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Entre Páginas e Olhares Disfarçados

O cheiro característico de papel novo misturado com café expresso e aromatizadores de ambiente sempre foi o paraíso pessoal de Clara. Os corredores imensos do pavilhão da Bienal do Livro fervilhavam de vida: milhares de leitores empurrando carrinhos de feira personalizados, sacolas transbordando de edições especiais e uma profusão de luzes de ring lights que denunciavam os criadores de conteúdo do Booktok em cada esquina.

Para qualquer leitora ávida, aquele lugar era o ápice do ano. Para Clara, que tinha uma paixão incurável por romances dark repletos de moral duvidosa e homens perigosamente obcecados, era como caminhar no próprio Olimpo literário.

Mas havia um detalhe crucial que tornava aquele dia específico uma loucura completa: seu namorado era o centro das atenções do pavilhão principal.

E ninguém além de um círculo minúsculo de pessoas podia saber disso.

Clara ajeitou a alça da ecobag pesada sobre o ombro, sentindo os dedos doerem de leve pelo peso acumulado. Dentro da bolsa descansavam pelo menos quatro calhamaços de capa dura com corte pintado, todos adquiridos na última hora com o cartão de crédito preto fosco que descansava seguro no bolso traseiro de sua calça jeans.

Ela ainda conseguia ouvir a voz rouca de Erand sussurrando contra sua orelha naquela manhã, no quarto de hotel onde o ar-condicionado mal dava conta do calor da cidade:

— Se você sair daquele estande sem pelo menos dez livros, vou achar que não me ama mais. Passa o cartão em tudo o que quiser, baixinha. O Kellan banca.

Clara havia rido, jogando um travesseiro nele enquanto ele desfilava apenas de calça de moletom até o banheiro.

Erand era a personificação viva de Kellan, o protagonista sombrio, possessivo e absurdamente magnético de *Desenfreados*, o fenômeno literário que dominou as listas de mais vendidos nos últimos dois anos. Quando Kelly, a autora, descobriu Erand no Instagram e o convidou para ser o fancast oficial — estrelando os teasers cinematográficos, as capas variantes e os eventos —, o Booktok simplesmente entrou em colapso. O homem tinha a mandíbula esculpida, ombros largos e um olhar castanho tão penetrante que parecia capaz de queimar páginas de papel.

O que quase ninguém na internet sabia era como aquela história toda havia começado nos bastidores da vida real.

Um ano antes, na edição anterior da Bienal, Clara estava em um canto tímido perto da praça de alimentação, devorando um exemplar amassado e tentando recuperar o fôlego da muvuca. Erand, que ainda estava se acostumando com a atenção repentina, passou por ela cercado por assessores. Os olhares deles se cruzaram. Clara, reconhecendo o rosto que já stalkeava discretamente no Instagram por causa das postagens sobre o livro, deu um sorriso tímido de quem admirava à distância, sem coragem de pedir foto.

Mais tarde naquele mesmo dia, ela postou um story marcando a feira e comentando sobre a loucura de ver os personagens dos livros ganhando vida. Duas horas depois, seu celular vibrou: uma notificação de mensagem direta. Ele havia procurado o perfil dela no mar de marcações do evento até encontrar aquela garota de curvas generosas, cabelos soltos e um sorriso doce que não saía da cabeça dele.

A conversa começou tímida, virou áudios de três horas na madrugada e, em poucos meses, transformou-se em um amor ardente e protegido a sete chaves. Com o tempo, Clara não apenas conquistou o coração do modelo mais cobiçado da literatura nacional, mas também o de Kelly. A autora e ela se tornaram confidentes imediatas, unidas pelo amor a tramas de máfia, vilões redimíveis e fofocas literárias.

Por enquanto, manter tudo em segredo era a escolha deles. Clara amava sua paz longe dos linchamentos e da vigilância impiedosa das redes sociais, e Erand protegia a namorada como um verdadeiro cão de guarda.

Um estrondo de aplausos e gritos histéricos arrancou Clara de seus devaneios, trazendo-a de volta ao presente barulhento da Bienal.

