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Gravides precoce

O Labirinto do Medo e a Âncora de Gelo

A primeira contração veio como um trovão silencioso no meio da madrugada, rasgando o sono leve de Tatsuyo. Ela tentou respirar, mas o ar parecia ter se tornado sólido. Ao seu lado, Kuro, cujo sono era sempre um reflexo de sua prontidão como atleta, sentou-se na cama antes mesmo que ela pudesse soltar o primeiro gemido.

— Tatsy? É agora? — A voz dele era baixa, mas carregada de uma adrenalina que ele conhecia bem dos rinques de hóquei.

Ela não conseguiu responder com palavras, apenas apertou a mão dele com uma força que parecia impossível para alguém de 1,63m. Kuro não perdeu tempo. Em questão de minutos, a bolsa da maternidade estava no carro e eles cruzavam as ruas desertas em direção ao hospital que haviam escolhido meses atrás.

No entanto, assim que cruzaram as portas automáticas da primeira unidade de saúde, algo mudou. O cheiro forte de antisséptico, as luzes fluorescentes piscando de forma irritante e o som mecânico dos aparelhos pareceram sufocar Tatsuyo. As paredes brancas pareciam estar se fechando sobre ela. A dor das contrações, que agora vinham em intervalos mais curtos, misturava-se a uma sensação visceral de pânico.

— Kuro... me tira daqui — sussurrou ela, enquanto uma enfermeira tentava medir sua pressão.

— Calma, meu amor. O médico já está vindo. Você está segura aqui — Kuro disse, passando a mão pelos cabelos brancos repicados, tentando manter a calma que sempre exibia sob pressão.

— Não... Kuro, por favor. Me tira daqui. Eu não quero ficar aqui! — A voz dela subiu um tom, tingida de um desespero que não vinha apenas da dor física.

Kuro se aproximou, ajoelhando-se ao lado da maca. Ele viu o suor escorrendo pelo rosto pardo dela e a forma como seus olhos pretos dilatavam, buscando freneticamente uma saída. Ele tentou acalmá-la, usando aquele tom de voz suave que guardava apenas para ela, mas Tatsuyo começou a repetir a frase como um mantra, um apelo desesperado que parecia vir do fundo de sua alma.

— Me tira daqui... eu não quero ficar aqui... Kuro, por favor, me tira daqui!

Foi naquele momento que Kuro percebeu. Não era apenas o medo do parto. Era o trauma, eram as memórias das paredes frias de lugares onde ela não se sentia bem-vinda, a lembrança da rejeição dos pais que ainda ecoava em cada corredor impessoal. Se ela ficasse ali, o parto não seria um nascimento, seria uma tortura psicológica.

— Tudo bem, Tatsy. Nós vamos sair — disse ele, a decisão brilhando em seus olhos castanhos.

— Mas senhor, ela já está em trabalho de parto ativo! — protestou a enfermeira de plantão.

Kuro se levantou, seus 1,80m de altura e o físico de jogador de hóquei impondo uma presença inquestionável.

— Ela não se sente segura aqui. E se ela não se sente segura, o meu filho também não está. Nós vamos para o Hospital Memorial, é mais longe, mas ela precisa sair deste ambiente agora.

Contra todas as recomendações médicas, Kuro a pegou no colo — a leveza dela em seus braços contrastando com a gravidade da situação — e a levou de volta para o carro. O trajeto até o segundo hospital foi um borrão de dor e promessas sussurradas.

Ao chegarem no segundo hospital, o ambiente era diferente. As luzes eram mais quentes, o atendimento mais humanizado. Assim que foram instalados em uma suíte de parto, uma enfermeira chamada Elena entrou no quarto. Ela tinha um rosto sereno e uma voz que parecia um bálsamo.

— Olá, Tatsuyo. Eu sou a Elena e vou ficar com vocês o tempo todo. Respire comigo, querida.

Tatsuyo tentou relaxar, mas assim que Kuro fez menção de se afastar para pegar um copo de água na mesa a dois metros de distância, ela teve um surto de pânico.

— Não! Não sai! Kuro, volta aqui! — Ela gritou, estendendo a mão trêmula, o rosto contorcido pela dor de uma nova contração.

— Eu só ia pegar água, Tatsy... — Kuro voltou imediatamente, segurando a mão dela e deixando que ela cravasse as unhas em sua pele.

— Você vai embora... — ela choramingava entre respirações ofegantes. — Você não me deixou na gravidez... mas agora é real demais... você vai ver que é difícil e vai me deixar aqui com ele...

Kuro sentiu um aperto no peito que doeu mais do que qualquer pancada no gelo. A insegurança dela, alimentada pelo abandono da própria família, estava florescendo no momento mais vulnerável de sua vida. Ela acreditava, no fundo de sua mente exausta, que o parto seria o ponto de ruptura dele.

— Escuta aqui, Tatsuyo Nakamura — Kuro disse, aproximando o rosto do dela, ignorando o suor e as lágrimas que os uniam. — Eu não vou a lugar nenhum. Nem para pegar água, nem para ir ao banheiro, nem para respirar. Eu vou ficar grudado em você até esse garoto sair, e depois que ele sair, eu vou continuar grudado. Entendeu?

