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A Fome Que o Sangue Não Cura
O silêncio no escritório do Fangtasia era pesado como chumbo derretido. O ar-condicionado zumbia no teto, mas não conseguia afastar a sensação de asfixia que se apoderara de Eric Northman nas últimas semanas. Diante dele, sobre a mesa de mogno onde outrora a arrogância ditava suas regras, descansava uma taça de cristal lapidado transbordando de sangue de fada.
Brilhava com uma luminescência dourada quase mágica, exalando um aroma de néctar, madressilvas e ozônio primordial. Qualquer outro vampiro no planeta rastejaria quilômetros sobre brasas vivas por uma única gota daquele fluido raro.
Eric empurrou a taça para longe. O cristal raspou na madeira com um som estridente.
— Eric? — Sookie Stackhouse estava sentada no sofá de couro preto, com um vestido rendado curto, os joelhos pontudos puxados contra o peito. Ela o encarava com uma mistura de preocupação e petulância ferida. — Você mal tocou. Eu deixei você se alimentar direto de mim ontem à noite e você simplesmente... se afastou. O que está acontecendo com você?
— Não é nada, Sookie — respondeu ele, a voz ríspida, profunda, arranhando como lixa.
— Não minta para mim! — rebateu a loira, descendo do sofá com passos impacientes. — Eu posso não conseguir ouvir os seus pensamentos mortos, mas posso ver seus olhos. Você parece... doente. Vampiros sequer ficam doentes!
— Saia — ordenou ele, sem sequer erguer o olhar gélido.
— Mas nós tínhamos combinado de...
— Eu disse para sair, Sookie. Antes que eu me esqueça do apreço que tenho pela sua herança mística.
A expressão de Sookie murchou em indignação e raiva. Com um bufado teatral, ela bateu os calcanhares no assoalho e marchou porta afora, batendo-a com força suficiente para estremecer os quadros nas paredes.
Eric fechou os olhos. Suas mãos, apoiadas na mesa, tremiam.
Era imperceptível para um mortal, mas para um guerreiro milenar, aquele tremor era uma aberração humilhante. Suas presas pulsavam dolorosamente na mandíbula travada, fincando-se nas próprias gengivas. Suas veias queimavam com uma secura atroz, como se tivessem sido preenchidas com pó de vidro.
Era abstinência. Pura, crua e desavergonhada abstinência.
O sangue de Sookie, que no início parecera a maior das iguarias, agora descia pela sua garganta como xarope artificial, enjoativo e oco. Fadas eram feitas de luz e fumaça; não sustentavam nada abaixo da superfície. Não tinham densidade. Não tinham a gravidade visceral e terrena que Eric descobrira tarde demais ser a única coisa capaz de saciar os abismos de sua alma imortal.
O que ele queria — o que seu corpo morto clamava aos gritos em cada segundo de escuridão — era o sangue de Clara.
Aquele sangue espesso, quente, pulsando com a força vital de um coração generoso que nunca havia sido corrompido pela malícia do mundo. Quando cravava as presas nas veias de Clara, Eric não sentia apenas nutrição; sentia terra fértil, chuva de verão, pão fresco saído do forno, vida em seu estado mais abundante.
E havia algo ainda pior. Uma fome carnal que nenhum sangue podia apagar.
Eric cerrou os punhos com tanta força que o mogno da mesa estalou sob seus dedos. Ele se lembrava com uma clareza enlouquecedora da sensação da pele farta de Clara contra a sua. Ela não tinha ossos cortantes nem hesitações covardes; tinha curvas macias, coxas grossas que o prendiam com um calor abrasador, seios fartos que transbordavam de suas mãos pálidas. Mas, acima de tudo, ele sentia falta da umidade dela. O cheiro almiscarado e doce que inundava o ar quando ela gozava, os espasmos molhados e desavergonhados de suas carnes acolhendo-o enquanto ela gritava seu nome sem qualquer joguinho tolo de poder.
Ele passara noites tentando recriar aquilo com humanas esculturais, com groupies do bar, até mesmo com Sookie na mesma mesa. Fora patético. Nada aquecia o mármore frio de seu peito como o clímax desenfreado de Clara, aquela mortal rechonchuda que ele tivera a imbecilidade de esconder nas sombras.
A porta se abriu novamente sem aviso. Pam entrou, impecável em um terno risca-de-giz rosa choque, os lábios pintados de carmesim brilhante.
— A loirinha saiu bufando como um porco no matadouro — comentou a vampira loira, cruzando os braços e apoiando-se no batente. — Posso sentir seu cheiro de frustração daqui, Eric. Está apodrecendo o ar.
— Se veio para fazer piadas, Pamela, recomendo que dê meia-volta.
