Gata praiana
Maresia e Mágoas
A manhã seguinte na Praia da Tiririca nasceu com um céu tingido de um laranja quase violento, como se a própria natureza estivesse antecipando a tempestade que se formava em terra firme. Giulia acordou com o corpo levemente dolorido, uma lembrança vívida de cada toque de Rafa entre as pedras, mas a sensação de paz durou apenas o tempo de abrir os olhos e encontrar o olhar gélido de Leilane, que já estava de pé, ajustando as quilhas de sua prancha com uma força desnecessária.
O silêncio no alojamento das Sirenas era tão denso que poderia ser cortado com uma faca. Vivi, sentada em sua cama, alternava o olhar entre as duas, claramente desconfortável com a eletricidade estática que preenchia o quarto.
— Bom dia para quem não dormiu direito pensando na estratégia de hoje — alfinetou Leilane, sem olhar para trás.
Giulia sentou-se na cama, passando a mão pelos cabelos bagunçados.
— Se isso foi para mim, Lei, guarda o veneno. Eu estou pronta para o treino. O que aconteceu ontem não muda meu desempenho na água.
— Não muda? — Leilane finalmente virou-se, os olhos brilhando com uma mistura de raiva e mágoa. — Você foi vista saindo das sombras com o capitão da equipe rival depois de passar a noite rindo com os Red Sharks. Isso é traição, Giulia. É falta de foco. Você está usando a equipe como degrau para o seu showzinho particular com o Rafa.
— Eu não devo satisfações da minha vida pessoal para você — rebateu Giulia, levantando-se e ficando frente a frente com a capitã. — Eu ganho as baterias, eu trago os pontos. Se você está mordida porque o Rafa finalmente percebeu que existe vida além de você, o problema é seu, não das Sirenas.
Vivi levantou-se rapidamente, colocando-se entre as duas.
— Meninas, chega! A gente tem uma eliminatória importante hoje. Se a gente entrar na água com esse clima, os Red Sharks vão passar por cima da gente sem nem remar.
— Eles já estão passando — murmurou Leilane, pegando sua prancha e saindo pisando fundo.
Giulia soltou um suspiro pesado, sentindo o peso da responsabilidade. Ela sabia que a tensão com Leilane era inevitável, mas não esperava que o ciúme da outra fosse tão corrosivo.
Ao chegar na praia, o cenário não estava mais calmo. Os Juacas já estavam na água, e Giulia imediatamente localizou a lycra amarela de Rafa. Ele estava pegando uma onda rápida, executando um aéreo que arrancou gritos da areia. Quando ele saiu do mar, seus olhos buscaram os dela instantaneamente. O sorriso convencido estava lá, mas havia algo mais profundo agora, um brilho de cumplicidade que fazia o estômago de Giulia dar voltas.
— Olha só quem apareceu — disse Rafa, aproximando-se enquanto secava o rosto. — Achei que a "ressaca" das pedras tivesse te deixado de cama, loira.
Giulia sentiu o rosto esquentar, mas não recuou.
— Você gostaria, Smor. Mas eu tenho uma aposta para ganhar, lembra?
Antes que Rafa pudesse responder, dois vultos em lycras pretas e vermelhas se aproximaram. Marcelo e Sebastian, dos Red Sharks, chegaram com sorrisos predatórios.
— E aí, Giulia? — Sebastian disse, ignorando Rafa completamente. — A gente estava comentando que o seu estilo é desperdiçado nas Sirenas. Aquela manobra que você tentou ontem no final de tarde... eu posso te mostrar como estabilizar melhor o pé de trás. Quer treinar com a gente depois da bateria oficial?
Rafa deu um passo à frente, a mandíbula travada, a prancha batendo contra a perna.
— Ela já treina com quem entende de surfe, Sebastian. Não precisa de dicas de quem só sabe fazer pose para patrocinador.
Marcelo soltou uma risada debochada, olhando de Rafa para Giulia.
— Calma, Smor. A gente só quer ajudar a menina a evoluir. Ou você está com medo de que ela perceba que os Sharks têm muito mais a oferecer? Inclusive, Giulia, o convite para o jantar de amanhã na nossa sede ainda está de pé. Sem apostas, só para quem sabe apreciar uma boa companhia.
— Ela não vai a lugar nenhum com vocês — rosnou Rafa.
Giulia, sentindo-se como um troféu sendo disputado, perdeu a paciência.
— Ei! Eu estou bem aqui. Eu decido com quem eu treino e com quem eu janto.
Ela olhou para os Sharks, tentando ser diplomática, apesar da irritação.