Elena, a enfermeira, aproximou-se com uma bola de pilates e ajudou Tatsuyo a se posicionar, mantendo sempre o contato visual.

— Ele não vai sair, Tatsuyo — Elena reforçou, com uma autoridade gentil. — Veja como ele segura sua mão. Ele é sua âncora. Mas você precisa focar na sua respiração agora. O pequeno Haru precisa de oxigênio.

— Dói muito, Elena... dói demais — Tatsuyo soluçou, sentindo a pressão aumentar na base da coluna.

— Eu sei que dói, querida. Cada dor é um passo para trazê-lo para o mundo. Kuro, fique atrás dela, deixe que ela se apoie no seu peito.

Kuro sentou-se na cama de parto, posicionando o corpo robusto atrás do corpo frágil de Tatsuyo. Ela se jogou para trás, sentindo o calor da pele dele através da camiseta fina. O abdômen definido de Kuro servia de encosto, e seus braços fortes a rodeavam como um escudo.

— Estou aqui, Tatsy. Sente meu coração? — ele sussurrou no ouvido dela, enquanto Elena massageava a região lombar de Tatsuyo para aliviar a pressão das contrações.

— Promete? — ela perguntou, a voz falhando enquanto a barriga endurecia novamente em uma onda implacável.

— Eu prometo pela minha vida. Se eu sair de perto de você, pode me expulsar do time de hóquei e quebrar meus patins — ele brincou, tentando arrancar um milímetro de sorriso dela, mesmo que fosse um sorriso de dor.

As horas começaram a se arrastar. O quarto estava mergulhado em uma penumbra suave. Elena era como um anjo da guarda silencioso, monitorando os batimentos de Haru, trazendo compressas mornas e orientando Tatsuyo em cada mudança de posição. Ela nunca deixava o quarto, cumprindo a promessa de que eles não estariam sozinhos.

— Você está indo muito bem, Tatsuyo — elogiou Elena, verificando a dilatação. — Você é muito forte.

— Eu não sou... o Kuro que é — Tatsuyo ofegou, a cabeça pendida no ombro do rapaz.

— Você está carregando um ser humano, Tatsy — Kuro rebateu, beijando a têmpora dela. — Eu só estou aqui servindo de travesseiro. Você é a pessoa mais corajosa que eu já conheci.

A cada nova contração, o medo da partida de Kuro tentava rastejar de volta para a mente de Tatsuyo, mas ele combatia isso com uma presença física quase esmagadora. Ele não soltava suas mãos, ele sussurrava palavras de encorajamento, ele contava piadas bobas sobre os nomes terríveis que os colegas de time sugeriram para o bebê, e ele mantinha seus olhos castanhos fixos nos pretos dela sempre que ela abria os olhos.

— Kuro... eu acho que... eu não vou conseguir — ela disse, a voz sumindo em um sussurro desesperançoso quando uma contração particularmente forte a atingiu.

— Você vai sim. Nós vamos — corrigiu ele. — Lembra do que eu disse? Somos um time. E o nosso capitão está querendo entrar em campo.

Elena se aproximou novamente, preparando alguns instrumentos e ajustando a iluminação. O clima no quarto mudou; a expectativa tornou-se palpável.

— A dilatação está quase completa, Tatsuyo. Na próxima fase, você vai precisar de toda a sua concentração. Kuro, continue exatamente onde está. Ela precisa sentir você.

— Eu não saio daqui nem que o hospital pegue fogo — afirmou Kuro, apertando o abraço em volta dela, sentindo a pele de Tatsuyo arder com a febre do esforço.

Tatsuyo fechou os olhos, concentrando-se no ritmo da respiração de Kuro contra suas costas. O medo do abandono ainda estava lá, uma sombra no canto da mente, mas o calor do corpo dele e a vigilância constante de Elena criavam um santuário.

— Ele está vindo, não está? — perguntou Tatsuyo, a voz trêmula.

— Está quase na hora de conhecermos o Haru — respondeu Elena com um sorriso encorajador.

Kuro respirou fundo, sentindo o peso da responsabilidade e o amor imenso que o prendia àquela garota e ao filho que estava prestes a nascer. Ele sabia que a noite seria longa e que o verdadeiro desafio estava apenas começando, mas ali, naquele quarto de hospital, ele provaria para Tatsuyo, uma contração de cada vez, que ele era o homem que ficaria.

— Eu te amo, Tatsy — ele sussurrou, enquanto ela se preparava para a próxima onda de dor.

— Eu também te amo, Kuro... não me solta.

— Nunca.

O relógio na parede marcava o avanço das horas, e o silêncio do hospital era quebrado apenas pelos sons da luta de Tatsuyo para trazer uma nova vida ao mundo, sob o olhar atento de Elena e o abraço inabalável de Kuro Hatake. O bebê ainda não havia chegado, mas a batalha contra o medo já estava sendo vencida.