herdeira das trevas
O Trono de Espinhos e a Herança de Sangue
A fumaça das tochas no Salão Principal parecia sufocante. Hailey estava sentada à mesa da Sonserina, mas não tocava na comida. O barulho dos talheres e o murmúrio constante dos alunos soavam como estática em seus ouvidos. Cada vez que Dumbledore olhava em sua direção, ela sentia uma náusea corrosiva. O "velho sábio", o "protetor", o homem que a adotou e lhe deu um teto, na verdade a manteve em uma gaiola dourada feita de mentiras.
Ele sabia. Ele sempre soube.
— Hailey, você precisa comer alguma coisa. — A voz de Draco era suave, desprovida da arrogância habitual. Ele estava sentado ao lado dela, tão perto que ela podia sentir o calor de seu corpo. — Você não fala desde que... desde que voltaram do labirinto.
Hailey virou o rosto lentamente para ele. Draco Malfoy, o garoto que sempre tentava impressioná-la, que guardava seus segredos e que, ela sabia no fundo, a olhava com uma devoção que ia além da amizade. Mas naquele momento, até ele parecia um estranho.
— Eu estou bem, Draco — respondeu ela, a voz saindo mais fria do que pretendia.
— Não, você não está. Você está com aquele olhar de quando quer matar alguém no campo de quadribol, só que dez vezes pior. Foi o Potter, não foi? O que ele te disse lá dentro?
Hailey soltou um riso amargo, curto e seco.
— O Potter é o menor dos meus problemas agora.
Ela se levantou abruptamente, atraindo olhares de vários alunos, inclusive de Harry, que a observava da mesa da Grifinória com uma expressão de puro terror e piedade. Hailey odiava a piedade dele. Ela saiu do salão a passos largos, ignorando Draco chamando seu nome.
Ela não foi para o dormitório. Seus pés a levaram para o alto da Torre de Astronomia, onde o ar da noite era gelado e cortante. O céu estava nublado, escondendo as estrelas, como se o próprio universo estivesse de luto por Cedrico — ou talvez, celebrando o retorno do mestre.
— Eu sei que você está aí, Alvo.
Dumbledore emergiu das sombras da escadaria. Ele parecia mais velho do que nunca, as rugas em seu rosto acentuadas pela luz fraca da lua que tentava romper as nuvens.
— Você sempre teve sentidos aguçados, Hailey. Uma característica que... — Ele hesitou.
— Que eu herdei dele? — Hailey completou, virando-se para encará-lo. Seus olhos brilhavam com uma fúria perigosa. — Por quanto tempo você pretendia me esconder a verdade? Por quanto tempo eu seria sua pequena experiência de laboratório para ver se a "filha do monstro" poderia ser domesticada?
— Nunca foi uma experiência, minha querida — disse Dumbledore, a voz carregada de uma tristeza genuína. — Eu queria te dar uma chance. Uma vida onde seu nome não fosse um fardo ou uma sentença de morte. Eu te amei como se fosse minha, Hailey.
— Mentira! — ela gritou, e o som ecoou pelas ameias da torre. — Você me usou! Você me manteve por perto para me vigiar, para garantir que eu não me tornasse ele. Mas ao fazer isso, você me transformou em algo pior. Você me transformou em uma mentira ambulante.
— O sangue não define quem você é — insistiu o diretor, dando um passo à frente. — Suas escolhas definem. Harry escolheu o bem. Você pode escolher também.
— Não fale do Potter para mim! — Hailey rosnou, e por um momento, suas pupilas pareceram se alongar, tornando-se fendas. — Ele tem um legado de herói. Eu tenho um legado de sangue e cinzas. E quer saber? Pela primeira vez na vida, as coisas fazem sentido. O ódio que eu sinto, a facilidade com que as serpentes me obedecem... não é um defeito, Alvo. É a minha natureza.
Dumbledore suspirou, um som que parecia carregar o peso de séculos.
— Onde você vai?
Hailey caminhou até a beirada da torre. Ela não precisava de vassoura. Ela assobiou, um som agudo e melódico que rasgou o silêncio da noite. Segundos depois, um bater de asas poderoso foi ouvido. Nix, seu hipogrifo de plumagem negra como azeviche, pousou graciosamente no parapeito, os olhos laranja fixos em sua dona.
