Voltar ao resumo

Entre Sangue e Velas

O Fruto Proibido sob a Névoa

O inverno em Sleepy Hollow não era apenas uma estação, era um cerco. A neve caía pesada, abafando os sons da floresta e transformando a mansão Van Tassel em uma ilha de opulência e segredos cercada por um mar de brancura gélida. Dentro das paredes de carvalho, o ar era denso, carregado com o cheiro de pinho, cera de abelha e o medo silencioso que Ichabod Crane carregava como uma segunda pele.

Ele estava parado diante da janela de seu quarto, observando os flocos de neve rodopiarem no vazio. Seus dedos longos e nervosos tamborilavam contra o vidro frio. A lógica, sua outrora fiel companheira, parecia tê-lo abandonado completamente. Ele era um homem de leis, um investigador do progresso, e ainda assim, encontrava-se emaranhado em uma situação que desafiava tanto a moralidade da época quanto sua própria sanidade.

Uma batida suave na porta o fez saltar. Ele não precisava perguntar quem era. O ritmo era familiar, uma cadência que fazia seu coração martelar contra as costelas com uma urgência que nenhum tratado científico poderia explicar.

— Entre — murmurou ele, a voz falhando levemente.

Katrina entrou como um espectro de seda e sombras. Ela usava um vestido de veludo azul-escuro, com o corpete tão apertado que Ichabod sentia uma dor empática ao olhar para ela. O rosto dela, contudo, permanecia de uma serenidade enervante, seus olhos dourados refletindo a luz das poucas velas que iluminavam o aposento.

Ela fechou a porta e encostou-se nela, observando-o com aquele sorriso enigmático que sempre o deixava desarmado.

— O senhor parece ter visto um fantasma, Ichabod — disse ela, sua voz soando como um sussurro de vento nas folhas secas. — Ou talvez tenha sido o magistrado de Nova York em seus sonhos?

— Eu desejaria que fosse um fantasma, Katrina — respondeu ele, aproximando-se dela com passos rápidos e hesitantes. — Fantasmas podem ser catalogados, estudados... até mesmo exorcizados. Mas o que estamos enfrentando... isso é físico. É real. E está crescendo a cada hora que passa.

Ele parou a poucos centímetros dela, seus olhos descendo involuntariamente para a linha da cintura dela, onde o tecido do vestido parecia lutar contra as curvas sutis, mas inegáveis, que começavam a se formar.

— A cerimônia ainda falta três semanas — continuou ele, a voz baixando para um tom de urgência conspiratória. — Hoje, durante o desjejum, notei que a velha governanta, a senhora Lancaster, não tirava os olhos de você. Ela observou como você recusou o presunto defumado. Ela sussurrou para a criada. Katrina, se eles descobrirem...

Katrina deu um passo à frente, reduzindo o espaço entre eles até que Ichabod pudesse sentir o calor que emanava dela, um calor que contrastava violentamente com o frio do lado de fora. Ela pegou a mão trêmula dele e a levou, não ao seu rosto, mas ao seu ventre, pressionando a palma de Ichabod contra o veludo firme.

— Sente isso? — perguntou ela, inclinando a cabeça. — É o pulso de uma nova vida. Não é um crime, Ichabod. É o destino que selamos naquela noite na cripta.

Ichabod fechou os olhos, um suspiro trêmulo escapando de seus lábios. O toque era elétrico. Ele sentia a solidez do segredo deles sob sua mão, uma evidência biológica de sua própria "transgressão".

— É uma vida que nasce no pecado aos olhos desta vila — sussurrou ele. — Eles são puritanos, Katrina. Se souberem que o investigador de Nova York e a herdeira dos Van Tassel não esperaram pelas bênçãos da igreja, o escândalo nos destruirá antes mesmo do Cavaleiro ter a chance de tentar.

Katrina soltou um riso baixo, uma melodia que continha uma pitada de provocação.

— Então agora pertenço ao senhor de todas as formas possíveis — disse ela, seus olhos fixos nos dele, brilhando com uma intensidade quase sobrenatural. — O senhor me possuiu na terra dos mortos, e agora carrega sua marca em meu corpo vivo. Isso o assusta, mestre Crane? A ideia de que sua lógica não pode desfazer o que o desejo criou?

