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O Caos Mais Doce do Mundo
A mansão dos Haaland, que antes era um templo de silêncio, minimalismo e horários rigorosamente calculados para o descanso de um atleta de elite, havia se transformado em um cenário que lembrava uma mistura de creche de luxo com uma central de logística militar. Três meses haviam se passado desde o nascimento de Astrid, Ingrid e Freya, e a vida de Maria e Erling tinha ganhado uma trilha sonora composta por balbucios, choros em harmonia e o som constante de máquinas de lavar roupa.
Maria estava na sala de estar, tentando equilibrar Freya no colo enquanto usava o pé para balançar o moisés onde Ingrid parecia finalmente ter pegado no sono. Astrid, a mais independente do trio até então, estava deitada em um tapete de atividades, tentando seriamente alcançar um brinquedo de pelúcia em formato de bola de futebol — um presente óbvio do pai.
A porta da frente se abriu e o som de passos pesados ecoou pelo corredor. Erling entrou, ainda vestindo o agasalho de treino do Manchester City, carregando uma sacola de papel de uma farmácia e o que parecia ser um novo carregamento de fraldas biodegradáveis.
— O reforço chegou! — anunciou ele, baixando o tom de voz imediatamente ao ver o estado de semi-dormência das filhas.
Ele caminhou até Maria e depositou um beijo terno em sua testa, antes de se inclinar para beijar cada uma das meninas.
— Como está o meu quarteto fantástico hoje? — perguntou ele, sentando-se no chão ao lado de Astrid.
— Estamos sobrevivendo, Erling — Maria sorriu, embora as olheiras denunciassem as poucas horas de sono. — A Ingrid decidiu que hoje era dia de protesto contra as sonecas da tarde. Acho que ela quer ser a capitã do time do barulho.
Erling riu, pegando Astrid no colo com uma facilidade que ainda impressionava Maria. O contraste entre o tamanho dele e a delicadeza das bebês nunca deixava de ser fascinante.
— Ela tem personalidade, como o pai — disse ele, fazendo Astrid rir ao fazer cócegas em sua barriguinha com o nariz. — Mas eu trouxe o que você pediu. As vitaminas, o creme e... — Ele fez uma pausa dramática, tirando um pequeno pacote da sacola. — O chocolate norueguês que sua mãe disse que você estava desejando.
— Você é oficialmente o meu jogador favorito — declarou Maria, os olhos brilhando.
— Só o favorito? — Ele fingiu estar ofendido. — Eu achei que já tinha garantido a titularidade absoluta no seu coração.
— Depende — brincou ela. — Quem vai fazer o turno das três da manhã hoje?
Erling suspirou, mas o sorriso não saiu de seu rosto.
— Eu faço. Amanhã é dia de recuperação física no CT, então posso me dar ao luxo de ser um zumbi durante as massagens. Além disso, o Pep disse que se eu chegar com cara de sono, ele vai entender que estou treinando minha resistência mental com o "Trio de Ferro".
Ele se levantou, pegou Freya do colo de Maria e a acomodou no outro braço. Agora, com duas bebês nos braços, ele parecia perfeitamente em seu elemento.
— Sabe, Maria — começou ele, caminhando lentamente pela sala para ninar as duas —, eu estava pensando no treino hoje. O Kevin me perguntou se eu não estava exausto. Eu disse a ele que marcar cinco gols em um jogo é difícil, mas trocar três fraldas explosivas em sequência enquanto a terceira irmã decide praticar canto lírico no seu ouvido... isso sim é pressão de alto nível.
Maria soltou uma gargalhada alta, o que fez Ingrid dar um pequeno sobressalto no moisés.
— Shhh! — sussurraram os dois ao mesmo tempo, congelando no lugar.
Ingrid resmungou, virou a cabeça e voltou a dormir. Os dois relaxaram os ombros simultaneamente.
— Precisamos de um plano para o batizado — disse Maria, mudando de assunto enquanto começava a abrir o chocolate. — Minha mãe quer saber se vamos fazer na Noruega ou aqui.
— Eu adoraria que fosse em casa, na Noruega — disse Erling, sentando-se no sofá com cuidado para não acordar as pequenas que agora cochilavam em seus braços. — Quero que elas sintam o ar das montanhas. E quero uma foto delas com roupas tradicionais. Imagine, Maria... três mini-Haalands em bunads. O mundo não está pronto para tanta fofura.
