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O Segredo de Ouro e Pó

O ar no Setor 45 era sempre carregado de ozônio e metal, mas conforme Clara se afastava dos centros de comando e descia para os níveis inferiores, o cheiro mudava. Tornava-se mais úmido, mais silencioso e, de certa forma, mais humano. Ela caminhava apressada, o coração batendo contra as costelas num ritmo que não tinha nada a ver com o esforço físico e tudo a ver com a ansiedade que a consumia desde que recebera a mensagem codificada da babá, horas atrás.

Ela passou pelo último posto de controle, onde o guarda apenas acenou. Ninguém perguntava por que a enfermeira pessoal de Warner frequentava aquela ala médica isolada e desativada. Todos presumiam que eram ordens diretas do Comandante, e ninguém ousava questionar Aaron Warner.

Clara parou diante da porta reforçada e respirou fundo. Ela precisava de força. A frieza que demonstrara a Warner no quarto dele era uma armadura, mas ali, naquele corredor, a armadura estava rachando.

— Sou eu, Sarah — sussurrou Clara, enquanto a porta se abria após o reconhecimento biométrico.

O quarto era um contraste absoluto com o resto da base militar. Havia tapetes macios, luzes quentes e brinquedos espalhados pelo chão. E, no centro de tudo, em um berço de madeira escura que Warner mandara fabricar secretamente, estava a razão de cada suspiro de Clara.

Melanie. Mel.

A menina tinha um ano e seis meses e era, em cada detalhe, a imagem cuspida de Aaron. Os mesmos cabelos loiros que pareciam fios de ouro sob a luz, a mesma curvatura aristocrática do nariz e, quando abria os olhos, o mesmo verde cristalino e intimidador. Mas, ao contrário da silhueta esguia e afiada do pai, Mel era uma adorável bolinha de bochechas fartas e pernas roliças, herdadas da mãe.

— Ela não melhorou, Clara — disse Sarah, a babá, aproximando-se com o semblante preocupado. — A febre baixou um pouco com o antitérmico, mas ela está muito prostrada. Não quis comer a papinha de maçã.

Clara sentiu um aperto no peito. Ela se aproximou do berço e viu a pequena Mel encolhida, a respiração curta, as bochechas mais vermelhas do que o normal devido à febre. A menina segurava um pequeno coelho de pelúcia com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos.

— Minha pequena... — Clara murmurou, pegando-a no colo com cuidado.

Mel soltou um gemido baixinho, um som que quebrou o que restava do coração de Clara. A menina abriu os olhos devagar, as íris verdes nubladas pelo mal-estar, e reconheceu a mãe. Ela esticou os bracinhos gordinhos e se enterrou no pescoço de Clara, buscando conforto.

— Eu preciso ficar com ela, Sarah — disse Clara, a voz embargada. — Hoje não posso voltar para o setor médico. Não posso deixá-la assim.

— Mas e o Comandante? — Sarah perguntou, hesitante. — Ele espera seus relatórios. Ele espera... você.

Clara olhou para a filha, sentindo o calor do corpo pequeno contra o seu. A imagem de Warner no quarto, perguntando se ela voltaria à noite, passou por sua mente. Ele queria a enfermeira. Ele queria a amante secreta. Mas Mel precisava da mãe. E Mel era o único segredo que Clara nunca permitiria que fosse usado como moeda de troca ou arma política.

— Eu vou falar com ele — decidiu Clara. — Cuide das coisas aqui. Vou pedir autorização para um "procedimento prolongado" nesta ala. Ele não vai negar.

Clara deixou a filha relutantemente no berço e saiu. Ela não foi para o posto médico. Ela foi direto para o escritório de Warner.

O caminho parecia mais longo. A cada passo, ela pensava na ironia da situação. Warner estava obcecado por Juliette, uma garota que era puro fogo e destruição, enquanto a verdadeira criação dele, a vida que eles tinham gerado em uma noite de desespero e paixão, vivia escondida como um crime. Mel era a prova de que Warner tinha um coração, mesmo que ele passasse o dia tentando provar o contrário.

Ela entrou no escritório sem bater, algo que apenas ela tinha a audácia de fazer. Warner estava de pé diante da janela panorâmica, observando as tropas no pátio. Ele não se virou imediatamente.

