Haaland
O Corvo e a Clepsidra de Vidro
A neve de Manchester, que antes parecia um sudário sobre a alma de Maria, fora substituída pela garoa fina e persistente de Londres. Mas o cenário agora era outro. Maria não estava mais confinada aos camarotes estéreis do Etihad Stadium, onde o cheiro de perfume caro e promessas vazias a sufocava. Ela estava no coração pulsante da Saatchi Gallery, cercada por paredes brancas que, pela primeira vez, não pareciam uma cela, mas um convite ao caos que ela carregava dentro de si.
A exposição "O Eclipse do Sol de Inverno" era um sucesso absoluto. As fotografias, cruas e sem filtros, revelavam a face oculta do glamour: o cansaço nos olhos de Erling após uma vitória vazia, a solidão nas festas de gala onde todos sorriam para as câmeras e morriam por dentro, e a sua própria metamorfose, de "namorada troféu" a uma entidade de tinta e sombras.
Maria caminhava pela galeria, o som de suas botas de plataforma ecoando como batidas de um coração mecânico. Ela usava um vestido de látex preto fosco que abraçava suas curvas como uma segunda pele, e seus cabelos, agora com mechas cinzas artificiais, emolduravam o rosto onde as tatuagens pareciam vibrar sob as luzes da galeria.
— Você realmente fez isso — disse uma voz familiar, carregada de um sotaque de Birmingham que Maria reconheceria em qualquer lugar.
Ela se virou e encontrou Jack Grealish. Ele estava camuflado sob um boné de aba reta e óculos escuros, mas o sorriso torto era inconfundível.
— Jack — Maria o abraçou, sentindo o cheiro de chiclete e colônia cara. — Você é o único que teve coragem de vir?
— Os outros estão com medo do Pep ou da diretoria — Jack deu de ombros, olhando para uma foto onde Erling aparecia sentado no chão de um banheiro de hotel, com a cabeça baixa. — Mas eu? Eu sempre gostei de um bom incêndio. E você, Maria, ateou fogo no circo inteiro.
— Eu só abri as cortinas, Jack — Maria disse, cruzando os braços. — O fogo já estava lá, consumindo todo mundo em silêncio.
— Ele está péssimo, sabe? — Jack baixou o tom de voz. — A Isabela transformou a casa em um showroom de revista de decoração. Tudo é bege, creme e "zen". O Erling parece um leão enjaulado em uma nuvem de algodão. Ele não admite, mas ele sente falta do seu incenso e das suas músicas que soavam como máquinas de lavar cheias de pedras.
Maria sentiu uma pontada de algo que não era mais dor, mas uma melancolia distante.
— O Erling escolheu a paz do deserto, Jack. Eu sou a tempestade. Não dá para ter as duas coisas ao mesmo tempo.
Enquanto conversavam, o burburinho na entrada da galeria aumentou. Maria viu Pato Sardelli entrar, acompanhado por seus irmãos. Ele exalava uma aura de rock and roll que parecia purificar o ar esnobe da Saatchi. Quando seus olhos encontraram os de Maria, o mundo ao redor dela simplesmente desapareceu.
— A rainha do submundo conquistando Londres — disse Pato, aproximando-se e beijando-a com uma intensidade que fez Jack pigarrear, desconfortável.
— Jack, este é o Patricio — apresentou Maria, com um brilho de orgulho nos olhos. — O homem que me lembrou que a música pode ter alma.
— O cantor argentino — Jack estendeu a mão, analisando Pato com curiosidade. — Ouvi dizer que vocês estão fazendo um barulho considerável em Buenos Aires.
— Barulho é pouco, amigo — Pato respondeu, o braço firmemente ao redor da cintura de Maria. — Estamos criando terremotos.
A noite prosseguiu entre taças de vinho tinto e conversas sobre arte e liberdade. Mas a presença de Erling Haaland, mesmo ausente fisicamente, pairava sobre a exposição como um fantasma. Cada foto dele era um lembrete da vida que Maria havia amputado de si mesma para poder crescer.
Perto da meia-noite, quando a maioria dos convidados já havia se dispersado para as festas após o evento, o celular de Maria vibrou. Era uma mensagem de um número que ela não havia bloqueado apenas por causa das filhas.
— "Estou do lado de fora. No carro preto. Por favor."
Maria olhou para Pato, que percebeu a mudança em sua expressão imediatamente.
— É ele? — perguntou Pato, a voz calma, mas os olhos atentos.
— Sim — Maria suspirou. — Ele quer falar.
