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Entre socos e resenhas

Entre o Sangue e o Suor

A luz da manhã de sábado entrou pelas frestas da janela do quarto do Keven, atingindo meus olhos com uma insistência irritante. Eu me revirei no colchão, sentindo cada músculo do meu corpo protestar. O treino de ontem não tinha sido apenas físico; o encontro com o Matheus no armário de equipamentos tinha deixado marcas que iam além dos roxos nas pernas. Meu pescoço ainda ardia onde ele havia deixado aquela marca, e a mensagem dele no celular ainda queimava na minha mente.

— Acorda, Babi. O Tio Júnior não perdoa atraso no sábado só porque você resolveu virar uma estátua — a voz do Keven veio lá da cozinha, acompanhada pelo cheiro de café forte.

Eu me levantei, tropeçando nos lençóis, e fui até o banheiro. Olhei-me no espelho e puxei a gola da camiseta. A marca estava lá, um roxo vívido que gritava "propriedade de Matheus Kelvin". Peguei um pouco de corretivo da minha mochila — que eu sempre deixava na casa do Keven para essas emergências — e comecei a batucar na pele até que a evidência do nosso pecado ficasse quase invisível.

— Rhaver passou aqui cedo — Keven disse assim que entrei na cozinha. Ele estava sentado à mesa, devorando um pão com ovo. — Ele parecia... estranho. Perguntou se você tinha dormido bem.

— E o que você disse? — perguntei, servindo-me de café.

— Disse que você apagou igual a um saco de pancada velho. Mas ele não é bobo, Babi. O Rhaver te conhece. Ele viu como você saiu do CT ontem.

— Eu não quero magoar ele, Kev. Mas eu não mando no que eu sinto quando o Matheus chega perto.

Keven suspirou, deixando o pão de lado por um momento. Ele se levantou e colocou a mão no meu ombro. A nossa conexão era algo que ninguém entendia; ele sabia quando eu estava com medo, quando estava feliz e quando estava prestes a fazer uma besteira monumental.

— O problema é que o Matheus é fogo e o Rhaver é o porto seguro. E você, minha irmã, adora brincar com fósforos num posto de gasolina. Só toma cuidado para não explodir o CT inteiro. O Tio Júnior mata a gente se o tatame pegar fogo.

Rimos, mas o clima de tensão não se dissipou totalmente. Terminamos o café e fomos para a casa do Tio Júnior. O CT de sábado era o mais puxado, focado em sparring e técnica de clinche. Quando atravessamos o portão lateral, o som dos chutes nos sacos pesados já ecoava.

Matheus estava lá, já de luvas, batendo com uma força absurda no saco de 1,80m. Cada impacto fazia o suporte de ferro ranger. Ele me viu entrar e seus olhos brilharam, um sorriso de canto de boca surgindo por apenas um segundo antes de ele voltar à sua máscara de "filho do mestre".

Rhaver estava no canto oposto, fazendo sombra. Ele parou assim que me viu e caminhou em minha direção.

— Bom dia, Babi — ele disse, a voz suave, mas os olhos fixos no meu pescoço, procurando a marca que ele tinha visto na noite anterior.

— Bom dia, Rhaver. Pronta para apanhar hoje? — tentei brincar, mas minha voz saiu um pouco falha.

— Eu nunca bateria em você. Mas posso te ensinar a se defender de quem tenta te marcar — ele respondeu, com uma seriedade que me deu um frio na espinha.

— Chega de papo! — A voz de trovão do Tio Júnior cortou o ar. — Todo mundo para o aquecimento. Cinquenta polichinelos, cinquenta agachamentos e dez minutos de corda. Agora!

O treino começou com a intensidade de sempre. O suor começou a brotar na minha testa e a adrenalina tomou conta. No muay thai, você não tem tempo para pensar em problemas amorosos quando tem um chute vindo em direção à sua costela. Mas hoje, a energia no CT estava diferente. Matheus e Rhaver pareciam estar em uma competição silenciosa de quem batia mais forte, quem gritava mais alto a cada golpe.

— Duplas para o sparring técnico! — Tio Júnior comandou. — Keven com o Rhaver. Matheus com a Bárbara.

Meu coração deu um salto. Olhei para o Keven, que apenas balançou a cabeça com uma expressão de "eu te avisei". Matheus caminhou até mim, colocando o protetor bucal. Ele parecia um predador.

— Vai com calma, Kelvin — eu sussurrei enquanto subíamos no ringue elevado.

