Família?
O Sorriso do Lobo e o Peso da Coroa de Ferro
O silêncio nos corredores da Academia Colosso era, pela primeira vez em anos, carregado de uma negação coletiva. Após a transmissão bombástica que revelou a dinâmica bizarra da família Baskerville, um fenômeno estranho ocorreu entre os alunos: a amnésia seletiva por puro instinto de sobrevivência. Tudor, Sancho e os outros colegas de classe de Vikir decidiram, em um pacto silencioso e desesperado, que o "Vikir" mencionado por Osíris van Baskerville devia ser outro Vikir. Talvez um primo distante? Um homônimo? Qualquer coisa era melhor do que aceitar que o bolsista de postura curvada e óculos de fundo de garrafa era o pivô emocional da família mais sanguinária do império.
No entanto, a realidade tem o péssimo hábito de bater à porta com a força de um aríete.
Três dias após o sumiço, Vikir retornou à academia. Ele não voltou de mãos vazias. Enquanto caminhava em direção ao seu dormitório, ele carregava várias caixas de madeira de lei, seladas com o brasão de cera vermelha das Sete Espadas. Seu rosto, geralmente uma máscara de apatia, estava visivelmente retorcido em uma careta de irritação pura.
— Vikir! Você voltou! — Tudor correu até ele, mas parou a dois metros de distância, seus olhos fixos nas caixas luxuosas. — Cara... o que é isso tudo? E onde você estava? A gente... a gente viu aquela transmissão maluca.
Vikir nem sequer parou de caminhar. Seu tom de voz era como o ranger de metal frio.
— Presentes. Meu pai e meu irmão têm dificuldades em entender o conceito de "espaço pessoal". E sobre a transmissão, não sei do que está falando. Deve ter sido uma interferência mágica.
— Interferência mágica? — Sancho arqueou uma sobrancelha, cruzando os braços. — Vikir, o herdeiro dos Baskerville disse que você estava se arrumando e que o ignorou.
— Foi um erro de tradução da rede de cristais — respondeu Vikir, sem hesitar um segundo. — Agora, se me dão licença, preciso esconder... digo, guardar isso.
Vikir entrou no quarto e fechou a porta. Dentro das caixas, havia desde elixires de rank S que poderiam comprar uma cidade pequena até adagas forjadas em ferro estelar. Hugo e Osíris tinham tentado "compensar" a falta de atenção que Vikir lhes dera durante o tal dia de treinamento social com subornos materiais. Para Vikir, aquilo era apenas peso extra que ameaçava seu disfarce.
Mas o pior ainda estava por vir.
Na manhã seguinte, o céu sobre a Academia Colosso não amanheceu azul; ele estava cinzento, oprimido pela presença de dezenas de montarias aladas e carruagens blindadas que ostentavam o estandarte do cão de caça. A família Baskerville havia chegado para "supervisionar" o novo regime de treinamento.
O campo de treinamento principal da academia foi evacuado para dar lugar aos visitantes. Quando os alunos foram reunidos, o ar parecia ter sido sugado do local. À frente da delegação estava Osíris van Baskerville.
Osíris era a personificação do terror. Seus cabelos negros caíam sobre ombros largos, e seus olhos vermelhos, emoldurados por cílios longos que lhe davam uma aparência aristocrática e letal, varriam a multidão com um desprezo palpável. A aura que ele emanava não era apenas de força; era uma sede de sangue refinada, algo que fazia os joelhos dos cavaleiros veteranos da academia fraquejarem.
Vikir estava lá, no meio da massa de alunos, tentando desesperadamente fundir-se ao cenário. Ele mantinha a cabeça baixa, os óculos levemente tortos. Mas ele sentia o olhar de Osíris. O irmão mais velho estava procurando por ele, e a cada segundo que não o encontrava, a pressão do mana de Osíris aumentava, tornando o oxigênio pesado como chumbo.
— O treinamento de hoje será simples — a voz de Osíris ecoou, fria e sem vida. — Vocês correrão pelo circuito de obstáculos com pesos de gravidade rúnica. Aqueles que desmaiarem serão considerados "carne estragada" e descartados da folha de presença da academia.
Um murmúrio de pavor surgiu, mas foi cortado por um olhar de Osíris. Ele estava de péssimo humor. O motivo era simples: ele queria ver o irmão, mas as ordens estritas de Hugo — e as ameaças de Vikir — o impediam de quebrar o disfarce dele em público. Essa restrição estava deixando o "Cão de Ferro" sênior à beira de um surto de nervos.
