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Eu não queria amar você

Colisão Térmica e Códigos Quebrados

A segunda-feira na Universidade Federal começou com o mesmo calor infernal, mas para Samuel, o clima estava particularmente pesado. Ele tentava se concentrar na aula de Morfologia de Organismos Aquáticos, mas a imagem daquele skatista desgraçado não saía de sua cabeça. Nycollas era um problema que ele não conseguia resolver com uma regra de três.

Após a aula, Samuel caminhava pelo corredor do bloco de tecnologia, um atalho para chegar ao refeitório, quando sentiu um puxão no braço. Era Lopes. O amigo parecia inquieto, os olhos castanhos fixos nos de Samuel com uma intensidade que o deixava desconfortável.

— Samuel, cara, você tá no mundo da lua desde sexta — disse Lopes, a voz carregada de uma preocupação que beirava o possessivo. — Aquele playboy da computação te falou alguma coisa? Se ele estiver te tirando, eu resolvo.

Samuel soltou uma risada nasalada, tentando aliviar a tensão.

— Relaxa, Lopes. O Nycollas é só um babaca que acha que o mundo gira em torno do skate dele. Ele não me assusta.

— Não é medo que eu tenho, Samuel — murmurou Lopes, dando um passo para mais perto, o cheiro de suor e desodorante barato preenchendo o espaço entre eles. — É que você não vê como ele te olha. Aquele cara só quer te usar pra se sentir superior. Ele é rico, Samuel. A gente é do corre. Ele não entende o que é ter que contar moeda pra pegar o busão.

— Eu sei disso, porra! — Samuel se exaltou, o estresse do dia finalmente transbordando. — Eu não sou idiota. Agora dá licença que eu tô com fome.

Ele se afastou, deixando Lopes parado no corredor com um semblante sombrio. Samuel não percebeu, mas os olhos de Lopes brilhavam com uma mágoa antiga, uma paixão que queimava silenciosa desde que eles dividiam o mesmo banco de escola no ensino fundamental.

Ao chegar no Restaurante Universitário, a fila estava quilométrica. Samuel bufou, chutando uma pedrinha no asfalto. Foi então que o som das rodinhas se aproximou. Ele nem precisou olhar para saber quem era.

— Se chutar o chão com essa raiva toda, vai acabar furando esse seu tênis de dez reais — a voz de Nycollas ecoou, calma e cortante como uma navalha.

Samuel virou-se bruscamente. Nycollas estava encostado em um poste, o skate debaixo do braço e os óculos de grau levemente caídos no nariz. Ele usava uma regata preta que deixava os braços musculosos e definidos totalmente à mostra.

— Vai se foder, Nycollas — cuspiu Samuel. — Não tem um servidor pra invadir ou um código pra escrever, não?

Nycollas deu um passo à frente, diminuindo a distância. Ele era significativamente mais alto, forçando Samuel a olhar para cima.

— Eu já terminei meus projetos da semana. Sou eficiente, diferente de você, que parece que está sempre correndo atrás do próprio rabo — Nycollas sorriu, aquele sorriso arrogante que fazia o estômago de Samuel dar voltas. — E pra sua informação, eu não invado servidores. Eu os construo.

— Construa um que te ensine a não ser um completo babaca, então — rebateu Samuel, o rosto ficando vermelho de raiva.

Nycollas soltou uma risada baixa, um som que vibrou no peito de Samuel. Sem aviso, o skatista se inclinou, a boca próxima ao ouvido do outro.

— Você fica tão excitadinho quando está bravo, Samuel. O seu coração está disparado. Dá pra ver a veia no seu pescoço pulsando.

Samuel sentiu um arrepio violento percorrer sua espinha. Ele queria empurrar Nycollas, queria gritar, mas seus pés pareciam colados ao chão. O cheiro de Nycollas — uma mistura de perfume caro, hortelã e o calor da própria pele — era inebriante.

— Sai de perto de mim — Samuel sussurrou, a voz falhando miseravelmente.

— Por que? — Nycollas recuou apenas o suficiente para olhar nos olhos dele. — Está com medo do que pode acontecer se eu não sair?

— Eu te odeio.

— Odeia? — Nycollas arqueou uma sobrancelha. — Engraçado. Eu acho que você está obcecado por mim tanto quanto eu estou achando divertido te irritar.

Nycollas deu um tapinha leve no ombro de Samuel e saiu andando, deixando o estudante de pesca em um estado de confusão mental absoluta.

A noite caiu e Samuel decidiu ficar na biblioteca até mais tarde para terminar um relatório sobre piscicultura. O prédio estava quase vazio, o silêncio sendo quebrado apenas pelo zumbido do ar-condicionado. Ele estava concentrado quando a porta da sala de estudos individual se abriu.

Ele esperava ver Lopes, que sempre passava para buscá-lo, mas era Nycollas. O skatista parecia diferente; a arrogância ainda estava lá, mas havia algo mais sombrio em seu olhar. Ele entrou e trancou a porta atrás de si.

— O que você pensa que está fazendo? — Samuel levantou-se, o coração martelando contra as costelas.

— Eu cansei de jogos, Samuel — disse Nycollas, jogando a mochila no chão. — Você passou o dia inteiro na minha cabeça. E eu odeio quando algo que eu não controlo fica na minha cabeça.

— Problema seu! Sai daqui agora ou eu grito — Samuel tentou passar por ele, mas Nycollas o prensou contra a mesa de estudos, as mãos grandes segurando os quadris de Samuel com força.