— Eu sempre vou com calma com você, Babi — ele respondeu, a voz abafada pelo protetor, mas o olhar carregado de segundas intenções.

Começamos o round. Matheus era técnico, preciso. Ele usava o jab para manter a distância e, ocasionalmente, entrava para o clinche, onde sua força era avassaladora. Em um desses momentos, ele me puxou pela nuca, as luvas fechando-se atrás da minha cabeça de forma firme.

— Você escondeu a marca — ele sussurrou no meu ouvido enquanto fingia me dar joelhadas leves nas coxas. — Mas eu sei que ela está lá.

— Matheus, foca no treino — eu respondi, tentando me desvencilhar, mas ele me apertou mais.

— Eu estou focado. Focado no que eu quero fazer com você assim que meu pai sair daqui.

Do outro lado do CT, Rhaver parou o sparring com Keven por um segundo, observando a proximidade excessiva entre nós. Ele desferiu um chute no aparador do Keven com tanta força que o som pareceu uma explosão.

— Concentra aqui, Rhaver! — Keven gritou, tentando chamar a atenção do amigo.

O treino terminou uma hora depois. Eu estava exausta, meu corpo tremendo pelo esforço. O Tio Júnior anunciou que ia até a farmácia comprar algumas faixas novas e que Matheus ficaria encarregado de fechar tudo. Era a oportunidade que Matheus queria.

Keven se aproximou de mim enquanto eu tirava as caneleiras.

— Eu vou levar o Rhaver para casa comigo. Vou tentar distrair ele com um videogame ou algo assim. Mas Babi... juízo.

— Obrigada, Kev. De verdade.

Rhaver passou por mim, o cabelo molhado de suor, o semblante fechado.

— Toma cuidado, Bárbara — ele disse, sem me olhar nos olhos. — Às vezes a gente se machuca mais fora do ringue do que dentro dele.

Ele saiu sem esperar resposta. Fiquei ali, sentada no banco, o silêncio começando a tomar conta do CT conforme os outros alunos iam embora. Matheus estava no fundo, guardando os aparadores. Quando o último aluno cruzou o portão e o som do carro do Tio Júnior se afastou, ele se virou para mim.

— Finalmente — ele disse, caminhando lentamente em minha direção.

Ele parou na minha frente e estendeu a mão, puxando-me para cima. Sem dizer uma palavra, ele me conduziu para a pequena sala de materiais, um lugar apertado, cheio de sacos de pancada reserva e cheirando a couro e suor. Ele fechou a porta e me prensou contra ela.

— Você não sabe o quanto foi difícil ficar longe de você hoje — ele disse, sua voz agora rouca, os olhos percorrendo meu rosto com uma fome que me fazia esquecer qualquer cansaço.

— O Rhaver percebeu, Matheus. O Keven também. Estamos correndo um risco enorme.

— Eu não me importo com os riscos. Eu só me importo com isso — ele respondeu, atacando meus lábios com uma urgência selvagem.

Suas mãos, ainda ásperas do treino, subiram pelas minhas coxas, por baixo do meu calção de muay thai. Eu soltei um suspiro pesado, minhas unhas cravando-se nos ombros dele. O calor ali dentro era sufocante, mas de um jeito bom. Matheus me levantou, e eu entrelacei minhas pernas na cintura dele, sentindo cada músculo do seu corpo rígido contra o meu.

— Você é tão linda quando está brava no treino — ele murmurou entre beijos no meu pescoço, encontrando exatamente o ponto onde eu tinha tentado esconder a marca. — Mas eu prefiro você assim. Só minha.

Ele me colocou sobre uma pilha de colchonetes dobrados. A luz que entrava pela claraboia iluminava o suor que ainda brilhava na pele dele. Matheus tirou a própria camiseta, revelando o abdômen definido e as cicatrizes de anos de lutas. Ele era a personificação da força e da rebeldia, e eu estava completamente rendida.

Nossos corpos se encontraram em uma dança muito mais íntima e perigosa do que qualquer round de muay thai. Cada toque dele era um golpe certeiro no meu autocontrole. Ele sabia exatamente onde me tocar, como me fazer perder o fôlego. O som dos nossos gemidos baixos era a única trilha sonora, abafada pelas paredes grossas do CT.

— Matheus... — eu chamei seu nome, sentindo uma onda de prazer me atingir quando ele se moveu dentro de mim com uma intensidade que me fazia ver estrelas.

