Eu te vejo
Sob o Domínio do Veludo e do Silêncio
A penumbra da suíte privativa parecia engolir os últimos resquícios da ansiedade que Rue trouxera das ruas. O silêncio ali era denso, interrompido apenas pelo som rítmico da respiração de Candace e pelo estalar ocasional da brasa dos cigarros que queimavam entre seus dedos. Rue sentia o peso de seu próprio corpo afundar no sofá, uma sensação de gravidade que ela raramente se permitia experimentar. Como líder, ela precisava ser leve, rápida, sempre um passo à frente da próxima bala ou da próxima traição. Mas ali, sob o olhar de Candy, ela era apenas matéria, carne e osso, exausta e faminta por um pouco de paz.
Candy se moveu com a fluidez de um felino, ajustando-se sobre o colo de Rue. A renda de seu top curto era áspera e macia ao mesmo tempo contra a pele de Rue, um contraste que servia para ancorar a traficante no presente. Candace levou o cigarro aos lábios de Rue mais uma vez, observando com uma adoração quase religiosa enquanto a fumaça era tragada e expelida.
— Você está pensando demais de novo — Candy murmurou, sua voz era um bálsamo, suave e carregada com aquele sotaque leve que Rue tanto amava. — Eu consigo ver as engrenagens girando atrás desses seus olhos castanhos. Pare com isso. O MystiqueNights é seguro. Eu sou segura.
Rue soltou uma risada anasalada, soltando a fumaça para o lado, longe do rosto de Candy.
— Segurança é uma ilusão, Candy. Você sabe disso melhor do que ninguém. Eu só... tive uma semana difícil. O pessoal do sul está tentando testar as fronteiras. Eles acham que, porque sou jovem, sou descuidada.
Candy inclinou a cabeça, os cabelos pretos escorrendo pelo ombro como uma cascata de seda. Ela estendeu a mão e tocou a cicatriz quase imperceptível perto da têmpora de Rue, um presente de um encontro desagradável meses atrás.
— Eles são estúpidos, então — Candy disse, e por um momento, a doçura em sua voz deu lugar a uma frieza protetora. — *Wang bā dàn*. Eles não viram o que eu vi. Eles não sabem que você é um incêndio que ninguém consegue apagar. Mas agora... agora você é só minha.
Rue fechou os olhos, permitindo que as mãos de Candy continuassem seu trabalho de desabotoar sua camisa social. Cada botão que se soltava parecia remover uma camada da armadura que Rue usava para sobreviver. Quando a camisa finalmente se abriu, revelando a regata branca por baixo e a pele marcada pelo estresse, Candy soltou um suspiro satisfeito.
— Melhor — disse Candy. — Muito melhor.
— Por que você faz isso, Candy? — Rue perguntou de repente, sua voz saindo mais baixa do que pretendia. — Por que se importa tanto com alguém que traz tanta escuridão para o seu quarto?
Candy parou o que estava fazendo. Seus olhos de sereia encontraram os de Rue com uma intensidade que quase fez a líder desviar o olhar. Não havia hesitação ali, apenas uma certeza absoluta que Rue achava aterrorizante e fascinante ao mesmo tempo.
— Porque você me deu uma escolha, Rue — Candy respondeu, a voz firme. — Antes de você, a minha vida era uma série de coisas que aconteciam *comigo*. Homens que me usavam, um pai que nem sabia meu nome, um destino que eu não podia controlar. Você chegou e mudou a regra do jogo. Você me deu este lugar, me deu proteção e, mais importante... você me deu o seu tempo.
— Eu só fiz o que era necessário para o negócio — Rue tentou argumentar, embora soubesse que era mentira.
— Mentirosa — Candy sorriu, um sorriso pequeno e cúmplice. — Você poderia ter me deixado naquele bordel. Poderia ter me tratado como qualquer outra garota que trabalha para você. Mas você me olha de um jeito diferente. E eu sinto isso. Eu sinto você, Rue Bennett.
Candy inclinou-se para a frente, pressionando o corpo contra o de Rue. O calor que emanava dela era inebriante, um perfume de baunilha e nicotina que parecia limpar os pulmões de Rue de todo o cheiro de pólvora acumulado.
— Eu odeio ver você assim — continuou Candy, passando as unhas compridas levemente pelo peito de Rue. — Tão tensa. Sinto que, se eu tocar você do jeito errado, você pode simplesmente quebrar em mil pedaços.
— Eu não quebro — Rue afirmou, embora sua voz soasse incerta.
— Todo mundo quebra, amor. A questão é quem está lá para juntar os cacos.
Candy levantou-se do colo de Rue por um momento, apenas para caminhar até o pequeno bar de mogno no canto da suíte. Ela preparou um copo com gelo e um líquido âmbar, movendo-se com uma graça que fazia Rue se sentir desajeitada e bruta. Quando Candy voltou, ela não se sentou no colo de Rue, mas no tapete felpudo entre as pernas dela, apoiando os braços nos joelhos da líder.