Ela olhou ao redor. O ar parecia subitamente mais denso, saturado de calor humano. A quantidade de pessoas no cruzamento entre as ruas C e D do pavilhão aumentara drasticamente nos últimos minutos. Grupos de adolescentes corriam em direção a um palco montado com banners gigantescos de *Desenfreados*.

Clara engoliu em seco. Sentiu uma pontada incômoda na base do estômago.

Ela amava livros, mas sempre tivera um limite físico e emocional para multidões. A sensação de corpos prensados contra o seu, o zumbido incessante de centenas de vozes misturadas e a falta de espaço pessoal acionavam um gatilho silencioso dentro de seu peito. Uma fobia suave, quase uma claustrofobia social, que a deixava tonta e com a respiração curta se ficasse encurralada por muito tempo.

Erand sabia exatamente disso. Ele conhecia cada um dos seus sinais: o jeito como ela mexia na barra da blusa quando estava desconfortável, o pigarro seco na garganta, os olhos buscando as saídas de emergência.

Clara puxou o ar com força pelo nariz, enchendo os pulmões.

— Calma — murmurou para si mesma, ajustando a alça da bolsa. — É só uma fila rápida. Você consegue.

A ideia de entrar na fila de autógrafos como uma fã anônima havia nascido de uma aposta boba com Kelly no dia anterior. Clara queria a experiência completa: fingir timidez na frente do homem que dormia em seus braços todas as noites e ver a reação dele ao vivo, cercado por dezenas de câmeras de celular.

Contornando a grade de isolamento decorada com fitas pretas e vermelhas — as cores temáticas do livro —, Clara se posicionou no final da imensa fila de espera. As leitoras ao seu redor seguravam exemplares com post-its coloridos e conversavam animadamente sobre as cenas mais picantes de Kellan.

— Amiga, se ele me olhar daquele jeito que ele olha nos vídeos, eu juro que caio dura no chão — comentou uma garota magra à sua frente, ajeitando o batom no espelho do celular.

Clara mordeu o lábio inferior para conter uma risadinha cúmplice. Se aquela menina soubesse que aquele mesmo homem andava pela casa de meias furadas cantando pagode desafinado enquanto fazia torradas na frigideira, o mito do vilão intocável se esfarelaria em segundos.

A fila andava a passos lentos. A cada metro que avançava, a temperatura parecia subir cinco graus. O ar-condicionado central do pavilhão parecia ter desistido daquela área específica, sufocado pelo mar de pessoas aglomeradas.

Clara começou a sentir as mãos suarem frio. Seu coração deu um solavanco descompassado contra as costelas. Ela tentou focar nas capas brilhantes de seus livros recém-comprados, mas a sensação de enclausuramento começou a apertar. Havia gente na frente, gente atrás colada em suas costas, pessoas se espremendo nas laterais para tirar fotos de longe. O oxigênio parecia rarefeito.

Ela levou a mão ao decote da blusa, abanando o próprio rosto.

*Droga, agora não,* pensou, sentindo uma leve vertigem.

Foi nesse instante que a fila deu um salto significativo, aproximando-a da mesa principal.

A estrutura era impecável. Kelly estava sentada à esquerda, com seus cabelos coloridos presos em um coque estiloso, usando uma caneta dourada para rabiscar assinaturas dedicadas com um sorriso incansável no rosto. E ao lado dela, em pé, encostado com uma postura de pura arrogância ensaiada contra o painel fotográfico, estava Erand.

Ele vestia uma camisa social preta com os três botões superiores abertos, as mangas dobradas até os antebraços revelando os músculos tensos e a tatuagem falsa de Kellan — uma adaga entrelaçada por serpentes — aplicada com perfeição. O cabelo escuro estava levemente despenteado no estilo clássico do bad boy literário. Quando uma leitora subiu na plataforma para posar ao lado dele, ele inclinou o corpo ligeiramente, oferecendo aquele meio sorriso perigoso que já havia quebrado a internet dezenas de vezes.

Mas então, no segundo seguinte à saída da garota, os olhos castanhos e atentos de Erand varreram a fila.

E encontraram Clara.

