Entre o terror e o horror
O Labirinto de Vidro e Sangue
A brisa da manhã, que deveria trazer alívio, parecia carregar o cheiro metálico de moedas velhas e carne podre. Eles atravessaram o portão principal da Escola Santo Amaro, os pés tropeçando no asfalto irregular do estacionamento. O sol nascente era um disco pálido e frio, incapaz de aquecer o tremor que sacudia o corpo de Daniel.
— Acabou... — Gaby sussurrou, as mãos trêmulas tentando ajeitar o cabelo desgrenhado, um gesto automático de vaidade que parecia patético diante do terror que viveram. — Por favor, me digam que realmente acabou.
Lukas não respondeu. Ele caminhava alguns passos à frente, os punhos cerrados, a mandíbula travada. O silêncio de Leah, que caminhava ao lado de Gabriel, o corroía mais do que o medo daquela freira. Ele parou subitamente ao lado de seu carro, um sedã preto que brilhava sob o orvalho matinal.
— Entra no carro, Leah — comandou Lukas, a voz rouca, sem olhar para trás.
Leah parou, sentindo um peso no estômago que não vinha do sobrenatural. Ela olhou para Gabriel, que tinha um corte profundo no supercílio, e depois para Lukas.
— Eu não vou a lugar nenhum com você agora, Lukas — disse ela, a voz firme apesar do cansaço. — Eu preciso de espaço. Eu preciso processar o que aconteceu sem você gritando no meu ouvido sobre quem eu olho ou deixo de olhar.
— Leah, não começa — Lukas se virou, os olhos injetados de sangue. — Eu acabei de enfrentar um demônio por você!
— Você enfrentou o Gabriel! — Leah rebateu, dando um passo à frente. — O demônio estava bem na sua frente e você estava ocupado demais medindo forças com o meu melhor amigo.
Gabriel colocou a mão no ombro de Leah, um gesto de apoio que fez Lukas avançar um passo, mas Daniel interveio, a voz chorosa cortando a tensão.
— Gente, por favor... olhem...
Daniel apontava para a rua. A neblina, que deveria estar se dissipando com o sol, estava ficando mais densa. Mas não era uma neblina comum; era branca, sólida e silenciosa, engolindo os carros estacionados, as árvores e a própria estrada. Eles olharam para o portão da escola. A rua que deveria estar lá, com suas casas suburbanas e postes de luz, havia desaparecido. Havia apenas o branco.
— O que é aquilo? — Gaby perguntou, a voz subindo um tom. — Daniel, cadê a sua casa? A gente mora a dois quarteirões daqui!
Gabriel caminhou até o limite da calçada e estendeu a mão. Quando seus dedos tocaram a névoa, ele soltou um grito e puxou a mão de volta. Seus dedos estavam cobertos de uma geada negra, como se tivesse tocado em nitrogênio líquido.
— Não dá para passar — Gabriel disse, ofegante, esfregando a mão ferida. — É como uma barreira.
— Isso é impossível — Lukas rosnou, chutando o pneu do carro. — É só neblina!
Ele entrou no veículo, ligou o motor e engatou a marcha ré com violência. O motor rugiu, os pneus fritaram no asfalto, e o carro disparou em direção à saída.
— Lukas, para! — Leah gritou.
O carro atingiu a parede de névoa. Não houve som de impacto metálico, apenas um silêncio absoluto. O veículo não atravessou; ele simplesmente parou, como se tivesse batido em um bloco de concreto invisível, e então, diante dos olhos horrorizados do grupo, o metal começou a se retorcer. O para-brisa estilhaçou para dentro, mas os cacos de vidro não caíram; eles flutuaram no ar, girando como pequenos diamantes letais.
Lukas gritou lá dentro, tentando abrir a porta, mas a fechadura estava fundida.
— Tira ele de lá! — Gaby berrou, escondendo o rosto no peito de Daniel.
Gabriel e Leah correram em direção ao carro, mas antes que chegassem perto, uma força centrífuga arremessou o veículo de volta para o pátio da escola. O carro capotou duas vezes, parando de rodas para cima, amassado como uma lata de refrigerante.
— Lukas! — Leah correu até os destroços.
Lukas saiu rastejando pelo vidro quebrado, o rosto coberto de sangue, a arrogância finalmente drenada de seus olhos. Ele olhou para cima, para a fachada da escola Santo Amaro.
As luzes que eles haviam acendido no porão começaram a piscar ritmicamente. De cada janela do segundo andar, uma face pálida observava. Não era apenas a Freira. Eram crianças, com olhos costurados e bocas abertas em gritos silenciosos.