— Não são piadas, meu criador — disse ela, dando um passo à frente, sua voz abandonando o sarcasmo e assumindo uma frieza clínica. — Você parece um viciado em V jogado na sarjeta. Seus olhos estão opacos. Você não se alimenta direito há três semanas. E tudo isso por causa da garota do campo que você chutou feito lixo.
Eric ergueu a cabeça, as íris faiscando em perigo.
— Meça suas palavras.
— Não — retrucou Pam, erguendo o queixo esculpido. — Eu avisei que você era um idiota. Você passou séculos se gabando de sua linhagem viking, de seu status, para acabar caindo de quatro por uma humana de verdade. E aí, com medo de que os outros chupadores de sangue rissem de você por não estar fodendo uma modelo de passarela, você a trocou por uma garota mágica mimada. Agora aguente. O Fangtasia precisa de um xerife, não de um fantasma choramingando pelos cantos.
— Ela me pertencia — rosnou Eric, erguendo-se num borrão de velocidade que fez os papéis voarem.
— Ela nunca pertenceu a você — disse Pam, encarando-o sem piscar. — Você a trancava no escuro. Mulheres como Clara não nasceram para a escuridão, Eric. Elas pertencem ao sol. E adivinhe só? Alguém em Bon Temps finalmente percebeu isso.
O ar pareceu evaporar do peito de Eric, embora ele não precisasse respirar.
— O que você quer dizer?
Pam soltou um sorriso afiado, venenoso.
— Disseram que ela foi vista no Merlotte’s ontem à noite. De mãos dadas. E não parecia estar sofrendo por um vampiro covarde.
Sem dizer uma única palavra, movido por um impulso primal que atropelou séculos de disciplina militar, Eric desapareceu pela porta dos fundos na velocidade da noite.
***
O calor de Bon Temps ao entardecer era suave, amenizado por uma brisa que trazia o cheiro adocicado das acácias e da terra molhada após uma chuva rápida de verão.
Clara ria. Era uma risada aberta, musical, que vinha do fundo do estômago e fazia suas bochechas redondas ficarem vermelhas como maçãs maduras. Ela estava na varanda de sua pequena casa de madeira, nos limites da cidade, servindo dois copos altos de chá com limão e hortelã.
— Eu juro que nunca vi um homem apanhar tanto para consertar um carburador simples — disse ela, entregando o copo gelado ao homem sentado no degrau de madeira.
Thomas Miller pegou o copo, mas seus olhos castanhos e calorosos nunca deixaram o rosto dela. Tom era o novo dono da oficina mecânica nos limites de Renard Parish: um homem alto, ombros largos de estivador, barba espessa bem cuidada e mãos calejadas pelo trabalho honesto. Ele vestia uma camiseta cinza justa, manchada de graxa na barra, e calças jeans gastas.
— Aquele carro tem espírito ruim, Clara — respondeu Tom, abrindo um sorriso largo e fácil que mostrava covinhas charmosas. — Mas eu apanho do motor o dia inteiro se o pagamento no fim da tarde for essa sua torta e esse sorriso.
— Deixe de ser bajulador, Thomas — retrucou ela, sentindo um calor gostoso espalhar-se pelo peito.
Por anos, Clara se acostumara a olhares de soslaio, piadas sussurradas e ao desprezo velado das mulheres magras de Bon Temps. Ela se acostumara à frieza arrogante de Eric, que a tocava como se ela fosse um vício vergonhoso a ser escondido dos olhos do mundo.
Mas Tom era diferente. Desde a primeira vez em que ele a viu no armazém da cidade, não escondera seu fascínio. Ele a olhava como se ela fosse a criatura mais espetacular que já pisara na Louisiana.
Tom pousou o copo no chão de tábuas e se levantou. Com a calma de quem não tem pressa nem vergonha, ele deu dois passos e envolveu a cintura farta de Clara com seus braços fortes. Suas mãos grandes pousaram espalmadas nas curvas dos quadris dela, puxando-a gentilmente contra seu peito sólido e quente.
— Não é bajulação, mulher — murmurou ele, a voz rouca, os olhos fixos nos lábios dela. — Eu passei a vida inteira vendo essas garotas sem graça da cidade, parecendo gravetos ao vento, cheias de orgulho e vazias por dentro. Você... você é um monumento, Clara. Você é cheia de vida, cheia de graça. É quente. É a mulher mais linda que eu já vi na minha vida.
O coração de Clara disparou, não de medo, mas de uma sensação pura e deslumbrante de pertencimento.
— As beatas da igreja dizem que eu ocupo espaço demais neste mundo — sussurrou ela, embora houvesse um desafio bem-humorado em seus olhos castanhos.
— Pois para mim você não ocupa espaço suficiente — disse Tom, baixando a cabeça e encostando a testa na dela. — Eu quero cada pedaço desse espaço. Quero você todinha, Clara.