— Valeu pela oferta, Sebastian, mas hoje o meu foco é a competição. E Rafa... — Ela se virou para ele, com o dedo em riste no seu peito nu. — Para de agir como se fosse meu segurança.
Ela se afastou em direção ao mar, deixando os três homens trocando faíscas com os olhos.
A bateria começou e o mar estava clássico, com séries constantes de um metro e meio. Giulia estava possuída. Cada vez que via Leilane tentando rabeá-la ou Rafa a observando da areia, ela colocava mais força nas manobras. Ela pegou uma esquerda longa, conectando uma batida forte com um floater extenso, finalizando com um 360 impecável.
Na areia, Billy e Jojó comentavam animados.
— Cara, a Giulia está surfando como se o mar estivesse devendo dinheiro para ela — disse Jojó, impressionado.
— É a pressão, Jojó — Billy respondeu, rindo. — O Rafa e a Leilane estão deixando a garota pilhada. E os Sharks só estão jogando lenha na fogueira.
Quando Giulia saiu da água, estava exausta, mas satisfeita. No entanto, a alegria durou pouco. Ao caminhar para a área de descanso, ela ouviu a voz de Leilane discutindo com o Professor Toco.
— Eu não posso confiar nela como segunda no comando, Toco! — gritava Leilane. — Ela está instável, está se envolvendo com os rivais e criando um clima insuportável na equipe.
Giulia parou atrás de uma palmeira, o coração apertado.
— Leilane, a Giulia é a melhor surfista que já passou pelas Sirenas em anos — a voz do professor era calma, mas firme. — O seu problema não é técnico, é pessoal. Resolva isso, ou a equipe vai desmoronar.
Giulia não esperou para ouvir o resto. Ela correu para uma área mais afastada da praia, onde as dunas ofereciam algum esconderijo. Ela precisava respirar. A pressão de ser a novata, a rivalidade com Leilane e a confusão de sentimentos por Rafa estavam começando a sobrecarregá-la.
— Sabia que te encontraria aqui.
Ela não precisou se virar para saber que era ele. Rafa sentou-se ao lado dela na areia quente, mantendo uma distância respeitosa pela primeira vez.
— O que você quer agora, Rafa? Vir me contar mais uma piada ou me proibir de falar com mais alguém?
— Vim pedir desculpas — ele disse, a voz suave, desprovida de qualquer sarcasmo.
Giulia virou o rosto para ele, surpresa.
— O quê? O grande Rafael Smor pedindo desculpas?
— Eu sei, é raro — ele deu um meio sorriso, mas seus olhos estavam sérios. — Eu agi como um idiota com aqueles caras dos Sharks. É que... ver eles perto de você, te convidando para as coisas... eu perco a cabeça, Giulia. Eu nunca senti isso antes. Essa necessidade de proteger o que... bem, o que eu sinto que é especial.
Giulia sentiu as defesas derreterem. Ela olhou para o mar, o vento soprando seus cabelos loiros.
— A Leilane me odeia, Rafa. Ela acha que eu estou destruindo as Sirenas. E, honestamente, eu não sei se vale a pena todo esse drama por causa de um... um que quer que a gente tenha.
Rafa se aproximou, diminuindo o espaço. Ele pegou a mão dela, entrelaçando seus dedos.
— A gente tem algo que ninguém mais aqui tem. E não é só o que aconteceu ontem à noite. É essa faísca, essa vontade de ganhar de você e, ao mesmo tempo, de ficar perto de você o tempo todo. A Leilane vai ter que aceitar. E os Sharks... bom, eles que tentem a sorte.
Ele puxou o rosto dela para perto, mas antes que pudessem se beijar, o rádio do acampamento anunciou uma festa surpresa no final da tarde para comemorar o início das finais.
— A gente se vê lá? — ele perguntou, dando um beijo casto na ponta do nariz dela.
— Só se você prometer não brigar com ninguém — ela brincou.
— Não prometo nada.
A festa no final da tarde estava efervescente. A música eletrônica pulsava e o quiosque estava lotado de atletas e turistas. Giulia usava um vestido de crochê preto que deixava pouco para a imaginação, e a atenção que recebia era constante.
Ela estava no bar quando Sebastian, o Red Shark, se aproximou novamente.
— Você está incrível hoje, Giulia. De verdade. O Smor é um cara de sorte, mas ele é muito limitado para alguém como você.
— Sebastian, eu já disse que...
— Só uma dança — ele a interrompeu, puxando-a gentilmente para a pista improvisada na areia.
