Espelho trincado
Ecos do Labirinto
A quarta-feira chegou com um cinza opaco que parecia combinar com o estado de espírito de Oliver. O efeito da medicação da noite anterior o deixara com uma sensação de algodão doce no cérebro; os pensamentos estavam lá, mas moviam-se com uma lentidão frustrante. Ele estava sentado em sua mesa na agência, encarando uma pilha de arquivos que, meses atrás, ele teria devorado em uma hora. Agora, as letras pareciam dançar, zombando de sua incapacidade de concentração.
A porta de sua sala se abriu sem o aviso de uma batida. Oliver não precisou levantar os olhos para saber quem era. O perfume amadeirado e o passo firme eram marcas registradas de Henrique Alencar.
— Como está o progresso no caso da seguradora? — perguntou Henrique, a voz mantendo o tom profissional que haviam acordado para o ambiente de trabalho.
Oliver respirou fundo, fechando o arquivo com uma força desnecessária.
— Lento. Os dados não batem e a minha cabeça parece um rádio fora de sintonia. Mas eu vou terminar, Diretor. Não precisa me vigiar como se eu fosse um estagiário.
Henrique caminhou até a janela, observando o movimento da rua lá embaixo. Ele parecia hesitar antes de falar.
— Não estou aqui como seu supervisor, Oliver. Estou aqui porque recebi uma ligação do Dr. Arantes. Você desmarcou a sessão de terapia de hoje à noite.
Oliver sentiu o maxilar travar. A irritação, aquele fogo familiar que costumava apagar com uísque, começou a subir pela sua garganta.
— Eu tenho trabalho. Não tenho tempo para sentar em um divã e explicar por que odeio o mundo.
— O acordo foi claro — disse Henrique, virando-se para encarar o filho. — O trabalho é condicionado ao tratamento. Se você começar a cortar as sessões, eu corto o seu acesso aos casos.
— Você adoraria isso, não é? — Oliver levantou-se, apoiando as mãos na mesa para esconder o leve tremor que ainda o acompanhava. — Me manter trancado naquela sua casa de bonecas, sob o seu controle total. É assim que você compensa os anos de ausência? Com autoritarismo?
— É assim que eu impeço você de se destruir! — O tom de Henrique subiu uma oitava, revelando a rachadura em sua fachada de controle. — Você acha que eu não vejo? Você está exausto, Oliver. Está lutando contra monstros que não consegue vencer sozinho. O caso de seis meses atrás... a tragédia da boate... você não foi o único culpado, mas se recusa a aceitar isso.
Ao ouvir a menção ao caso, a cor fugiu do rosto de Oliver. A memória daquela noite — os gritos, o cheiro de fumaça e a percepção tardia de que ele havia seguido a pista errada — atingiu-o como um soco físico. Ele sentiu o suor frio brotar instantaneamente.
— Não fale sobre aquele dia — sussurrou Oliver, a voz subitamente pequena. — Você não estava lá. Você não viu o que eu vi.
— Eu vi o que isso fez com você — rebateu Henrique, aproximando-se. — Eu vi o melhor detetive desta agência se transformar em um fantasma. E eu não vou deixar o meu filho desaparecer por causa de um erro que qualquer veterano poderia ter cometido.
— Mas eles não cometeram! Eu cometi! — Oliver gritou, empurrando a cadeira para trás. — O "prodígio" falhou, Henrique. A fachada caiu. E agora tudo o que sobra é o que você sempre soube que eu seria: um erro de percurso.
O silêncio que se seguiu foi cortante. Henrique deu um passo à frente, ignorando a barreira invisível que Oliver tentava manter.
— Você nunca foi um erro de percurso para mim. Foi um segredo que eu guardei por covardia, mas nunca um erro.
Oliver desviou o olhar, sentindo o peito apertar em uma crise de ansiedade iminente. Ele precisava sair dali. Precisava de um gole. Precisava de qualquer coisa que silenciasse a voz de Henrique e as vozes em sua própria cabeça.
— Eu vou para casa — disse Oliver, pegando seu casaco. — Mas não para a sua casa. Vou para o meu apartamento.
— Você sabe que eu não posso deixar você fazer isso — disse Henrique, bloqueando o caminho para a porta. — No seu estado, você não passaria da primeira conveniência no caminho.
— Saia da frente, Alencar.
— Me chame de pai — disse Henrique, a voz carregada de uma súplica desesperada. — Pelo menos uma vez, sem sarcasmo. Me chame de pai e me peça ajuda, Oliver. Eu estou implorando para que você me deixe ajudar.
