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Haaland

O Eco do Silêncio e o Ruído da Fama

A manhã em Manchester acordou sob uma névoa cinzenta e persistente, o tipo de clima que Erling Haaland costumava dizer que o fazia se sentir em casa. No entanto, dentro da mansão minimalista do atacante, o clima era tudo menos frio. O aroma de café forte se misturava ao cheiro de incenso de sândalo que Maria insistia em acender logo cedo, uma pequena rebeldia aromática contra a esterilidade das paredes brancas e móveis de design escandinavo.

Erling estava sentado à mesa da cozinha, vestindo apenas uma calça de moletom, observando Maria. Ela estava de costas para ele, usando uma de suas camisas de treino do City que ficava enorme nela, transformando-se em um vestido improvisado. O contraste era gritante: o azul celeste do clube contra o cabelo negro-petróleo e as pernas pálidas adornadas por uma tatuagem de uma serpente que subia do tornozelo até a coxa.

— Você viu as notificações? — perguntou ela, sem se virar, enquanto despejava água quente em uma prensa francesa.

— Desliguei o celular ontem à noite — Erling respondeu, a voz ainda rouca de sono. — Imaginei que estaria um caos.

Maria soltou uma risada curta e se virou, apoiando-se no balcão de mármore. O piercing em seu lábio inferior brilhou sob a luz embutida.

— Caos é um eufemismo, Erling. Estão chamando você de "O Fantasma da Ópera" e a mim de "A Noiva do Drácula". Um jornal espanhol até contratou um especialista em modificação corporal para explicar o que é uma língua bifurcada. Aparentemente, eu sou uma ameaça à integridade moral da Premier League.

— Eles sempre encontram algo para reclamar — disse ele, levantando-se e caminhando até ela. — Se eu não estivesse marcando gols, diriam que é porque você está drenando minha energia vital com rituais satânicos. Como estou marcando, vão dizer que você é meu amuleto gótico.

— Amuleto gótico? — Maria arqueou uma sobrancelha, seus olhos contornados por um resto de delineador da noite anterior. — Eu prefiro "parceira de crime".

Erling envolveu a cintura dela com seus braços enormes, sentindo a textura da pele dela contra suas mãos calejadas.

— Você está bem com tudo isso? — ele perguntou, o tom de brincadeira desaparecendo. — Eu sei que você não se importa com a opinião deles, mas o assédio vai aumentar. No CT, o pessoal da comunicação já está surtando. Querem marcar uma entrevista "humanizada" para você mostrar que não morde.

— Mas eu mordo — Maria sorriu, mostrando os dentes pequenos e alinhados antes de passar a ponta da língua dividida pelo lábio. — E não, eu não vou fazer entrevista nenhuma para provar que sou "normal". O que é ser normal, Erling? Usar um vestido floral e sorrir para as câmeras enquanto seguro uma bolsa de marca que eu nem gosto?

— Por isso que eu te escolhi — ele sussurrou, encostando a testa na dela. — Porque você é a única pessoa neste mundo que não quer nada de mim, além de mim mesmo.

O momento foi interrompido pelo toque insistente do interfone. Erling suspirou, soltando-a. Na tela de segurança, ele viu um carro preto parado no portão e um homem de terno segurando uma prancheta.

— É o motorista do clube — disse Erling. — Tenho uma reunião com o Pep antes do treino. Provavelmente sobre a "distração" que causamos ontem.

— Vá lá, Viking — Maria deu um tapinha no peito dele. — Vá chutar bolas e ser o robô eficiente. Eu vou ficar aqui, ler meu livro e talvez pintar algo nas suas paredes brancas e entediantes.

— Não pinte nada que eu não consiga explicar para o proprietário depois — ele brincou, dando-lhe um beijo rápido antes de subir para se trocar.

No Centro de Treinamento do Manchester City, a atmosfera era eletrizante. A "estreia" oficial de Maria no estádio havia se tornado o assunto principal, superando até mesmo os três gols de Haaland na partida anterior. Ao caminhar pelos corredores, Erling sentia os olhares dos funcionários. Alguns eram de admiração, outros de pura confusão.

No escritório de Pep Guardiola, o treinador catalão estava revisando vídeos táticos, mas fechou o laptop assim que Haaland entrou.

— Erling, sente-se — disse Pep, apontando para a cadeira à frente de sua mesa.

