Filha perdida do stark
Operação Cinderela e o Vigilante de Ferro
O silêncio na oficina de Tony Stark era preenchido apenas pelo zumbido dos braços mecânicos e pela música clássica que ele usava para abafar seus próprios pensamentos. Tony estava debruçado sobre um novo protótipo de luva, mas seus olhos não saíam de uma pequena tela holográfica no canto que monitorava os sinais vitais de sua filha.
— Sexta-Feira, por que a frequência cardíaca da Duda subiu 15% nos últimos dez minutos? — Tony perguntou, ajustando o monóculo eletrônico. — Ela está correndo? Alguém invadiu o quarto dela? É o Barnes? Se for o Barnes, eu vou transformar o braço dele em um moedor de carne.
— A senhorita Maria Eduarda está apenas assistindo a uma comédia romântica brasileira, senhor — a voz da inteligência artificial respondeu calmamente. — Segundo os padrões de comportamento dela, esse aumento é compatível com o que ela chama de "emoção por um casal fictício".
Tony relaxou os ombros, mas não completamente.
— Comédia romântica, hein? Vigie os arredores. Se o "picolé de metal" aparecer num raio de dez metros, acione o protocolo de distração "Steve Rogers precisa de ajuda com a internet".
Enquanto isso, três andares acima, a situação era muito menos inocente. Duda estava sentada em sua cama, mas não assistia a filme nenhum. Ela estava frenética no celular, trocando mensagens com a única pessoa que poderia controlar o gênio, bilionário e agora pai superprotetor.
"Pepper, socorro! O papai está pior que um satélite espião. Eu só quero sair para jantar com o Bucky sem ter um drone da Stark Industries pairando sobre a nossa mesa de sobremesa. Você consegue distrair ele?"
A resposta veio em segundos, acompanhada de um emoji de risada.
"Deixe comigo, querida. Vou ligar para ele dizendo que temos uma crise diplomática urgente com as Indústrias Stark em Tóquio. Isso deve dar a vocês pelo menos três horas de paz. Divirta-se, e por favor, diga ao Bucky para não quebrar nada."
Duda deu um soco no ar, vitoriosa. Ela se levantou e começou a se arrumar. Escolheu um vestido de seda preta que realçava suas curvas e deixava seus cachos morenos livres, caindo em cascata sobre os ombros. Ela aplicou um batom vermelho marcante, olhando-se no espelho com um sorriso travesso.
— Tudo pronto para a fuga de Alcatraz? — A voz de Sam Wilson veio da porta entreaberta.
Duda se virou, rindo.
— Sam! Você é o melhor cúmplice que eu poderia pedir. O carro já está pronto?
— Estacionado na saída de serviço, longe dos sensores térmicos do seu pai — Sam entrou no quarto, girando as chaves no dedo. — Eu já fiz o Bucky se trocar. Ele estava tentando ir de jaqueta tática, mas eu convenci o homem que 1945 já passou e que uma camisa social não vai matar o supersoldado dentro dele.
— Você é um herói, Sam. Literalmente — Duda pegou sua bolsa.
— Eu sei, eu sei. Mas olha, se o Tony descobrir, eu vou dizer que fui hipnotizado pelos seus olhos brasileiros e que não tive escolha — Sam brincou enquanto a guiava pelo corredor. — Agora vamos rápido. O Bucky está esperando no hangar e ele está mais nervoso do que quando enfrentou o exército de Thanos.
Eles desceram pelas escadas de emergência, evitando os elevadores principais monitorados pela Sexta-Feira. No hangar sombrio, ao lado de um Audi preto discreto, estava Bucky Barnes. O cabelo estava penteado para trás, e ele usava uma camisa azul-marinho que realçava o azul profundo de seus olhos. Quando ele viu Duda, o soldado que já sobreviveu a quedas de trens e lavagens cerebrais pareceu esquecer como se respirava.
— Uau — Bucky murmurou, aproximando-se dela. — Você está... incrível, Duda.
— Você também não está nada mal, James — ela sorriu, aproximando-se e ajeitando a gola da camisa dele. — Pronto para a sua primeira consulta fora do consultório?