— A gente não saiu — murmurou Daniel, caindo de joelhos. — A gente nunca saiu da escola.
— Do que você está falando? — Gaby perguntou, soluçando. — A gente atravessou o portão!
— Olhem para o chão — disse Leah, a voz gélida.
Eles olharam. Sob seus pés, o asfalto do estacionamento estava começando a rachar, revelando não terra ou tubulações, mas o piso de linóleo encerado dos corredores da escola. As paredes de tijolos aparentes da fachada começaram a se esticar, dobrando-se sobre eles como se o céu estivesse sendo substituído por um teto de gesso.
O mundo exterior era uma ilusão. Eles estavam presos em uma dobra espacial, uma extensão do pesadelo que se alimentava de seus medos e discórdias.
— O rádio — Gabriel disse de repente, apontando para os destroços do carro de Lukas.
O rádio do carro, apesar de destruído, começou a chiar. Uma voz infantil, distorcida e carregada de estática, começou a cantar uma cantiga de ninar em latim. Entre os versos, um som de batida rítmica. *Toc... toc... toc...*
— É ela — sussurrou Gaby. — A boneca.
— Não é a boneca — corrigiu Leah, apontando para a porta principal da escola, que agora se abria lentamente. — É o que está dentro dela.
Uma figura baixa e atarracada saiu das sombras da entrada. Não era a boneca de porcelana, mas uma criatura que parecia feita de lama e dentes, arrastando a boneca Annabelle pelo braço como se fosse um troféu indesejado. Atrás dela, a Freira flutuava, sua presença fazendo a temperatura cair tanto que a pele de Lukas, já ferida, começou a rachar.
— Corram para o ginásio! — Gabriel gritou. — É o único lugar com portas largas o suficiente para não sermos cercados!
— E o que adianta correr? — Lukas gritou, sendo levantado por Gabriel. — Estamos presos em uma caixa de sapatos fantasmagórica!
— Se ficarmos parados, morremos agora! — Leah puxou Lukas pelo braço. — Move a bunda, Lukas!
Eles dispararam pelo pátio que se transformava. Onde antes havia grama, agora surgiam armários de metal que brotavam do chão como dentes de um gigante. Daniel tropeçou em um deles, quase sendo atingido por uma porta de armário que se abriu sozinha com a força de um tiro.
Eles entraram no ginásio e bateram as portas duplas. O silêncio ali dentro era opressor. O cheiro de suor antigo e verniz de madeira era sufocante.
— Daniel, me ajuda com as travas! — Gabriel pediu, mas Daniel estava paralisado.
No centro da quadra de basquete, um projetor de slides antigo estava ligado, embora não houvesse tomada por perto. Ele projetava imagens na parede do fundo. Eram fotos deles. Não fotos de anuário, mas fotos tiradas *agora*.
A primeira imagem mostrava Leah e Gabriel correndo. A segunda mostrava Lukas sangrando no carro. A terceira mostrava Gaby... com o pescoço virado em um ângulo impossível.
— Não... — Gaby recuou, tropeçando nos próprios pés. — Aquilo sou eu?
— É um aviso — Leah disse, pegando um bastão de beisebol que estava no canto da quadra. — Ou uma promessa.
De repente, as luzes do ginásio se apagaram. No escuro total, o som de dezenas de bolas de basquete quicando simultaneamente preencheu o espaço. *Tum... tum... tum...*
— Elas estão vindo de todos os lados! — Daniel gritou, girando em círculos.
Uma lanterna de emergência no teto acendeu, revelando que não eram bolas de basquete. Eram cabeças. Cabeças de manequins da sala de artes, todas pintadas para se parecerem com eles.
— Isso é doentio — Lukas murmurou, limpando o sangue do olho. — Leah, fica perto de mim.
— Eu não preciso que você me proteja, Lukas! — Leah disparou, a raiva superando o medo por um segundo. — Eu preciso que você seja útil!
— Útil? Eu estou quebrado, Leah! — Ele apontou para a perna, que parecia estar fora do lugar. — E você ainda está defendendo esse merda do Gabriel?
— Parem com isso! — Gaby gritou. — Vocês não percebem? É isso que elas querem!
Gaby apontou para as sombras. A Freira não estava atacando. Ela estava apenas observando, um sorriso macabro e imóvel em seu rosto pálido. Ao lado dela, a boneca Annabelle estava sentada em um banco de reserva, a cabeça inclinada para o lado, como se estivesse assistindo a uma peça de teatro.