— Beba — ordenou Candy suavemente, oferecendo o copo.
Rue deu um gole longo. O uísque queimou sua garganta, mas o calor foi bem-vindo. Ela observou Candy, que agora a olhava de baixo para cima, uma posição de submissão que Candy usava como uma arma de sedução.
— As outras garotas... elas falam de você — Rue comentou, tentando mudar de assunto. — Elas têm inveja. Dizem que você é a rainha sem coroa do MystiqueNights.
Candy deu de ombros, indiferente.
— Deixe que falem. Elas não entendem que o que temos não é sobre as joias que você me dá ou sobre esta suíte. Elas olham para você e veem poder. Eu olho para você e vejo... — Ela hesitou por um segundo, procurando a palavra certa em inglês antes de desistir e sussurrar algo em mandarim que Rue não entendeu, mas cujo tom era inegavelmente carinhoso.
— O que isso significa? — perguntou Rue.
— Significa que você é o meu descanso — Candy sorriu, os olhos brilhando. — Agora, chega de falar de negócios, de gangues ou de outras strippers. Eu quero que você se concentre em mim.
Candy esticou os braços e começou a desamarrar os cadarços das botas pesadas de Rue. Era um gesto humilde, quase ritualístico. Rue sentiu uma onda de gratidão tão forte que seus olhos arderam por um breve momento. Ela estendeu a mão e acariciou o topo da cabeça de Candy, sentindo a maciez de seus cabelos pretos.
— Você é a única coisa boa nesta cidade, Candy — Rue admitiu.
— Eu sei — Candy respondeu com uma confiança travessa. — E é por isso que você sempre volta.
Depois de remover as botas de Rue, Candy subiu novamente para o sofá, mas desta vez ela se aninhou ao lado de Rue, puxando a cabeça da líder para o seu peito. Rue não resistiu. Ela enterrou o rosto no pescoço de Candy, sentindo a pulsação constante e calma da outra mulher. Ali, o mundo exterior não existia. Não havia policiais corruptos, não havia rivais sanguinários, não havia o peso de ser Rue Bennett, a herdeira de um império construído sobre ossos.
— Cante para mim — Rue pediu, a voz abafada contra a pele de Candy. — Aquela música que sua mãe costumava cantar.
Candy hesitou por um segundo. Suas memórias da mãe eram tingidas de tristeza e violência, mas a música era o único fio de ouro naquela tapeçaria de dor. Ela começou a cantarolar uma melodia baixa e melancólica, uma canção de ninar chinesa que parecia flutuar pela sala como a fumaça dos cigarros. A voz de Candy era pequena, mas afinada, carregada de uma emoção que palavras não conseguiam expressar.
Enquanto Candy cantava, Rue sentiu seus músculos relaxarem um por um. A escuridão em sua mente começou a recuar, substituída pela imagem de um lugar onde ela não precisava lutar. Ela se sentia protegida, ironicamente, pela pessoa que ela deveria estar protegendo.
— Candy... — Rue murmurou quando a música terminou.
— Shhh — Candy a interrompeu, beijando o topo de sua cabeça. — Só durma, querida. Eu estou aqui. Eu não vou a lugar nenhum.
— Promete? — Rue perguntou, soando estranhamente como a garotinha que ela fora um dia, muito antes de as drogas e o crime tomarem conta de sua vida.
— Eu prometo — Candy disse com uma seriedade solene. — Eu sou sua, Rue. Em todos os sentidos possíveis. E ninguém, nem mesmo este mundo maldito, vai tirar você de mim hoje à noite.
Rue soltou um último suspiro profundo e, pela primeira vez em uma semana, o sono veio sem pesadelos. Ela adormeceu nos braços de Candy, rodeada pelo aroma de baunilha e pelo silêncio reconfortante de uma suíte que era, para todos os efeitos, o único lar que ela conhecia.
Candy permaneceu acordada por um longo tempo, apenas observando o rosto de Rue enquanto ela dormia. As linhas de expressão na testa de Rue se suavizaram, e ela parecia quase em paz. Candy acariciou o rosto de Rue com as costas dos dedos, um toque tão leve que não a acordaria.
— *Wǒ ài nǐ* — Candy sussurrou para o vazio da sala, uma confissão que ela ainda não tinha coragem de dizer em voz alta quando Rue estava acordada.
Ela sabia que o amanhã traria novos problemas. Sabia que Rue teria que colocar sua máscara de líder novamente, que teria que ser impiedosa e fria para manter o que era delas. Mas, por enquanto, sob o brilho neon da cidade que nunca dormia, elas tinham aquele momento. E para Candy, isso era mais do que suficiente. Ela se ajeitou melhor, puxando uma manta de seda sobre as duas, e fechou os olhos, deixando que a paz de Rue se tornasse a sua própria. No MystiqueNights, a noite era longa, mas nos braços uma da outra, elas eram eternas.