Ichabod engoliu em seco, sentindo o rosto esquentar. Ele era um homem de fatos, mas sob o olhar de Katrina, ele se sentia como um aluno sendo testado em uma matéria que nunca estudara.

— Você gosta disso — acusou ele, embora sem nenhuma raiva. — Você gosta de me ver neste estado de desordem mental.

— Eu gosto de ver o homem por trás do cientista — retrucou ela, deslizando os braços pelo pescoço dele, puxando-o para mais perto. — O cientista quer esconder a verdade sob véus e espartilhos. O homem... o homem quer me proteger. Qual deles o senhor vai ser esta noite?

— Eu serei o homem que fará o que for preciso — disse ele, sua voz ganhando uma firmeza súbita. — Mas precisamos ser cautelosos. A partir de amanhã, você deve alegar um mal-estar. Fique em seus aposentos o máximo possível. Diremos que o clima de Sleepy Hollow está afetando sua saúde delicada. Eu trarei seus livros e suas refeições.

— E como explicaremos o fato de o senhor passar tantas horas no quarto de uma dama solteira? — perguntou ela, arqueando uma sobrancelha.

— Eu sou um homem da ciência médica, lembra-se? — Ichabod tentou um sorriso fraco, que não alcançou seus olhos cansados. — Estarei monitorando seus "humores". Ninguém questionará a dedicação de um noivo preocupado com a saúde de sua futura esposa.

Katrina afastou-se ligeiramente, caminhando até a lareira. As chamas lançavam sombras longas que pareciam se fundir com as dobras de seu vestido.

— Tive um sonho esta noite, Ichabod — disse ela, mudando o tom de voz para algo mais sombrio, mais profundo. — Não foi um sonho sobre escândalos ou governantas curiosas.

Ichabod tencionou-se. Em Sleepy Hollow, os sonhos de Katrina raramente eram apenas sonhos.

— O que você viu?

— Vi uma criança caminhando sobre a neve — começou ela, olhando para as brasas. — Mas seus pés não deixavam pegadas. Ela carregava uma lanterna de prata, e por onde passava, a névoa se abria como se tivesse medo da luz que ela carregava. Ela não era uma criança comum, Ichabod. Ela tinha os seus olhos... mas o coração dela batia no ritmo das colinas.

Ichabod sentiu um calafrio que não vinha do inverno. Ele se aproximou dela, parando logo atrás de seus ombros.

— Você acha que... que esta criança herdará as sombras deste lugar? — perguntou ele, a superstição lutando contra sua razão e vencendo.

— Eu acho que ela será a ponte — respondeu Katrina, virando-se para ele. — Entre o seu mundo de máquinas e leis e o meu mundo de névoa e segredos. Mas para que ela nasça, precisamos sobreviver a este inverno.

Ela pegou uma tesoura de prata que estava sobre a mesa de Ichabod — um instrumento que ele usava para cortar bandagens — e, com um movimento rápido e gracioso, cortou um dos cordões de seda que apertavam as costas de seu próprio vestido.

O suspiro de alívio que ela soltou quando o tecido cedeu foi quase doloroso para Ichabod ouvir.

— Está ficando cada vez mais difícil respirar — confessou ela, a vulnerabilidade transparecendo por um momento em sua fachada de calma. — O ferro deste espartilho parece querer esmagar a vida que guardo.

Ichabod agiu sem pensar. Suas mãos, geralmente ocupadas com bisturis e lupas, moveram-se com uma delicadeza infinita. Ele ajudou-a a soltar os ganchos restantes, sentindo a tensão na pele dela diminuir. Quando o vestido finalmente se soltou, revelando a camisola de linho fino por baixo, a mudança era visível. O ventre de Katrina, embora ainda discreto sob as camadas de roupa, possuía uma redondeza suave, uma promessa silenciosa de um futuro que Ichabod ainda mal conseguia conceber.