— Vou para onde não existam segredos — disse Hailey, montando na criatura. — Vou para o lugar ao qual pertenço.
— Hailey, por favor — implorou Dumbledore. — Se você cruzar esse limite, não haverá volta.
A garota da Sonserina olhou para o velho diretor uma última vez. A raiva que antes queimava como fogo agora era um gelo sólido e inabalável em seu peito.
— Eu passei treze anos vivendo a sua vida, Alvo. Agora, vou viver a minha.
Com um comando baixo em ofidioglossia, Nix saltou da torre. O vento chicoteou o rosto de Hailey enquanto eles mergulhavam na escuridão da Floresta Proibida. Ela não olhou para trás. Não pensou em Draco, nem na dor que deixaria para trás. Ela só conseguia pensar na voz fria e sibilante no cemitério: *“Você não pode fugir do que é.”*
A viagem não foi longa. Algo dentro dela, uma bússola magnética feita de escuridão, a guiava. Ela aterrissou em uma clareira onde a névoa era tão densa que parecia sólida. Ali, esperando sob a sombra de um carvalho retorcido, estava uma figura encapuzada.
— Você veio — sibilou a voz. Não era Voldemort, mas um de seus servos. Lucius Malfoy retirou o capuz, sua expressão era uma mistura complexa de reverência e choque.
— Onde ele está? — exigiu Hailey, descendo de Nix.
— O Lorde das Trevas a aguarda na Mansão Riddle, milady — Lucius fez uma reverência profunda, algo que Hailey nunca o vira fazer para ninguém além do próprio mestre. — Ele sabia que você viria. O sangue sempre chama pelo sangue.
Hailey sentiu um aperto no peito ao pensar em Draco. Lucius era o pai de seu melhor amigo, e agora, ele a tratava como realeza das trevas. A ironia era quase insuportável.
— Leve-me até lá.
O transporte foi uma sensação desagradável de compressão, e em um instante, eles estavam diante de uma mansão imponente e sombria. O ar ao redor do lugar parecia carregado de eletricidade estática. Ao entrarem no grande salão, Hailey viu as fileiras de Comensais da Morte. Eles se ajoelharam à medida que ela passava, um mar de máscaras prateadas e vestes negras.
No final do salão, em um trono improvisado que parecia feito de sombras, estava ele. Lorde Voldemort.
Sua aparência ainda era aterrorizante, mas Hailey não sentiu medo. Ela sentiu uma conexão. Era como olhar para uma versão distorcida e poderosa de si mesma.
— Aproximem-se — ordenou Voldemort.
Hailey caminhou até ficar a poucos passos dele. Ela manteve a cabeça erguida, os ombros retos.
— Você demorou menos do que eu esperava — disse Voldemort, um brilho de satisfação em seus olhos vermelhos. — O velho tolo tentou impedi-la?
— O velho tolo não pode mais me impedir de nada — respondeu Hailey. — Ele mentiu para mim a vida toda. Ele me usou para se sentir um santo.
Voldemort soltou uma risada gélida que fez os Comensais da Morte estremecerem.
— Eles sempre fazem isso. Envolvem a própria fraqueza em palavras como "amor" e "proteção". Mas você, minha filha... você é feita de algo mais forte. Você sentiu, não sentiu? O poder que fluiu quando você falou com a serpente no labirinto?
— Eu senti — admitiu ela. — E eu quero mais. Eu quero saber quem eu sou de verdade. Quero que eles paguem por terem me tratado como uma órfã digna de pena.
Voldemort levantou-se do trono e caminhou até ela. Ele estendeu a mão pálida e acariciou o rosto de Hailey. O toque era frio como gelo, mas enviou uma onda de energia negra através dela, despertando sentidos que ela nem sabia que possuía.
— Você terá tudo o que desejar. O mundo bruxo tremerá diante do nome Gaunt e Slytherin. Juntos, limparemos este mundo da mediocridade que Dumbledore tanto ama. Mas primeiro, você precisa completar sua transição.
Ele se virou para as sombras atrás do trono.
