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O Silêncio Atrás do Riso
O teatro estava mergulhado em um caos controlado. As luzes da ribalta, geralmente acolhedoras para Ana, agora pareciam interrogadores implacáveis. O suor frio descia por sua nuca, e o gosto amargo da cachaça já não era mais uma queimação prazerosa, mas um lembrete do quanto ela estava perdendo o controle da narrativa.
Sentado ao seu lado, Nando Viana observava a cena com uma expressão que oscilava entre o divertimento profissional e uma preocupação quase paternal. Ele conhecia Ana desde que ela era apenas uma promessa no cenário cearense, acompanhara sua mudança para o Sudeste e a via como uma filha que a comédia lhe dera. Ele percebia o que os outros, embriagados pela euforia do especial, ignoravam: o sorriso dela estava quebrando.
— Gente, vamos com calma — interveio Nando, tentando aliviar o clima quando Rafaela levantou o celular novamente. — A menina já virou mais dose que o Márcio Donato em dia de folga. Daqui a pouco ela vai começar a falar em aramaico.
— Nada disso, Nando! — gritou Rafaela da plateia, rindo com a crueldade que só as melhores amizades permitem. — A Ana sempre foi a "intocável". A gente quer saber a verdade. Se o vídeo vazar, o Brasil para!
Ana sentiu o estômago dar um nó. Ela olhou para a ponta da mesa, onde Thiago Ventura ria de uma piada que Dihh Lopes acabara de fazer. Thiago era o motivo de cada uma daquelas doses. Não era Afonso, como o público e até alguns colegas começavam a especular por causa da proximidade física deles no palco. Afonso era seu porto seguro, seu amigo de confidências, mas Thiago... Thiago era o caos que ela tentava organizar há anos dentro de si.
Diferente do que as amigas insinuavam, não havia uma "pasta oculta" com fotos dele. Ana era cuidadosa demais para deixar rastros digitais. Seu segredo vivia no modo como ela desviava o olhar quando ele entrava no camarim e na forma como ela decorava cada história que ele contava, mesmo as que já ouvira mil vezes.
— Ana, responde logo — provocou Rafael Portugal, cutucando o braço dela. — É o Afonso, né? Tu tá vermelha porque o curitibano tá aqui do lado.
Afonso Padilha olhou para ela com um sorriso curioso, esperando a resposta. Ana sentiu uma pontada de culpa. Afonso era incrível, e ela sabia que ele estava começando a desconfiar de algo, mas o alvo estava errado.
— Não é o Afonso, Rafael — murmurou Ana, a voz levemente arrastada pelo álcool. — O Afonso é... é o Afonso. Deixa o menino em paz.
— Ihhhhh! — a plateia rugiu.
— Então é o Thiago! — gritou Natália, outra amiga infiltrada. — Ana, confessa! O vídeo que a Rafaela tem é daquela noite no karaokê, lembra? Você cantando "Evidências" e olhando fixamente para a foto de uma certa "quebrada" no Instagram!
Thiago Ventura parou de rir imediatamente. Ele se inclinou para frente, os olhos brilhando com uma mistura de surpresa e ego inflado.
— Opa, opa, opa! — Thiago exclamou, ajeitando o boné. — Como é que é a história? Eu estou sendo citado nesse tribunal e não fui avisado? Aninha, tu anda vendo meu Instagram no karaokê, é?
Nando Viana sentiu o perigo. Ele viu o exato momento em que os olhos de Ana se encheram de uma vulnerabilidade que ela nunca permitia que ninguém visse.
— Chega dessa brincadeira, gente — disse Nando, a voz agora mais firme, tentando retomar o comando do palco. — Vamos para a próxima pergunta, essa aqui já deu o que tinha que dar. Cambota, puxa a ficha aí.
— Calma aí, Nando! — interrompeu Fabiano Cambota, sentindo o cheiro de audiência histórica. — O público quer sangue, e a Ana quer cachaça. Rafaela, solta a pergunta final.
Rafaela se levantou, triunfante.
— Ana, se você não admitir agora quem é o cara que você descreveu naquele vídeo como "o único que consegue me fazer perder o <i>timing</i> da piada", eu vou dar o play. E eu juro, o Thiago vai adorar saber os adjetivos que você usou.
Ana sentiu o mundo girar mais rápido. O segredo estava por um fio. Se ela falasse, destruiria a amizade com Thiago, mudaria a dinâmica do grupo e se tornaria vulnerável de uma forma que sua timidez não suportaria. Se não falasse, o vídeo falaria por ela.
— Letícia... — Ana começou, olhando para a amiga com um olhar suplicante que Nando captou na hora. — Por favor, não faz isso.