— Vai ser lindo — concordou ela, encostando a cabeça no ombro dele. — Mas você sabe que a logística de viajar com três bebês é equivalente a mover um exército, certo?
— Eu já estou cuidando disso — afirmou ele, com o brilho de planejador nos olhos. — Já pesquisei sobre a pressurização da cabine para os ouvidos delas e comprei fones de ouvido especiais com cancelamento de ruído. E vamos levar uma equipe de apoio. Minha irmã e meu pai já se voluntariaram para serem os carregadores oficiais de malas.
Maria olhou para o marido, admirando a forma como ele abraçava a paternidade com a mesma intensidade com que buscava a bola na pequena área. Não havia meio termo para Erling Haaland; se ele era pai, ele seria o pai mais preparado, mais presente e mais dedicado que o mundo já vira.
— Você está sendo incrível, Erling. Eu estava com medo de como seria, com a sua agenda, as viagens, a pressão do futebol... mas você faz parecer que somos apenas nós cinco contra o resto, e que estamos ganhando de goleada.
Ele ficou em silêncio por um momento, observando o rosto sereno de Freya.
— No começo, eu tive medo também — confessou ele, a voz baixa e rouca. — Eu tinha medo de que o futebol roubasse o tempo que eu deveria dar a elas. Mas agora, quando eu entro em campo, eu jogo por elas. Cada gol que eu marco é para que, um dia, elas olhem para trás e tenham orgulho não do jogador, mas do homem que trabalhou duro para dar tudo a elas. Mas a verdade, Maria, é que eu mal posso esperar para o jogo acabar e eu poder voltar para este sofá. Este é o meu verdadeiro troféu.
Maria sentiu as lágrimas pinçarem seus olhos. Ela se inclinou e beijou o canto da boca dele.
— Elas têm muita sorte de ter você.
— E eu tenho sorte de ter você para manter o time em ordem — ele piscou para ela. — Agora, vá tomar um banho demorado. Eu cuido das três. Se houver uma emergência de nível cinco, eu te chamo.
— O que é uma emergência de nível cinco? — perguntou ela, levantando-se.
— Quando as três choram, o cachorro do vizinho late e eu percebo que acabaram os lenços umedecidos — respondeu ele, seriamente. — Mas eu verifiquei o estoque. Estamos seguros por enquanto.
Maria riu e subiu as escadas, sentindo o peso do cansaço diminuir um pouco. Ela sabia que, lá embaixo, o homem mais temido pelos goleiros da Europa estava agora cantando baixinho uma canção de ninar sobre vikings e dragões para três princesas que o tinham totalmente sob seu comando.
Algumas horas depois, com a casa finalmente mergulhada em um silêncio profundo, Erling e Maria estavam deitados na cama grande. O monitor de bebê brilhava no criado-mudo, mostrando três pontinhos se movendo levemente nos berços no quarto ao lado.
— Erling? — chamou Maria, quase pegando no sono.
— Oi, minha linda.
— Você acha que elas vão ser muito diferentes uma da outra?
Erling se virou de lado, apoiando a cabeça na mão.
— Eu já vejo isso. Astrid é a líder, ela observa tudo. Ingrid é a sensível, ela precisa de toque, de carinho constante. E a Freya... bom, a Freya é o elemento surpresa. Ela fica quieta e, de repente, solta o maior sorriso do mundo. Elas vão ser o que quiserem ser, Maria. Mas uma coisa é certa: elas sempre terão uma à outra. O "Hat-trick Haaland" é inseparável.
— Eu gosto disso — sussurrou ela. — Inseparáveis.
— Como nós — disse ele, puxando-a para mais perto. — Agora durma. O turno das três da manhã está chegando e eu preciso estar no meu auge físico para enfrentar a troca de fraldas da Ingrid. Ela tem um chute de direita que me preocupa para o futuro.
Maria riu uma última vez antes de o sono a levar. Na escuridão do quarto, Erling Haaland ficou acordado por mais alguns minutos, apenas ouvindo o som da respiração da esposa e o chiado suave do monitor de bebê. Ele pensou em sua vida antes delas e como tudo parecia tão bidimensional. Agora, o mundo era colorido, barulhento, cansativo e infinitamente mais rico.
Ele fechou os olhos, um sorriso de satisfação plena nos lábios. Ele podia ter muitos títulos e muitos recordes, mas nada se comparava à sensação de saber que, no quarto ao lado, o seu legado mais importante estava começando a sonhar. O Cyborg havia encontrado sua humanidade nos braços de três meninas, e ele nunca fora tão poderoso.