Entre sombras e janelas
O Labirinto das Intenções
A manhã seguinte em Seul nasceu com uma névoa densa, mas para Park Jimin, o mundo parecia ter ganhado cores saturadas e vibrantes. Ele acordou com o coração leve, embora o frio na barriga persistisse sempre que a imagem de Jeon Jungkook em seu corredor voltava à mente. O toque dos dedos do mafioso em seu queixo parecia ter deixado uma marca invisível, uma queimadura gelada que o fazia sorrir como um bobo enquanto preparava suas torradas.
Jimin cumpriu sua promessa. Ao passar pela sala, ele não apenas deixou as cortinas de renda abertas, mas escancarou as janelas de vidro, permitindo que o ar fresco da manhã entrasse. Ele olhou para a mansão industrial e, por um breve segundo, viu um vulto na sacada. Não houve aceno, não houve sorriso, mas a presença estava lá. Jungkook estava cumprindo sua parte do acordo.
O dia na biblioteca onde Jimin trabalhava passou como um borrão. Ele organizou prateleiras de literatura clássica, carimbou cartões de devolução e ajudou idosos a encontrar livros de jardinagem, mas sua mente estava atravessando a rua, entrando naquela mansão de concreto e aço. Ele se perguntava o que um homem como Jungkook comia no café da manhã. Será que ele bebia sangue ou apenas café puro e amargo? Jimin riu de seus próprios pensamentos bobos.
Ao entardecer, Jimin retornou para casa carregando uma sacola de papel com maçãs e um novo livro de poesias que havia pegado emprestado. Assim que entrou no prédio, sentiu uma atmosfera diferente. O porteiro, um senhor que geralmente cochilava atrás do balcão, estava estranhamente ereto e pálido.
— Tudo bem, Sr. Choi? — perguntou Jimin, parando por um momento.
— Sim, sim, jovem Park... — o homem gaguejou, desviando o olhar para um carro preto de vidros escuros estacionado logo em frente à entrada. — Apenas... tenha cuidado ao subir.
Jimin franziu o cenho, mas assentiu. Ele subiu as escadas, pois o elevador parecia demorar uma eternidade. Quando chegou ao seu andar, o cheiro o atingiu primeiro. Não era o cheiro de mofo do corredor antigo, mas aquele perfume de sândalo e tabaco.
Parado à porta do apartamento 302, estava um homem que Jimin não conhecia. Ele era enorme, vestia um terno preto impecável e tinha uma cicatriz que cortava a sobrancelha esquerda. Jimin parou abruptamente, apertando a sacola de maçãs contra o peito.
— O senhor... precisa de algo? — Jimin perguntou, a voz trêmula.
O homem não respondeu de imediato. Ele apenas abriu a porta para o lado, revelando que a entrada do apartamento de Jimin já estava destrancada.
— O chefe está esperando — disse o segurança, com uma voz que parecia o rosnar de um motor.
Jimin engoliu em seco. "O chefe". Ele entrou em sua própria casa sentindo-se um intruso. As luzes estavam apagadas, exceto pela luminária de pé no canto da sala, que criava sombras longas e dramáticas. Sentado em sua poltrona favorita — a poltrona de onde Jimin costumava espiar a rua —, estava Jeon Jungkook.
Ele não usava terno hoje. Vestia uma camisa de seda preta com os três primeiros botões abertos e uma calça de alfaiataria escura. Ele parecia perigosamente relaxado, com uma perna cruzada sobre a outra e um livro nas mãos. O livro de Jimin.
— Você tem um gosto interessante para literatura, passarinho — disse Jungkook, sem desviar os olhos das páginas. — "O Retrato de Dorian Gray". Um homem que vende a alma para manter a beleza... soa familiar para você?
Jimin fechou a porta atrás de si, tentando ignorar o fato de que havia um guarda-costas armado logo do outro lado.
— É um clássico — respondeu Jimin, caminhando lentamente até a cozinha para deixar as compras, tentando manter a normalidade. — Mas não acho que o senhor tenha vendido sua alma. Acho que apenas a escondeu muito bem.
Jungkook finalmente fechou o livro e levantou o olhar. A intensidade de suas pupilas fez os joelhos de Jimin fraquejarem.
— Você continua fazendo isso — observou Jungkook, levantando-se com uma elegância predatória. — Continua tentando encontrar humanidade onde só existe gelo. Por que não fugiu quando viu meu homem no corredor? Qualquer pessoa sã teria corrido na direção oposta.
Jimin suspirou, virando-se para encará-lo.
— Eu não sou muito bom em fugir. E... eu sabia que era o senhor. Seu perfume está por todo o corredor.
