Forced marriage
O Eco do Ciúme e a Vinho de Sangue
O brilho metálico das duas novas aquisições de Engfa Waraha reluzia sob as luzes da garagem como troféus de uma guerra silenciosa. Uma Lamborghini Revuelto em um tom de cinza fosco e um Porsche 911 GT3 RS azul-turquesa. Ela havia gastado uma pequena fortuna naquela manhã, não apenas pelo prazer de dirigir, mas pelo prazer de saber que Charlotte teria novos alvos para sua fúria se as coisas saíssem do controle. Mas, estranhamente, o foco de Engfa não estava nos cavalos de potência.
Sentada em sua mesa de carvalho na sede das Empresas Waraha, Engfa não revisava relatórios de fusões ou gráficos de lucro. Seus olhos estavam fixos em um monitor secundário, escondido atrás de uma planilha de Excel aberta. A imagem era em preto e branco, vinda de uma câmera de segurança que ela instalara — ou melhor, que obrigara o técnico de TI de Charlotte a "esquecer" de registrar no sistema — no escritório de advocacia Austin & Associados.
— Que proximidade é essa, Charlotte? — murmurou Engfa, os dedos apertando a borda da mesa até as juntas ficarem brancas.
Na tela, Charlotte estava debruçada sobre uma mesa de conferência, analisando documentos. Ao lado dela, perigosamente perto, estava Mew. Ele era um advogado brilhante, elegante e, aos olhos de Engfa, uma ameaça ambulante. Mew apontava para uma cláusula no papel, e Charlotte sorria. Não era o sorriso frio que ela dava aos adversários, nem o sorriso provocador que guardava para Engfa. Era um sorriso de... parceria.
Engfa viu quando Mew tocou o ombro de Charlotte para chamar sua atenção. O sangue da empresária ferveu. Ela não sabia que Mew era casado com Tul, um arquiteto de renome, e que a relação entre ele e Charlotte era estritamente profissional e de uma amizade de longa data. Para Engfa, qualquer átomo de oxigênio que Charlotte compartilhasse com outra pessoa era um roubo.
Ela desligou o monitor com um movimento brusco, pegou as chaves da Lamborghini e saiu da sala como um furacão.
O trajeto até o escritório de Charlotte foi feito em tempo recorde. Engfa dirigia como se estivesse em uma pista de corrida, a adrenalina alimentando sua possessividade. Ao chegar na recepção da Austin & Associados, ela não parou para anunciar sua presença.
— Senhora Waraha, a Dra. Charlotte está em uma reunião importante, a senhora não pode... — a secretária tentou intervir, mas Engfa a ignorou, caminhando em direção ao corredor dos escritórios principais.
Dois seguranças, novos na equipe e que não conheciam o temperamento da esposa da chefe, barraram seu caminho em frente à porta de carvalho maciço.
— Saiam da frente — rosnou Engfa, sua voz carregada de uma autoridade perigosa.
— Sinto muito, senhora, mas temos ordens estritas da Dra. Austin. Ninguém entra sem autorização prévia — disse um dos homens, mantendo a postura firme.
Engfa riu, um som seco e sem humor. Ela cruzou os braços, os olhos castanhos faiscando.
— Vocês sabem quem eu sou? Eu sou a dona de metade do que vocês estão pisando agora. Saiam. Antes que eu faça questão de que vocês nunca mais consigam emprego nem como vigias de estacionamento em Bangkok.
A tensão no corredor era palpável. Engfa estava prestes a partir para a agressão física quando a porta se abriu lentamente. Charlotte apareceu, impecável em um terno de corte italiano, segurando uma taça de vinho tinto. Ela olhou para a cena com uma calma irritante, levando o cristal aos lábios antes de falar.
— Deixem-na passar — ordenou Charlotte, sua voz suave como seda, mas com o peso de um comando absoluto. — Ela não vai parar até conseguir o que quer. É uma criança mimada, afinal.
Os seguranças recuaram imediatamente. Engfa passou por eles, esbarrando propositalmente no ombro de um deles, e entrou no escritório, fechando a porta com um estrondo que fez os quadros na parede vibrarem.
O escritório era amplo, com uma vista deslumbrante da cidade, mas Engfa só tinha olhos para o sofá de couro onde Mew agora não estava mais. Ele havia saído por uma porta lateral segundos antes.
— Onde ele está? — Engfa perguntou, caminhando até o centro da sala.
Charlotte caminhou calmamente até sua mesa, sentando-se na beira dela, cruzando as pernas longas e observando a esposa com um olhar calculista.
— "Ele" quem, Engfa? Eu trabalho com muitas pessoas. Diferente de você, eu realmente produzo algo além de escândalos.
— Não brinque comigo, Charlotte. O advogado. O tal do Mew. Eu vi como ele estava tocando em você.
Charlotte ergueu uma sobrancelha, um brilho de diversão sádica em seus olhos.
— Ah, você viu? E como, exatamente, você viu? — Ela deu outro gole no vinho, deixando o silêncio punitivo se estender. — Você instalou câmeras no meu escritório, Engfa? De novo?
Engfa travou. Seu orgulho a impedia de admitir a invasão de privacidade, mas sua fúria era maior que sua cautela.
— Isso não importa! O que importa é que ele estava invadindo o seu espaço. O meu espaço.
— Mew é meu colega. Um excelente advogado, por sinal. E muito atraente, você não acha? — Charlotte provocou, sabendo exatamente onde apertar. — Ele tem mãos muito gentis.
O grito de raiva que escapou de Engfa foi abafado pelo som dela avançando sobre Charlotte. Ela agarrou a taça de vinho da mão da advogada e a jogou contra a parede. O líquido vermelho escorreu pelo papel de parede bege como sangue fresco, e o vidro se estilhaçou no chão.
