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Entre medo e Seda

Reflexos no Vidro Quebrado

A manhã seguinte no Colégio High Seoul surgiu envolta em uma névoa densa, como se o próprio clima estivesse tentando esconder os segredos que os corredores guardavam. Para Park Jimin, a noite havia sido curta. Cada vez que fechava os olhos, a voz de barítono de Jungkook ecoava em sua mente, um lembrete constante de que o perigo tinha um rosto — e um rosto terrivelmente hipnotizante.

Jimin caminhava em direção ao seu armário, sentindo o peso do caderno de desenhos dentro da mochila. Ele se sentia exposto. Agora que Jungkook sabia de sua existência, o anonimato que o protegia parecia ter evaporado. Ele tentava manter a cabeça baixa, mas seus olhos, traidores, buscavam constantemente por aquela silhueta imponente entre a multidão de uniformes perfeitamente alinhados.

— Você está parecendo um passarinho assustado hoje, Jiminie — comentou Taehyung, surgindo ao seu lado e passando um braço pelos ombros do menor. — Relaxa. O Jeon provavelmente já esqueceu que você existe. Pessoas como ele não perdem tempo com quem não podem esmagar.

Jimin forçou um sorriso, embora a palavra "esmagar" tivesse causado um calafrio desconfortável em sua nuca.

— Eu espero que sim, Tae. Só quero que as coisas voltem ao normal.

Mas o "normal" de Jimin foi interrompido assim que ele abriu seu armário. Um pequeno pedaço de papel, arrancado de forma grosseira de um caderno, caiu aos seus pés. Jimin franziu o cenho e se abaixou para pegá-lo. Não havia nome, apenas uma frase escrita com uma caligrafia agressiva, mas estranhamente elegante: "A gaiola de vidro é mais fácil de quebrar do que você imagina. Pare de olhar para o que não entende."

O coração de Jimin deu um solavanco. Ele não precisava de uma assinatura para saber quem havia escrito aquilo.

— O que é isso? — Taehyung tentou espiar, mas Jimin rapidamente amassou o papel e o guardou no bolso.

— Nada! Só... um lembrete de uma tarefa de casa que eu esqueci — mentiu Jimin, sentindo o rosto esquentar.

Durante a aula de artes, Jimin não conseguiu se concentrar. O professor falava sobre a técnica do chiaroscuro — o contraste entre luz e sombra —, e tudo o que Jimin conseguia pensar era no contraste entre ele e Jeon Jungkook. Ele pegou seu carvão e, sem perceber, começou a escurecer o fundo de sua folha, criando sombras profundas que pareciam engolir o papel branco.

— O mundo já é escuro — ele sussurrou para si mesmo, repetindo as palavras de Jungkook.

Ao final do período, Jimin decidiu que precisava de ar. Ele evitou o refeitório e subiu para o terraço do prédio antigo, um lugar que raramente era frequentado por causa das escadas íngremes e do vento constante. Ele precisava de silêncio para entender por que seu peito doía tanto toda vez que pensava no olhar solitário do "príncipe de gelo" da escola.

Ao abrir a porta pesada de metal, o vento frio atingiu seu rosto, bagunçando seus fios loiros. Mas ele não estava sozinho.

Encostado na grade de proteção, com um cigarro apagado entre os lábios e o olhar fixo no horizonte cinzento, estava Jungkook. Ele não usava o paletó do uniforme, apenas a camisa branca com as mangas dobradas até os cotovelos, revelando o início de algumas tatuagens que desapareciam sob o tecido.

Jimin travou. Ele deveria dar meia-volta. Ele deveria correr. Mas seus pés pareciam colados ao chão de cimento.

Jungkook não se virou, mas sua voz cortou o ar como uma lâmina.

— Você não sabe seguir instruções, não é, Park?

Jimin engoliu em seco, apertando as alças da mochila.

— Eu... eu não sabia que você estaria aqui. Este lugar costuma ser vazio.

Jungkook finalmente se virou. Seus olhos pareciam ainda mais escuros sob a luz nublada do dia. Ele caminhou lentamente em direção a Jimin, cada passo exalando uma predação silenciosa. Jimin não recuou desta vez. Ele permaneceu firme, embora suas mãos estivessem tremendo visivelmente.

— O que você quer de mim? — perguntou Jimin, a voz saindo mais corajosa do que ele se sentia. — Você me devolveu o caderno, me chamou de idiota e agora me deixa bilhetes ameaçadores no armário. Por que não me deixa em paz?

