Gabriel e Luka, uma paixão ardente
Entre Notas e Tatames: O Peso da Doçura
O sol da tarde filtrava-se pelas janelas altas da saída da escola, lançando longas sombras douradas sobre o asfalto do estacionamento. Luka e Gabriel caminhavam lado a lado, um contraste visual que atraía olhares curiosos de alguns alunos que ainda vagavam pelo campus. A mão de Luka, grande e marcada pelos calos dos treinos intensos de jiu-jitsu, envolvia a mão de Gabriel com uma firmeza protetora, enquanto o fio do fone de ouvido os mantinha fisicamente conectados por uma melodia de lo-fi hip-hop.
Para Gabriel, cada passo parecia um flutuar. Ela olhava para baixo, observando como seus pés, calçados em sapatilhas simples, tentavam acompanhar a passada larga e decidida de Luka. O calor que emanava dele era quase palpável, uma aura de vitalidade que parecia protegê-la do resto do mundo.
— Você está muito quieta — comentou Luka, quebrando o silêncio confortável. Ele parou de andar perto de uma árvore frondosa, virando-se para ela. — No que está pensando?
Gabriel levantou os olhos, perdendo-se por um segundo na imensidão dos ombros dele, que pareciam ainda maiores sob a luz do entardecer.
— Estou pensando que... — Ela hesitou, sentindo as bochechas esquentarem. — Que eu não esperava que o meu dia terminasse assim. Com você.
Luka soltou uma risada curta e anasalada, puxando-a gentilmente para mais perto pela mão entrelaçada.
— E como você achou que terminaria? Estudando declinações latinas ou algo do tipo?
— Provavelmente — admitiu ela, soltando um risinho tímido. — Eu sou previsível, Luka. Você é quem é a surpresa aqui.
Luka soltou o fone de ouvido, deixando-o pender sobre o peito, e usou a mão livre para afastar uma mecha de cabelo que caía sobre os olhos de Gabriel. O toque foi deliberadamente lento, permitindo que as pontas de seus dedos roçassem a pele macia da testa dela.
— Você não é previsível, Gabriel. Você é um mistério que eu decidi que quero resolver. — Ele se inclinou, sua voz baixando para aquele tom grave que fazia a espinha dela vibrar. — E eu sou muito bom em resolver problemas, especialmente quando eles envolvem persistência.
— Persistência é uma qualidade de lutador, não é? — perguntou ela, tentando manter a voz firme apesar do coração disparado.
— É a principal — afirmou ele. — No tatame, se você desiste porque o oponente é difícil, você já perdeu antes de começar. E eu venho observando você há meses, pequena. Você é o oponente mais difícil que já enfrentei, porque não se ganha de você com força.
Gabriel sentiu um nó na garganta, mas era um nó de felicidade. Ela deu um passo à frente, diminuindo a distância entre seus corpos até que a ponta de seu nariz quase tocasse o peito dele. Ela teve que inclinar a cabeça para trás para encará-lo.
— E como se ganha de mim, Luka?
Luka sorriu, um sorriso que não tinha nada de predatório e tudo de genuíno. Ele passou os braços em volta da cintura dela, sentindo como ela era pequena e frágil em seu abraço, mas notando também a firmeza com que ela se apoiava nele.
— Com isso aqui — sussurrou ele, antes de baixar a cabeça e capturar os lábios dela novamente.
Desta vez, o beijo não tinha a hesitação do primeiro, no corredor. Era mais profundo, carregado de uma intenção que fazia Gabriel se sentir a pessoa mais importante do universo. Luka a apertou contra si, e ela pôde sentir a dureza dos músculos de seu abdômen e a força de seus braços, mas o modo como ele a beijava era de uma delicadeza quase reverencial. Era como se ele estivesse manuseando um instrumento valioso, temendo que qualquer pressão excessiva pudesse desafinar a melodia.
Quando se separaram, Gabriel estava levemente ofegante. Ela apoiou as mãos nos bíceps dele, sentindo a textura da camiseta de malha fina.
— Luka... as pessoas estão olhando — murmurou ela, embora não fizesse menção de se afastar.
Luka olhou por cima do ombro, um brilho desafiador nos olhos, antes de voltar sua atenção total para ela.
— Deixe que olhem. Eles só estão com inveja porque eu tenho a garota mais incrível da escola nos meus braços e eles estão indo para casa sozinhos.
Gabriel escondeu o rosto no peito dele, envergonhada, mas sorrindo. O cheiro de Luka — aquele mix de esforço físico, sabonete e algo puramente dele — a embriagava.
— Você é um convencido — disse ela contra o tecido da camiseta.
— Sou um homem de fatos, Gabriel — rebateu ele, beijando o topo da cabeça dela. — E o fato é que eu não vou deixar você ir embora tão cedo. O que você acha de irmos comer alguma coisa? Conheço um lugar que faz um açaí incrível, e eu preciso repor as energias depois do treino... e de você.
Gabriel se afastou o suficiente para olhá-lo, os olhos brilhando.
— Eu adoraria. Mas... você não se importa de ser visto com a "menina dos livros"?
Luka soltou uma gargalhada genuína, que ecoou pelo estacionamento quase vazio. Ele a puxou para caminhar novamente, desta vez passando o braço pesado e musculoso sobre os ombros dela, trazendo-a para junto de seu flanco.
