entre mundos
Entre Páginas e Batimentos Acelerados
A manhã seguinte no Colégio Saint-Jude parecia envolta em uma névoa de expectativa. Eu mal consegui pregar o olho durante a noite, alternando entre terminar os biscoitos de aveia que prometi ao Keonho e revisar, pela décima vez, os tópicos de história que eu fingia não entender tão bem só para ter uma desculpa para estar perto dele. O frio de inverno começava a se infiltrar pelas frestas das janelas da escola, fazendo com que todos usassem os casacos pesados do uniforme, o que só deixava o ambiente mais aconchegante e, de certa forma, melancólico.
No intervalo, entreguei o pote de biscoitos para ele sob o olhar atento e brincalhão de Luis. Keonho sorriu, aquele sorriso que fazia meus joelhos fraquejarem, e cumpriu sua promessa.
— Helena, a biblioteca fica mais vazia depois da última aula — ele disse, enquanto mastigava um dos biscoitos com uma expressão de pura satisfação. — Se você quiser, podemos passar uma hora lá revisando aquela parte das revoluções. O que acha?
Eu apenas assenti, temendo que se abrisse a boca, soltaria um grito de fangirl. Combinamos o horário e, assim que o último sinal do dia tocou, eu praticamente voei para o andar superior, onde a biblioteca silenciosa e cheirando a papel antigo me esperava.
Cheguei primeiro. O lugar estava mergulhado em um silêncio reverente, quebrado apenas pelo som distante do vento batendo nas vidraças. Deixei minha mochila em uma das mesas de madeira escura ao fundo e comecei a procurar pelo livro de apoio que o professor de história havia recomendado. Eu sabia que ele estava na seção de humanidades, em uma das estantes mais altas, perto da janela.
Avistei a lombada azul-escura. Estava lá, no topo, parecendo zombar da minha altura. Eu me estiquei, ficando na ponta dos pés, meus dedos roçando a base do livro, mas ele teimosamente permanecia fora de alcance. Tentei dar um pequeno pulo, sentindo o ar frio da biblioteca contra meu rosto, mas nada.
— Vamos lá, só mais um pouco... — sussurrei para mim mesma, frustrada.
Eu estava prestes a desistir e procurar uma escada quando senti uma presença atrás de mim. Antes que eu pudesse me virar, um par de mãos grandes e firmes apareceu sobre as minhas, alcançando o livro com uma facilidade desconcertante. O calor que emanava daquela pessoa envolveu minhas costas, e o perfume familiar — uma mistura de amaciante de roupas e algo levemente cítrico — invadiu meus sentidos.
Eu reconheceria aquelas mãos em qualquer lugar. Os dedos longos, as unhas bem cuidadas de um artista, a pele clara. Era o Keonho.
Ele puxou o livro da prateleira, mas não se afastou imediatamente. Por um segundo eterno, ficamos ali, com ele praticamente me cercando contra a estante. Quando ele finalmente se moveu para me entregar o volume, nossas mãos se tocaram novamente. A pele dele estava fria por causa do trajeto entre os prédios da escola, mas o toque enviou uma descarga elétrica por todo o meu corpo.
Eu me virei lentamente e perdi o fôlego. Keonho estava mais lindo do que nunca. O frio havia deixado suas bochechas e a ponta do nariz com um tom de vermelho vívido, contrastando com sua pele pálida e os cabelos escuros levemente bagunçados pelo vento. Ele usava um cachecol cinza que emoldurava seu rosto de forma perfeita.
Já as minhas bochechas... eu tinha certeza de que estavam pegando fogo. E eu sabia que ele sabia que não era por causa do clima.
Ficamos em silêncio por alguns segundos, apenas nos encarando. Os olhos dele, escuros e profundos, pareciam ler cada pensamento confuso que passava pela minha cabeça. A proximidade era tanta que eu conseguia ver o vapor da sua respiração.
— Você é um pouco baixinha para essas estantes, não acha? — ele soltou uma risadinha baixa, um som aveludado que ecoou no meu peito.
Ele desviou o olhar primeiro, parecendo subitamente tímido, e apontou para a mesa onde eu havia deixado minhas coisas.
— Vamos sentar? O frio lá fora está de matar, mas aqui dentro está bom para estudar.
Eu continuei parada por alguns instantes, tentando processar o que acabara de acontecer. O toque, o cheiro, o olhar... parecia uma cena saída diretamente de um dorama coreano, só que desta vez, eu era a protagonista. Respirei fundo, tentando recuperar a compostura, e me juntei a ele na mesa.
Passamos quase uma hora mergulhados nos livros. Keonho era um professor paciente e extremamente inteligente. Ele explicava os conceitos históricos como se estivesse contando uma história, gesticulando com as mãos enquanto eu tentava, desesperadamente, focar no conteúdo e não no modo como os lábios dele se moviam.
— Entendeu agora por que a queda da Bastilha foi o ponto de virada? — perguntou ele, fechando o livro didático.
