Voltar ao resumo

George e ringo

Ritmos Improvisados e Camarins Apertados

O burburinho da plateia no Shea Stadium era um som constante, como o motor de um avião a jato que nunca decolava, apenas rugia. Dentro do vestiário transformado em camarim improvisado, o ar era denso, carregado de umidade e da eletricidade estática que parecia perseguir os Beatles onde quer que fossem. John e Paul estavam em um canto, bebendo refrigerantes mornos e rindo de alguma piada interna sobre o sotaque do promotor do show.

Ringo, no entanto, sentia uma inquietação que não vinha da adrenalina do palco. Ele batucava as coxas com as mãos, um ritmo frenético que acompanhava o movimento de seus olhos seguindo George. O guitarrista estava sentado em um banco de madeira, limpando as cordas da guitarra com uma flanela, o rosto mergulhado naquela seriedade mística que fazia as fãs chorarem, mas que Ringo sabia ser apenas a fachada para uma mente que nunca parava de observar.

— Geo — sussurrou Ringo, aproximando-se e inclinando-se sobre o ombro do outro. — Você não acha que esse camarim está... pequeno demais?

George nem sequer levantou o olhar da guitarra, mas um sorriso de lado, aquele meio sorriso sarcástico que Ringo tanto adorava, surgiu em seu rosto.

— Pequeno, Ritchie? Tem espaço suficiente para quatro Beatles e o ego do Paul. O que mais você quer?

Ringo riu baixo, aproximando os lábios da orelha de George, sentindo o cheiro de suor, tabaco e aquele perfume cítrico que George usava.

— Quero um lugar onde eu possa te mostrar o quanto eu gostei daquele seu solo em "Till There Was You".

George parou o movimento da flanela. Ele finalmente olhou para Ringo, os olhos escuros brilhando com uma intensidade que faria qualquer pessoa comum recuar, mas que só fazia Ringo querer avançar.

— O solo foi mediano — disse George, a voz baixando uma oitava. — Mas se você está tão desesperado por uma aula particular de música, acho que vi um depósito de equipamentos no fim do corredor. O segurança disse que a porta está emperrada, então ninguém vai entrar.

Ringo deu um pulo, a alegria estampada no rosto.

— Eu adoro depósitos. São tão... organizados.

— Você é um mentiroso adorável — George murmurou, levantando-se e guardando a flanela no bolso. — John, vamos dar uma volta. O Ritchie está com gases e precisa de ar fresco.

John levantou os olhos e soltou uma gargalhada.

— Vá lá, Ringo! Não exploda o estádio antes da hora!

Os dois saíram rapidamente, esquivando-se de assistentes e policiais que guardavam as passagens. O corredor era um labirinto de concreto frio e luzes fluorescentes piscantes. George puxou Ringo para uma porta de metal pesada e, com um empurrão firme, eles entraram em um espaço apertado, repleto de caixas de cabos, amplificadores reserva e capas de chuva descartadas.

Assim que a porta se fechou, o som abafado da multidão lá fora tornou-se um zumbido distante. Ringo não esperou. Ele empurrou George contra uma pilha de caixas de som, as mãos subindo ávidas para o rosto do guitarrista.

— Você demorou muito hoje — reclamou Ringo entre beijos curtos e urgentes. — Eu quase tive um colapso nervoso no meio de "I Wanna Be Your Man".

George soltou um riso rouco, as mãos descendo para a cintura de Ringo, puxando-o para que seus corpos se colassem sem qualquer espaço para o ar.

— Você estava muito ocupado sendo o centro das atenções, Starkey. Achei que os gritos das garotas seriam suficientes para você.

— Elas não sabem o que eu gosto — Ringo ofegou quando George mordeu seu pescoço, exatamente naquele ponto sensível que o fazia perder o fôlego. — Elas só veem o baterista fofo. Você vê o resto.

— O "resto" é muito mais interessante — George disse, a voz vibrando contra a pele de Ringo.

As mãos de George, sempre tão precisas, começaram a desabotoar o colete de Ringo com uma agilidade que vinha da prática em lugares proibidos. Ringo, por sua vez, estava ocupado demais tentando tirar o paletó de George, os dois tropeçando em cabos enrolados no chão.

— Cuidado com os pés — avisou George, sarcástico mesmo naquele momento. — Se você quebrar um tornozelo aqui, eu vou ter que dizer ao Brian que você caiu tentando fazer uma dança interpretativa.

— Cala a boca e me beija, Harrison — ordenou Ringo, selando o destino da conversa.

O sexo entre eles era como a música que tocavam: às vezes acelerado e caótico, outras vezes lento e cheio de nuances ocultas. Naquele depósito escuro, cercados pelo cheiro de poeira e borracha, havia uma urgência quase desesperada. Ringo era puro movimento, um redemoinho de pernas e braços, rindo baixinho quando George o virou de costas contra a parede fria de concreto.

— George... — Ringo murmurou, a testa encostada na parede, sentindo as mãos grandes de George em seus quadris. — A gente vai... a gente vai se atrasar para o bis.

— Deixe que esperem — respondeu George, a voz carregada de uma possessividade que ele só permitia que Ringo visse. — O mundo pode esperar cinco minutos pelo "Quiet Beatle".

Ringo sentiu um arrepio percorrer sua espinha. George não era apenas quieto; ele era profundo, e quando ele decidia agir, era com uma força que deixava Ringo completamente desarmado. O prazer veio em ondas, sincronizado com os batimentos cardíacos acelerados e o som da respiração pesada de ambos ecoando nas paredes de concreto.

Quando finalmente terminaram, o silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo som de suas respirações recuperando o ritmo. Ringo se virou, o cabelo uma bagunça completa, o sorriso largo e satisfeito iluminando o rosto suado.

