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Haaland

Acordes da Rebeldia e o Caos da Proteção

O silêncio na residência dos Sardelli-Haaland em Buenos Aires era uma relíquia do passado. Aos dezesseis anos, prestes a completar dezessete, as trigêmeas — Luna, Sol e Maya — não eram mais apenas as "meninas loiras do rock". Elas eram furacões de hormônios, opiniões fortes e uma beleza que misturava a imponência nórdica de Erling com a elegância latina de Maria. E, para o desespero dos homens da casa, elas agora tinham vida social.

A sala estava ocupada por Benício, agora com dois anos e meio, que corria em círculos segurando uma baqueta de bateria, sendo perseguido por Patrício que tentava, sem sucesso, fazê-lo comer uma maçã.

— Ben, volta aqui! — gritou Patrício, rindo enquanto desviava de um amplificador. — Se você não comer, não vai ter força para tocar o bumbo mais tarde!

O pequeno parou, olhou para o padrasto com os olhos azuis brilhantes e soltou uma gargalhada, antes de ser erguido no ar por Patrício. Maria observava a cena da cozinha, sorrindo, até que o som de vozes masculinas desconhecidas vindas da varanda fez seu sorriso vacilar.

— Pato, quem são esses meninos lá fora com a Luna e a Maya? — perguntou Maria, limpando as mãos no avental.

Patrício congelou. Ele olhou pela janela e viu dois adolescentes de jaqueta de couro e cabelos bagunçados conversando com as enteadas. Um deles tinha o braço apoiado no ombro de Luna com uma familiaridade que fez o estômago de Patrício dar um nó.

— Eu não sei — disse Patrício, a voz subitamente séria —, mas o de jaqueta jeans está perto demais da Luna. Perto demais.

Nesse exato momento, o iPad de Benício, que estava conectado ao FaceTime da família, começou a tocar. Era Erling. Patrício atendeu, equilibrando Benício no quadril.

— Fala, Haaland. O Ben está aqui fazendo bagunça — disse Patrício, tentando soar casual.

A imagem de Erling Haaland apareceu na tela, direto do centro de treinamento do City. Ele parecia exausto, mas seus olhos se arregalaram ao ver o fundo da imagem de Patrício.

— Patrício, o que é aquilo na varanda? — a voz de Erling saiu como um trovão nórdico através dos alto-falantes. — Quem é aquele garoto tocando no cabelo da Luna?

— Eu ia perguntar a mesma coisa agora, Erling — respondeu Patrício, aproximando-se da janela. — Eles dizem que são "amigos da escola de música".

— Amigos? — Erling bufou, a veia em seu pescoço saltando. — Eu conheço esse olhar. Aquele moleque parece um daqueles modelos de revista de skate. Ele não tem cara de quem sabe a diferença entre um impedimento e um escanteio, e muito menos de quem deveria estar a menos de cinco metros da minha filha!

— Calma, Erling — interveio Maria, aparecendo na tela. — Elas têm quase dezessete anos. É normal.

— Normal? — Erling e Patrício disseram em uníssono.

Eles se entreolharam pela tela. Pela primeira vez em anos, o ciúme de Haaland e o instinto protetor de Patrício estavam em perfeita sincronia.

— Maria, eu vou para a Argentina — declarou Erling. — Eu tenho folga de três dias. Eu não vou deixar um... um guitarrista de garagem levar a minha filha para passear sem passar por uma entrevista de emprego primeiro.

— Erling, não exagere — Maria suspirou. — E Patrício, pare de rosnar para a janela.

— Eu não estou rosnando — defendeu-se Patrício. — Eu só estou... observando a técnica dele. E a técnica dele é péssima. Ele está segurando a palheta errado e olhando para a Luna como se ela fosse um solo de Jimmy Page. Ninguém olha para a minha enteada como se ela fosse um solo de Jimmy Page na minha frente!

A porta da varanda se abriu e Luna entrou, radiante, seguida pelo rapaz de jaqueta jeans.

— Oi, família! — disse Luna, ignorando a tensão no ar. — Este é o Mateo. Ele é o novo baixista da nossa banda de garagem. Mateo, este é o meu padrasto, Pato, e aquele ali na tela é o meu pai, Erling.

