Enzo e Catarina
Entre Cicatrizes e Recomeços
O ar no pátio do Colégio Joaninha parecia ter mudado de densidade. Para Catarina, cada passo que dava agora não carregava mais o peso da armadura de gelo que ela sustentou durante semanas. O beijo no portão da escola não tinha sido apenas um selo de perdão; fora um manifesto de guerra contra o passado. No entanto, ela sabia que o mundo real, especialmente o ecossistema tóxico da adolescência, não se resolvia apenas com um momento romântico ao pôr do sol.
Na segunda-feira seguinte, Catarina entrou na escola de cabeça erguida. Ao seu lado, Jonathan caminhava com sua energia caótica de sempre, saltitando enquanto mexia no celular.
— Cara, você não tem noção do grupo de WhatsApp da galera do futebol — disse Jonathan, rindo e quase tropeçando nos próprios pés. — A Laura está tentando fazer o "clube das ex-excluídas" com a Gorda. Elas estão postando indiretas a cada cinco minutos. Você viu?
Catarina deu de ombros, ajustando a alça da mochila.
— Deixa elas, Jonathan. Veneno só mata quem engole. Eu já gastei toda a minha energia sendo vingativa. Agora eu só quero paz... e talvez ver o Enzo cumprir o que prometeu.
— Falando no Romeu de Instagram... — Jonathan apontou com o queixo para o final do corredor.
Enzo estava lá, encostado nos armários. Quando viu Catarina, um sorriso tímido, mas genuíno, iluminou seu rosto. Ele não parecia mais aquele garoto que se escondia nos cantos, temendo o próximo comando de uma ficante possessiva. Ele parecia alguém que finalmente tinha respirado ar puro depois de muito tempo submerso em lama.
Ele caminhou até ela, ignorando os olhares curiosos dos outros alunos.
— Bom dia — disse ele, a voz firme. — Eu... eu trouxe isso para você.
Ele estendeu uma pequena barra de chocolate, a favorita dela. Catarina sorriu, pegando o doce.
— Suborno logo cedo, Enzo? — provocou ela, arqueando uma sobrancelha.
— Considera um investimento na minha sobrevivência — respondeu ele, rindo.
A interação foi interrompida pelo som estridente de saltos batendo contra o piso de granito. O corredor, que estava barulhento, subitamente baixou o volume. Vindo da direção da biblioteca, a Gorda caminhava com Laura ao seu lado. A expressão da ex de Enzo era uma mistura de fúria contida e uma tentativa desesperada de manter a pose de superioridade.
Ela parou a poucos metros do grupo. O olhar que lançou para Catarina era carregado de um ódio palpável, mas quando seus olhos pousaram em Enzo, a expressão mudou para uma fragilidade ensaiada.
— Enzo, a gente precisa conversar. Agora — ordenou ela, a voz fina e autoritária.
Enzo nem sequer se mexeu. Ele continuou virado para Catarina, como se a presença da outra fosse apenas um ruído de fundo irritante.
— Eu não tenho nada para falar com você que já não tenha sido dito, e muito bem dito, na sexta-feira — respondeu ele, sem se virar.
— Você está sendo ridículo! — disparou a Gorda, dando um passo à frente, ignorando a presença de Jonathan e Catarina. — Você vai mesmo jogar tudo o que a gente teve no lixo por causa dessa... dessa garota que você mal conhece? Ela é só uma fase, Enzo. Você sabe que sempre volta para mim.
Catarina sentiu o sangue subir, mas antes que pudesse abrir a boca, Enzo se virou. O rosto dele não tinha raiva, tinha algo pior: pena.
— "Tudo o que a gente teve"? — Enzo soltou uma risada seca e amarga. — Você quer dizer as mentiras? Os bloqueios que você me obrigava a dar nos meus amigos? Ou você está falando dos outros caras que você encontrava enquanto me mantinha em uma coleira, me chamando de inseguro quando eu desconfiava de algo?
O corredor inteiro parecia prender a respiração. Laura, ao lado da amiga, parecia desconfortável, olhando para os lados. Jonathan, por outro lado, cruzou os braços com um sorriso de satisfação, claramente aproveitando o show.
— Isso é mentira! — gritou a Gorda, o rosto ficando vermelho. — Quem te contou essas bobagens? Foi ela, não foi? Essa invejosa!
Enzo deu um passo na direção dela, fazendo-a recuar.
— Ninguém precisou me contar nada. Eu vi as mensagens no seu iPad aquele dia, eu ouvi os áudios que você mandou para o Rafael achando que eu estava dormindo. Você é podre por dentro. Você não gosta de ninguém, você só gosta do poder que acha que tem sobre as pessoas. Mas comigo acabou. Você é insignificante.
— Você vai se arrepender disso! — ela sibilou, as lágrimas de raiva começando a brotar. — Ninguém vai te amar como eu te amei!
— Se o que você sentia era amor, eu prefiro o ódio — rebateu Enzo. — Agora sai daqui. Você está passando vergonha e, honestamente, eu tenho coisas muito mais importantes para fazer, como pedir desculpas para a Catarina pelo resto da minha vida por ter deixado uma pessoa tão baixa quanto você chegar perto da gente.