— Pequena, eu faço jiu-jitsu. Eu derrubo caras que têm o dobro do meu tamanho. Você acha mesmo que eu me importo com o que alguém pensa sobre com quem eu saio? — Ele parou e olhou seriamente para ela por um momento. — Além disso, eu gosto da "menina dos livros". Ela tem um ritmo que ninguém mais tem.
Eles caminharam em direção ao carro de Luka, um veículo antigo mas bem cuidado que cheirava a couro e música. Enquanto ele abria a porta para ela, Gabriel sentiu uma onda de gratidão. Ela sempre se sentira invisível, uma nota de rodapé na história de sucesso de outras pessoas. Mas ali, com Luka, ela se sentia a protagonista.
No carro, Luka ligou o rádio, mas manteve o volume baixo. Ele dirigia com uma mão só, usando a outra para buscar a mão de Gabriel sobre o console central.
— Sabe — disse ele, enquanto manobrava para sair da escola —, meu mestre sempre diz que o equilíbrio é a chave de tudo. No tatame, se você focar só na força, você cansa. Se focar só na técnica, você é superado.
— E onde eu entro nessa filosofia de luta? — perguntou Gabriel, curiosa.
Luka apertou os dedos dela levemente.
— Você é o meu equilíbrio, Gabriel. Eu passo o dia inteiro sendo o "cara forte", o "atleta", o "Luka que não sente dor". Mas quando eu olho para você... eu sinto que posso baixar a guarda. Você é a parte suave que faltava na minha vida barulhenta.
Gabriel sentiu as lágrimas pinçarem seus olhos, mas era uma emoção doce.
— E você é a força que eu nunca tive coragem de ter, Luka. Eu sempre tive medo de ocupar espaço, de ser notada. Mas com você, eu sinto que não tem problema ser pequena, porque você me faz sentir gigante.
Luka sorriu, um olhar de pura adoração cruzando seu rosto enquanto ele parava no sinal vermelho.
— Então estamos combinados. Eu sou seu escudo, e você é minha paz.
O resto da tarde passou como um sonho. O lugar de açaí era simples e aconchegante, e eles passaram horas conversando sobre tudo e nada. Gabriel descobriu que Luka amava jazz clássico tanto quanto hip-hop, e Luka descobriu que Gabriel escrevia poesias que nunca mostrara a ninguém.
— Você vai ter que me mostrar uma dessas poesias algum dia — disse Luka, limpando um pouco de roxo do canto da boca de Gabriel com o polegar.
— Só se você me ensinar um golpe de defesa pessoal — brincou ela.
Luka riu, a imagem de Gabriel tentando derrubar alguém no tatame passando por sua mente.
— Fechado. Mas aviso logo: eu sou um professor muito exigente. Vou querer muitos "pagamentos" em forma de beijos.
— Acho que posso lidar com essa mensalidade — respondeu ela, sentindo-se mais audaciosa do que nunca.
Quando a noite começou a cair e Luka a deixou na frente de casa, o clima entre eles era de uma intimidade que parecia ter levado anos para ser construída, e não apenas algumas horas. Ele saiu do carro e a acompanhou até o portão.
A luz da varanda iluminava o rosto de Gabriel, destacando a delicadeza de seus traços. Luka a cercou contra o portão, as mãos apoiadas nas grades de ferro de cada lado da cabeça dela, repetindo a posição do armário na escola, mas agora com uma liberdade muito maior.
— Obrigado por hoje — disse ele, a voz rouca.
— Eu que agradeço, Luka. Por tudo.
Ele se inclinou, roçando o nariz no dela, um gesto de carinho que a fez fechar os olhos.
— Amanhã, no mesmo horário, no mesmo armário? — perguntou ele.
— No mesmo horário — confirmou ela.
Luka a beijou uma última vez, um beijo lento e prometedor que selou o compromisso silencioso entre eles. Ele esperou que ela entrasse e trancasse a porta antes de voltar para o carro.
Enquanto Gabriel subia as escadas para seu quarto, ela podia ouvir o som do motor do carro de Luka se afastando. Ela foi até a janela e viu as lanternas traseiras desaparecendo na esquina. Seu coração ainda batia no ritmo da música que eles compartilharam.
Ela pegou seu caderno de poesias na mesa de cabeceira e, pela primeira vez em muito tempo, a caneta deslizou pelo papel com uma facilidade assustadora. Ela não escreveu sobre fragilidade ou medo. Ela escreveu sobre o peso de um abraço que a tornava leve, sobre a força de um lutador que sabia ser brisa, e sobre como, no encontro entre o forte e o gentil, o amor encontrava seu ritmo perfeito.
Luka, por sua vez, dirigia para casa com um sorriso que não conseguia apagar. Ele ligou o rádio e, pela primeira vez, a batida do hip-hop não parecia suficiente. Ele buscou uma estação de música suave, algo que lembrasse o jeito que Gabriel sorria.
Ele sabia que os treinos no dia seguinte seriam exaustivos e que o mundo lá fora continuaria exigindo que ele fosse inabalável. Mas agora, ele tinha um segredo. Ele tinha um porto seguro de olhos gentis e mãos pequenas que o esperava nos corredores da escola. E para um lutador que passava a vida tentando não ser derrubado, Luka nunca se sentira tão feliz por ter caído — caído de amores por Gabriel.