Fogo da Forja
Têmpera a Sangue Quente
A claridade tênue da alvorada filtrava-se pelas frestas naturais da caverna rochosa, pintando o chão da oficina com feixes de um dourado poeirento.
No canto mais afastado da forja, sobre um catre improvisado coberto de peles de animais e mantas grossas, um par de orelhas felinas tremeu involuntariamente ao captar o piado distante de um sauriano selvagem. Xilonen piscou os olhos pesados, sentindo uma dor surda na base do crânio, resquício inevitável dos vapores de álcool tribal que havia respirado a noite inteira colada à boca de Mavuika.
Ela rolou de lado, os membros pesados e dormentes, sentindo a aspereza das peles contra sua pele nua. Uma brisa fresca que entrava pela chaminé fez os pelos de seus braços se arre حرiarem. Foi então que seu olhar recaiu sobre a bancada central.
A lâmina.
A espada encomendada pelos guerreiros de elite da tribo repousava abandonada sobre a bigorna de ferro maciço. O metal, que antes brilhava com a ressonância sagrada da têmpera contínua, agora estava completamente escuro, opaco e frio como uma pedra de rio.
A memória da noite anterior atingiu Xilonen com o peso de uma avalanche vulcânica. As cinco horas de trabalho jogadas no lixo. As mãos atrevidas. O gemido rouco contra seu pescoço. A perda absoluta de controle sobre a mesa de ferramentas.
— Fudeu — murmurou a loira, a voz rouca falhando na garganta seca.
Ela sentou-se num solavanco tão brusco que sua cauda felina chicoteou o colchão com estalos secos.
— Fudeu, fudeu, fudeu completamente! — praguejou, levando as mãos ao rosto em puro desespero.
O prazo final era o entardecer daquele exato dia. Se não entregasse a arma forjada com a infusão correta de Phlogiston, os batedores partiriam desarmados para a fronteira das cinzas, e sua reputação impecável como a maior ferreira de toda Natlan viraria fumaça diante dos anciãos.
Xilonen saltou da cama sem pensar duas vezes, ignorando a dor sutil nos músculos da coxa e as marcas arroxeadas que decoravam sua clavícula e seus quadris. Seus passos descalços bateram com pressa contra o chão de pedra enquanto ela recolhia freneticamente suas roupas do chão e dos suportes de madeira.
Roupa de baixo de linho cru bem amarrada. A calça resistente de lona reforçada. O corpete estruturado para proteger a caixa torácica. Ela ajustou as tiras de couro curtido com puxões firmes e impacientes, calçando as botas pesadas de sola dupla que isolavam a sola dos pés das brasas vivas. Em seguida, colocou as braçadeiras de metal, as luvas de camurça tratada com cinzas vulcânicas e, por fim, o pesado avental de couro de réptil, projetado para suportar faíscas incandescentes sem queimar a carne.
Ela estava trancada em sua armadura de trabalho. Pronta para uma guerra contra o tempo.
— Que barulho todo é esse logo cedo, gatinha...?
A voz arrastada, preguiçosa e profundamente sensual veio do fundo do catre.
Xilonen virou-se bruscamente, com a tenaz de ferreiro já na mão. Mavuika estava acordando. A deusa do fogo espreguiçou-se com a lentidão indolente de um grande felino que havia acabado de devorar sua presa. Os longos cabelos ruivos, volumosos e desgrenhados como chamas rebeldes, espalhavam-se como um manto vivo pelas peles da cama.
Com um suspiro sonolento, a Arconte empurrou as cobertas para os pés, revelando-se completamente sem pudor. O corpo curvilíneo e esculpido por séculos de glória brilhava sob a luz da manhã; sua pele bronzeada contrastava com as tatuagens geométricas em tributo ao sol, que pareciam pulsar sob a derme com uma calmaria morna. Havia marcas de unhas em seus ombros largos — presentes deixados por Xilonen durante o fervor da madrugada —, mas a ruiva exibia cada arranhão com evidente orgulho.
— O barulho é o som da minha ruína iminente! — retrucou Xilonen, apontando a tenaz para o pedaço de aço sem vida. — Eu tenho menos de dez horas para recomeçar o processo do zero, refazer o molde térmico e bater essa liga ancestral. E a culpa é sua e daquela sua garrafa maldita de aguardente!