Jungkook parou a poucos centímetros dele. A diferença de altura e porte era intimidadora. Ele inclinou a cabeça, observando a expressão de Jimin com uma curiosidade fria.

— Bilhetes? — Jungkook soltou uma risada seca e sem diversão. — Você acha que eu perderia meu tempo escrevendo cartinhas para você? Eu não mando avisos, Park. Eu tomo o que quero e destruo o que me incomoda. Se há algo no seu armário, não veio de mim.

Jimin piscou, confuso. Se não foi Jungkook, quem teria visto o desenho da gaiola? Quem estaria observando-os?

— Mas... a letra... e o que estava escrito... — Jimin começou a dizer, mas Jungkook o interrompeu, segurando seu queixo com uma mão firme, mas não agressiva.

O toque era gélido, mas enviou uma descarga elétrica pelo corpo de Jimin.

— Escute bem — disse Jungkook, sua voz caindo para um tom perigosamente baixo. — Este colégio é um ninho de cobras. Eles veem você, essa coisa pequena e gentil, e veem um alvo. E se eles virem você perto de mim, o alvo fica ainda maior.

— Você está me protegendo? — Jimin perguntou, os olhos arregalados de surpresa.

Jungkook apertou um pouco mais o queixo de Jimin antes de soltá-lo bruscamente, como se o toque o queimasse.

— Não seja ridículo. Eu não protejo ninguém. Eu só detesto que usem meu nome para brincadeiras de mau gosto.

Jungkook deu as costas, mas Jimin, movido por um impulso que nem ele mesmo compreendia, estendeu a mão e segurou a manga da camisa de Jungkook.

— Por que você se esforça tanto para parecer cruel? — perguntou Jimin. — Eu vi o seu olhar ontem. Você não é assim o tempo todo. Ninguém consegue ser tão frio sem estar morrendo de frio por dentro também.

O silêncio que se seguiu foi sufocante. Jungkook ficou imóvel, as costas tensas. Por um momento, Jimin achou que ele fosse se virar e gritar, ou talvez algo pior. Mas quando Jungkook se voltou para ele, sua expressão não era de raiva. Era de uma indiferença tão absoluta que era quase dolorosa.

— Você acha que me conhece porque faz alguns desenhos bonitinhos, Park? — Jungkook deu um passo à frente, forçando Jimin a recuar até que suas costas batessem na parede de tijolos. — Você não tem ideia do que acontece quando o sol se põe nesta cidade. Você não sabe o que minhas mãos já tiveram que fazer para que eu pudesse sentar naquele trono de mármore que você tanto admira.

Jungkook colocou as mãos na parede, uma de cada lado da cabeça de Jimin, prendendo-o. O cheiro de sândalo e tabaco envolveu Jimin, tornando difícil o ato de respirar.

— Você é como um boneco de porcelana — continuou Jungkook, os olhos fixos nos lábios entreabertos de Jimin. — Tão delicado, tão fácil de quebrar. Eu poderia destruir você com um movimento. Eu poderia fazer você se arrepender de ter nascido com esse coração tão mole.

— Então por que não faz? — desafiou Jimin, as lágrimas de nervosismo começando a arder em seus olhos, mas seu olhar permanecendo fixo no de Jungkook. — Se você é tão cruel, se você me odeia tanto por ser "macio", por que ainda está aqui falando comigo? Por que não me empurra ou me humilha como faz com os outros?

Jungkook pareceu hesitar. Seus olhos desceram para o pescoço de Jimin, onde a pulsação do menor batia freneticamente. A máscara de gelo de Jungkook vacilou por um milésimo de segundo, revelando uma fome que não tinha nada a ver com crueldade e tudo a ver com necessidade.

— Porque você é irritante — murmurou Jungkook, aproximando o rosto do de Jimin até que suas testas quase se tocassem. — Porque você brilha demais e isso dói nos meus olhos.

Antes que Jimin pudesse responder, o som da porta do terraço se abrindo ecoou pelo local. Jungkook se afastou instantaneamente, recuperando sua postura fria e impenetrável antes mesmo que a pessoa entrasse completamente.

Era um dos subordinados de Jungkook, um garoto do terceiro ano com olhar de poucos amigos.

— Jeon, o seu pai ligou. Ele quer você no escritório agora.

Jungkook não respondeu. Ele apenas lançou um último olhar para Jimin — um olhar que carregava um aviso silencioso e uma promessa sombria — e caminhou em direção à saída sem dizer mais uma palavra.