O treinamento começou e rapidamente se tornou um cenário de tortura. Os pesos mágicos eram excessivos para estudantes comuns. Tudor estava ofegante, o rosto vermelho, enquanto Sancho tentava ajudar uma colega que havia caído. Osíris caminhava entre as fileiras como um ceifador, sua mera presença aumentando o peso que os alunos sentiam.
Vikir, executando o exercício com uma facilidade irritante que ele tentava disfarçar com suspiros falsos, observava a situação. Ele viu quando Osíris parou ao lado de um grupo de alunos do primeiro ano e liberou uma onda de pressão intencional apenas porque um deles tropeçou perto de suas botas de couro caro. Os jovens caíram de cara no chão, incapazes de respirar.
Vikir rangeu os dentes. Ele sabia que Osíris estava fazendo aquilo por birra. Era uma birra de nível catastrófico.
Aproximando-se de Osíris enquanto fingia ajustar seu próprio peso, Vikir passou pelo irmão e murmurou entre dentes, num tom que apenas os sentidos aguçados de um Baskerville captariam:
— Diminua isso agora. Você vai acabar matando os alunos antes do meio-dia.
Osíris estancou no lugar. Seus olhos brilharam. Por um breve momento, um sorriso quase imperceptível, mas aterrorizante, surgiu em seus lábios. Ele não diminuiu a pressão imediatamente, mas sua postura relaxou um pouco.
— Eles são fracos, "plebeu" — respondeu Osíris em voz alta, focando o olhar em Vikir com uma intensidade que fez todos ao redor recuarem. — Na nossa casa, até os servos aguentam mais que isso.
— Esta não é a sua casa — rebateu Vikir, mantendo o tom baixo, mas carregado de aviso. — Controle-se.
Osíris soltou uma risada curta e seca, que soou como ossos quebrando.
— Muito bem. Se o "conselho" de um aluno é tão pertinente, farei uma concessão. Mas a próxima fase será dez vezes pior.
As horas seguintes foram um teste de resistência psicológica. Osíris parecia ter prazer em levar os amigos de Vikir ao limite. Ele via o quanto Vikir se importava com aquele grupo de "fracos" e, em sua mente distorcida de irmão mais velho, testar os amigos de Vikir era uma forma de testar o próprio Vikir.
O ápice aconteceu durante o duelo de exibição. Tudor foi escolhido para enfrentar um dos instrutores de elite que Osíris trouxera. O instrutor, seguindo as ordens silenciosas de seu mestre, não estava pegando leve. Em um movimento brutal, o instrutor desarmou Tudor e desferiu um golpe com o cabo da espada que deslocou o ombro do rapaz, jogando-o violentamente contra a parede de pedra.
— Próximo — disse Osíris, entediado, enquanto Tudor gemia de dor no chão. — Se ele não consegue nem segurar a espada contra um subordinado, não merece o tempo de cura.
Vikir viu o sangue escorrer do ombro de Tudor. Viu a expressão de dor de seu amigo. Algo dentro dele, algo que ele tentava manter enterrado sob camadas de pragmatismo e disfarces, finalmente rompeu.
Vikir caminhou para o centro da arena. Ele não estava mais curvado. Sua postura era reta, e os óculos pareciam subitamente irrelevantes diante do brilho gélido em seus olhos. Ele não foi até o instrutor. Ele foi direto até Osíris.
O silêncio que caiu sobre o campo de treinamento foi absoluto. Os alunos assistiam, paralisados, enquanto o "plebeu" Vikir caminhava até o homem mais perigoso do império e parava a poucos centímetros dele.
Vikir ergueu a mão e apontou o dedo diretamente para o rosto de Osíris.
— Você passou dos limites, seu idiota — rugiu Vikir, sua voz ecoando com uma autoridade que fez os instrutores Baskerville ao redor desembainharem as espadas por reflexo. — Eu te disse para se comportar. Eu te disse para não transformar isso em um massacre. Você está agindo como um moleque mimado que não recebeu atenção suficiente no café da manhã!
Os alunos prenderam a respiração. Tudor, mesmo ferido, tentou gritar para Vikir correr. Todos esperavam que Osíris cortasse a cabeça de Vikir ali mesmo. A aura de Osíris explodiu, uma massa negra e vermelha de mana que rachou o chão sob seus pés.