— Diz que você me quer — ele exigiu, os olhos fixos nos meus, uma chama de possessividade queimando neles. — Diz que você não quer o Rhaver, nem nenhum outro.

— Eu quero você... sempre foi você — confessei, a verdade saindo de mim de forma crua.

Ficamos ali por um tempo depois, abraçados sobre os colchonetes, tentando recuperar o fôlego enquanto o mundo lá fora continuava a girar. Eu sabia que, assim que saíssemos daquela sala, as complicações voltariam. O Rhaver ainda estaria sofrendo, o Tio Júnior ainda seria o mestre rigoroso, e o Keven continuaria sendo o meu álibi constante.

— Eu preciso ir — eu disse, finalmente, começando a me vestir. — O Keven deve estar estranhando a demora.

— Deixa ele estranhar. Ele sabe que você está segura comigo.

— Segura? Matheus, você é a coisa mais perigosa da minha vida.

Ele riu, um som seco e vitorioso, e me deu um último beijo rápido antes de abrirmos a porta da sala. Saímos do CT com cuidado, verificando se não havia ninguém por perto.

Caminhei de volta para a casa do Keven, sentindo o corpo leve e, ao mesmo tempo, pesado de culpa. Quando entrei, a cena era exatamente como Keven tinha planejado: ele e Rhaver estavam sentados em frente à TV, jogando um jogo de luta.

— Chegou a marginal — Keven brincou, sem tirar os olhos da tela. — Demorou para fechar o CT, hein? O Matheus te deu aula extra de quê?

Rhaver não disse nada, mas apertou os botões do controle com uma força desnecessária. Eu me sentei no braço do sofá, tentando parecer o mais natural possível.

— O Tio Júnior esqueceu de conferir as janelas, tive que ajudar o Matheus — menti, sentindo o peso da palavra "ajudar".

— Sei — Rhaver disse, finalmente me olhando. Seus olhos estavam tristes, mas havia uma faísca de algo novo ali. Respeito? Ou talvez a aceitação de uma derrota iminente? — Você está com o cabelo todo bagunçado, Babi. E o corretivo no seu pescoço... saiu um pouco.

O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Keven parou de jogar. Eu levei a mão ao pescoço, sentindo o calor subir pelo meu rosto. Não havia como negar. Não havia como lutar contra a evidência.

— Rhaver... — comecei, mas ele se levantou, deixando o controle no sofá.

— Não precisa explicar, Babi. Eu não sou seu dono. E o Keven também não. Só... só toma cuidado. O Matheus é filho do mestre, mas ele não tem a disciplina do pai fora do ringue. Ele vai acabar te metendo em confusão com o Tio Júnior.

Rhaver caminhou até a porta, parando por um segundo antes de sair.

— Eu te amo, você sabe disso. Mas eu cansei de lutar uma luta onde o juiz já deu a vitória para o outro antes mesmo do primeiro round.

A porta se fechou com um clique suave, que pareceu um estrondo no meu coração. Keven suspirou profundamente e desligou o videogame.

— E agora, Babi? O que a gente faz?

— Eu não sei, Kev — respondi, desabando no sofá. — Eu só sei que o próximo treino vai ser um inferno.

— Vai mesmo — Keven concordou, passando o braço pelos meus ombros. — Mas olha pelo lado positivo: pelo menos a pizza de hoje é por minha conta. Você vai precisar de energia. Porque se o Tio Júnior descobrir o que vocês andam fazendo na sala de materiais, o treino de muay thai vai ser a menor das suas preocupações.

Eu fechei os olhos, sentindo o cansaço me vencer. Eu tinha o homem que queria, mas o preço por esse desejo estava ficando cada vez mais alto. No mundo das lutas, dizem que o golpe que você não vê é o que te nocauteia. E eu tinha a sensação de que o nocaute estava vindo, e eu não tinha a menor ideia de como me esquivar.

Naquela noite, meu celular vibrou.

"Matheus Kelvin (Privado): Você deixou seu elástico de cabelo aqui. Vou guardar comigo. Como um troféu."

Sorri, apesar de tudo. A guerra estava longe de acabar, mas, por enquanto, eu estava disposta a lutar cada round, mesmo que terminasse com o coração em frangalhos e as mãos sangrando. Porque, no final das contas, o muay thai e o amor tinham algo em comum: ambos exigiam que você desse tudo de si, sem garantias de vitória. E eu nunca fui de fugir de uma boa briga.