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Memórias em Baixa Resolução
O ar nos bastidores do teatro ainda vibrava com a energia do público que saía, mas para Ana, o mundo parecia estar em câmera lenta e ligeiramente fora de foco. O efeito das doses de cachaça e vodca, tomadas em um intervalo tão curto, começava a cobrar seu preço. Ela estava sentada em um banco alto, tentando manter a coluna ereta enquanto o burburinho ao seu redor soava como se estivesse debaixo d'água.
— Bebeu tanto que nem o sotaque tá saindo direito mais, hein? — brincou Thiago Ventura, aproximando-se com aquele jeito malandro de sempre. — Mas me diz aí, Ana... o segredo é o "Pai", né? Por isso que tu ficou tão nervosa quando a Natália falou de amizade antiga?
Ana levantou o olhar, tentando focar no rosto de Thiago. Ele sorria, convencido de que as indiretas das amigas de Ana sobre "alguém que ela conhece há muito tempo" se referiam a ele. Afinal, eles haviam começado na comédia quase juntos, dividindo palcos precários muito antes do sucesso estrondoso.
— Não viaja, Thiago... — Ana murmurou, a voz saindo mais suave do que o pretendido. — Tu é meu irmão, homem. Deixa de ser convencido.
— Ah, sei! — Dihh Lopes passou por trás deles, carregando sua mochila. — O Thiago está achando que é o galã do especial, mas a Ana ficou vermelha mesmo foi quando falaram de Curitiba. Só que, entre nós, o Ventura é o palpite óbvio. Eles têm história.
Afonso, que estava a poucos metros dali pegando sua jaqueta, ouviu a conversa. Ele sentiu uma pontada estranha no peito, uma mistura de ceticismo e algo que ele não queria admitir como ciúme. Ele olhou para Ana. Ela estava pequena naquele banco, com as bochechas ainda tingidas de rosa e os olhos brilhando de uma forma que o deixava inquieto. Se todos achavam que era o Thiago, por que ele tinha sentido aquela conexão tão forte com ela no palco minutos antes?
— Deixem a menina em paz — Afonso interveio, aproximando-se. — Ela já virou mais álcool do que o Rafael Portugal vira café. O cérebro dela deve estar fritando.
— Valeu, Afonso... — Ana sorriu para ele, um sorriso grato e cansado que fez o coração do humorista dar um solavanco. — Alguém com senso nessa mesa.
— Senso nada! — Natália surgiu do nada, agitando o celular como se fosse uma arma. — Eu ainda não mostrei o vídeo que a Rafaela prometeu. Ana, se você não admitir quem é o dono da pasta oculta, eu dou o play aqui mesmo, no meio do camarim!
— Natália, pelo amor de Deus! — Ana tentou se levantar, mas a tontura a fez sentar novamente com rapidez. — Apaga isso. Aquilo foi há anos, eu tava em outra vibe.
— Que vídeo? — Márcio Donato perguntou, subitamente interessado. — É constrangedor? Se for pra passar vergonha, eu quero ver.
— É a Ana de um jeito que vocês nunca viram — Natália provocou, rindo da cara de desespero da amiga. — Mas como eu sou uma alma caridosa e ela já está quase caindo do banco, vou guardar... por enquanto.
Aos poucos, o grupo começou a se dispersar. Thiago e os outros saíram para jantar, mas Ana pediu para ficar mais um pouco. Ela precisava que a cabeça parasse de girar antes de enfrentar o trajeto até o hotel. Afonso, fingindo que ainda estava organizando suas coisas, permaneceu no camarim.
— Eles já foram? — Ana perguntou, com os olhos fechados, encostando a cabeça na parede fria.
— Já. Só sobrou eu e a equipe de limpeza lá fora — Afonso respondeu, sentando-se no banco ao lado do dela. — Quer que eu te leve agora ou precisa de mais dez minutos de oxigênio?
— Eu só precisava de um tempo sem ninguém me perguntando nada — ela suspirou. — Aquelas meninas são terríveis. Elas sabem que eu sou péssima com essas coisas de sentimento.
— Elas te amam, Ana. Só quiseram te ver fora da zona de conforto — ele disse, observando o perfil dela. — Mas agora, sem câmeras... o Thiago realmente tem motivo para estar tão convencido?
Ana abriu um dos olhos e soltou uma risada curta.
— O Thiago é um bobo. Ele acha que toda história de "amigo de longa data" é sobre ele. A gente é próximo, sim, mas nunca teve nada disso. O problema é que a Natália e a Rafaela gostam de ver o circo pegar fogo. Elas sabem de quem eu gosto, e sabem que eu morro de medo de falar.
Afonso sentiu o peso daquela declaração. Ela gostava de alguém. E, pela reação dela no palco, esse alguém estava ali. Ele queria perguntar, queria pressionar como os outros fizeram, mas a vulnerabilidade de Ana o impedia. Em vez disso, ele decidiu mudar de assunto para aliviar o clima.
— E aquele vídeo que elas ameaçaram? É tão ruim assim?
— É péssimo! — Ana cobriu o rosto com as mãos, rindo de nervoso. — É de quando eu tinha dezoito anos. Eu tinha acabado de chegar em São Paulo, estava naquela fase de querer ser "cool", sabe? Meus amigos me levaram para uma boate na Augusta. Eu nem fazia comédia ainda, era só uma menina do Ceará tentando entender o que era o Sudeste.
Afonso riu da descrição.
— Agora eu fiquei curioso. O que você fez? Subiu no balcão?
— Quase isso — ela disse, pegando o celular na bolsa. — A Natália me mandou o arquivo mais cedo pra me chantagear. Eu não tive coragem de ver ainda, mas acho que o álcool me deu a bravura necessária.