Jungkook caminhou até ele, diminuindo a distância até que Jimin estivesse prensado contra o balcão da cozinha. O mafioso estendeu a mão e pegou uma das maçãs da sacola de Jimin, girando-a entre os dedos tatuados.
— Eu vim lhe fazer um convite — disse Jungkook, sua voz descendo para aquele tom rouco que fazia Jimin arrepiar-se por inteiro. — Já que você gosta tanto de observar de longe, achei que seria justo mudar a perspectiva. Vou dar um jantar na minha casa amanhã à noite.
Jimin arregalou os olhos.
— Um jantar? Mas... seus amigos são... como o senhor?
Jungkook soltou uma risada sombria.
— Eu não tenho amigos, Jimin. Tenho aliados e inimigos. E não, o jantar não é para eles. É para nós. Quero que você veja o que há por trás daquelas janelas que você tanto admira.
— Por que eu? — Jimin perguntou, a curiosidade superando o medo. — Eu sou apenas um vizinho comum. O senhor poderia ter qualquer pessoa naquela mesa.
Jungkook aproximou o rosto do de Jimin, a ponto de suas respirações se misturarem. Ele levou a maçã aos lábios de Jimin, encostando a casca fria na boca entreaberta do menor.
— Porque ninguém mais olha para mim como se eu fosse um milagre e um desastre ao mesmo tempo — sussurrou Jungkook. — Todos me olham com medo ou ganância. Você me olha com... — ele hesitou, procurando a palavra — ...fascínio puro. E eu descobri que sou viciado nisso.
Jimin sentiu o coração martelar contra as costelas. Ele levou as mãos hesitantes até o peito de Jungkook, sentindo a firmeza dos músculos sob a seda.
— Eu irei — disse Jimin, a voz firme apesar da timidez. — Mas com uma condição.
Jungkook arqueou uma sobrancelha, achando graça da audácia do pequeno loiro.
— Condições? Você é corajoso, passarinho. Diga.
— O senhor tem que me deixar fazer as perguntas que eu quiser. Sem segredos, pelo menos por uma noite.
Jungkook ficou em silêncio por um longo momento, estudando o rosto angelical à sua frente. Ele sabia que abrir sua vida para Jimin era um risco. No seu mundo, informação era munição. Mas havia algo em Jimin que o desarmava, algo que o fazia querer baixar a guarda apenas para ver até onde aquela luz chegaria.
— Está bem — concordou Jungkook, dando uma mordida na maçã e deixando-a sobre o balcão. — Uma noite de verdades.
Ele se afastou, caminhando em direção à porta. Antes de sair, parou e olhou para trás.
— Esteja pronto às oito. Meu motorista virá buscar você. E Jimin...
— Sim?
— Use algo que faça você se sentir bonito. Embora eu duvide que você precise de muito esforço para isso.
A porta se fechou, e Jimin desabou em um suspiro longo, segurando-se no balcão para não cair. Ele olhou para a maçã com a marca da mordida de Jungkook e sentiu o rosto queimar. Ele ia jantar com um mafioso. Ele ia entrar no covil do lobo por vontade própria.
No dia seguinte, a ansiedade de Jimin atingiu níveis estratosféricos. Ele passou a tarde vasculhando seu guarda-roupa modesto. Acabou escolhendo uma blusa de seda branca com gola laço e uma calça preta justa que realçava suas curvas delicadas. Ele penteou o cabelo loiro para trás, deixando alguns fios caírem sobre a testa, e aplicou um pouco de brilho labial.
Exatamente às oito horas, o interfone tocou.
O trajeto de carro durou menos de dois minutos, já que era apenas cruzar a rua e entrar pelo portão principal, mas para Jimin, pareceu uma viagem para outro planeta. A mansão era ainda mais imponente de perto. Por dentro, o minimalismo industrial era suavizado por obras de arte caríssimas e uma iluminação quente.
Jungkook o esperava no topo da escadaria de mármore negro. Ele usava um terno cinza-chumbo, sem gravata, e o relógio em seu pulso brilhava sob as luzes do lustre de cristal.
— Você está deslumbrante, Jimin — disse Jungkook, sua voz ecoando pelo hall vasto.
— Obrigado — respondeu Jimin, subindo os degraus com cuidado. — Sua casa é... incrível. Um pouco fria, talvez, mas incrível.
— É uma fortaleza — corrigiu Jungkook, oferecendo o braço para Jimin. — Mas esta noite, vamos fingir que é apenas uma casa.