O personagem sumiu por uma fração de segundo. A postura rígida vacilou. Seus olhos se arregalaram sutilmente em reconhecimento, brilhando com um misto instantâneo de carinho profundo e... alarme imediato.

Ele notou a palidez no rosto dela. Notou o modo como os dedos de Clara apertavam as alças da sacola com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos. Ele sabia exatamente o que estava acontecendo.

Erand franziu a testa de leve, quase imperceptivelmente para quem olhava de longe, e fez um sinal mínimo de cabeça, como quem pergunta silenciosamente: *Você está bem? Quer que eu te tire daí agora?*

Clara respirou fundo, endireitou a coluna e balançou a cabeça de forma quase invisível, sorrindo de canto. Ela aguentaria. Faltavam apenas três pessoas.

Kelly, percebendo a mudança na energia do parceiro de mesa, seguiu o olhar dele e avistou a amiga na fila. Os lábios da autora se curvaram em um sorriso travesso, mas logo seus olhos experientes também detectaram o leve tremor nas mãos de Clara. Kelly trocou um olhar cúmplice com Erand e sussurrou algo para o segurança particular que guardava a lateral da mesa.

— Próxima! — anunciou a assistente de produção com um crachá pendurado no pescoço.

As pernas de Clara pareceram um pouco pesadas, mas ela avançou até o tablado de madeira. O espaço aberto ao redor da mesa aliviou instantaneamente o peso sufocante da multidão atrás de si. Foi como emergir debaixo d'água.

Kelly levantou-se de imediato da cadeira, contornando a mesa e abraçando Clara com um entusiasmo que pegou a assistente de produção de surpresa.

— Menina, você conseguiu chegar viva! — exclamou a autora, fingindo que era apenas o carinho habitual por uma leitora querida, mas apertando Clara com afeto genuíno. — Me dá esse livro aqui agora para eu encher de corações!

— Obrigada, Kelly... — disse Clara, a voz saindo um pouco mais trêmula do que planejava, ainda tentando regular os batimentos cardíacos. — Eu quase fui esmagada na rua B, mas seu livro valia o sacrifício.

— Nem me fale de sacrifício — disse uma voz profunda e aveludada logo atrás delas.

Clara sentiu um arrepio familiar correr por sua espinha antes mesmo de se virar.

Erand havia dado dois passos largos e já estava parado bem ali, a centímetros de distância. Ele ignorou deliberadamente a pose distante que mantinha para as outras fotos. Seus olhos vasculharam o rosto de Clara, registrando cada detalhe: a respiração ainda um pouco acelerada, o rubor nas bochechas, o brilho de nervosismo no olhar.

— Olá... Kellan — brincou ela baixinho, tentando sustentar a encenação enquanto erguia os olhos para encará-lo.

— Olá, leitora — respondeu ele, a voz descendo uma oitava, carregada de um magnetismo que fez a fila inteira suspirar em uníssono.

Erand estendeu a mão grande e firme, envolvendo os dedos frios de Clara sob o pretexto de cumprimentá-la. O contato foi elétrico. O polegar dele começou a traçar círculos suaves e deliberados no dorso da mão dela — um gesto secreto, o código deles para "eu estou aqui, você está segura, respira comigo".

Instantaneamente, o nó no estômago de Clara se desfez. O calor da pele dele parecia ancorá-la na realidade, dissipando qualquer resquício de pânico ou agorafobia.

— Vamos tirar a foto? — perguntou a produtora, já erguendo o celular de Clara.

— Com certeza — respondeu Erand sem soltar o olhar do dela.

Ele puxou Clara com suavidade, mas com uma firmeza possessiva que não era apenas atuação de Kellan. O braço dele passou pela cintura dela, acomodando-se com perfeição na curva de seu quadril e puxando-a contra seu corpo largo. Clara encaixou-se ali como sempre fazia todas as noites: perfeita, confortável, em casa.

Kelly posicionou-se do outro lado, apoiando o queixo no ombro de Clara e fazendo uma pose divertida com a caneta.