Giulia, querendo evitar uma cena e provar para si mesma que era independente, aceitou. Eles começaram a dançar, e Sebastian aproveitou para diminuir a distância, colocando as mãos na cintura dela de forma possessiva.
Do outro lado da festa, Rafa estava conversando com Billy e Jojó quando viu a cena. O copo em sua mão quase quebrou pela pressão.
— Lá vai ele — sussurrou Jojó, vendo Rafa atravessar a pista como um trator.
Rafa chegou por trás de Sebastian e tocou seu ombro com força.
— Acho que a música acabou para você, Shark.
Sebastian virou-se, com um sorriso cínico.
— A Giulia parece estar gostando. Por que você não vai cuidar da sua equipe que está caindo aos pedaços? Ouvi dizer que a Leilane está adorando o fato de você ter trocado ela pela novata.
O soco de Rafa foi rápido, mas Sebastian desviou, e a briga generalizada quase começou. Giulia se colocou entre os dois, gritando.
— Parem com isso agora! Vocês são patéticos!
Ela saiu correndo da festa, envergonhada e furiosa. Rafa tentou segui-la, mas foi barrado por Billy.
— Deixa ela, cara. Você só está piorando as coisas.
Giulia correu até o limite da praia, onde a luz da festa era apenas um brilho distante. Ela se sentou na areia, chorando de frustração. O mar estava agitado, refletindo seu estado de espírito.
— Giulia?
Não era Rafa. Era Vivi. A amiga sentou-se ao seu lado e a abraçou.
— É muita coisa, né?
— Eu só queria surfar, Vivi. Eu não queria que a Leilane me odiasse, eu não queria que o Rafa fosse tão impulsivo e eu não queria que esses caras dos Sharks me usassem como isca.
— O Rafa não é impulsivo por maldade, Giulia. Ele está completamente louco por você. Ele não sabe lidar com isso porque sempre teve todas as garotas aos seus pés sem esforço. Com você, ele tem que lutar. E a Leilane... ela está ferida. Mas ela é uma Sirena. No fundo, ela sabe que você é o que a gente precisa para ganhar o campeonato.
Vivi entregou um lenço para ela.
— O Rafa está lá fora, parecendo um cachorro chutado. Ele não vai embora enquanto não falar com você.
Giulia limpou as lágrimas e respirou fundo.
— Manda ele vir. Mas diz que, se ele vier com ciúmes, eu jogo ele no mar.
Vivi riu e saiu. Pouco depois, Rafa apareceu. Ele parecia exausto, o cabelo bagunçado e uma mancha vermelha no canto da boca onde Sebastian o havia atingido de raspão.
— Eu sou um desastre, não sou? — ele perguntou, sentando-se a uma distância segura.
— Um desastre completo — confirmou Giulia, mas seu tom era suave.
— Eu tentei, Giulia. Eu juro que tentei ficar na minha. Mas quando vi aquele cara tocando em você, falando aquelas coisas... eu só queria proteger o que a gente teve ontem.
Giulia olhou para ele, vendo a vulnerabilidade que ele tentava tanto esconder atrás da máscara de garoto popular.
— Ontem foi incrível, Rafa. Mas se você quer que isso funcione, você tem que confiar em mim. Eu sou uma Sirena, eu sou uma surfista, e eu sei me cuidar. Eu não sou um troféu para você disputar com os Sharks.
Rafa suspirou, aproximando-se e pegando o rosto dela entre as mãos.
— Eu sei. Eu vou tentar, eu juro. É que você... você é a onda mais difícil que eu já tentei surfar, Giulia Helena. E eu não quero cair.
Dessa vez, não houve interrupção. O beijo foi lento, profundo e carregado de uma promessa de que, apesar do caos ao redor, eles encontrariam um jeito.
No entanto, escondida atrás de uma das cabanas de palha, Leilane observava tudo. Ela segurava o celular, onde uma foto de Giulia e Sebastian dançando de forma íntima — tirada de um ângulo que fazia parecer algo muito mais comprometedor — brilhava na tela.
— Você quer jogar sujo, Giulia? — sussurrou Leilane para si mesma, as lágrimas de raiva escorrendo por seu rosto. — Então vamos ver como o Rafa reage quando achar que você está jogando nos dois times.
A guerra no CAOSS estava apenas começando, e o coração de Giulia estava prestes a se tornar o campo de batalha mais perigoso de Itacaré. Enquanto Rafa a abraçava sob as estrelas, nenhum dos dois percebia que a próxima onda não seria de água, mas de traição.