Euphoria
O Gosto Estático da Madrugada
Rue estava sentada na ponta de um estofado de couro encardido, na área mais escura do clube, onde a luz do neon morria antes de tocar o chão. Ela era uma mancha escura contra a parede, completamente engolida pelas sombras que pareciam emanar de sua própria figura. Vestia uma blusa social preta de mangas curtas, com os primeiros botões abertos; o tecido fino revelava o início das tatuagens que subiam por seu pescoço como hera negra. Ela estava relaxada, com os cotovelos apoiados nos joelhos e o corpo inclinado para a frente, girando um isqueiro Zippo apagado entre os dedos. O clique metálico era o único som que ela conseguia processar com clareza acima do caos.
O trabalho já deveria ter acabado. Ela já havia descido ao escritório de Marco, entregue a remessa, contado o dinheiro e repassado as doses de anestesia química para as garotas no vestiário — aquelas que precisavam de um nevoeiro mental para suportar o toque de mãos estranhas. O lógico seria ir embora. Voltar para o quarto silencioso, para a luz amarela e para a ausência de pessoas. Mas ela ficou.
Pelos seus olhos apáticos, a boate era um aquário de espécimes grotescos. Ela observava a fauna local com uma curiosidade clínica e gélida. Havia os engravatados de meia-idade, com os nós das gravatas frouxos e o hálito podre de uísque caro e divórcios mal resolvidos, tentando comprar uma relevância que nunca tiveram. Havia os universitários, com os rostos suados e os olhos arregalados, fingindo uma confiança que tremia a cada vez que uma dançarina chegava perto. Rue via os velhos babões, estáticos contra os pilares como gárgulas de carne flácida, e os caras que gastavam o salário do mês em garrafas de vodca barata com luzes de LED, apenas para sentirem que o mundo não os havia esquecido.
Eram todos insetos batendo as asas contra um vidro, e Rue era a única que sabia que o vidro não ia quebrar.
Enquanto os graves da música batiam contra seu peito, Rue sentiu uma pontada de irritação. Percebeu que seus olhos, quase por vontade própria, estavam varrendo a pista. Ela estava procurando Jennifer. Inconscientemente. Ela checou o palco principal, onde o brilho do glitter e o suor criavam uma névoa dourada; checou o bar, as mesas VIPs, mas a garota não estava em lugar nenhum.
O foco da narrativa de Rue se voltou para o corredor ao fundo, a zona de penumbra que levava às cabines privadas. Era ali que o teatro da sedução terminava e a transação se tornava crua.
A porta de um dos quartos se abriu.
Primeiro, saiu o cliente. Ele era a personificação da mediocridade satisfeita. Um homem de uns cinquenta anos, com a pele avermelhada e o rosto brilhando de suor e exaustão. Ele era flácido em todos os ângulos, o cabelo ralo grudado na testa. Enquanto caminhava com uma postura frouxa, abotoava a calça com mãos trêmulas, exibindo um sorriso ridículo e vitorioso. Ele parecia acreditar, genuinamente, que o que acabara de acontecer ali dentro tinha algo a ver com ele, e não com o dinheiro que deixara sobre a mesa.
Logo atrás dele, saiu Jennifer.
Rue apertou o isqueiro entre os dedos. Jennifer estava impecável. O cabelo castanho escuro caía sobre os ombros em ondas perfeitas, a maquiagem não tinha um borrão sequer, e a postura era a de uma rainha atravessando um campo de batalha vencido. Ela não parecia alguém que acabara de sair de uma cabine de sexo pago; parecia alguém que acabara de assinar um contrato de fusão de empresas.
No entanto, Jennifer ainda não tinha visto Rue. E no corredor mal iluminado, longe dos olhos dos pagantes, a fachada rrachou por uma fração de segundo. Rue viu. Foi uma microexpressão: um vinco de tédio absoluto entre as sobrancelhas, um cansaço que pesou nas pálpebras e um nojo gélido que curvou levemente o canto de sua boca. Jennifer ajustou a alça da lingerie de forma mecânica, um gesto seco, como quem limpa uma mancha de poeira de um móvel velho. Não havia vitimização ali, apenas o pragmatismo brutal de uma profissional que acabara de tolerar algo repulsivo pelo preço certo.
Jennifer levantou o olhar e, finalmente, encontrou Rue nas sombras.
A mudança foi instantânea. O nojo desapareceu, substituído por uma neutralidade atenta. Ela dispensou o cliente com um aceno de mão desdenhoso, sem sequer olhar para onde o homem ia. Jennifer caminhou em direção a Rue, o som de seus saltos sendo engolido pelo tapete puído.
Rue não se mexeu. Não sentia ciúmes; a ideia de sentir posse sobre Jennifer era tão absurda quanto o homem suado de agora pouco. O que ela sentia era um reconhecimento silencioso. Ambas estavam ali, mas nenhuma das duas pertencia àquele lugar.
Jennifer parou a poucos centímetros do estofado. O perfume dela — algo denso, como cerejas escuras e baunilha — colidiu com o cheiro de cigarro e couro de Rue.