O treinador o observou por um momento, um meio sorriso brincando em seus lábios.

— A imprensa está louca, você sabe disso.

— Eu sei, Pep — Erling respondeu, recostando-se na cadeira com a confiança de quem sabe seu valor. — Mas isso não afeta meu rendimento. Você viu os dados do GPS ontem. Eu corri mais do que nunca.

— Eu não estou preocupado com seus gols, Erling. Você é uma máquina. Estou preocupado com o circo. O City é um clube que preza pela imagem de... digamos, perfeição polida. E sua namorada... ela é uma declaração de guerra a essa imagem.

— Ela é apenas ela mesma — Haaland disse com firmeza. — Eu não vou pedir para ela mudar. Se o clube tiver um problema com as tatuagens dela ou com o fato de ela não usar Gucci, o problema é do clube, não nosso.

Pep soltou uma risada genuína e balançou a cabeça.

— Eu gosto disso. Sinceramente? É revigorante. As WAGs são todas iguais, parecem cópias de uma mesma revista. Maria... ela tem personalidade. Só certifique-se de que esse "ruído" não entre no vestiário. Alguns dos rapazes são mais influenciáveis.

— O vestiário está bem, Pep. Jack acha que ela é a pessoa mais legal que já conheceu, e Rodri quer emprestar alguns dos livros dela.

— Ótimo. Agora vá treinar. Temos o Real Madrid na próxima semana e eu preciso que você esteja focado no gol, não nas manchetes do Daily Mail.

Enquanto isso, Maria decidiu que não ficaria trancada em casa. Ela vestiu uma calça cargo preta cheia de tiras, seus coturnos de plataforma e uma jaqueta de couro com o logo de uma banda de crust punk sueca. Colocou seus fones de ouvido e saiu para caminhar pelo centro de Manchester.

Ela sabia que seria reconhecida. Sua aparência já era chamativa o suficiente; agora, com o rosto estampado em todos os tabloides, era inevitável. Mas Maria possuía uma aura que afastava abordagens indesejadas. Ela caminhava com a cabeça erguida, o olhar gélido e uma postura que dizia claramente: "não se aproxime".

Ela entrou em uma pequena loja de discos usados em Northern Quarter. O dono, um homem de meia-idade com barba grisalha, levantou os olhos e sorriu.

— Você é a garota do Haaland, não é? — perguntou ele, sem o tom bajulador que ela costumava encontrar.

— Eu sou a Maria — respondeu ela, folheando uma caixa de vinis de metal extremo. — E ele é o meu namorado.

— Justo — o homem riu. — Bom gosto musical, a propósito. Esse álbum do Mayhem é clássico.

— É o meu favorito dessa era — ela comentou, retirando o disco da prateleira.

Enquanto pagava, um grupo de garotas adolescentes, vestindo uniformes escolares, parou na vitrine da loja. Elas cochichavam e apontavam, tirando fotos com os celulares. Maria suspirou, mas antes que pudesse sair, uma delas tomou coragem e entrou.

— Oi... — a menina começou, nervosa. — Eu só queria dizer que achei você incrível ontem. Minha mãe disse que você era uma má influência, mas eu achei seu estilo... autêntico. Eu sempre quis fazer um piercing no septo, mas tinha medo do que as pessoas iam dizer.

Maria olhou para a jovem. Por trás da maquiagem pesada e do visual intimidador, havia uma empatia profunda.

— As pessoas sempre vão dizer algo, garota — Maria disse, sua voz suave mas firme. — Se você for perfeita, vão dizer que é falsa. Se for diferente, vão dizer que é louca. O segredo é escolher qual crítica você prefere ouvir. Faça o piercing se você quiser se olhar no espelho e se sentir você mesma. Não faça para chocar, nem deixe de fazer por medo.

A garota sorriu, parecendo ter recebido uma bênção de uma divindade alternativa.

— Obrigada, Maria.

Ao sair da loja, Maria encontrou uma horda maior de fotógrafos. Os flashes começaram a disparar. Ela não cobriu o rosto. Em vez disso, ela caminhou calmamente através deles, o som de seus coturnos batendo no asfalto como uma marcha.

— Maria! É verdade que você e Erling fazem rituais antes dos jogos? — gritou um fotógrafo.