— Eu disse que não queria ser interrompido, Clara. A menos que fosse para a medicação.

— Não vim para a medicação, Aaron — disse ela, usando o nome dele, o que o fez virar instantaneamente.

A expressão dele suavizou por uma fração de segundo antes de se tornar a máscara de gelo habitual. Ele notou os olhos vermelhos dela, o tremor nas mãos.

— O que aconteceu? — A voz dele baixou, carregada de uma urgência que ele só demonstrava quando o assunto era Mel.

— Ela está doente. De verdade. A febre não passa e ela está... ela está tão quietinha, Aaron. Você sabe que a Mel nunca fica quieta.

Warner deu um passo à frente, a postura rígida relaxando. O medo, o único sentimento que ele realmente compartilhava com Clara, brilhou em seus olhos verdes.

— O que ela tem? Você é a melhor enfermeira deste setor, por que não a curou ainda?

— É um vírus, provavelmente. O sistema imunológico dela ainda está se fortalecendo. Mas eu preciso passar o dia com ela. O dia e a noite. Não posso subir para os seus aposentos. Não posso trocar seus curativos. Não posso ser sua sombra hoje.

Warner apertou os lábios. Ele olhou para a porta, certificando-se de que estava trancada. O segredo de Mel era a única coisa que poderia destruí-lo perante o Restabelecimento. Um filho era uma fraqueza explorável. Um filho com uma subordinada que não seguia os padrões estéticos do regime era um escândalo que seu pai, Anderson, usaria para aniquilá-lo.

— Vá — disse ele, a voz rouca. — Fique com ela. Dê a ela tudo o que for necessário. Se precisar de medicamentos do estoque privado, pegue.

— Obrigada — Clara virou-se para sair, mas a voz dele a deteve.

— Como ela está... visualmente?

Clara deu um meio sorriso triste.

— Ela é você, Aaron. Cada vez mais. A mesma teimosia no olhar, mesmo quando está com dor. Mas ela tem as minhas bochechas. Ela é uma bolinha de ouro agora, enrolada naqueles cobertores.

Warner desviou o olhar para a janela. Clara viu o pomo de adão dele subir e descer. Ele queria ir. Ela sabia que ele morria de vontade de descer aqueles níveis e segurar a filha, mas ele tinha medo. Medo de que o toque dele, manchado de sangue e tortura, pudesse de alguma forma corromper a pureza da menina. Ou pior, medo de que alguém visse o Comandante Warner sendo humano.

— Diga a ela... — ele começou, mas parou. — Apenas cuide dela, Clara.

Clara voltou para a ala isolada. O restante do dia foi um borrão de compressas frias, canções de ninar sussurradas e o peso reconfortante de Mel em seu colo. A menina, em seu estado febril, chamava por "papá", um som que Clara ensinara em segredo, sabendo que talvez Mel nunca pudesse dizê-lo em voz alta fora daquelas quatro paredes.

Ao entardecer, a febre finalmente cedeu. Mel acordou e, pela primeira vez em vinte e quatro horas, sorriu. Foi um sorriso pequeno, idêntico ao sorriso de lado que Warner dava quando estava genuinamente satisfeito.

— Biscoito? — Mel pediu, a voz rouca, apontando para o armário.

Clara riu, as lágrimas de alívio escorrendo.

— Sim, meu amor. Biscoito.

Enquanto a menina comia, sentada no meio da cama com as pernas gordinhas cruzadas, a porta se abriu silenciosamente. Clara se sobressaltou, mas relaxou ao ver a silhueta alta e elegante.

Warner entrou, ainda usando o uniforme militar, mas sem a túnica pesada. Ele parecia exausto. Ele não disse nada; apenas caminhou até a beira da cama e observou a filha.

Mel parou de mastigar o biscoito. Seus olhos verdes se arregalaram. Ela não via o pai com frequência, mas o reconhecia. Havia uma conexão instintiva, algo que o sangue explicava onde as palavras falhavam.

— Papá! — Mel exclamou, estendendo a mão suja de farelos de biscoito.