Quando Tom a beijou, não houve o choque gélido do mar do norte, nem a urgência predadora de quem busca apenas sugar o que o outro tem a oferecer. O beijo de Tom era quente, úmido, firme e generoso. As mãos calejadas do mecânico desceram lentamente para as coxas grossas de Clara, apertando a carne macia através do tecido leve de seu vestido floral, erguendo-a levemente do chão com uma facilidade que fez os pelos dos braços dela se arreopiarem de desejo.
Clara gemeu contra a boca dele, enlaçando os braços no pescoço musculoso de Tom, afundando os dedos em seus cabelos castanhos. O calor humano daquele homem — o pulsar forte e compassado de seu sangue quente, a respiração pesada cheirando a hortelã e café — encheu cada canto vazio que Eric Northman deixara para trás.
Ela se sentia adorada à luz do dia. Sentia-se vista. Desejada não apesar de seu corpo, mas exatamente por causa dele.
— Entra comigo — sussurrou Tom contra a pele macia da garganta dela, depositando beijos molhados onde a clavícula encontrava o colo farto. — Deixa eu cuidar de você hoje.
Clara sorriu, puxando-o pela mão na direção da porta da sala.
— Eu estava achando que você nunca ia pedir.
A porta se fechou com um clique suave, e a luz dourada dos candeeiros acendeu-se no interior da casa, projetando sombras entrelaçadas contra as cortinas brancas.
A trinta metros dali, oculto pela copa frondosa e escura de um carvalho centenário, Eric Northman observava.
Ele estava imóvel como uma estátua de gelo, mas por dentro ardia no próprio inferno. Seus sentidos sobrenaturais captavam tudo com uma precisão que beirava a tortura.
Ele ouvia os risos abafados dentro da casa. Ouvia o barulho do tecido do vestido de Clara deslizando pelo chão. Ouvia o gemido gutural daquele mortal insignificante ao afundar o rosto entre os seios dela, balbuciando juras de devoção apaixonada.
E então, o cheiro atingiu o vampiro como uma marreta.
O aroma espesso, salgado, floral e almiscarado do prazer de Clara inundou a noite. O clímax dela rompeu no ar como uma onda de choque para os sentidos de predador de Eric. Ele ouviu o grito dela — aquele som estrangulado, rouco, absolutamente livre e desprovido de qualquer vergonha — enquanto ela gozava nos braços de outro.
Um humano comum. Um homem feito de carne perecível, ossos frágeis e graxa de motor, que agora possuía o tesouro que Eric tratara como lixo.
As presas de Eric estalaram para fora, rasgando o lábio inferior. Sangue escuro escorreu pelo seu queixo aristocrático. A dor em seu estômago era uma navalha girando; suas veias secas pulsavam com uma fúria ensurdecedora, exigindo o sangue daquela mulher, exigindo a umidade daquela pele, implorando pela única coisa no mundo inteiro que poderia fazê-lo se sentir vivo novamente.
Ele deu um passo para fora da sombra da árvore, os olhos brilhando em um azul assassino. Ele poderia entrar naquela casa em um piscar de olhos. Poderia arrancar a cabeça de Thomas Miller dos ombros antes que o homem pudesse piscar. Poderia deitar Clara na cama ainda manchada com o suor do rival e forçá-la a aceitá-lo, a beber de seu sangue, a ser sua novamente.
Mas, quando deu o segundo passo, a voz de Clara ecoou do quarto, clara como um sino através da janela entreaberta:
— Eu nunca me senti tão feliz, Tom. Tão em paz...
O pé de Eric congelou sobre a relva úmida.
A lembrança daquela mesma voz, semanas atrás no Fangtasia, ecoou em sua mente milenar: *“Você não me assumiu porque você é fraco... você é apenas um cadáver vazio que tem pavor de qualquer coisa que seja real.”*
Se ele entrasse ali, se ele matasse o mortal e tomasse Clara à força, ele não seria o grande xerife viking adorado e temido. Seria apenas o monstro patético que ela dissera que ele era. Um mendigo imortal implorando pelas sobras do calor que deliberadamente jogara fora.
Lentamente, com uma agonia que nenhuma prata ou fogo jamais conseguira infligir à sua carne, Eric Northman recuou para a escuridão da floresta.
O vento frio da noite uivou entre os galhos dos carvalhos, mas não foi suficiente para apagar o fogo que consumia suas entranhas. Ele continuaria sendo o xerife da Área Cinco. Continuaria tendo fadas à sua disposição e súditos ajoelhados aos seus pés de marfim.
Mas a cada gota insossa que bebesse, e a cada corpo gelado que tocasse na eternidade, a abstinência o lembraria: ele estava faminto, e a única mulher capaz de alimentá-lo agora pertencia à luz do sol.