Ela desbloqueou o aparelho com as mãos levemente trêmulas. Afonso se aproximou, os ombros quase se tocando, enquanto ela abria o vídeo.
A imagem era granulada, típica de celulares de cinco ou seis anos atrás. A música eletrônica ao fundo era abafada pelo som do ambiente, mas a figura central era inconfundível.
Era Ana, mas uma versão que Afonso nunca imaginaria. Aos 23 anos hoje, ela costumava usar roupas largas, camisas de botão ou camisetas de humoristas, sempre prezando pelo conforto. No vídeo, porém, a Ana de 18 anos usava uma calça de cintura baixíssima que acentuava sua silhueta, e uma blusa preta colada, de mangas longas, mas com as costas completamente nuas. O cabelo, que hoje ela mantinha em um corte prático, era longo, loiro e caía em ondas até o meio das costas. Os olhos estavam carregados de lápis preto, dando a ela um ar rebelde e magnético.
No vídeo, ela estava dançando com uma confiança que parecia ter esquecido de levar para a vida adulta. Ela ria para a câmera, girava, e a pele das costas brilhava sob as luzes estroboscópicas da boate. Era uma Ana selvagem, livre e absurdamente bonita.
— Meu Deus... — Ana murmurou, escondendo o sorriso com a mão livre. — Olha o estado dessa pessoa. Eu me achava a última bolacha do pacote.
Afonso não respondeu de imediato. Ele estava hipnotizado pela tela pequena. Ele sempre achou Ana atraente, mas havia algo naquela imagem — a combinação da inocência da idade com a audácia do visual — que o atingiu como um soco. Ele nunca tinha visto aquele lado dela, aquela energia vibrante que ela parecia ter trancado em um cofre junto com seus sentimentos.
— Você estava... diferente — Afonso finalmente disse, a voz um pouco mais rouca.
— Eu estava ridícula, Afonso! — ela riu, fechando o vídeo rapidamente, sentindo o rosto queimar mais do que com as doses de cachaça. — Olha aquele lápis de olho! Eu parecia um guaxinim gótico.
— Não, você não estava ridícula — ele disse, virando o corpo para ficar de frente para ela. — Você estava linda. Quer dizer, você é linda, mas ali... você parecia não ter medo de nada.
Ana parou de rir. O tom de voz de Afonso tinha mudado. Não era mais a provocação do colega de palco, nem a condescendência de um amigo cuidando de alguém bêbado. Era algo real, denso, que preenchia o espaço entre eles.
— Eu tinha menos a perder naquela época — ela confessou, baixando o olhar para o celular em suas mãos. — Hoje eu tenho medo de falar a coisa errada, de estragar amizades, de... sei lá. De não ser o que as pessoas esperam.
Afonso estendeu a mão e, com uma delicadeza que Ana não esperava, tocou o queixo dela, forçando-a a olhar para ele.
— Ana, se as pessoas esperam que você seja aquela menina do vídeo ou a comediante que foge de perguntas, elas estão erradas. Você é as duas coisas. E nenhuma delas deveria te dar medo.
O silêncio no camarim se tornou absoluto. Ana podia ouvir as batidas do próprio coração, ou talvez fosse o de Afonso, já que eles estavam tão perto. O cheiro de madeira e cítrico do perfume dele a envolvia, e por um momento, a névoa do álcool pareceu se dissipar, deixando apenas a clareza de que ela o amava. E que ele a olhava como se estivesse descobrindo um tesouro escondido.
— Afonso... — ela começou, mas a voz falhou.
— O Thiago é um cara de sorte por você gostar tanto da amizade dele — Afonso disse, aproximando o rosto, os olhos fixos nos lábios dela. — Mas eu espero, de verdade, que ele esteja errado sobre ser o motivo de você ter ficado vermelha hoje.
Ana sentiu um calafrio percorrer sua espinha. A coragem que ela não teve no palco, diante de centenas de pessoas e das câmeras, surgiu ali, na penumbra dos bastidores.
— Ele está errado, Afonso — ela sussurrou, a centímetros da boca dele. — Ele está completamente errado.
Afonso não precisou de mais nada. Ele reduziu a distância restante, selando os lábios nos dela em um beijo que misturava a urgência de uma noite de tensões acumuladas com a doçura de uma descoberta há muito esperada. Ana soltou o celular no banco, as mãos subindo para o pescoço dele, os dedos se perdendo nos cabelos da nuca de Afonso.
O beijo tinha gosto de vodca e de verdade. Não havia mais doses para tomar, nem perguntas para fugir. Ali, entre os espelhos do camarim e as memórias de uma jovem de 18 anos que dançava sem medo, Ana finalmente parou de se esconder.
Quando se separaram, ambos estavam ofegantes. Afonso encostou a testa na dela, um sorriso genuíno e vitorioso surgindo em seu rosto.
— É... definitivamente não é o Thiago — ele brincou, fazendo Ana soltar uma gargalhada genuína, a primeira da noite que não vinha do nervosismo.
— Cala a boca, Padilha — ela disse, puxando-o para outro beijo. — E nem pense em contar para as meninas. Elas já se acham videntes o suficiente por hoje.
— Meu segredo é seu, cearense — ele prometeu, abraçando-a pela cintura. — Mas eu ainda vou querer ver aquele vídeo mais uma vez. Só para conferir um detalhe.
Ana riu, sentindo-se, pela primeira vez em muito tempo, exatamente onde deveria estar. A emboscada das amigas tinha sido cruel, as doses tinham sido excessivas, mas o resultado final era algo que nenhuma piada ou roteiro poderia superar. O especial tinha terminado, mas para ela e Afonso, a verdadeira história estava apenas começando, longe dos holofotes e das perguntas comprometedoras da plateia.