Ele se ajoelhou diante dela, encostando a testa contra o abdômen dela, sentindo a respiração rítmica de Katrina.

— Eu prometo — sussurrou ele, as palavras abafadas pelo linho. — Eu não permitirei que nenhum mal alcance você ou... ou a ele. Eu enfrentarei o Cavaleiro, o Magistrado e toda a fúria de Sleepy Hollow se for necessário.

Katrina acariciou os cabelos negros e desordenados dele, seus dedos traçando as linhas de preocupação em sua testa.

— O senhor fala como um cavaleiro de romance, Ichabod — disse ela, com uma doçura que o fez tremer. — Mas não preciso de um herói de espada. Preciso do homem que sabe que a verdade é mais profunda que a superfície.

O silêncio voltou a reinar, quebrado apenas pelo estalo da lenha e pelo uivo do vento nas chaminés. Naquela penumbra, Ichabod sentia-se dividido. Uma parte dele, a parte que ainda pertencia às ruas pavimentadas e iluminadas de Nova York, gritava que aquilo era uma loucura, que ele estava se perdendo em uma teia de mentiras e misticismo. Mas a outra parte — a parte que nascera nas florestas de Sleepy Hollow, sob o toque de Katrina — sabia que aquela era a única verdade que importava.

— Precisamos de um plano para a cerimônia — disse ele, levantando-se e tentando recuperar sua compostura profissional, embora sua camisa estivesse desabotoada e seu olhar estivesse longe de ser clínico. — O reverendo é um homem observador. O vestido de noiva... ele precisará ser ajustado de uma forma que...

— Deixe o vestido comigo — interrompeu ela, com um brilho astuto nos olhos. — Eu mesma farei as alterações. Direi que é um costume antigo da minha família costurar fios de proteção na bainha. Ninguém ousará tocar no tecido ou questionar o formato. Em Sleepy Hollow, o medo do desconhecido é o nosso melhor aliado.

Ichabod assentiu, maravilhado com a capacidade dela de transformar a superstição da vila em uma arma a seu favor.

— Você é extraordinária, Katrina Van Tassel.

— E o senhor é um homem muito corajoso por amar uma mulher como eu — respondeu ela, aproximando-se da cama dele. — Agora, apague as velas. A noite é longa, e as sombras nos corredores têm ouvidos.

Ichabod obedeceu. Uma a uma, as chamas foram extintas, até que restasse apenas o brilho fraco das brasas na lareira. Ele deitou-se ao lado dela, sentindo o peso e o calor do corpo de Katrina contra o seu. Nos corredores da mansão, ele ouvia o ranger das tábuas do piso — talvez o vento, talvez os passos de um empregado curioso, ou talvez algo mais antigo que ainda vagava pela casa.

Ele a abraçou por trás, protegendo-a com seu próprio corpo, sua mão descansando protetoramente sobre o ventre dela. Naquela escuridão, a paranoia e o desejo dançavam juntos. Ele temia o amanhã, temia o julgamento dos homens e a fúria dos mortos, mas ali, no círculo sagrado de seus braços, Ichabod Crane sentia que tinha finalmente encontrado seu lugar no mundo.

— Ichabod? — a voz dela veio como um suspiro antes do sono.

— Sim?

— Você acha que ele será parecido conosco?

Ichabod pensou em sua própria mente inquieta, em sua busca incessante por respostas, e depois pensou na calma etérea e no mistério profundo de Katrina.

— Eu acho — começou ele, beijando o ombro dela — que ele será o mistério que eu passarei o resto da minha vida tentando resolver. E, pela primeira vez, não me importo se nunca encontrar a solução.

Lá fora, a tempestade aumentava, cobrindo o mundo de branco e escondendo os segredos de Sleepy Hollow sob uma camada impenetrável de gelo. Mas dentro do quarto, envoltos em seda e segredos, o investigador e a bruxa compartilhavam um sonho comum: um futuro onde a luz daquela criança finalmente dissiparia a névoa que os cercava. Até lá, eles permaneceriam nas sombras, tecendo seu destino ponto a ponto, fio a fio, esperando pelo dia em que não precisariam mais se esconder.