava parada perto da lareira, as mãos unidas contra o peito. Seus olhos estavam arregalados, não de medo de Ichabod, mas de uma compreensão profunda e avassaladora. Ela viu o homem racional, o homem de ciência, transformado em uma fera por causa dela. E, para o horror e a humilhação de Brom, Katrina não correu para o seu lado para ver seus ferimentos.

Ela caminhou em direção a Ichabod.

Os homens que seguravam Crane o soltaram quando ela se aproximou. Katrina parou diante dele, observando o corte em seu lábio e o hematoma que já se formava em seu olho esquerdo.

— Ichabod — ela sussurrou, a voz trêmula.

Ele baixou a cabeça, a vergonha finalmente começando a substituir a adrenalina.

— Peço desculpas, senhorita — disse ele, a voz falhando. — Eu... eu perdi o controle. Foi um comportamento deplorável para um homem de minha posição.

Katrina não respondeu com palavras. Ela estendeu a mão e tocou delicadamente o rosto dele, seus dedos limpando um rastro de sangue que escorria por sua bochecha. O gesto foi tão íntimo, tão carregado de significado diante de toda a vila, que Brom soltou um rosnado de derrota e saiu da taverna, batendo a porta com força.

Mais tarde, na biblioteca da mansão Van Tassel, o silêncio era interrompido apenas pelo estalar das brasas e pelo som da chuva fustigando as janelas. Ichabod estava sentado em uma poltrona de couro, cercado por livros que ele não conseguia ler. Suas mãos, apoiadas nos joelhos, tremiam incontrolavelmente.

Katrina entrou silenciosamente, carregando uma bacia com água morna e alguns panos limpos. Ela se ajoelhou diante dele, começando a tarefa de limpar os ferimentos que ele sofrera.

— O senhor foi muito tolo — disse ela suavemente, mergulhando o pano na água.

— Eu sei — respondeu Ichabod, fechando os olhos quando o pano morno tocou o corte em seu supercílio. — Eu agi como um animal. Brom tinha razão em uma coisa: eu não sou um homem de guerra. Meus nós dos dedos estão em frangalhos e sinto como se cada osso do meu corpo estivesse fora do lugar.

Katrina limpou o sangue seco do lábio dele com uma paciência infinita.

— Nunca imaginei vê-lo socar alguém — comentou ela, com um leve sorriso brincando nos cantos da boca. — Onde estava o investigador racional que acredita que toda disputa pode ser resolvida com um debate ou um parágrafo da lei?

Ichabod soltou uma risada curta e dolorida, que terminou em um gemido de dor.

— Ele foi deixado na estrada, a alguns quilômetros daqui. — Ele abriu os olhos e encontrou os dela. — Eu realmente o odiei naquele momento, Katrina. Senti um desejo de destruí-lo que a ciência jamais poderia explicar.

— O senhor o odiou por causa das ofensas? — perguntou ela, observando os nós dos dedos dele, inchados e vermelhos.

— Não — disse Ichabod, sua voz tornando-se baixa e intensa. — Eu odiei a maneira como ele falou de você. Como se você fosse algo a ser possuído por quem gritasse mais alto ou batesse mais forte. Eu não lutei por meu orgulho, Katrina. Lutei porque a ideia de você ser tratada daquela forma era... insuportável.

O silêncio entre eles tornou-se denso, carregado de uma eletricidade que não vinha da tempestade lá fora. Katrina parou de limpar o rosto dele. Sua mão permaneceu pousada na bochecha de Ichabod, o polegar acariciando a pele pálida perto da mandíbula.

— O senhor se feriu por mim — sussurrou ela.

— Eu morreria por você — respondeu ele, a confissão escapando como um suspiro desesperado. — E a lógica diria que isso é uma insanidade, que um homem da minha mente não deveria ser governado por paixões tão violentas. Mas, ao vê-lo tocá-la... eu percebi que prefiro ser um louco ao seu lado do que um sábio em qualquer outro lugar.

Katrina sentiu uma onda de emoção percorrer seu corpo. Ver Ichabod, o homem que sempre confiava na armadura de seu intelecto, desmoronar e agir por impulso puro, a afetou de uma maneira que ela não conseguia descrever. Era perigoso, era primitivo, mas era a prova definitiva de que ele pertencia a ela de corpo e alma.

Ela inclinou-se para a frente, diminuindo a distância entre eles. Seus lábios tocaram o canto machucado da boca de Ichabod em um beijo que começou como um consolo e rapidamente transformou-se em algo muito mais profundo. Ichabod soltou um gemido baixo, suas mãos trêmulas subindo para emoldurar o rosto de Katrina.

— Você está sangrando — murmurou ela contra os lábios dele.

— Não sinto nada — respondeu ele, puxando-a para mais perto, ignorando a dor nas costelas e o latejar em sua cabeça.

Naquela biblioteca escura, cercados pelo conhecimento humano que Ichabod tanto prezava, eles se entregaram a algo que nenhum livro poderia ensinar. Katrina cuidava dele com uma devoção que beirava o misticismo, e Ichabod a segurava como se ela fosse a única verdade em um mundo de mentiras.

A luta na taverna mudara algo fundamental em Sleepy Hollow. Brom Van Brunt fora humilhado não pela força física de Ichabod, mas pela escolha irrevogável de Katrina. E Ichabod Crane, o homem que chegara à vila com lentes e bisturis, percebera que sua maior descoberta não seria um segredo sobrenatural, mas a capacidade de seu próprio coração de quebrar todas as leis da razão em nome do amor.

Lá fora, a tempestade continuava, mas dentro da mansão, o calor era absoluto. Ichabod olhou para suas mãos machucadas e, pela primeira vez em sua vida, não sentiu vergonha da violência. Ele sentiu orgulho. Porque aquelas mãos, embora feridas, eram as mesmas que agora seguravam o futuro que ele nunca ousara sonhar.