— Nota dez para o solo de guitarra — brincou Ringo, ajeitando a camisa com mãos trêmulas.

George limpou o suor da testa com as costas da mão, recuperando sua máscara de indiferença, embora seus olhos ainda brilhassem com uma satisfação óbvia.

— E nota dez para a percussão — rebateu George, pegando o paletó de Ringo no chão e entregando-o. — Agora, tente não parecer que acabou de passar por um furacão.

— Eu sou o furacão, Geo. Você é só o cara que tenta segurar as rédeas.

Eles saíram do depósito com a mesma cautela com que entraram. Quando voltaram ao camarim, Paul estava olhando para o relógio, impaciente.

— Onde vocês se enfiaram? O Brian está prestes a ter um derrame! — exclamou Paul, olhando para os dois. — E Ringo, por que seu colete está abotoado errado?

Ringo olhou para baixo e soltou uma risadinha nervosa, corrigindo os botões rapidamente.

— O ar fresco lá fora estava muito forte, Paul. Vento de dar inveja.

George apenas se sentou em seu banco, pegou a guitarra e começou a dedilhar uma melodia calma, como se nunca tivesse saído daquela posição.

— O Ritchie tem uma relação complicada com a gravidade e o vento — disse George, sem desviar o olhar das cordas. — Eu só estava garantindo que ele não saísse voando.

John, que estava observando a cena com um sorrisinho de quem sabia demais, apenas balançou a cabeça.

— Vocês dois são um desastre. Vamos logo, antes que as fãs derrubem as grades.

***

Meses depois, durante a filmagem de "Help!", nas Bahamas, o cenário era paradisíaco, mas a rotina era exaustiva. O sol escaldante e as constantes repetições de cenas deixavam todos à beira de um ataque de nervos.

Ringo estava escondido sob a sombra de uma palmeira, tentando evitar o maquiador que queria retocar seu rosto pela décima vez. George apareceu logo atrás dele, segurando dois copos de algo que cheirava a rum e frutas tropicais.

— Cortesia da produção — disse George, entregando um copo a Ringo. — Ou talvez eu tenha roubado da mesa do diretor. A linha entre os dois é tênue.

— Você é um fora da lei, Harrison — Ringo sorriu, dando um gole generoso. — O que faremos agora? Temos meia hora antes da próxima cena no barco.

George olhou para o barco de madeira que balançava suavemente na água cristalina, a poucos metros da areia. O barco estava coberto por uma lona para proteger os equipamentos de filmagem do sol.

— Aquele barco parece muito solitário, você não acha? — perguntou George, o tom de voz carregado de segundas intenções.

Ringo olhou para o barco e depois para George. O calor do sol não era nada comparado ao calor que subiu pelo seu corpo.

— Mas George, estamos no meio de uma praia! Tem gente por toda parte.

— Exatamente — disse George, o brilho sarcástico retornando. — Ninguém esperaria que o Beatle mais sério e o Beatle mais engraçado estivessem fazendo algo impróprio sob uma lona de cinema. É o esconderijo perfeito. Escondido à vista de todos.

Eles caminharam até a beira da água, fingindo que iam apenas conferir o cenário. Com um movimento ágil, subiram no barco e se enfiaram por baixo da lona pesada. O interior era quente e cheirava a madeira velha e sal, mas era privado.

— Você tem ideias cada vez mais perigosas — sussurrou Ringo, já sentindo as mãos de George puxando sua camisa.

— A vida é curta demais para sexo apenas em quartos de hotel, Ritchie.

O balanço do barco na água criava um ritmo natural, uma cadência suave que George usou a seu favor. Ringo, sempre alegre e cheio de energia, sentia que naqueles momentos ele podia ser apenas ele mesmo, sem a pressão de ser o "palhaço" da banda. E George, longe do cinismo que usava como armadura, era de uma doçura devastadora.

— George... se o diretor chamar... — Ringo tentou dizer, mas George selou seus lábios com um beijo profundo.

— Se ele chamar, diremos que estávamos ensaiando nossas falas — George murmurou contra a boca de Ringo. — "Help!", lembra? Acho que o título do filme nunca foi tão apropriado.

Ringo soltou uma gargalhada abafada, seus dedos se perdendo nos cabelos de George, que estavam úmidos de suor e maresia. Ali, sob o sol das Bahamas e o tecido da lona, eles não eram ídolos mundiais. Eram apenas dois rapazes de Liverpool, perdidos um no outro, transformando qualquer lugar, por mais improvável que fosse, em seu próprio universo particular.

Quando saíram do barco, Ringo estava com um brilho nos olhos que nenhuma luz de estúdio poderia replicar. George, ajeitando o cabelo com um pente pequeno que sempre carregava, olhou para o horizonte com sua calma habitual.

— Sabe, Ritchie — disse George, enquanto caminhavam de volta para o set —, acho que o próximo local deveria ser o teto da Apple Records.

Ringo parou e olhou para ele, boquiaberto.

— No teto? George, isso é loucura! Todo mundo veria!

George deu de ombros, um sorriso enigmático nos lábios.

— Talvez. Mas imagine a vista.

Ringo riu, correndo para alcançar o guitarrista e passando o braço pelo seu pescoço.

— Você é louco. E eu vou com você em qualquer lugar, seu guitarrista atrevido.

George não respondeu com palavras, apenas apertou a mão de Ringo por um breve segundo antes de voltarem para a frente das câmeras, prontos para enganar o mundo mais uma vez, enquanto guardavam entre si o segredo de que, para eles, o palco era o mundo, mas o mundo inteiro era o seu quarto.

Entrar com Telegram

Confirme o login no bot.