— Escolhe, Ana — rebateu Letícia. — Bebe ou fala. Mas tem que ser uma dose de absinto agora.
Nando esticou a mão para pegar o copo antes de Ana.
— Eu bebo por ela — declarou Nando. — A menina não tem mais fígado para isso.
— Não vale! — gritou Dihh Lopes. — Tem que ser ela. É a regra do especial!
Ana olhou para o copo de absinto verde-esmeralda. Olhou para Thiago, que a observava com uma intensidade nova, um olhar que tentava decifrar se aquilo tudo era apenas uma piada das amigas ou se havia uma verdade oculta ali. E olhou para Afonso, que parecia subitamente desconfortável com a tensão que se formara.
— Eu bebo — disse Ana, a voz num sussurro corajoso.
Ela pegou o copo com a mão trêmula. Nando segurou o pulso dela por um segundo, um último gesto de proteção silenciosa.
— Não precisa fazer isso, pequena — sussurrou ele, apenas para ela.
— Eu preciso, Nando — ela respondeu, com os olhos marejados. — É melhor o álcool me apagar do que eu ter que olhar nos olhos dele e dizer a verdade.
Ana virou o absinto de uma vez. O líquido desceu como fogo puro, roubando-lhe o fôlego e fazendo seus olhos lacrimejarem instantaneamente. A plateia explodiu em aplausos e gritos, mas para Ana, o som parecia vir de quilômetros de distância.
— Ela bebeu! Meu Deus, ela é uma guerreira! — gritou Rafael Portugal.
Thiago Ventura não estava comemorando. Ele se levantou e caminhou até o lugar de Ana, agachando-se ao lado da cadeira dela.
— Ana? — chamou ele, a voz baixa, longe do microfone. — Tu tá bem? O que é que tem nesse vídeo, garota? Por que tu tá fazendo esse sacrifício todo?
Ana olhou para ele. A proximidade era perigosa. O cheiro do perfume de Thiago, o mesmo que ela sentia nos bastidores e que a fazia perder o fio da meada, agora a envolvia completamente.
— É só uma piada, Thiago — ela mentiu, a voz falhando. — As meninas são loucas.
— Tu não bebe absinto por uma piada, Ana. Tu odeia absinto — Thiago retrucou, os olhos fixos nos dela.
Nando interveio, colocando a mão no ombro de Thiago.
— Deixa ela respirar, Thiago. Vamos encerrar o bloco.
A gravação foi interrompida para o intervalo. As luzes baixaram e a equipe de produção correu para o palco. Nando ajudou Ana a se levantar, mas ela estava visivelmente tonta.
— Eu levo ela para o camarim — disse Nando para os outros.
— Eu ajudo — prontificou-se Thiago, mas Nando o barrou com um olhar que não admitia contestações.
— Não, Thiago. Vai lá falar com a plateia, faz seu show. Eu cuido dela.
Nando guiou Ana pelos bastidores escuros. Assim que entraram no camarim reservado, ela desabou no sofá de couro, escondendo o rosto nas mãos.
— Ele percebeu, Nando — ela soluçou. — O Thiago não é burro. Ele viu o jeito que eu olhei para ele quando a Rafaela falou do vídeo.
Nando sentou-se ao lado dela, suspirando. Ele se sentia impotente. Tentara desviar o assunto, tentara beber por ela, tentara encerrar o bloco, mas a "emboscada" fora bem planejada demais.
— Ele pode até desconfiar, Ana, mas ele não tem certeza — consolou Nando, acariciando o cabelo dela. — E se ele souber... o que tem de tão ruim nisso? O Thiago gosta de você.
— Como amiga, Nando! — ela exclamou, levantando o rosto banhado em lágrimas. — Ele é o "Pai", ele é o cara que pega todo mundo, ele é meu parceiro de palco. Se eu admito isso, eu perco o único lugar onde eu me sinto igual a vocês. Eu viro "a menina apaixonada". Eu não quero ser isso.
— Você nunca vai ser só isso, Ana. Você é melhor que todos nós juntos — disse Nando com sinceridade. — Mas você não pode se matar de beber para esconder quem você é.
A porta do camarim se abriu abruptamente. Thiago Ventura entrou, ignorando os protestos do segurança na porta. Ele estava com o rosto sério, sem a máscara de humorista que sempre carregava.
— Nando, dá um minuto para a gente? — pediu Thiago.
— Thiago, ela não está bem... — começou Nando.
— Por favor, Nando. Eu só quero conversar — insistiu Thiago, olhando para Ana.