Mavuika soltou uma risada baixa, rouca e absurdamente despreocupada. Ela sentou-se na borda da cama, apoiando os cotovelos nos joelhos separados, sem fazer a menor menção de cobrir a nudez majestosa.
— Não coloque a culpa na garrafa pelo que a sua boca pediu a noite inteira — zombou Mavuika, piscando um dos olhos cor de rubi. — Mas... você parece genuinamente apavorada. Isso não combina com você.
— Eu não estou apavorada, estou atrasada! Agora me deixe trabalhar — pediu a ferreira, virando as costas e marchando em direção ao fole mecânico para acender as brasas.
Mavuika levantou-se. Seus pés descalços tocaram o chão frio da forja, mas a pedra ao redor de seus passos aqueceu-se instantaneamente, soltando pequenos fios de vapor. Ela não procurou sua túnica preta e vermelha. Não buscou sequer um pedaço de tecido para cobrir a nudez escultural.
— Se o problema é tempo para aquecer e moldar a liga de Phlogiston... — Mavuika caminhou a passos lentos e silenciosos até parar ao lado da bancada, cruzando os braços sob os seios fartos, fazendo com que sua postura ficasse ainda mais imponente e provocadora — ... acho que você esqueceu quem eu sou.
Xilonen parou com a mão na alavanca do fole, encarando a deusa de cima a baixo com evidente exasperação.
— Sei muito bem quem você é: uma deusa desocupada que vai me atrapalhar de novo. E por que diabos você continua pelada? Isso aqui é uma oficina de metalurgia, voam lascas em brasa a quinhentos graus o tempo todo! Coloque uma roupa antes que você se queime!
Mavuika jogou a cabeça para trás e gargalhou, um som claro e vibrante que ressoou pelas paredes de basalto.
— Me queimar? — Ela deu um passo à frente, abrindo as palmas das mãos. Chamas puras, de um vermelho carmesim profundo entrelaçado com fios dourados, brotaram espontaneamente de seus dedos, lambendo sua pele sem deixar o menor vestígio de cinza ou dor. — Minha querida ferreira... eu *sou* o fogo de Natlan. O calor da sua forja é apenas uma brisa de verão para mim. Vista sua armadura se precisa dela. Eu prefiro a liberdade.
Xilonen engoliu em seco, sentindo a boca secar diante da visão. Mavuika nua, envolta em labaredas místicas que projetavam sombras dançantes sobre suas coxas musculosas e seu abdômen definido, era um espetáculo que desafiava qualquer força de vontade.
— Vai ajudar ou vai ficar aí exibindo o que você tem? — disparou Xilonen, tentando manter a voz fria enquanto puxava o martelo mais pesado do suporte.
— Vou fazer os dois — respondeu a Arconte com um sorriso malicioso.
Mavuika aproximou-se da câmara de combustão da forja. Em vez de usar carvão ou o fole manual, ela simplesmente estendeu o braço direito diretamente para o coração de pedra da lareira. Uma onda de calor abrasador explodiu de seu corpo. O Phlogiston dormente respondeu com violência ao chamado divino, rugindo em um tom azulado e incandescente instantaneamente.
— Temperatura perfeita para a dobra do metal ancestral — disse a ruiva, mantendo uma das mãos dentro do fogo como se estivesse banhando os dedos em água morna. — Anda, coloque a lâmina aqui.
Mesmo desconfiada, Xilonen agarrou o bloco de metal com a longa tenaz e o mergulhou nas chamas avassaladoras de Mavuika. O aço respondeu em segundos, atingindo a cor exata de amarelo-ouro que normalmente exigiria duas horas de bombeamento constante de ar.
— Incrível... — murmurou a ferreira, esquecendo a irritação por um milésimo de segundo. — O calor está perfeitamente homogêneo. Como você consegue estabilizar a ressonância sem oscilar a pressão?
— Anos de prática controlando vulcões — respondeu Mavuika, a voz subitamente mais próxima do que deveria.
Xilonen puxou a lâmina incandescente do fogo e a posicionou com rapidez sobre a bigorna. Ela ergueu o pesado martelo de duas mãos, calculando o primeiro golpe de dobra.