— Elas se alimentam da nossa discórdia — Leah percebeu, baixando o bastão. — O ciúme do Lukas, o medo do Daniel, a minha arrogância... é combustível.
— Então o que a gente faz? — Gabriel perguntou, sem tirar os olhos da Freira. — A gente se abraça e canta "Kumbaya"?
— Não — Leah olhou para o projetor. — A gente destrói a fonte.
Ela correu em direção ao projetor de slides. A Freira soltou um rugido que fez as janelas do ginásio explodirem. Cacos de vidro voaram como projéteis. Gabriel se jogou sobre Gaby para protegê-la, enquanto Lukas, em um raro momento de lucidez, tentou interceptar a entidade que avançava em direção a Leah.
— Sai de perto dela! — Lukas gritou, agarrando uma rede de voleibol e tentando jogá-la sobre a forma incorpórea da Freira.
A entidade apenas atravessou a rede e, com um movimento de mão, lançou Lukas contra a tabela de basquete. O som do impacto foi seco e horrível.
— Lukas! — Leah hesitou por um segundo, mas Gabriel gritou:
— Continua, Leah! Destrói essa coisa!
Leah chegou ao projetor. Não era um slide comum; dentro da lente, ela viu o que parecia ser um coração humano, pequeno e enrugado, batendo em um ritmo frenético. O objeto não pertencia a este mundo.
Ela ergueu o bastão de beisebol.
— Isso é pelo meu sono de beleza! — Gaby gritou de repente, pegando uma bola de basquete e arremessando-a contra a boneca Annabelle, derrubando-a do banco.
O gesto de Gaby foi tão inesperado e absurdo que a Freira hesitou por um milésimo de segundo. Foi o suficiente.
Leah descarregou o bastão no projetor.
O estalo não foi de plástico quebrando, mas de um grito agonizante. Uma luz branca, mais pura e violenta do que a do porão, explodiu do aparelho. O ginásio inteiro pareceu se dissolver em chamas frias.
Leah sentiu que estava caindo. Ela ouviu os gritos de seus amigos, o rosnado da Freira e, por fim, um silêncio absoluto.
Quando ela abriu os olhos, estava deitada no asfalto frio.
Desta vez, o sol estava realmente alto. O cheiro era de grama cortada e escapamento de ônibus escolar. Ela se sentou, tossindo, e viu Gabriel a poucos metros, ajudando Daniel a se levantar. Gaby estava sentada no chão, chorando baixinho, mas inteira.
Lukas estava encostado no pneu de seu carro. O veículo não estava capotado, mas o para-brisa estava trincado, exatamente onde a cabeça dele teria batido na ilusão.
— A gente... a gente saiu? — Daniel perguntou, a voz rouca.
Leah olhou para a escola Santo Amaro. Parecia apenas um prédio velho e mal cuidado sob a luz do dia. Não havia rostos nas janelas, nem névoa no portão.
— Sim — Leah disse, levantando-se com dificuldade. — Eu acho que sim.
Lukas olhou para ela. Havia algo diferente em seus olhos — não era mais apenas ciúme, era uma compreensão sombria. Ele não disse nada, apenas entrou no carro e deu a partida. O motor tossiu, mas pegou.
— Você vem? — ele perguntou a Leah, mas sua voz não era um comando. Era um pedido, quase um súplica.
Leah olhou para Gabriel, que limpava o sangue do rosto com a manga da camisa. Depois olhou para a escola.
— Não, Lukas — ela respondeu suavemente. — Eu vou com o Gabriel e a Gaby. A gente precisa ir ao hospital. E você também.
Lukas assentiu lentamente, fechou a porta e saiu do estacionamento, os pneus cantando no asfalto real.
— Acabou mesmo, Leah? — Gaby perguntou, segurando o braço da amiga.
Leah colocou a mão no bolso e sentiu algo frio e duro. Ela puxou o objeto. Era um pequeno pedaço de porcelana, um fragmento do rosto da boneca Annabelle, com um olho pintado que parecia segui-la.
Ela sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Olhou para o segundo andar da escola e, por um breve instante, as luzes da biblioteca piscaram uma única vez.
— Por enquanto, Gaby — Leah sussurrou, guardando o fragmento. — Por enquanto.
Eles caminharam em direção à rua, deixando para trás o silêncio pesado da Santo Amaro. Mas todos sabiam, no fundo de suas mentes traumatizadas, que algumas portas, uma vez abertas, nunca se fecham completamente. E a entidade que habitava aqueles corredores agora tinha os nomes de cada um deles gravados na escuridão.