Nando olhou para Ana, buscando um sinal. Ela assentiu levemente, limpando as lágrimas com as costas da mão. O veterano saiu, mas parou na porta e olhou para Thiago.
— Não pisa na bola, moleque. Ela vale ouro.
A porta se fechou, deixando os dois em um silêncio pesado. Thiago caminhou até o centro do camarim, mas não se sentou.
— Aquilo tudo no palco... — começou Thiago, coçando a nuca. — Eu achei que era zoeira das meninas. Achei que elas estavam tentando empurrar você para o Afonso porque a internet gosta de <i>shippar</i> vocês dois. Mas aí eu vi sua cara quando elas falaram do karaokê.
Ana desviou o olhar, o coração batendo tão forte que ela achava que ele sairia pelo peito.
— Eu estava bêbada naquele dia, Thiago. Não conta.
— O vídeo não importa, Ana — disse ele, dando um passo à frente. — O que importa é que eu passei os últimos três anos achando que você me achava um idiota. Que você me achava barulhento demais, imaturo demais.
Ana soltou uma risada amarga e involuntária.
— Eu acho você um idiota, Thiago. E barulhento. E imaturo. Mas isso nunca impediu nada.
Thiago sorriu, aquele sorriso de lado que desarmava qualquer um.
— Por que você nunca disse nada? Por que deixou as meninas transformarem isso num circo?
— Porque eu tenho medo, Thiago! — ela explodiu, levantando-se do sofá, embora o mundo ainda balançasse um pouco. — Eu tenho medo de você rir da minha cara. Tenho medo de a gente não conseguir mais trabalhar junto. Tenho medo de você ser... bem, você. O cara que não para quieto com ninguém.
Thiago ficou em silêncio por um longo momento. Ele olhou para os próprios pés, depois para as luzes do espelho do camarim.
— Eu não vou rir de você, Ana. Nunca — ele disse, a voz subitamente rouca. — E sobre eu não parar quieto... talvez seja porque eu nunca achei alguém que me fizesse querer parar. Ou talvez porque a pessoa que eu queria estava ocupada demais bebendo doses de cachaça para não olhar na minha direção.
Ana paralisou. O álcool parecia ter evaporado de seu sistema, deixando apenas uma lucidez dolorosa.
— O que você está dizendo?
— Estou dizendo que o Nando é um péssimo protetor — brincou Thiago, tentando aliviar a tensão, mas seus olhos permaneciam sérios. — Porque se ele quisesse mesmo te proteger, ele teria me contado há muito tempo que eu não estava sozinho nessa.
— Thiago...
— Não diz nada agora — interrompeu ele, aproximando-se e segurando as mãos dela. — Você está bêbada, cheirando a absinto e a gente tem que voltar para o bloco final. Mas amanhã, sem câmeras, sem 4 Amigos e sem "Culpa é do Cabral"... eu vou na sua casa. E você vai ter que me ouvir.
Ele inclinou-se e beijou a testa dela, um gesto de carinho que foi muito mais íntimo do que qualquer piada no palco.
— Agora limpa esse rímel. O Brasil está esperando a cearense mais braba do mundo para encerrar o show.
Thiago saiu do camarim com a mesma energia com que entrara, deixando Ana em um estado de choque e esperança. Nando Viana entrou logo em seguida, observando a expressão da "filha".
— Ele foi babaca? — perguntou Nando, já preparando o sermão.
— Não — respondeu Ana, com um pequeno e real sorriso surgindo nos lábios. — Acho que ele foi o Thiago.
— É — suspirou Nando, oferecendo o braço para ela. — Às vezes isso é o suficiente. Vamos?
O especial terminou em alta. O público nunca soube exatamente o que foi dito naquele camarim, mas notou que, no bloco final, a química entre Ana e Thiago estava diferente. Não era mais apenas a provocação de colegas; havia uma eletricidade nova, um brilho nos olhos que nenhuma dose de álcool conseguiria simular.
Afonso Padilha, observador como sempre, notou a mudança. Ele olhou para Nando, que apenas deu um de seus sorrisos enigmáticos e deu de ombros. O segredo de Ana não pertencia mais a ela, nem às suas amigas traidoras. Agora, ele pairava entre ela e o rapaz de boné da quebrada, esperando o sol nascer para ser finalmente verbalizado.
Enquanto as câmeras eram desligadas e o teatro se esvaziava, Ana percebeu que a emboscada das amigas, embora cruel, fora o empurrão que sua timidez nunca permitiria. Ela ainda tinha muito o que conversar com Thiago, e o medo ainda estava lá, mas, pela primeira vez na noite, ela não sentia vontade de beber para fugir. Ela queria ficar sóbria para lembrar de cada segundo do que viria a seguir.