— Se a terapia incluir comida italiana e a sua companhia, eu aceito qualquer diagnóstico — ele respondeu, abrindo a porta do carro para ela.
— Ei, pombinhos! — Sam interrompeu, apontando para o relógio. — A Pepper já ligou para o Tony. Vocês têm exatamente cento e oitenta minutos antes que ele perceba que a "crise em Tóquio" é apenas uma reunião sobre design de embalagens. Vão logo!
Bucky assumiu o volante e acelerou suavemente, saindo do complexo por uma rota florestal que Sam havia mapeado. Por alguns minutos, o silêncio no carro era preenchido apenas pela expectativa.
— Sabe, James — Duda começou, observando o perfil dele sob a luz do painel —, meu pai vai surtar quando descobrir. Ele provavelmente vai querer colocar um rastreador GPS no seu braço de vibranium.
— Ele já tentou fazer isso na semana passada — Bucky deu um sorriso de canto. — Eu percebi quando ele "tropeçou" em mim e tentou colar um adesivo magnético nas minhas costas. Eu tirei e colei no escudo do Steve. O Tony passou três horas achando que o Capitão América estava indo para a academia clandestinamente.
Duda gargalhou, uma risada livre que fez o coração de Bucky se aquecer.
— Você é terrível! Mas é exatamente por isso que eu gosto de você. Você não tem medo dele.
— Eu já fui controlado pela Hydra, Duda — Bucky disse, sua voz tornando-se mais suave e séria enquanto ele estacionava o carro em frente a um pequeno e charmoso restaurante italiano na periferia da cidade. — Tony Stark é assustador com uma armadura, mas ele não é nada comparado ao medo que eu tinha de me perder para sempre. Mas com você... eu sinto que estou me encontrando.
Eles entraram no restaurante, um lugar iluminado por velas e com toalhas de mesa xadrez, onde ninguém os reconheceria. Pediram vinho e uma massa artesanal. A conversa fluiu de forma natural, passando da paixão de Duda pela psicologia organizacional até as memórias de Bucky sobre como o Brooklyn era antes da guerra.
— Então, doutora — Bucky disse, girando a taça de vinho —, qual é o veredito para o seu paciente favorito esta noite?
Duda se inclinou para frente, a luz da vela refletindo em seus olhos castanhos inteligentes.
— O veredito é que você está sofrendo de uma grave carência de vida normal. E que o seu mecanismo de defesa de "soldado carrancudo" está falhando miseravelmente quando eu estou por perto.
— É — Bucky admitiu, estendendo a mão de carne e osso sobre a mesa para tocar a dela. — Você tem esse efeito sobre as pessoas. Você vê além do que a gente tenta mostrar.
— É o meu trabalho, James. Mas com você, não é trabalho. É curiosidade. E talvez... algo mais.
Bucky sentiu o peso de décadas de dor diminuir. Ele olhou para Duda, para a pele morena que brilhava sob a penumbra, para a inteligência vibrante que ela exalava, e sentiu que, pela primeira vez em oitenta anos, ele tinha um futuro que não envolvia armas.
— Eu gostaria de explorar esse "algo mais" — ele sussurrou.
Ele se inclinou e a beijou. Foi um beijo lento, com sabor de vinho tinto e promessas silenciosas. Duda sentiu o calor da mão dele em seu rosto e a firmeza de um homem que finalmente estava em paz com sua própria força.
No entanto, o momento romântico foi interrompido por um som estridente vindo do bolso de Duda. Ela pegou o celular e viu uma mensagem urgente de Sam.
"CÓDIGO VERMELHO! O Tony descobriu que a reunião em Tóquio era um blefe. Ele está rastreando o sinal do carro. Pepper está tentando segurar ele na cozinha com um debate sobre sustentabilidade, mas ele já ativou a armadura. VOLTEM AGORA!"
— Droga! — Duda exclamou, levantando-se. — O papai está vindo.