Eles foram conduzidos a uma sala de jantar onde uma mesa longa estava posta para apenas dois. O jantar foi servido por funcionários silenciosos que pareciam fantasmas de terno. A comida era sofisticada, mas Jimin mal conseguia sentir o gosto, focado demais no homem à sua frente.
Conforme o vinho era servido, Jimin lembrou-se de sua condição.
— Minha primeira pergunta — começou ele, limpando os lábios com o guardanapo de linho.
Jungkook inclinou-se para trás, girando a taça de vinho tinto.
— Sou todo ouvidos.
— Por que o senhor faz o que faz? — Jimin perguntou, os olhos curiosos fixos nos dele. — O senhor é inteligente, culto... poderia ser qualquer coisa. Por que escolher um caminho com tanta violência?
O olhar de Jungkook tornou-se distante, uma sombra cruzando seu rosto.
— No lugar onde eu cresci, Jimin, ou você é o martelo ou é o prego. Eu vi minha família ser destruída porque eles tentaram ser honestos em um mundo de trapaceiros. Eu decidi que ninguém nunca mais me batesse. Eu me tornei o martelo para que o mundo tivesse medo de me tocar.
Jimin sentiu uma pontada de tristeza. Ele estendeu a mão sobre a mesa, tocando levemente a mão de Jungkook.
— Mas o senhor não se sente cansado? De ter que ser forte o tempo todo?
Jungkook olhou para a mão pequena sobre a sua. O contraste era gritante: a pele pálida e macia de Jimin contra as suas cicatrizes e tatuagens.
— Às vezes — admitiu ele, em um sussurro quase inaudível. — Mas o cansaço é um luxo que eu não posso me permitir. Se eu baixar a guarda por um segundo, tudo o que construí desmorona.
— Até agora? Comigo? — Jimin insistiu.
Jungkook soltou um suspiro pesado, virando a mão para entrelaçar seus dedos nos de Jimin.
— Você é a única exceção, passarinho. Por algum motivo que eu ainda não entendo, você me faz sentir que o martelo pode descansar.
O resto do jantar seguiu com conversas mais leves, embora a tensão sexual e emocional entre eles fosse quase palpável. Jungkook contou histórias sobre suas viagens, omitindo as partes sangrentas, e Jimin falou sobre seus livros favoritos e como as flores de sua varanda pareciam mais felizes desde que ele começou a conversar com elas.
Após a sobremesa, Jungkook levou Jimin até a sacada, o mesmo lugar onde tudo começou. A vista de Seul à noite era de tirar o fôlego, um mar de luzes que parecia infinito.
— Você me perguntou se eu era uma tragédia — disse Jungkook, parando perto da balaustrada. — Ainda acha isso?
Jimin olhou para ele, o vento da noite bagunçando seus fios loiros.
— Acho que toda tragédia tem um momento de beleza antes do fim. E eu acho que este momento... é o mais bonito de todos.
Jungkook não aguentou mais. Ele puxou Jimin pela cintura, trazendo-o para perto. Jimin soltou um arquejo suave, as mãos subindo para os ombros do mafioso.
— Você não deveria estar aqui, Jimin — murmurou Jungkook, seu rosto a centímetros do dele. — Você deveria estar longe de mim, em segurança, lendo seus poemas.
— Eu não quero segurança — sussurrou Jimin, fechando os olhos. — Eu quero o senhor.
Jungkook selou seus lábios nos de Jimin com uma urgência que vinha de semanas de desejo reprimido. O beijo não foi doce; foi uma explosão de necessidade e possessividade. Tinha o gosto de vinho e de perigo. Jimin gemeu contra a boca de Jungkook, entregando-se totalmente ao toque firme e às mãos que o apertavam como se ele fosse a única coisa real naquele mundo de sombras.
Quando se separaram, ambos estavam ofegantes. Jungkook encostou a testa na de Jimin, os olhos fechados.
— Agora eu não posso mais deixar você ir — disse Jungkook, a voz carregada de uma promessa sombria. — Você entende o que isso significa, Park Jimin? Se você entrar na minha vida, não há saída.
Jimin sorriu, um sorriso pequeno e corajoso, enquanto acariciava o rosto marcado de seu vizinho.
— Eu já disse, Jeon. Eu não sou bom em fugir. E, honestamente... eu prefiro ficar aqui, onde eu possa ver o dono da casa de perto.
Naquela noite, as cortinas de renda no prédio da frente permaneceram imóveis. Não havia ninguém para espiar pela janela, pois o passarinho finalmente havia deixado a gaiola para encontrar o seu ninho no coração da tempestade. E Jeon Jungkook, o homem de gelo, descobriu que, para manter aquela luz por perto, ele estava disposto a queimar o mundo inteiro se fosse necessário.