— Você quer ir? — Pato tocou o rosto dela, o polegar traçando a linha de sua mandíbula. — Eu posso ir com você, ou posso ficar aqui e garantir que ninguém nos incomode.
— Eu preciso ir sozinha, Pato — disse Maria, segurando a mão dele. — É o último capítulo. Eu preciso fechar esse livro antes de começar o novo.
— Vá — disse ele, dando-lhe um beijo suave na testa. — Eu estarei aqui quando você voltar. Com o motor ligado e a música alta.
Maria saiu da galeria, sentindo o ar frio de Londres cortar o látex de seu vestido. O carro preto com vidros fumegantes estava estacionado em uma zona proibida, mas ninguém ousava multar o veículo que todos sabiam pertencer ao "Ciborgue".
Ela abriu a porta traseira e deslizou para dentro do couro luxuoso. O cheiro de carro novo e ar-condicionado era quase ofensivo depois do cheiro de tinta e suor da galeria. Erling estava lá, vestindo um moletom escuro, com o capuz levantado. Ele parecia maior do que Maria lembrava, mas também mais frágil.
— Você veio — disse ele, a voz soando como se tivesse sido arrastada por cascalho.
— Eu vim terminar a conversa, Erling — Maria disse, sem olhar para ele. — O que você quer?
— Eu vi as fotos online — começou ele, as mãos grandes apertando o volante, embora o carro estivesse desligado. — Aquela foto no banheiro... eu nem sabia que você tinha tirado.
— Você nunca sabia de nada, Erling. Você estava ocupado demais sendo o melhor do mundo. Eu era apenas a pessoa que segurava a câmera.
— A Isabela quer processar você — ele soltou um riso seco e sem alegria. — Ela diz que você manchou a minha imagem. Que você me fez parecer fraco.
— E você? O que você acha?
Erling finalmente se virou para ela. Seus olhos azuis, que costumavam ser frios como o gelo norueguês, agora pareciam turvos, como uma água que parou de correr.
— Eu acho que é a única foto real que alguém tirou de mim em cinco anos — confessou ele. — Maria, a casa é tão silenciosa. As meninas... elas não me olham mais do mesmo jeito quando nos falamos por vídeo. Elas olham para mim como se eu fosse um estranho que manda presentes caros.
— Porque você é, Erling — Maria disse, a voz firme mas não cruel. — Você escolheu ser um monumento. Monumentos são bonitos de se olhar, mas ninguém consegue abraçar um monumento e sentir calor. As meninas estão crescendo com um pai que é uma estatística, enquanto a mãe delas é uma pessoa.
— E esse cara? O argentino? — Erling perguntou, o ciúme brilhando por um segundo antes de ser abafado pelo cansaço. — Ele é o que você queria? Um rebelde de jaqueta de couro?
— Ele é alguém que me vê, Erling — Maria rebateu, finalmente olhando-o nos olhos. — Ele não me vê como a "namorada gótica que o torna interessante". Ele me vê como Maria. Ele ouve o que eu digo, não apenas o que eu represento para a marca dele.
Erling baixou a cabeça, o capuz escondendo o rosto.
— Eu cometi um erro, não foi?
— Você cometeu uma escolha — corrigiu Maria. — E escolhas têm consequências. Você queria a perfeição, a estabilidade, a mulher que não choca os patrocinadores. Você conseguiu tudo isso. O problema é que a perfeição é estéril. Nada cresce nela.
— Eu sinto falta do barulho — sussurrou Haaland. — Sinto falta de você me chamando de Viking e rindo das minhas dietas malucas. Sinto falta de quando a vida não era apenas um plano de marketing.
Maria sentiu uma onda de compaixão. Ela estendeu a mão e tocou o ombro dele, sentindo os músculos tensos sob o moletom.
— Então mude, Erling. Você é o homem mais poderoso do futebol mundial. Se você está infeliz, a culpa é sua. Mas não tente me arrastar de volta para o seu deserto. Eu aprendi a nadar no oceano, e eu não vou voltar para uma piscina de luxo.
— Você não vai voltar, não é? — perguntou ele, embora já soubesse a resposta.
— Nunca — disse Maria, abrindo a porta do carro. — Minha vida está em Buenos Aires. Minha música está lá. Minha alma está lá. E as nossas filhas... elas estão lá, sendo criadas para serem livres, não para serem perfeitas.
Ela saiu do carro e fechou a porta. O som do metal batendo pareceu um ponto final definitivo. Ela não olhou para trás enquanto caminhava de volta para a galeria.
Lá dentro, Pato a esperava. Ele não perguntou o que havia acontecido. Ele apenas estendeu a mão e a puxou para um abraço apertado.