— Ele é rápido, mas eu conheço atalhos — Bucky disse, jogando o dinheiro da conta na mesa e pegando a mão dela.
Eles correram para o carro. Bucky dirigiu como se estivesse em uma perseguição em Berlim, cortando caminhos por estradas de terra enquanto Duda tentava acalmar o pai por mensagem de voz.
— Pai! Eu estou apenas estudando em um café com o Sam! — ela mentiu descaradamente enquanto Bucky fazia uma curva fechada que quase a jogou para o lado dele.
— Mentir para um Stark é um erro tático, Maria Eduarda! — a voz de Tony soou pelo sistema de áudio do carro, hackeado por ele. — Eu estou vendo o seu sinal se movendo a oitenta quilômetros por hora em uma zona rural. A menos que esse café tenha rodas e um motor V8, você está com o Barnes!
— Tony, deixe os garotos em paz! — A voz de Pepper soou ao fundo, abafada. — Anthony, solte esse propulsor agora!
Eles chegaram ao hangar do complexo apenas segundos antes de uma mancha vermelha e dourada descer do céu com um estrondo. Bucky freou o carro, e Duda saltou antes mesmo de ele parar completamente.
Tony pousou, a máscara da armadura se abrindo para revelar um rosto vermelho de indignação.
— Três minutos atrasados para o toque de recolher — Tony disse, apontando o dedo para Bucky, que saía do carro tentando parecer o mais inocente possível. — E você, Robocop, eu vi você segurando a mão dela pelo satélite. Eu tenho fotos!
— Pai, para com isso! — Duda se colocou entre os dois. — Foi um jantar. Um jantar normal. Eu sou uma adulta, lembra? Brasileira, independente e muito capaz de decidir com quem eu saio.
— Ela tem razão, Stark — Sam Wilson apareceu, descendo de uma viga do teto onde estava escondido. — Além disso, o Bucky se comportou. Eu dei um curso intensivo de etiqueta para ele antes de saírem.
Tony olhou para Sam, depois para Bucky, e finalmente para Duda. Ele viu o brilho nos olhos da filha e a forma como Bucky parecia mais "humano" do que em anos. Ele suspirou, o metal da armadura fazendo um som de descompressão.
— Pepper disse que se eu estragasse a noite de vocês, ela me faria dormir no laboratório por um mês — Tony resmungou, fechando a armadura e começando a caminhar de volta para o elevador. — Mas Barnes, se eu vir um beijo de novo sem um contrato de intenções assinado em três vias, eu vou instalar um sistema de choque nesse seu braço.
— Entendido, senhor — Bucky respondeu com um sorriso vitorioso, piscando para Duda.
Duda abraçou o pai de lado enquanto caminhavam.
— Viu? Não foi tão ruim. E a Pepper mandou dizer que você precisa de uma consulta de graça comigo amanhã para tratar esse seu complexo de controle.
— Eu não tenho complexo de controle — Tony rebateu enquanto as portas do elevador se fechavam. — Eu apenas tenho um sistema de segurança global altamente eficiente que inclui a minha família.
Sam e Bucky ficaram para trás no hangar. Sam deu um tapa no ombro do amigo.
— E aí, valeu a pena o risco de ser explodido por um feixe repulsor?
Bucky olhou para a porta por onde Duda havia saído, o sorriso ainda em seu rosto.
— Valeu cada segundo, Sam. Valeu cada segundo.
Mais tarde, em seu quarto, Duda recebeu uma última mensagem de Pepper.
"O Tony está resmungando sobre 'protocolos de namoro' na oficina, mas ele está sorrindo. Ele gosta do Bucky, só não sabe como admitir que está perdendo o posto de homem favorito da vida da filha. Durma bem, querida. E da próxima vez, use o meu carro, ele é à prova de rastreamento Stark."
Duda riu e se deitou, sentindo que finalmente o Rio de Janeiro e Nova York haviam se fundido em algo novo e maravilhoso. Ela era uma Stark, sim, mas era também a mulher que havia capturado o coração de um soldado de gelo, e nada, nem mesmo as armaduras de seu pai, poderia mudar isso.