Enquanto a assistente fazia a contagem regressiva, Erand inclinou a cabeça sutilmente para baixo, fingindo ajeitar o cabelo dela para a foto, e encostou os lábios a milímetros da orelha de Clara:

— Você está respirando melhor agora? — murmurou ele, baixo demais para o microfone da produção captar, a respiração quente queimando a pele sensível do pescoço dela.

— Sim... agora estou — respondeu ela em um sussurro quase inaudível, incapaz de conter o sorriso que iluminou todo o seu rosto.

— Ótimo. Porque assim que esse expediente acabar, você vai me explicar por que se meteu naquele inferno de fila em vez de entrar pelo camarim, minha gordinha teimosa — disse ele, a voz pingando afeto disfarçado de bronca. — E se você comprou menos livros do que eu mandei, vou ter que te punir. Como o Kellan faria.

As bochechas de Clara pegaram fogo, um tom escarlate brilhante subindo pelo seu pescoço.

— Três, dois, um! Sorriam! — disparou a produtora.

O flash espocou duas vezes.

Na tela do aparelho, a foto capturou uma imagem de tirar o fôlego: Kelly sorrindo abertamente, Clara deslumbrante e corada, e Erand, em sua perfeita persona de Kellan, olhando para a garota ao seu lado não com a arrogância distante do personagem, mas com uma intensidade pura, desarmada e absolutamente devota.

A assistente de produção devolveu o aparelho, boquiaberta com o resultado:

— Meu Deus, essa ficou perfeita... A química de vocês ficou absurda! Parece até foto de capa!

Kelly soltou uma gargalhada cúmplice, sentando-se novamente para assinar o livro de Clara:

— É o que acontece quando a energia bate, não é? Aqui, Clarinha, dedicado com todo o meu amor para a leitora mais especial dessa Bienal.

Clara pegou o exemplar autografado contra o peito, sentindo o peso reconfortante das palavras e da amizade que construíra com aquela mulher tão generosa.

Erand, a contragosto, teve que afastar o braço de sua cintura para que o fluxo do estande continuasse. No entanto, antes que Clara desse o primeiro passo para descer da plataforma, ele segurou a ponta de seus dedos mais uma vez, fingindo um cavalheirismo teatral para o público que assistia a tudo:

— Foi um imenso prazer conhecê-la... Clara — disse ele, fazendo questão de pronunciar o nome dela com uma reverência lenta, como se saboreasse cada letra. — Cuide bem desse exemplar.

— Eu vou cuidar — respondeu ela, os olhos brilhando com uma cumplicidade radiante. — Boa sorte com o resto das fãs, senhor Kellan.

— Eu vou precisar — murmurou ele apenas para ela, com um brilho cansado e divertido no olhar. — Me espera nos bastidores. Kelly vai mandar te levarem para a sala vip com ar-condicionado e café gelado. Sem multidões. Promete?

— Prometo.

Com o coração agora calmo, batendo em um ritmo suave e ritmado, Clara desceu do tablado sob os olhares curiosos e invejosos de várias garotas da fila. Uma das assessoras do estande, previamente instruída por Kelly, aproximou-se discretamente dela com uma pulseira preta de acesso irrestrito:

— Por aqui, senhorita. Temos uma área reservada para a convidada da autora.

Clara seguiu a mulher, afastando-se do mar revolto de pessoas e adentrando os corredores silenciosos e climatizados dos bastidores da Bienal. Antes de cruzar a porta de acesso restrito, ela olhou para trás uma última vez por cima do ombro.

Lá estava ele, de volta ao papel de Kellan, assinando pôsteres e posando com a frieza charmosa que o Booktok idolatrava. Mas bem no meio de um autógrafo, Erand ergueu os olhos escuros através da fresta da divisória e encontrou a silhueta dela.

Ele piscou um único olho para Clara, rápido e discreto, antes de voltar a encarar as câmeras.

Apertando a sacola pesada de romances proibidos contra o corpo e sentindo o cartão de crédito ainda quente no bolso, Clara sorriu para si mesma, sabendo que, no final das contas, o melhor capítulo de toda aquela história era o que eles escreviam longe de qualquer página impressa.

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