Mas então, algo inacreditável aconteceu.
Osíris não atacou. Em vez disso, o canto de sua boca se elevou. O brilho de morte em seus olhos foi substituído por uma satisfação selvagem e genuína.
— Finalmente — disse Osíris, a voz vibrando de alegria. — Finalmente você apareceu, Vikir. Eu estava começando a achar que aquele disfarce patético tinha comido seu cérebro.
Antes que Vikir pudesse reagir ou continuar seu sermão, Osíris avançou. Mas não foi um ataque. Ele agarrou Vikir pela cintura e o levantou no ar com uma facilidade absurda, como se estivesse segurando um gato irritado que acaba de dar uma patada no dono.
— Pai! — gritou Osíris, virando-se para a tenda onde Hugo Les Baskerville observava tudo em silêncio. — Veja! Ele finalmente parou de fingir!
Vikir, pendurado no ar, as pernas balançando e o rosto ficando vermelho de pura fúria e humilhação, começou a socar o ombro blindado de Osíris.
— Me solta, seu bruto! Me coloca no chão agora! Eu vou te matar, Osíris! Eu juro que vou te caçar enquanto você dorme!
Hugo saiu da tenda. O Patriarca de Ferro, o homem que raramente demonstrava qualquer sombra de sentimento, tinha um brilho de orgulho inegável nos olhos. Ele caminhou até os dois filhos, ignorando completamente os olhares em choque de centenas de alunos e professores da academia.
— Ele tem um bom espírito — comentou Hugo, observando Vikir se debater. — Mesmo sob esse disfarce deplorável, o sangue Baskerville ferve quando provocado. Bom trabalho, Osíris. Parece que o treinamento de hoje foi produtivo.
— Produtivo?! — Vikir gritou, ainda tentando se soltar do aperto de ferro do irmão. — Você quebrou o ombro do meu colega! Você aterrorizou a escola inteira!
— Detalhes insignificantes — respondeu Hugo, dando as costas e começando a caminhar em direção à carruagem principal. — Traga-o, Osíris. Vamos jantar em família hoje. O diretor da academia entenderá a ausência dele.
— Com prazer, pai — disse Osíris, começando a carregar Vikir para fora do campo de treinamento como se estivesse carregando um troféu de caça.
— Eu não vou a lugar nenhum! — Vikir protestava, embora sua resistência estivesse diminuindo diante da percepção de que seu disfarce tinha acabado de ser incinerado em praça pública. — Me solta! Osíris, eu vou contar para a Pomeria que você quebrou o brinquedo favorito dela!
Osíris paralisou por um milésimo de segundo ao ouvir a ameaça sobre a irmã mais nova, mas logo recuperou a compostura e continuou marchando.
No campo de treinamento, o silêncio só foi quebrado pelo som distante dos protestos de Vikir. Tudor, com o ombro sendo tratado por um médico da academia que parecia estar em transe, olhou para Sancho.
— Então... — começou Tudor, a voz fraca. — O Vikir... ele é...
— O irmão mais novo do Osíris — completou Sancho, limpando o suor da testa com uma mão trêmula. — E, aparentemente, ele é a única pessoa no mundo que pode chamar o Patriarca de Ferro de "idiota" e sair vivo para o jantar.
— Eu acho que vou mudar de curso — sussurrou outro aluno ao fundo. — Talvez botânica seja mais seguro.
Enquanto a carruagem dos Baskerville partia, Vikir olhou pela janela, vendo a academia diminuir à distância. Ele viu seus amigos, viu a confusão e o medo, e suspirou profundamente, encostando a cabeça no estofado de luxo.
— Eu odeio vocês — murmurou ele para o pai e o irmão sentados à sua frente.
Hugo apenas serviu um copo de vinho tinto, enquanto Osíris sorria, limpando uma mancha imaginária em sua armadura.
— Nós também te amamos, Vikir — disse Osíris. — Agora, fale-me mais sobre esse tal "Tudor". Se ele é seu amigo, talvez eu deva aumentar o treinamento dele pessoalmente amanhã.
— Se você tocar nele de novo — Vikir disse, seus olhos vermelhos brilhando com uma promessa de violência real —, eu queimo sua coleção de espadas raras.
Osíris riu, um som alto e genuíno que ecoou pela carruagem. Pela primeira vez em muito tempo, a matilha estava completa, e para os Baskerville, não havia nada mais reconfortante do que o som de rosnados entre irmãos.