A Gorda olhou para Catarina, esperando ver algum sinal de fraqueza, mas encontrou apenas um olhar de puro desprezo. Sem saída e sem o seu "brinquedo" habitual para manipular, ela deu meia-volta e saiu pisando fundo, com Laura a seguindo como uma sombra hesitante.
Jonathan soltou um assobio longo.
— Caramba, Enzo. Eu sabia que você tinha espinha dorsal, só não sabia onde ela estava escondida.
— Estava enterrada sob camadas de manipulação, Jonathan — disse Enzo, voltando-se para Catarina, o olhar suavizando instantaneamente. — Me desculpa por isso. Eu não queria que você tivesse que ver a cara dela de novo.
— Honestamente? — Catarina deu um passo à frente, segurando a mão dele. — Ver você colocar ela no lugar dela foi melhor do que qualquer vingança que eu planejei nas férias.
— Ela é um lixo, Catarina — sussurrou Enzo, aproximando-se mais. — Eu sinto nojo de cada segundo que passei acreditando nela. Ela tentou me fazer acreditar que você era a vilã, que você era a pessoa que queria destruir a nossa "felicidade". Mas a única coisa que estava destruindo a minha vida era ela.
Eles caminharam juntos para a aula de História, com Jonathan tagarelando sobre como a escola teria fofoca para o resto do mês. Durante a aula, Enzo não soltou a mão de Catarina por um segundo sequer sob a carteira. Era como se ele precisasse daquele contato para se certificar de que o pesadelo havia acabado e que ele não seria bloqueado da vida real novamente.
No intervalo, o grupo se reuniu no pátio dos fundos, um lugar mais reservado. Enzo parecia mais leve, contando piadas e até brincando com Jonathan, algo que ele raramente fazia quando estava "preso" no relacionamento anterior.
— Sabe o que é mais engraçado? — comentou Jonathan, abrindo um pacote de salgadinhos. — A Laura veio me perguntar se o Enzo tinha ficado louco. Eu disse para ela que, na verdade, ele tinha acabado de recuperar a sanidade. Ela ficou sem saber o que dizer.
— A Laura não é má pessoa — ponderou Catarina —, ela só é influenciável. Ela anda com a Gorda porque tem medo de ficar sozinha.
— Problema dela — cortou Enzo. — Quem escolhe o lado do lobo não pode reclamar quando o cordeiro para de ser manso. Eu não quero saber de nada que venha daquele lado. Para mim, elas são fantasmas.
A tarde passou voando. Quando o sinal da última aula tocou, Enzo esperou Catarina na porta da sala. Eles caminharam lentamente até o estacionamento de bicicletas. O clima de "lua de mel" entre os dois era evidente, mas havia uma seriedade no olhar de Enzo que Catarina notou.
— O que foi? — perguntou ela, parando ao lado da bicicleta dele.
— Eu estava pensando... — Enzo começou, passando a mão pelo cabelo, um gesto de nervosismo que ele ainda mantinha. — Eu sei que eu já pedi desculpas mil vezes. Mas eu quero que as coisas sejam diferentes de verdade. Eu não quero ser só o cara que você perdoou. Eu quero ser o cara que você tem orgulho de estar junto.
— Enzo, você já provou isso hoje — disse ela, tocando o rosto dele. — Você enfrentou ela. Você escolheu a verdade.
— Não é só isso. — Ele respirou fundo. — Eu quero que todo mundo saiba. Sem segredos, sem bloqueios, sem medos. Eu quero te levar para jantar no sábado. Um encontro de verdade. Sem Jonathan, sem escola, sem drama. Só a gente.
Catarina sorriu, sentindo um calor agradável no peito.
— Eu adoraria. Mas com uma condição.
— Qual?
— Você tem que me prometer que, se aquela garota aparecer de novo com as manipulações dela, você não vai se calar. Você vai rir na cara dela.
Enzo soltou uma risada curta e a puxou para um abraço apertado.
— Catarina, depois de descobrir que ela estava me traindo com metade do time de vôlei e ainda tentando me fazer sentir culpado por ter amizades, a única coisa que eu sinto por ela é um profundo desdém. Ela é uma página rasgada e jogada no lixo. Você é o livro inteiro que eu quero ler.
Ele a beijou suavemente, um beijo que tinha gosto de liberdade.
Enquanto se afastavam, Catarina viu, de longe, a Gorda sentada em um banco, observando-os com uma expressão de derrota absoluta. Pela primeira vez, Catarina não sentiu raiva. Ela sentiu vitória. Não a vitória de ter "ganho" um garoto, mas a vitória de ter ajudado alguém a enxergar o próprio valor e de ter permanecido fiel a si mesma, mesmo quando tudo parecia perdido.
— Vamos? — chamou Enzo.
— Vamos — respondeu Catarina, subindo na garupa da bicicleta, pronta para deixar as sombras do passado para trás e pedalar em direção a um futuro onde o bloqueio era apenas uma lembrança distante e o amor era a única notificação que importava.