Jimin escorregou pela parede até se sentar no chão frio, o coração batendo tão forte que ele sentia cada batida em seus ouvidos. Ele levou a mão ao queixo, onde os dedos de Jungkook haviam tocado. A pele ainda parecia formigar.

Ele pegou o pedaço de papel amassado do bolso e o alisou. Se Jungkook não tinha escrito aquilo, quem teria? Ele olhou para a porta por onde o moreno havia saído e sentiu uma onda de tristeza. Jungkook vivia em um mundo de sombras, cercado por pessoas que o temiam ou que queriam usá-lo. E Jimin, com sua mania de querer curar tudo o que estava quebrado, sentia-se perigosamente atraído para o centro daquele abismo.

Ao voltar para a sala de aula, Jimin encontrou Taehyung o esperando com uma expressão preocupada.

— Onde você estava? Você perdeu o início da aula de história.

— Eu... eu me perdi no tempo no terraço — respondeu Jimin, sentando-se e abrindo seu caderno.

Ele folheou as páginas até chegar ao desenho dos olhos escuros que havia começado no dia anterior. Com traços rápidos e decididos, ele começou a desenhar algo novo ao redor daqueles olhos. Ele desenhou correntes, mas correntes que estavam começando a rachar. E, no meio das rachaduras, ele desenhou pequenas flores de cerejeira, frágeis e teimosas.

— O que é isso? — perguntou Taehyung, olhando para o desenho.

— É uma esperança — disse Jimin em voz baixa.

— Esperança de quê?

Jimin olhou para a janela, onde a névoa estava começando a se dissipar, revelando um pouco do sol pálido.

— De que até o gelo mais grosso pode derreter se receber luz o suficiente.

Taehyung suspirou, balançando a cabeça.

— Você é um romântico incurável, Jiminie. Só tome cuidado para não se queimar tentando derreter esse gelo específico. Algumas coisas são frias para proteger o que há dentro, mas outras são frias porque já morreram por dentro faz tempo.

As palavras de Taehyung ficaram gravadas na mente de Jimin pelo resto do dia. À tarde, quando as aulas finalmente terminaram, Jimin estava saindo pelo portão principal quando viu o carro preto de luxo estacionado à frente. O vidro fumê estava abaixado apenas o suficiente para que ele visse um par de olhos escuros o observando.

Jungkook não acenou. Ele não sorriu. Ele apenas o observou por alguns segundos antes de o vidro subir completamente e o carro arrancar, deixando para trás apenas o cheiro de sândalo e a incerteza.

Jimin caminhou para casa sentindo que o mundo não era mais o mesmo. Ele sabia que o encontro no corredor não tinha sido apenas um acaso do destino. Tinha sido o início de uma colisão. E enquanto ele olhava para suas próprias mãos, tão pequenas e delicadas, ele se perguntou se teria força suficiente para segurar Jungkook quando o resto do mundo decidisse soltá-lo.

Ao chegar em seu quarto, Jimin abriu o caderno na última página e escreveu uma pequena frase abaixo do desenho dos olhos:

"Mesmo nas sombras mais profundas, a luz encontra uma fresta. Eu serei a sua fresta, Jeon Jungkook, quer você queira ou não."

Ele não sabia que, naquele exato momento, em um escritório luxuoso e frio do outro lado da cidade, Jungkook estava sentado em uma poltrona de couro, olhando para um pequeno lenço de seda que havia caído do bolso de Jimin no terraço. O lenço tinha o mesmo cheiro de baunilha que estava assombrando os sonhos de Jungkook.

Jungkook apertou o tecido entre os dedos, uma expressão de conflito cruzando seu rosto normalmente impassível. Ele odiava aquela sensação. Ele odiava Park Jimin por fazê-lo sentir algo que não fosse tédio ou raiva.

— Você vai ser a minha ruína, pequeno idiota — sussurrou Jungkook para o silêncio da sala.

As peças estavam posicionadas no tabuleiro. A delicadeza de Jimin e a crueldade de Jungkook estavam prestes a se entrelaçar de uma forma que nenhum dos dois poderia prever. O colégio High Seoul seria o palco de uma dança perigosa entre o algodão-doce e o aço, onde o prêmio final era nada menos do que a alma de um e o coração do outro.

E, enquanto a noite caía sobre Seul, Jimin adormeceu com a imagem de um pássaro saindo de uma gaiola de vidro quebrada, voando em direção a um céu que, pela primeira vez, não parecia tão escuro assim.