Ela parou, olhou diretamente para a lente da câmera dele e sorriu. A língua bifurcada apareceu por um milissegundo, um gesto deliberado de provocação.

— O único ritual que fazemos é comer bem e ignorar pessoas como você — respondeu ela, antes de entrar em um táxi.

À noite, quando Erling voltou do treino, ele encontrou a casa em silêncio, mas com um novo detalhe. Na parede da sala de troféus, onde ficavam suas chuteiras de ouro e bolas autografadas, Maria havia colado uma série de esboços em carvão que ela fizera durante a tarde. Eram desenhos anatômicos de corvos misturados com engrenagens mecânicas.

— O Ciborgue e o Corvo — disse Maria, surgindo das sombras do corredor com uma taça de vinho tinto na mão.

Erling se aproximou dos desenhos, fascinado.

— Você fez isso hoje?

— Sim. Estava inspirada. O mundo quer que você seja uma máquina, Erling. Mas eu vejo o que está por baixo do metal.

Ele a puxou para um abraço, sentindo o cheiro de grafite e perfume de patchouli que emanava dela.

— A imprensa tentou te cercar hoje — disse ele, preocupado. — Eu vi as fotos na internet.

— Eles tentaram. Mas eu sou mais rápida que eles — ela riu, encostando a cabeça no ombro dele. — Um deles me perguntou se fazemos rituais.

— E o que você disse?

— Que nosso ritual é ignorar idiotas.

Erling riu alto, um som que preencheu a sala e parecia afastar qualquer pressão externa.

— Sabe, Maria... O clube quer que eu leve você para um evento de caridade no próximo mês. É um baile de gala. Muitos patrocinadores, muitas joias, muitos vestidos de seda.

Maria se afastou um pouco para olhar nos olhos dele.

— Você quer que eu vá?

— Eu quero que você esteja onde se sentir bem. Mas eu adoraria ver a cara do CEO quando você aparecer de preto, com suas correntes e essa sua língua que assusta os puritanos.

Maria sorriu de forma maliciosa, seus olhos brilhando com a perspectiva de causar um pequeno colapso no sistema.

— Se eu for, Erling, eu não vou usar seda. Eu vou usar látex e couro. E minhas joias serão de prata envelhecida.

— Então é um encontro — ele afirmou, selando o compromisso com um beijo profundo.

Naquela noite, enquanto o mundo discutia se Maria era a ruína ou a salvação da imagem de Erling Haaland, os dois estavam alheios a tudo. Eles estavam na cozinha, cozinhando uma receita norueguesa tradicional que a avó de Erling lhe ensinara, ouvindo um vinil de jazz obscuro que Maria encontrara.

— Você acha que eles algum dia vão entender? — perguntou Erling, enquanto cortava legumes com a mesma precisão com que finalizava para o gol.

— Entender o quê? — Maria perguntou, sem desviar os olhos da panela.

— Nós. O fato de que o jogador mais caro do mundo e a garota que parece ter saído de um pesadelo vitoriano são, na verdade, as duas pessoas mais simples desta cidade.

Maria parou o que estava fazendo e olhou para ele. Ela estendeu a mão e tocou a cicatriz que ele tinha perto da sobrancelha, um resquício de uma batalha em campo.

— Eles não precisam entender, Erling. O mistério é o que mantém as pessoas interessadas. Se eles soubessem que passamos nossas noites discutindo filosofia e comendo ensopado, a magia acabaria. Deixe que pensem que somos perigosos. É mais divertido assim.

— Você tem razão — ele concordou, sorrindo. — Perigosos e imbatíveis.

A revolução de Haaland não era sobre moda, nem sobre quebrar protocolos apenas por rebeldia. Era sobre a liberdade de ser autêntico em um mundo de plástico. E enquanto Maria estivesse ao seu lado, com suas tatuagens, seus piercings e sua alma indomável, ele sabia que não importava quantos gols marcasse, sua maior vitória já havia sido conquistada fora do gramado.

A noite caiu sobre Manchester, e nas redes sociais, as discussões continuavam. Mas dentro daquela casa, o único som que importava era o tilintar dos talheres e o riso baixo de duas pessoas que, contra todas as probabilidades, haviam encontrado seu próprio ritmo em meio ao caos do mundo moderno. O aço e a tinta, o gelo e o fogo, coexistindo em uma harmonia perfeita que ninguém, por mais que tentasse, conseguiria rotular.