Mateo empalideceu. De um lado, ele tinha um dos maiores ícones do rock argentino o encarando com os braços cruzados; do outro, um gigante norueguês de 1,94m o observando através de uma tela com um olhar que prometia dor física.

— P-prazer — gaguejou Mateo.

— O prazer é todo seu, Mateo — disse Erling, a voz gélida. — Me diga, Mateo, quais são suas intenções com a minha filha além de errar o tempo da música?

— Pai! — Luna protestou, ficando vermelha. — Não comece!

— Eu não comecei nada — disse Erling. — Patrício, faça as perguntas difíceis. Você está aí.

Patrício deu um passo à frente, ainda segurando Benício, que agora puxava seu cabelo.

— Então, Mateo... — Patrício começou, com um tom de voz perigosamente gentil — ...a Luna me disse que você é baixista. Qual é a sua opinião sobre o uso de pedais de distorção em frequências baixas para o estilo que elas tocam?

Mateo engoliu em seco.

— Eu... eu prefiro um som mais limpo, senhor Sardelli.

Patrício olhou para a tela do iPad.

— Erling, ele prefere som limpo.

— Inaceitável — respondeu Erling. — Luna, você merece alguém com mais pegada. E você, de jaqueta jeans, se eu souber que você levou ela para casa um minuto depois do toque de recolher, eu vou descobrir onde você mora. E eu sou muito bom em encontrar espaços vazios, Mateo.

— Chega! — gritou Maria, pegando o iPad da mão de Patrício. — Erling, tchau. Patrício, vá ajudar o Gastón com a churrasqueira. Meninas, levem seus amigos para o jardim e fiquem longe da vista desses dois homens das cavernas.

Luna arrastou Mateo para fora, pedindo desculpas em voz baixa. Maya e Sol, que observavam tudo da escada, caíram na risada.

— O Pato está mais ciumento que o papai — observou Sol, descendo os degraus. — Pelo menos o papai está a quilômetros de distância. O Pato fica conferindo se a gente está estudando ou se estamos trocando mensagens com o "baterista de olhos verdes".

— Eu ouvi isso, Sol! — gritou Patrício da cozinha. — E aquele baterista é muito novo para você!

— Ele tem dezoito anos, Pato! — rebateu Sol, rindo.

Mais tarde, quando o sol começou a se pôr e o cheiro do churrasco de Gastón dominava o ar, a casa se encheu com os irmãos Sardelli. Gastón e Guido adoravam a fase adolescente das sobrinhas postiças, mas não perdiam a chance de provocar Patrício.

— Admita, Pato — disse Gastón, virando uma carne na brasa —, você está sofrendo porque elas não são mais aquelas menininhas que aceitavam suas sugestões de acordes sem questionar.

— Elas estão rebeldes, Gastón — reclamou Patrício, sentando-se com uma cerveja. — A Maya quer pintar o cabelo de azul. O AZUL não combina com a estética da banda deles!

— Deixe a menina, Patrício — riu Guido. — Você usava calças de couro de cobra nos anos 2000, quem é você para falar de estética?

O jantar foi uma confusão barulhenta. Benício, sentado em seu cadeirão, tentava imitar os gestos de Gastón, enquanto as trigêmeas discutiam sobre a festa de formatura que se aproximava.

— Nós vamos com o Mateo e o grupo dele — anunciou Maya, desafiadora.

Patrício e o iPad (onde Erling ainda estava conectado, pois se recusava a desligar) reagiram ao mesmo tempo.

— Não vão, não — disseram os dois.

— Vocês vão com os primos do Patrício — sugeriu Erling. — Eles são bons garotos. Jogam handebol.

— Pai, os primos do Pato têm doze anos! — exclamou Luna. — Nós vamos com nossos amigos. E não é um encontro, é um grupo!

— Um grupo de rapazes e moças é apenas um encontro com testemunhas — filosofou Patrício. — Maria, diga algo!

Maria serviu-se de mais vinho e olhou para os homens da sua vida.

— Eu digo que vocês dois estão criando um monstro. Se continuarem pressionando, elas vão fugir para uma turnê de rock em uma van caindo aos pedaços só para irritar vocês.