Warner hesitou. Ele olhou para Clara, buscando permissão ou talvez coragem. Clara apenas acenou com a cabeça, afastando-se para dar espaço.

Ele se sentou na beira do colchão e deixou que a pequena bolinha de ouro escalasse seu colo. Mel não se importava com as medalhas frias no peito dele ou com a aura de perigo que ele exalava. Para ela, ele era apenas o homem que tinha o mesmo cheiro de sabonete caro e a mesma cor de olhos que ela via no espelho.

Warner passou a mão pelos cabelos loiros da filha, um toque tão leve que parecia ter medo de quebrá-la.

— Ela está melhor? — perguntou ele, sem tirar os olhos da menina.

— A febre passou — respondeu Clara, observando-os da poltrona. — Ela vai ficar bem.

Mel encostou a cabeça no peito de Warner, bem em cima da cicatriz que Juliette deixara, e fechou os olhos, suspirando satisfeita. Warner envolveu-a com os braços, protegendo-a do mundo que ele mesmo ajudava a controlar.

— Você tinha razão — ele sussurrou, a voz quase inaudível. — Ela é uma bolinha.

Clara sentiu um nó na garganta. Naquele momento, no isolamento daquele quarto escondido, eles não eram o Comandante e a enfermeira. Não eram o segredo e a obsessão. Eram apenas dois pais tentando proteger a única coisa pura que restara em um mundo em ruínas.

— Aaron — Clara chamou baixinho.

Ele olhou para ela. A luz do abajur suavizava as linhas duras de seu rosto, revelando o homem que Clara amava, o homem que existia por trás do monstro que o Setor 45 temia.

— Você não pode continuar nos escondendo para sempre — disse ela, a voz firme. — Ela está crescendo. Ela vai começar a perguntar por que não pode sair. Por que o pai dela só aparece nas sombras.

Warner apertou Mel um pouco mais forte.

— O mundo lá fora não é para ela, Clara. O mundo lá fora é feito de espinhos e vidro. Aqui, ela está segura. Aqui, ela é minha.

— Aqui, ela é um segredo — rebateu Clara. — E eu não quero que ela cresça pensando que é algo de que você se envergonha.

Warner levantou-se com cuidado, colocando a filha adormecida de volta no berço. Ele caminhou até Clara e, pela primeira vez em semanas, não a tocou como um superior ou como um amante exigente. Ele pegou a mão dela e a levou aos lábios, beijando os nós dos dedos.

— Eu nunca teria vergonha dela — disse ele, os olhos verdes brilhando com uma intensidade feroz. — E nunca teria vergonha de você. Eu só tenho medo, Clara. Medo de que, se eles souberem que eu amo algo tanto quanto amo vocês duas, eles usem isso para me destruir. E se eu for destruído, quem vai proteger vocês?

Clara sentiu a sinceridade nas palavras dele, mas a dor da negligência ainda estava lá.

— Juliette não é a chave, Aaron — disse ela, puxando a mão gentilmente. — Mel é a chave. Ela é o futuro. Se você quer um mundo melhor para ela, precisa começar a construí-lo, em vez de apenas sobreviver às cinzas do antigo.

Warner não respondeu. Ele apenas olhou para o berço uma última vez antes de se dirigir à porta.

— Fique com ela esta noite — disse ele, a mão na maçaneta. — Amanhã, voltaremos à nossa rotina. O Comandante e a enfermeira.

— E o resto? — perguntou Clara.

Warner parou, de costas para ela.

— O resto... — ele fez uma pausa — é o que me mantém vivo. Mesmo que eu não possa dizer isso em voz alta.

Ele saiu, deixando Clara sozinha com o silêncio e o som da respiração rítmica da filha. Ela se aproximou do berço e cobriu Mel. A menina era a cópia perfeita de Warner, mas Clara rezava todas as noites para que ela tivesse apenas a aparência dele, e não o seu destino.

No Setor 45, o sol nunca parecia brilhar de verdade, mas ali, naquele quarto escondido, Clara tinha seu próprio sol, redondo e dourado, dormindo sob lençóis de algodão. E, por enquanto, ser o segredo dele ainda era o preço que ela estava disposta a pagar para manter aquele sol brilhando.