No exato momento em que seus músculos se contraíram para descer a ferramenta, sentiu dois seios macios, firmes e incandescentes pressionarem-se contra suas costas protegidas pelo couro.
O calor que emanava do corpo desnudo de Mavuika atravessou até mesmo as camadas grossas do avental de Xilonen. Os braços bronzeados da deusa, ainda brilhando com faíscas residuais de Phlogiston, envolveram os ombros da loira por trás.
— O que você...?! — Xilonen desceu o golpe, mas a pancada saiu torta, espalhando fagulhas para longe da bigorna.
— Só estou garantindo que você não perca o ritmo — sussurrou Mavuika rente à sua orelha esquerda.
A Arconte desceu uma das mãos livres, ignorando completamente as faíscas que saltavam do ferro em brasa e batiam em sua pele nua, desintegrando-se inofensivas. A palma quente de Mavuika deslizou pela lateral do corpete de Xilonen, encontrando a fresta onde o tecido encontrava a calça justa. Com dedos calejados e atrevidos, ela agarrou a lateral do quadril da ferreira, apertando a carne com força possessiva.
— Mavuika, por favor! — exclamou Xilonen, tentando ignorar o arrepio violento que subiu por sua coluna. — Eu preciso de precisão! Se a batida errar o ângulo, o núcleo da lâmina trinca!
— Então bata com precisão, gatinha — provocou a deusa ruiva, sua boca subindo pelo pescoço suado de Xilonen até alcançar a base sensível de sua orelha de leopardo.
Mavuika soltou uma lufada de ar quente contra a penugem dourada da orelha felina e deu uma mordidinha carinhosa na cartilagem.
Xilonen soltou um arquejo estrangulado. Sua cauda, que deveria estar relaxada para manter o equilíbrio durante o golpe, eriçou-se inteira e começou a chicotear o ar descompassadamente, traindo a batalha interna que travava entre o dever e a luxúria.
— Você é uma peste — rosnou a loira, forçando-se a erguer o martelo novamente.
*Clang!*
Desta vez o golpe foi firme, certeiro. O metal vibrou harmoniosamente.
— Isso... assim mesmo — elogiou Mavuika, cuja voz tornara-se um ronronar perigoso.
Aproveitando a postura aberta de Xilonen para a forja, a Arconte deslizou a outra mão para a frente, enfiando-a por baixo da aba de couro do avental. Seus dedos quentes como brasas cobriram o peito de Xilonen por cima do corpete fino, apertando o mamilo já enrijecido através do tecido com uma pressão deliciosa e calculada. Ao mesmo tempo, Mavuika colou a pelve completamente nua contra a bunda vestida de couro da ferreira, rebolando em um atrito lento, pesado e implacável.
— Pelos deuses ancestrais... — gemeu Xilonen, as pernas vacilando por um segundo sobre as botas de trabalho.
— Não reze para os ancestrais quando você tem a deusa suprema esfregando o corpo inteiro nas suas costas — sussurrou Mavuika, a respiração pesada soprando no ombro da loira. Sua mão desceu do peito para a barriga lisa de Xilonen, apertando com volúpia. — Continue martelando. Se parar, o fogo apaga.
— Você está me torturando de propósito! — protestou Xilonen, descendo o martelo mais uma vez com força brutal, descontando a frustração excitada no aço incandescente.
*Clang! Clang! Clang!*
O ritmo das marteladas acelerou, ecoando como uma canção frenética pelas paredes de pedra. A cada golpe que Xilonen desferia, Mavuika acompanhava com uma investida de seu quadril, pressionando sua nudez ardente contra a ferreira, gemendo baixo em aprovação a cada músculo que via tensionar-se nas costas da loira.
— Olha só para você... tão focada, tão forte... — Mavuika deslizou a mão por dentro do cós da calça de Xilonen, apenas o suficiente para afundar os dedos na curva superior de sua nádega, puxando-a contra si com firmeza escandalosa. — O seu suor tem cheiro de pólvora e desejo, Xilonen. Você quer me jogar nessa bigorna de novo, não quer?
A cauda de leopardo de Xilonen não resistiu mais à provocação. Desesperada por contato, ela serpenteou no ar e enrolou-se com possessividade em volta da coxa nua e bronzeada de Mavuika, apertando a carne macia da deusa com urgência felina.