— Sim, faz muito mais sentido quando você explica — respondi honestamente. — Você deveria considerar ser professor se a carreira de idol não desse certo, mas sabemos que isso é impossível, já que o Cortis está dominando o mundo.
Ele riu, recostando-se na cadeira e esticando os braços.
— Obrigado pelo voto de confiança, Helena. Mas acho que prefiro os palcos aos quadros negros.
Fizemos uma pausa. Eu estava com a cabeça cheia de datas e nomes, então peguei meu celular para relaxar um pouco antes de guardarmos tudo. O silêncio da biblioteca era confortável agora. Abri o TikTok, esperando ver alguns edits de dança ou vídeos de gatos para desopilar.
No entanto, o algoritmo tinha outros planos.
O primeiro vídeo que apareceu no meu feed foi um edit muito bem feito, com uma música romântica de fundo, mostrando clipes de Keonho em programas de música cortados junto com imagens da Wonhee, do grupo ILLIT. O título do vídeo dizia em letras garrafais: "Eles seriam o casal da nação? Vejam as interações!".
O sangue subiu à minha cabeça instantaneamente. Eu tinha um ciúme irracional, mas profundo, desses ships sem fundamento que a internet criava. Esqueci completamente, por um lapso de segundo, que o próprio alvo do vídeo estava sentado a menos de trinta centímetros de mim.
— É sério isso? — resmunguei, revirando os olhos com tanta força que quase doeu. — Eu já falei para o meu algoritmo que eles não combinam e que eu não quero ver vídeo dele com ela de novo. Que saco isso!
Minha voz saiu mais alta do que o permitido em uma biblioteca, carregada de uma indignação genuína. Com movimentos rápidos e irritados, cliquei na aba de opções do vídeo e selecionei "não tenho interesse", resmungando sobre como as pessoas inventavam coisas do nada.
Ainda submersa na minha bolha de frustração, virei o celular para a pessoa ao meu lado, buscando validação para o meu descontentamento.
— Você acha que esses dois combinam? Ou que ele sequer olharia para ela desse jeito? É óbvio que é tudo invenção de fã que não tem o que fazer, né? — perguntei, as palavras saindo em disparada.
Foi só quando terminei a frase que o choque de realidade me atingiu como um balde de água gelada.
O rosto de Keonho estava a poucos centímetros do meu. Ele tinha visto o vídeo. Ele tinha ouvido cada palavra do meu surto de ciúmes. Ele tinha ouvido eu me referir a ele na terceira pessoa enquanto ele estava bem ali.
Os olhos de Keonho estavam arregalados, e uma cor avermelhada, muito mais intensa do que a causada pelo frio, se espalhou por suas bochechas e chegou até as orelhas. Ele parecia ter perdido a capacidade de falar, olhando para a tela do meu celular e depois para mim com uma expressão de total surpresa e constrangimento.
— Eu... ah... — ele começou, mas a voz falhou.
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Eu senti meu rosto arder tanto que achei que poderia desmaiar. Eu tinha acabado de admitir, da forma mais vergonhosa possível, que não só consumia conteúdo sobre ele obsessivamente, como também detestava que o shippassem com outras idols. Eu tinha exposto meu lado "fangirl possessiva" para o meu utt.
— Meu Deus — sussurrei, a voz trêmula.
Eu não conseguia mais olhar para ele. A imagem dele envergonhado, com aquele olhar confuso e ao mesmo tempo doce, era demais para o meu coração e para a minha dignidade.
Sem dizer uma única palavra, comecei a enfiar meus livros e estojo de qualquer jeito dentro da mochila. Minhas mãos tremiam tanto que deixei minha caneta cair no chão, mas nem me dei ao trabalho de pegá-la. Eu precisava sair dali. Agora.
— Helena, espera... — Keonho tentou dizer, estendendo a mão na minha direção.
— Eu tenho que ir! Esqueci que tenho... um compromisso! Tchau, Keonho! — disparei, levantando-me tão rápido que a cadeira fez um barulho estridente no chão de madeira.
Saí da biblioteca quase correndo, sentindo as lágrimas de vergonha pinçarem meus olhos. Eu só conseguia pensar na expressão dele. Ele estava lindo, sim, mas o que ele pensaria de mim agora? Que eu era uma louca? Uma fã obcecada?
Enquanto descia as escadas do colégio em direção à saída, o ar frio da tarde bateu no meu rosto, mas não foi suficiente para apagar o incêndio que ainda queimava em minhas bochechas. O capítulo de hoje na biblioteca tinha começado como um sonho, mas terminou como o meu maior mico acadêmico e pessoal.
Eu só não sabia que, lá em cima, na mesa da biblioteca, Keonho ainda estava sentado, olhando para a porta por onde eu tinha acabado de sumir, com um sorriso pequeno e pensativo surgindo em seus lábios enquanto ele tocava a própria bochecha quente.