— Você ainda está aqui — disse Jennifer. A voz dela era rouca, despida do tom melódico que usava com os clientes.
— O sofá é confortável — mentiu Rue, a voz grave e arrastada.
Rue levantou levemente uma sobrancelha, o olhar fixo nos olhos azuis de Jennifer, ignorando deliberadamente a pele exposta e a renda cara que a outra vestia. Ela não estava ali para consumir Jennifer.
— Aquele cara — Rue começou, indicando o corredor com um movimento de cabeça — fedia a desespero daqui.
Jennifer deu um sorriso mínimo, um movimento que não alcançou os olhos. Ela se sentou ao lado de Rue, não perto o suficiente para se tocarem, mas o suficiente para que Rue sentisse o calor que emanava de sua pele.
— Desespero paga as contas, Rue. É a moeda corrente deste lugar.
Jennifer recostou a cabeça no couro encardido e fechou os olhos por um momento. Sem a luz do palco, ela parecia menor, mais real. Rue continuou girando o isqueiro. Ela observou o contraste entre sua própria camisa social preta, fechada e opaca, e a extravagância cintilante da lingerie de Jennifer. Eram dois extremos de uma mesma engrenagem.
— Você já terminou por hoje? — perguntou Rue.
— Marco disse que posso ir. Já bati minha cota de sorrisos falsos para uma terça-feira.
O silêncio se instalou entre elas, um vácuo confortável que ninguém mais na boate seria capaz de entender. Para qualquer outra pessoa naquele prédio, Jennifer era um objeto de desejo e Rue era uma engrenagem do sistema de suprimentos. Ali, naquele canto escuro, elas eram apenas duas pessoas exaustas de fingir.
Rue parou de girar o isqueiro. O clique final do metal ecoou. Ela olhou para Jennifer, que agora a observava com uma curiosidade renovada, como se estivesse tentando ler algo nas tatuagens que subiam pelo seu pescoço.
— Quer ir lá para casa? — Rue perguntou.
A pergunta saiu sem o peso de uma investida sexual. Não havia segundas intenções vibrando no ar, apenas uma oferta de refúgio. Jennifer piscou, surpresa pela franqueza despojada da proposta.
— Para sua casa? — Jennifer repetiu, testando as palavras.
— É silencioso. E não tem ninguém tentando lamber o seu pescoço por cem dólares a hora — Rue deu de ombros, desviando o olhar para a pista de dança. — Eu tenho cereal e talvez um resto de uísque que não parece acetona.
Jennifer soltou uma risada curta, a primeira risada genuína que Rue ouvira dela em toda a noite. Era um som seco, mas honesto. Ela olhou para as próprias mãos, limpando um resquício imaginário de sujeira nas unhas perfeitamente lixadas.
— Silêncio parece bom — Jennifer admitiu, a voz baixando um tom. — O uísque também.
— Então vamos.
Rue se levantou primeiro. Ela não ofereceu a mão para Jennifer, respeitando o espaço que a outra passara a noite inteira defendendo de estranhos. Jennifer levantou-se logo em seguida, esticando as pernas e pegando um robe de seda que deixara pendurado num banco próximo, cobrindo a lingerie como se estivesse vestindo uma armadura de privacidade.
Enquanto caminhavam em direção à saída de serviço, passando por entre a massa de corpos suados e luzes frenéticas, Rue sentiu o olhar de alguns homens seguindo Jennifer. Ela sentiu a tensão nos ombros da outra garota aumentar. Rue, então, deu um passo para o lado, posicionando seu corpo de forma a criar uma barreira entre Jennifer e a multidão, sua presença sombria e apática servindo como um aviso silencioso para qualquer um que pensasse em se aproximar.
Jennifer percebeu o gesto. Ela não disse nada, mas relaxou a postura.
Saíram pela porta dos fundos para o ar frio da madrugada. O beco cheirava a chuva recente e lixo, mas para elas, parecia o ar mais puro do mundo. Rue tirou as chaves do bolso e caminhou em direção à sua bicicleta motorizada velha estacionada sob um poste de luz quebrado.
— Você vai me levar nisso? — Jennifer perguntou, arqueando uma sobrancelha enquanto olhava para o veículo desgastado.
— É o que tem para hoje, Check. Se quiser luxo, volta lá para dentro e chama o cara calvo.
Jennifer revirou os olhos e caminhou até ela, o robe de seda balançando ao vento.
— Só não quebra meu pescoço. Eu tenho ensaio amanhã.
Rue subiu na moto e deu partida. O motor tossiu e rugiu, quebrando o silêncio do beco. Jennifer sentou-se atrás dela, hesitando por um segundo antes de colocar as mãos na cintura de Rue. O contato era leve, quase cauteloso. Rue sentiu os dedos de Jennifer através do tecido da blusa social e, por um momento, o mundo estático da madrugada pareceu ganhar um pouco mais de nitidez.
— Segura firme — disse Rue, inclinando-se para a frente.
Elas deixaram o neon e o barulho para trás, mergulhando na escuridão das ruas vazias da cidade, em direção a um lugar onde o silêncio era a única coisa que não estava à venda.