Oliver olhou para o homem diante dele. Viu as rugas de preocupação, o arrependimento genuíno e a dor que espelhava a sua própria. Por um segundo, a raiva fraquejou. Ele quis se deixar cair, quis chorar e admitir que estava apavorado, que não conseguia dormir sem ver os rostos das vítimas, que a vontade de beber era uma fera faminta que o devorava por dentro.
Mas o orgulho era uma cicatriz profunda demais.
— Um pai teria estado lá quando eu fiz treze anos e descobri a verdade sozinho — disse Oliver, a voz agora fria como gelo. — Um pai não teria esperado eu quase morrer de coma alcoólico no escritório dele para decidir que queria "ajudar". Você não quer um filho, Henrique. Você quer redimir sua consciência. E eu me recuso a ser o seu instrumento de absolvição.
Ele passou por Henrique, esbarrando no ombro do pai com força, e saiu da sala.
Oliver não foi para o seu apartamento, nem para uma loja de conveniência. Ele caminhou sem rumo pelas ruas chuvosas da cidade, o terno caro ficando encharcado. A ansiedade era uma pressão constante em seus pulmões, tornando cada respiração um esforço. Ele parou diante de um bar de esquina, o brilho neon refletido nas poças de água. O cheiro de álcool e fumaça que saía de lá era um canto de sereia.
Ele tateou os bolsos, procurando por dinheiro, mas encontrou apenas o cartão de visitas do terapeuta que Henrique havia deixado em seu bolso naquela manhã. No verso, havia algo escrito à mão, com a caligrafia elegante de Henrique: *"Eu não espero que você me perdoe hoje, mas por favor, não desista de você mesmo. Você é a melhor parte de mim."*
Oliver fechou os olhos, sentindo a chuva lavar seu rosto. Ele ficou ali, parado na calçada, oscilando entre a autodestruição e a sobrevivência.
Meia hora depois, o telefone de Henrique tocou.
— Alencar — atendeu ele, a voz rouca de quem estivera segurando o choro.
— Sou eu — a voz de Oliver veio do outro lado, trêmula e acompanhada pelo som do tráfego. — Eu... eu estou na frente do consultório do Dr. Arantes. Mas eu não consigo entrar. Minhas pernas não funcionam.
Henrique soltou um suspiro de alívio tão profundo que suas pernas fraquejaram.
— Fique onde está, Oliver. Não desligue o telefone. Eu estou indo buscar você.
— Henrique? — chamou Oliver antes que ele desligasse.
— Sim?
— Eu ainda odeio você.
— Eu sei — respondeu Henrique com um sorriso triste, já pegando as chaves do carro. — Mas eu estou a caminho.
O trajeto foi feito em tempo recorde. Quando Henrique chegou, encontrou Oliver sentado nos degraus do prédio comercial, encharcado e tremendo violentamente. Não era apenas o frio; era o colapso físico de alguém que havia chegado ao seu limite absoluto.
Henrique saiu do carro e correu até ele, envolvendo-o em um abraço firme. Desta vez, Oliver não recuou. Ele enterrou o rosto no ombro do pai e soluçou, um som gutural e doloroso que carregava anos de abandono e meses de trauma.
— Está tudo bem — sussurrou Henrique, segurando a cabeça do filho contra seu peito. — Eu estou aqui. Eu não vou a lugar nenhum.
— Eu estraguei tudo, pai — soluçou Oliver, a palavra finalmente escapando em meio ao desespero. — Eu matei aquelas pessoas. Eu não consigo mais ser o detetive. Eu não sou nada.
— Você é meu filho — disse Henrique, as lágrimas correndo livremente agora. — E isso é mais do que suficiente. Vamos entrar. Vamos começar de novo.
Eles subiram os degraus juntos. Oliver ainda mancava, e Henrique o sustentava com todo o seu peso. O caminho para a cura seria longo, tortuoso e cheio de recaídas. O alcoolismo continuaria sendo uma sombra, e a depressão não desapareceria com algumas sessões de conversa. Mas, conforme as portas do consultório se abriam, a dinâmica entre os dois havia mudado fundamentalmente.
Não eram mais apenas o detetive prodígio e o diretor renomado. Eram dois homens quebrados, tentando, pela primeira vez em onze anos, encontrar o caminho de volta um para o outro através dos escombros de suas próprias falhas.
Naquela noite, na mansão Alencar, não houve silêncio constrangedor no jantar. Houve apenas o som suave da chuva lá fora e a presença silenciosa de um pai que finalmente parara de observar de longe para lutar nas trincheiras ao lado de seu filho. Oliver ainda tinha um longo labirinto para percorrer dentro de sua própria mente, mas agora, ele não precisava mais carregar a tocha sozinho.