Flamenguista
A noite carioca os engoliu assim que saíram do bar. O calor de setembro ainda pesava no ar, mas a brisa que vinha da baía trazia um alívio úmido. Caio o guiou pelo estacionamento lotado, a mão quente e firme na de Pedro, abrindo caminho entre carros e motos com a segurança de quem conhecia cada centímetro daquele lugar. — Ela é essa — disse Caio, parando diante de uma moto preta e prata, baixa e musculosa, que reluzia sob a luz amarelada do poste. — Uma Harley. Velha de guerra, mas fiel. Pedro soltou um assobio baixinho, apesar de si mesmo. — Ela é linda. — Ela é. — Caio passou a mão pelo tanque, um gesto quase carinhoso. — Mas não é a mais bonita que eu vou levar pra passear hoje à noite. Pedro sentiu o rosto esquentar e agradeceu pela escuridão. — Você sempre fala essas coisas? — Só quando são verdade. — Caio abriu o baú lateral e tirou um capacete, um modelo preto fosco, e o entregou a Pedro. — Capacete pra você. Eu fico com o meu. — E se eu não quiser usar? — Pedro provocou, segurando o capacete com as duas mãos. — Aí a gente não vai a lugar nenhum. — Caio ergueu uma sobrancelha por cima dos óculos, que ele tinha recolocado. — Segurança primeiro, loirinho. Eu posso ser convencido, mas não sou idiota. Pedro riu, surpreendido pela seriedade repentina, e colocou o capacete. Caio o ajudou a ajustar a fivela, os dedos roçando a mandíbula de Pedro, e o gesto era tão íntimo que Pedro prendeu a respiração. — Pronto — murmurou Caio, os lábios perto demais. — Agora sim. Sobe. Pedro subiu na garupa, as mãos hesitando por um instante antes de se apoiarem nos ombros de Caio. O motor roncou, um som grave e profundo que vibrou através do corpo de Pedro, e ele sentiu um arrepio subir pela espinha. — Se segura em mim — disse Caio, virando a cabeça para trás, a voz abafada pelo capacete. — Não em mim, na moto. Em mim. — Você é impossível. — E você tá adorando. Pedro não respondeu, mas não negou. Quando a moto arrancou, ele apertou o abraço, o corpo colado ao de Caio, o vento quente batendo no rosto. A cidade passou por eles num borrão de luzes — os letreiros de neon dos bares, os faróis dos carros, o reflexo da lua na água da baía. Pedro nunca tinha se sentido tão vivo. O medo, a adrenalina, o calor do corpo de Caio contra o seu, tudo se misturava numa sensação que ele não sabia nomear. Caio subiu pela Tijuca, deixando para trás o burburinho do centro, e as ruas foram ficando mais estreitas, mais silenciosas, mais verdes. A moto desacelerou diante de um portão de ferro pintado de preto, com uma placa discreta: "Oficina do Caio — Motos e Reparos". Caio desligou o motor, e o silêncio da noite os envolveu. — Chegamos — disse ele, tirando o capacete e sacudindo os cabelos escuros. Pedro desceu da moto, as pernas um pouco bambas, e tirou o próprio capacete. O lugar era exatamente como ele imaginava: um galpão de tijolos aparentes, com motos em vários estágios de desmontagem, ferramentas penduradas nas paredes, o cheiro de óleo e metal no ar. Mas havia algo mais — uma escada de ferro que subia para um segundo andar, onde uma luz quente brilhava. — A garagem com vista — disse Caio, seguindo o olhar de Pedro. — Sobe. Eu já vou. Pedro subiu a escada, os degraus de metal ecoando sob os pés. No topo, encontrou um espaço que não esperava: um sofá grande e gasto, uma mesa com duas canecas, uma estante cheia de livros e, no fundo, uma porta de vidro que dava para um terraço. Ele atravessou o cômodo e abriu a porta. A vista era de tirar o fôlego. A cidade se estendia lá embaixo, um mar de luzes que tremeluzia até o horizonte, com a silhueta do Cristo Redentor recortada contra o céu escuro. Pedro ficou parado ali, o vento fresco no rosto, sentindo que tinha caído em outro mundo. — Gostou? — A voz de Caio chegou por trás, baixa e quente. — É... — Pedro virou, e encontrou Caio parado na porta do terraço, sem os óculos agora, os olhos escuros fixos nele. — É lindo. — Eu sabia que você ia gostar. — Caio se aproximou, parando ao lado dele, os dois olhando a cidade. — Eu venho pra cá quando quero pensar. Ou quando quero não pensar. — E hoje? — Pedro perguntou, baixinho. — O que você quer? Caio virou o rosto para ele, e por um longo momento não disse nada. Depois, ergueu a mão e, com a ponta dos dedos, afastou uma mecha de cabelo loiro do rosto de Pedro. — Hoje eu quero te conhecer — disse ele, a voz um murmúrio. — Sem pressa. Sem aposta. Só você e eu, essa vista, e a noite inteira pela frente. Pedro sentiu o coração apertar. Ele tinha entrado naquele bar esperando uma noite comum com os amigos. Tinha saído de lá na garupa de uma moto, com um estranho tatuado que beijava como se o mundo fosse acabar. E agora, parado naquele terraço, com a cidade inteira aos pés, ele percebeu que não queria estar em nenhum outro lugar. — Eu também quero — disse ele, e a voz saiu firme, surpreendendo a ele mesmo. — Te conhecer. O sorriso de Caio se abriu, lento e verdadeiro, e ele estendeu a mão. — Então vem. Vamos começar.