— Grita. Vamos ver quem chega primeiro — Nycollas rosnou, o rosto a centímetros do de Samuel. — Você se acha tão esperto, tão moralista porque é pobre e esforçado. Mas eu vejo como você me olha. Você quer que eu te quebre no meio tanto quanto eu quero foder essa sua boca atrevida.

— Você é um doente, Nycollas... — a frase de Samuel foi interrompida quando Nycollas selou seus lábios com uma agressividade faminta.

Não foi um beijo romântico. Foi uma batalha. As línguas se chocavam com urgência, um gosto de desafio e desejo reprimido. Samuel tentou resistir por dois segundos antes de suas mãos subirem para os cabelos cacheados de Nycollas, puxando-os com força. Ele soltou um gemido abafado contra a boca do skatista quando sentiu o corpo musculoso de Nycollas se pressionar contra o seu, a ereção evidente através das calças.

— Porra... — Nycollas arfou, interrompendo o beijo para morder o pescoço de Samuel. — Eu sabia que você era quente.

Nycollas levantou Samuel, sentando-o na mesa de metal fria e afastando os livros e o notebook com um movimento brusco. Samuel abriu as pernas, permitindo que Nycollas se encaixasse entre elas. As mãos do skatista desceram para a calça jeans surrada de Samuel, abrindo o botão com uma pressa febril.

— Nycollas, aqui não... — Samuel tentou dizer, mas sua voz era um sussurro trêmulo.

— Ninguém vem aqui a esta hora — Nycollas respondeu, a voz rouca. Ele abaixou a calça e a cueca de Samuel, expondo a pele pálida ao ar frio da sala.

Quando Nycollas envolveu o membro de Samuel com a mão quente, o rapaz de olhos castanhos jogou a cabeça para trás, soltando um palavrão alto. O prazer era agudo, quase doloroso de tão intenso. Nycollas começou um movimento rítmico e firme, os olhos fixos no rosto de Samuel, assistindo cada expressão de entrega.

— Você é meu, Samuel — Nycollas sussurrou, a arrogância voltando em forma de possessividade. — Esquece aquele seu amiguinho de bigode. Esquece todo mundo. Sou eu que estou te fazendo sentir isso.

Nycollas se ajoelhou entre as pernas de Samuel, a boca quente e úmida substituindo a mão. Samuel agarrou as bordas da mesa, os nós dos dedos brancos. A sensação da língua de Nycollas, a perícia com que ele o usava, era algo que Samuel nunca tinha experimentado. Ele sentia que ia explodir a qualquer momento.

— Por favor... Nycollas... — Samuel implorou, as lágrimas de prazer começando a surgir nos cantos dos olhos.

Nycollas parou por um segundo, olhando para cima com um sorriso predatório, antes de voltar a envolver Samuel completamente, levando-o ao limite. Quando o orgasmo veio, foi violento. Samuel arqueou o corpo, gritando o nome de Nycollas enquanto se derramava na boca do skatista.

Nycollas limpou o canto da boca com o polegar, levantando-se com uma calma irritante, enquanto Samuel tentava recuperar o fôlego, o corpo ainda tremendo.

— A gente não terminou — disse Nycollas, ajeitando os óculos que haviam escorregado. — Isso foi só o debug do sistema. A execução real vai ser muito mais longa.

Ele se virou, pegou sua mochila e saiu da sala sem olhar para trás, deixando Samuel em um estado de choque catatônico.

Minutos depois, Samuel ainda tentava se vestir e organizar seus pensamentos quando a porta se abriu novamente. Desta vez, era Lopes. O amigo entrou com um saco de salgados na mão, mas parou abruptamente ao ver o estado de Samuel: o cabelo mais bagunçado que o normal, o rosto corado e o cheiro inconfundível de sexo no ar.

— Samuel? — Lopes perguntou, a voz falhando. Ele olhou para a mesa bagunçada, para o botão da calça de Samuel que ele ainda tentava fechar. — O que aconteceu aqui?

— Nada, Lopes. Eu... eu só me distraí — Samuel mentiu, a voz saindo trêmula.

Lopes caminhou até a mesa e viu uma caneta que não pertencia a Samuel. Era uma caneta de metal cara, com o logotipo de uma empresa de tecnologia. O rosto de Lopes se transformou. A dor e a raiva cruzaram suas feições de uma forma que assustou Samuel.

— Foi ele, não foi? O skatista babaca — Lopes largou o saco de salgados no chão. — Como você pôde, Samuel? Eu estou aqui há anos! Eu cuido de você, eu te apoio, eu te amo, porra! E você se entrega pra um cara que te trata como lixo?

Samuel ficou mudo. O choque da confissão de Lopes foi como um balde de água gelada.

— Lopes, eu... eu não sabia...

— Não sabia porque nunca quis saber! — gritou Lopes, as lágrimas finalmente caindo. — Você sempre preferiu o caos. Pois bem, Samuel. Aproveita o seu caos. Mas não vem chorar no meu ombro quando ele te descartar como um código velho.

Lopes saiu batendo a porta com força, o som ecoando pelo corredor vazio da universidade.

Samuel sentou-se no chão da biblioteca, escondendo o rosto nas mãos. Ele tinha o gosto de Nycollas na boca e o peso da decepção de Lopes no coração. Ele era um gênio da matemática, um futuro engenheiro, mas naquele momento, a conta da sua vida não fechava de jeito nenhum. A rivalidade com Nycollas tinha se transformado em algo perigoso, e o preço a pagar talvez fosse a única coisa estável que ele já teve.

O semestre estava apenas começando, e Samuel sentia que já tinha naufragado em águas profundas demais para conseguir voltar à superfície.

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