Mavuika soltou uma risada vitoriosa, arqueando o pescoço para trás ao sentir a cauda peluda esfregar-se contra suas coxas.
— Viu? — sussurrou a ruiva, mordiscando a linha da mandíbula de Xilonen. — Seu corpo sempre sabe o que quer.
— Eu quero... terminar... essa... droga de espada! — gritou Xilonen, desferindo uma sequência de três marteladas devastadoras e perfeitas sobre o metal.
O aço dobrou-se com uma precisão matemática sublime, a ressonância das fagulhas subindo em um halo dourado que banhou as duas mulheres em pura luz divina. O calor emitido pelas mãos e pela pele de Mavuika mantivera a temperatura do Phlogiston em seu ponto mais alto e estável, acelerando horas de trabalho em meros minutos de pura intensidade.
Com um movimento rápido e ofegante, Xilonen usou a tenaz para erguer a lâmina completa da bigorna. Girou o corpo nos braços de Mavuika, quase empurrando a deusa nua com o cabo da ferramenta, e mergulhou a lâmina incandescente no grande tanque de óleo de têmpera mineral.
*Tssssssssssssssssssssssss!*
Uma nuvem monumental de fumaça branca e aromática explodiu do tanque, encobrindo a oficina em uma névoa espessa e quente. O chiado estridente do resfriamento brusco finalmente cessou, deixando no ar apenas o som das respirações entrecortadas das duas mulheres.
Xilonen ergueu a lâmina do líquido escuro.
A fumaça dissipou-se lentamente, revelando a obra-prima. O metal cinzento agora exibia padrões ondulados como chamas ancestrais gravadas permanentemente na liga, vibrando com um brilho latente de Phlogiston que jamais se apagaria. A arma estava perfeita. O prazo estava salvo com horas de antecedência.
O martelo escapou dos dedos de Xilonen, caindo com um estrondo oco no chão de terra batida.
Mavuika estava parada bem diante dela, cercada pelos últimos vestígios de vapor. Seus cabelos ruivos caíam em ondas selvagens, suas tatuagens solares ainda brilhavam com um fulgor preguiçoso e seus olhos vermelhos fitavam a ferreira com uma mistura embriagadora de triunfo e luxúria insaciável.
— Viu só? — disse Mavuika, dando um passo à frente, as mãos apoiando-se na borda de couro do avental de Xilonen com naturalidade insultante. — Terminamos o trabalho a tempo. Minha ajuda foi... eficiente, não foi?
Xilonen soltou um suspiro trêmulo, arrancando as pesadas luvas de camurça e jogando-as sobre a bigorna. Levou as mãos desnudas aos cabelos loiros, desfazendo o coque e deixando as mechas caírem sobre os ombros suados. Suas orelhas felinas giraram para a frente, fixando a atenção total na deusa nua à sua frente.
— Você não ajudou em nada — mentiu Xilonen, a voz falha pela exaustão e pela tensão represada. — Você foi um estorvo criminoso.
— Um estorvo que te deu o fogo mais puro de toda Teyvat — rebateu a Arconte, diminuindo a distância até que seus lábios quase roçassem os de Xilonen. — E agora que a espada dos guerreiros está pronta... acho que a minha recompensa está muito atrasada.
Xilonen olhou para a lâmina impecável repousando segura na bancada. Depois, fitou o corpo despido, divino e deliberadamente oferecido da mulher mais poderosa de Natlan.
Um sorriso enviesado, predatório e genuinamente felino curvou os lábios da ferreira.
Com as mãos firmes e calejadas, Xilonen desatou de uma só vez o nó que prendia seu pesado avental de couro, deixando-o cair pesadamente no chão entre as duas.
— Você não tem vergonha nenhuma nessa cara, não é, Mavuika?
— Nenhuma — confessou a Arconte, os olhos reluzindo em puro deleite quando sentiu as mãos de Xilonen agarrarem sua cintura nua com uma força que exigia submissão mútua.
— Ótimo — rosnou a loira, empurrando a deusa de costas contra a mesa de carvalho pela segunda vez naquele dia. — Porque agora é você quem vai ter que aguentar a minha têmpera.