O silêncio que se seguiu foi quebrado por Benício, que bateu com a colher no prato e gritou:

— Rock! Van!

As meninas explodiram em risadas, e até Patrício teve que ceder.

— Tudo bem — disse Patrício, olhando para Erling na tela. — Elas vão. Mas eu vou levar e buscar. E vou ficar estacionado na esquina com uma lanterna e o Gastón.

— E eu vou ficar no GPS do celular delas o tempo todo — acrescentou Erling. — Se o sinal parar em um hotel ou em uma festa privada, eu aciono o jato particular em cinco minutos.

As meninas reviraram os olhos, mas havia um carinho implícito naquela superproteção. Elas sabiam que, apesar de toda a fama e da fortuna de Haaland, ou do status de rockstar de Patrício, para aqueles dois homens, elas ainda eram as pequenas loiras que precisavam ser protegidas do mundo.

Após o jantar, Patrício subiu para o estúdio para trabalhar em uma nova composição. Luna apareceu na porta, hesitante.

— Pato? Posso entrar?

— Sempre, Lu.

Ela sentou-se no banco ao lado dele.

— Desculpa pelo Mateo. Ele ficou apavorado. Ele realmente gosta de música, sabe? E ele te admira muito. Ele só estava nervoso.

Patrício suspirou e passou o braço pelos ombros da enteada.

— Eu sei, querida. É difícil para mim. E para o seu pai também. A gente vê vocês crescendo e percebe que não somos mais os únicos heróis da vida de vocês. O Erling... ele sente que perdeu muito tempo longe, então ele tenta compensar com esse controle. E eu... bom, eu estou aqui todo dia. Eu vi vocês virarem essas mulheres incríveis. Eu só não quero que ninguém machuque vocês.

Luna encostou a cabeça no ombro dele.

— Ninguém vai, Pato. Vocês nos ensinaram a ter voz grossa, lembra? E a tocar alto.

Patrício sorriu e beijou a testa dela.

— É verdade. Se o Mateo te tratar mal, você faz um solo de baixo tão alto que estoura os tímpanos dele.

— Combinado.

Lá embaixo, Maria conversava com Erling por telefone, em um tom mais baixo e íntimo.

— Elas estão bem, Erling. Você fez um bom trabalho, apesar da distância. E o Patrício... ele é o equilíbrio que elas precisavam aqui.

— Eu sei — admitiu Erling, a voz cansada mas serena. — Eu sinto ciúmes, Maria. Dói ver outro homem vivendo o dia a dia delas. Mas quando vejo como o Patrício olha para o Benício e como ele defende as meninas... eu sei que elas estão em boas mãos. Só não diga a ele que eu disse isso. O ego dele já é grande demais para um guitarrista.

Maria riu.

— Seu segredo está a salvo comigo.

A noite terminou com a casa em relativo silêncio. Benício dormia com sua pequena guitarra de pelúcia, as trigêmeas trocavam mensagens em segredo no quarto, e Patrício e Maria compartilhavam um momento de paz na varanda.

O caos da adolescência estava apenas começando. Haveria mais namorados, mais revoltas, mais cabelos coloridos e, certamente, mais ligações internacionais de um pai norueguês desesperado. Mas ali, sob o céu estrelado de Buenos Aires, a sinfonia da família Sardelli-Haaland continuava a tocar, desafinada às vezes, barulhenta na maioria das vezes, mas sempre, invariavelmente, cheia de amor.

— Patrício? — chamou Maria, enquanto entravam.

— Sim?

— A Sol me contou que o baterista de olhos verdes perguntou se você dá aulas de técnica.

Patrício parou na porta e olhou para o nada por alguns segundos.

— Diga a ele que as minhas aulas começam às cinco da manhã, envolvem flexões de braço e uma palestra de três horas sobre por que ele deve ficar longe da minha enteada.

Maria riu e apagou a luz.

— É, Erling tinha razão. Vocês são iguais.

E no escuro da sala, o eco da risada de Maria era a única melodia que realmente importava. A vida era um show contínuo, e eles estavam prontos para o próximo bis.