— Você é minha, Charlotte! — Engfa gritou, prensando a esposa contra a mesa, as mãos segurando os ombros de Charlotte com força. — Eu não me importo com quem ele é ou o quão "gentil" ele seja. Se eu vir ele encostando em você de novo, eu acabo com a carreira dele e com a sua paciência.
Charlotte não recuou. Pelo contrário, ela inclinou o rosto para frente, desafiando a proximidade.
— Você está perdendo o controle, Engfa. Isso é patético. Você sai por aí com modelos, aparece em fotos com marcas no pescoço, e agora quer exigir exclusividade porque eu estava trabalhando?
— Eu faço aquilo para você reagir! — Engfa admitiu, a voz falhando por um segundo na vulnerabilidade que tanto odiava. — Porque é a única forma de você me olhar sem essa indiferença de gelo!
— Minha indiferença é a resposta para a sua imaturidade — Charlotte sussurrou, sua mão subindo lentamente para o colarinho da camisa de Engfa, puxando-a para mais perto. — Você quer atenção? Você quer que eu marque você como você marca essas vadias de quinta categoria?
— Eu quero que você admita que me quer tanto quanto eu quero você — Engfa rosnou, o hálito quente contra os lábios de Charlotte.
Charlotte sorriu, um sorriso predatório.
— Eu nunca neguei que você me pertence, Engfa. Mas você precisa aprender a respeitar o meu território.
Em um movimento rápido, Charlotte inverteu as posições. Ela empurrou Engfa contra a mesa de carvalho, derrubando pastas e canetas. A força da advogada era surpreendente quando ela perdia a paciência. Ela segurou os cabelos de Engfa na nuca, puxando-os com força, forçando a empresária a olhar para cima.
— Você quebrou meu silêncio, Waraha — disse Charlotte, a voz agora rouca e perigosa. — Agora você vai ter que lidar com as consequências.
O beijo que se seguiu foi uma batalha campal. Não havia ternura, apenas a necessidade bruta de domínio. Engfa mordeu o lábio de Charlotte, sentindo o gosto metálico do sangue misturado ao sabor do vinho tinto que ainda permanecia na boca da esposa. Charlotte respondeu com um arranhão profundo no pescoço de Engfa, suas unhas cravando na pele bronzeada da empresária.
Engfa gemeu contra a boca de Charlotte, um som que era metade dor e metade prazer. Ela adorava quando Charlotte perdia a compostura, quando a advogada fria e calculista dava lugar à mulher possessiva e violenta que só ela conhecia.
— Marca... — Engfa pediu entre arquejos, as mãos buscando a pele sob o terno de Charlotte. — Me marca para que todos vejam de quem eu sou.
Charlotte não precisou de um segundo convite. Ela desceu os beijos para o pescoço de Engfa, mordendo a pele macia logo acima da clavícula com uma força que certamente deixaria um hematoma escuro por dias. Engfa arqueou as costas, as mãos apertando as coxas de Charlotte, puxando-a para mais perto, querendo fundir seus corpos ali mesmo, no meio do escritório que cheirava a luxo e agora a vinho derramado.
— Se eu souber que você olhou para aquele monitor de novo — Charlotte sussurrou contra o ouvido de Engfa, sua voz enviando arrepios pela espinha da empresária —, eu não vou quebrar apenas o seu carro novo. Eu vou quebrar a sua confiança de uma forma que você nunca vai recuperar. Entendido?
Engfa riu, uma risada quebrada, enquanto tentava recuperar o fôlego.
— Você já sabe que eu vou olhar, Charlotte. Porque eu não consigo tirar os olhos de você.
Charlotte se afastou um pouco, olhando para o estrago que haviam feito. O cabelo de Engfa estava bagunçado, sua camisa aberta em dois botões, e a marca no pescoço já começava a escurecer. Charlotte limpou o rastro de sangue em seus próprios lábios com o polegar, o olhar voltando à frieza habitual, mas com um brilho de satisfação latente.
— Arrume-se — disse Charlotte, voltando para sua cadeira de couro como se nada tivesse acontecido. — Eu tenho uma petição para terminar. E você tem dois carros novos que eu ainda não tive a chance de inspecionar... com meu taco de golfe.
Engfa se levantou, ajeitando a roupa com as mãos trêmulas pela adrenalina. Ela olhou para a mancha de vinho na parede e para a esposa, que já estava focada na tela do computador.
— O Porsche é azul — disse Engfa, caminhando até a porta. — Combina com os seus olhos quando você está com raiva.
— Saia logo daqui, Engfa — Charlotte respondeu, sem desviar os olhos do monitor, mas um pequeno e quase imperceptível sorriso surgiu no canto de sua boca.
Engfa saiu do escritório com o coração batendo forte. Ela sabia que a briga não estava resolvida, que o ciúme voltaria na manhã seguinte e que o ciclo de destruição continuaria. Mas, enquanto sentia a ardência da marca em seu pescoço, ela sabia que Charlotte nunca a deixaria ir. E para Engfa Waraha, aquela dor era a única prova de amor em que ela podia confiar.
Ao passar pelos seguranças no corredor, ela ajeitou o colarinho, mas fez questão de deixar a marca levemente visível. Ela queria que Mew, Tul ou qualquer outra pessoa visse. Ela queria que o mundo soubesse que, apesar de todas as mulheres com quem flertava, apenas uma tinha o poder de marcá-la de verdade.
Ela entrou na Lamborghini e acelerou, o rugido do motor ecoando pela garagem do prédio como um grito de vitória. Charlotte Austin era sua. E ela era de Charlotte. O resto do mundo era apenas ruído de fundo em uma sinfonia de vidro quebrado e sangue doce.