— Está feito? — perguntou ele no ouvido dela.
— Está feito — Maria respondeu, sentindo o peso sair de seus ombros. — O fantasma foi exorcizado.
— Ótimo — Pato sorriu, o brilho de rebeldia voltando aos seus olhos. — Porque os meninos do Airbag acharam um clube underground em Camden que fica aberto até o amanhecer. Eles querem que você escolha a primeira música da playlist.
— Algo que acorde os mortos — disse Maria, rindo enquanto eles saíam da galeria, deixando para trás o mundo de vidro e porcelana que ela havia estilhaçado.
A noite em Londres tornou-se um borrão de luzes neon, música distorcida e a sensação inebriante de liberdade. Maria dançou como se o chão estivesse pegando fogo, cercada por pessoas que não sabiam quem era Haaland e não se importavam. Ela era apenas a mulher de preto, com a língua bifurcada e os olhos que brilhavam como estrelas negras.
Ao amanhecer, eles estavam sentados em uma lanchonete barata, comendo batatas fritas e rindo de nada. As trigêmeas dormiam no hotel, sob os cuidados de uma das irmãs de Pato que viera junto na viagem.
— Sabe o que é o mais engraçado? — começou Maria, limpando um pouco de sal do canto da boca. — O Erling acha que eu o odeio. Mas eu não odeio. Eu só tenho pena. Ele tem o mundo aos seus pés, mas não tem ninguém para caminhar ao lado dele.
— O sucesso dele é uma gaiola de ouro — disse Pato, pegando a mão dela e beijando as tatuagens nos dedos. — Mas a sua arte, Maria... a sua arte é a chave que abriu a sua própria gaiola.
— E você é o vento que me ajuda a voar — ela disse, aproximando o rosto do dele.
Naquela manhã, os tabloides britânicos explodiram. Fotos de Erling Haaland saindo de seu carro com os olhos vermelhos e o capuz levantado foram justapostas a fotos de Maria e Pato rindo em Camden. "O Fim de uma Era", diziam as manchetes. "Haaland em Crise enquanto a Ex-Namorada Conquista Londres".
Mas Maria não leu os jornais. Ela estava ocupada demais fazendo as malas para voltar para Buenos Aires. Ela tinha uma exposição para organizar em Berlim, uma nova série de tatuagens para desenhar e três filhas para ensinar que a beleza está na imperfeição.
Antes de sair do hotel, ela recebeu uma última mensagem de Jack Grealish.
— "Ele tirou a foto do banheiro da galeria. Comprou-a por um valor absurdo. Disse que vai colocá-la no seu quarto de dormir. Acho que ele finalmente entendeu, Maria. O Ciborgue tem um coração, afinal. Pena que ele só descobriu quando o perdeu."
Maria olhou para a mensagem por um longo tempo, e depois a apagou. Ela não precisava mais de validação, nem de arrependimentos alheios.
No aeroporto, enquanto esperavam o embarque, Astrid, a mais velha das trigêmeas, aproximou-se de Maria com um caderno de desenhos.
— Mãe, olha o que eu fiz — disse a menina, mostrando um desenho de um corvo carregando uma clepsidra de vidro. A areia dentro da clepsidra estava caindo, mas não no fundo, e sim para fora, voando como pequenas estrelas.
— É lindo, Astrid — disse Maria, sentindo uma lágrima de orgulho brotar. — O que significa?
— Significa que o tempo não precisa estar preso em um relógio, mãe — explicou a menina, com a sabedoria que só as crianças criadas no caos podem ter. — Significa que a gente pode fazer o nosso próprio tempo.
Maria abraçou a filha, olhando para Pato que conversava animadamente com Sigrid e Freya sobre a próxima turnê da banda. Ali estava a sua revolução. Não estava nas capas de revistas ou nos recordes de gols. Estava na coragem de ser estranha, de ser gótica, de ser alternativa em um mundo que exige conformidade.
O avião decolou, deixando para trás o cinza de Londres e o fantasma de um gigante norueguês. Enquanto cruzavam o oceano em direção ao calor de Buenos Aires, Maria fechou os olhos e ouviu a música que Pato havia escrito para ela tocando em seus fones.
— "Você é o corvo que não teme a noite / Você é a tinta que não se apaga com a chuva..."
A revolução de Maria estava apenas começando. Ela não era mais a namorada de ninguém. Ela era a sinfonia, o ruído e o silêncio. Ela era Maria, e o mundo, finalmente, estava pronto para ouvir o seu rugido.