— Tragam o prisioneiro.
Dois Comensais da Morte arrastaram um homem soluçante para o centro do salão. Hailey reconheceu-o vagamente; era um funcionário do Ministério que ela vira algumas vezes em Hogwarts. Ele estava coberto de sangue e sujeira.
— Um traidor do sangue — sibilou Voldemort, entregando uma varinha a Hailey. Não era a dela, mas uma varinha de teixo, fria e pesada. — Ele ajudou a esconder o seu paradeiro durante anos. Ele foi um dos que assinou os documentos da sua "adoção".
Hailey olhou para o homem. O ódio por Dumbledore e por todos que participaram daquela farsa borbulhou em seu estômago. Eles a roubaram de seu destino. Eles a fizeram acreditar que ela não era ninguém.
— Mate-o — ordenou Voldemort, sua voz era um sussurro sedutor no ouvido dela. — Reivindique seu lugar ao meu lado. Mate a mentira, Hailey.
Hailey ergueu a varinha. Sua mão não tremeu. Ela pensou nos anos de solidão na torre de Dumbledore, nas perguntas sem resposta, no olhar de Harry que sempre parecia carregar o peso do mundo, enquanto ela era apenas a "garota da Sonserina".
— *Avada Kedavra* — sibilou ela em ofidioglossia.
O jato de luz verde iluminou o salão, refletindo-se nos olhos de Hailey. O homem caiu sem um som.
O silêncio que se seguiu foi absoluto, até que Voldemort começou a aplaudir lentamente.
— Magnífico — disse ele. — O sangue nunca mente.
Hailey olhou para o corpo no chão. Ela esperava sentir culpa, ou horror, ou talvez um vazio. Mas o que sentiu foi uma clareza avassaladora. O peso que ela carregava no peito havia desaparecido, substituído por uma frieza poderosa e revigorante.
— O que faremos agora... pai? — A palavra saiu de seus lábios com uma facilidade assustadora.
Voldemort sorriu, um gesto que não continha humanidade, mas sim uma promessa de caos.
— Agora, nós preparamos o terreno. Hogwarts cairá, e Harry Potter verá tudo o que ele ama ser destruído pela pessoa em quem ele mais confiava. Você retornará para a escola, Hailey.
— Retornar? — ela franziu a testa. — Por que eu voltaria para aquele lugar?
— Porque você é a minha espiã mais perfeita — explicou Voldemort, voltando ao seu trono. — Dumbledore ainda acredita que há bondade em você. Draco Malfoy a seguirá até as profundezas do inferno. E o Potter... o Potter é fraco. Ele sente atração por você, ele busca a sua aprovação. Você será a faca que cortará a garganta deles por dentro.
Hailey processou as palavras. A ideia de enganar todos aqueles que a enganaram era deliciosa. Ela imaginou a cara de Dumbledore quando percebesse que sua "protegida" era, na verdade, sua maior ruína. E Draco... ela sentiu uma pontada de algo que quase parecia remorso, mas o esmagou rapidamente. Se Draco a amava, ele teria que aprender a amar a escuridão também.
— Eu farei isso — disse ela, os olhos brilhando com uma nova e terrível determinação. — Eu vou voltar. E quando eu terminar, não restará nada de Hogwarts além de cinzas.
— Essa é a minha filha — declarou Voldemort, sua voz ecoando pelo salão como um trovão. — A Herdeira das Trevas.
Naquela noite, Hailey não dormiu. Ela ficou na sacada da Mansão Riddle, observando o horizonte onde Hogwarts ficava. Ela não era mais a batedora da Sonserina que se escondia atrás de sarcasmo. Ela não era a órfã de Dumbledore.
Ela era a arma mais perigosa que o mundo bruxo já vira. E a guerra, que todos pensavam estar apenas começando, já havia sido vencida no momento em que ela aceitou o seu sangue.
Longe dali, nos terrenos de Hogwarts, Draco Malfoy olhava para o céu, esperando ver o hipogrifo negro retornar. Ele não sabia que a garota que ele amava havia morrido naquela noite, e que o que voltaria em seu lugar seria algo muito mais belo e infinitamente mais letal.