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Passos de Vidro e Ouro
O Setor 45 estava sob uma tensão elétrica. Desde que Juliette Ferrars começara seu treinamento intensivo sob a supervisão direta de Warner, o ar parecia vibrar com uma energia instável, capaz de explodir a qualquer momento. Clara observava o pátio de treinamento de uma das janelas superiores da ala médica, o coração apertado. Lá embaixo, Aaron Warner se movia com a graça de um predador, os olhos fixos na garota que podia destruir o mundo com um toque. Ele estava focado, obcecado, dedicando cada segundo do seu dia para moldar Juliette na arma que ele acreditava ser necessária.
Clara suspirou, sentindo o peso familiar da invisibilidade. Ela se afastou da janela e começou a caminhar em direção aos níveis inferiores. O contraste era brutal. Enquanto o andar de cima cheirava a suor, pólvora e poder, o refúgio escondido de Melanie cheirava a talco e à doçura inocente da infância.
— Como ela está hoje, Sarah? — perguntou Clara ao entrar no quarto, deixando o cansaço cair de seus ombros como uma capa pesada.
— Ela está radiante — respondeu a babá, sorrindo enquanto guardava alguns brinquedos. — A febre de dois dias atrás parece ter dado a ela uma energia nova. Ela não para quieta, Clara.
Melanie estava sentada no tapete felpudo, cercada por blocos de montar coloridos. Ao ver a mãe, a menina soltou um grito de alegria que iluminou o quarto sombrio. Suas bochechas, aquelas bolinhas perfeitas que Clara tanto amava apertar, estavam coradas de saúde. O cabelo loiro, fino como seda, estava preso em dois pequenos rabos de cavalo que balançavam enquanto ela se agitava.
— Ma-má! — Mel exclamou, estendendo os braços gordinhos.
Clara a pegou no colo, enchendo o pescoço da filha de beijos, sentindo o cheiro de bebê que era seu único consolo naquele mundo de ferro.
— Você está tão forte, minha pequena — sussurrou Clara. — Tão grande.
Ela colocou Melanie de pé no chão, mantendo as mãos firmes sob as axilas da menina. Mel, no entanto, parecia ter outros planos. Ela firmou os pezinhos no tapete, as pernas roliças tremendo levemente sob o peso do corpo, e empurrou as mãos de Clara para longe.
— Mel? — Clara murmurou, o coração começando a acelerar.
A menina fixou o olhar verde em um pequeno coelho de pelúcia que estava a cerca de três passos de distância. Ela franziu a testa, uma expressão de concentração absoluta que era a cópia exata de Warner quando ele estava prestes a tomar uma decisão estratégica. Mel soltou um grunhido de esforço e, com um equilíbrio precário, soltou-se completamente do apoio da mãe.
— Sarah, olhe... — Clara sussurrou, mal ousando respirar.
Mel deu o primeiro passo. Foi incerto, o pé gordinho hesitando no ar antes de tocar o tapete. O corpo balançou perigosamente para a esquerda, mas ela se recuperou. O segundo passo veio mais rápido, carregado de uma determinação feroz. No terceiro passo, ela soltou uma risadinha triunfante e se jogou para frente, agarrando o coelho antes de cair sentada com um baque surdo, mas sem soltar um único choro.
— Ela andou! — Clara exclamou, as lágrimas inundando seus olhos instantaneamente. — Sarah, ela deu os primeiros passos sozinha!
— Foi perfeito — disse a babá, também emocionada. — Ela tem a força dele, Clara. E a sua persistência.
Clara pegou a filha e a girou no ar, o riso de Melanie preenchendo o quarto. Mas, no meio da alegria, uma pontada de tristeza perfurou o peito de Clara. Aaron deveria estar ali. Ele deveria ter visto a determinação nos olhos da filha, o momento em que ela conquistou o equilíbrio, o sorriso de vitória que era tão dele.
— Eu preciso contar para ele — disse Clara, decidida. — Ele precisa saber.
— Você sabe que ele está no campo de treinamento — Sarah lembrou, cautelosa. — Ele deu ordens para não ser interrompido por nada.
— Isso não é "nada" — retrucou Clara. — É a filha dele.
Clara deixou Melanie com a babá e subiu os níveis o mais rápido que suas pernas permitiam. Ela atravessou os corredores metálicos, ignorando os olhares dos soldados, até chegar à plataforma de observação que dava para o campo de simulação.
Lá embaixo, a cena era intensa. O chão estava rachado em vários pontos, resultado dos poderes de Juliette. Warner estava a poucos metros dela, a voz fria e cortante ecoando pelo recinto.
— De novo, Juliette! — ele gritava. — Você não está tentando! Você está com medo de si mesma, e o medo é o que vai te matar!
Juliette parecia exausta, os ombros arqueados, o rosto coberto de fuligem. Warner se aproximou dela, não com carinho, mas com uma intensidade que beirava a crueldade pedagógica. Ele tocou o ombro dela — protegido pelas luvas, mas ainda assim um contato íntimo — e inclinou-se para sussurrar algo em seu ouvido que a fez erguer o queixo com uma nova chama de raiva e determinação.
Clara sentiu um nó na garganta. Ela estava ali, no topo da escada, com a notícia de uma vida começando a florescer, enquanto ele estava lá embaixo, focando em como transformar outra vida em destruição.
Ela desceu os degraus e parou na entrada do campo. Um dos guardas tentou impedi-la, mas Clara o afastou com um olhar de autoridade que raramente usava.
— Comandante Warner! — ela chamou, sua voz desafiando o estrondo das máquinas de simulação.
Warner virou-se lentamente. A expressão em seu rosto era de puro gelo. Seus olhos verdes, os mesmos olhos que Mel usara para focar no coelho minutos antes, estavam agora desprovidos de qualquer calor humano.
— O que é tão importante, Clara, que justifica interromper o protocolo de treinamento nível seis? — ele perguntou, caminhando em direção a ela.
Juliette aproveitou a interrupção para se sentar no chão, ofegante, observando a interação com curiosidade.
— Eu preciso falar com você. Agora — disse Clara, mantendo a voz firme apesar do tremor em suas mãos.
Warner parou a poucos centímetros dela. Ele exalava o cheiro de ozônio e perigo.
— Se não for uma falha de segurança ou uma emergência médica vital, sugiro que você se retire antes que eu perca a paciência.
— É sobre a Mel — sussurrou Clara, baixo o suficiente para que apenas ele ouvisse.
O nome da filha agiu como um gatilho. A rigidez nos ombros de Warner vacilou por um milésimo de segundo, mas ele rapidamente recuperou a compostura. Ele olhou de relance para Juliette, que ainda os observava, e depois para os soldados nas passarelas superiores.
— Não aqui — ele rosnou, pegando Clara pelo braço e arrastando-a para uma sala de equipamentos anexa, fechando a porta com um estrondo. — Você enlouqueceu? Trazer esse assunto para o campo de treinamento? O que aconteceu? Ela piorou?
— Não — disse Clara, a voz embargada pela mistura de excitação e mágoa. — Ela está ótima. Aaron, ela andou.
Houve um silêncio pesado na sala pequena. Warner piscou, como se estivesse tentando processar uma informação em uma língua estrangeira.
— O quê?
— Melanie deu os primeiros passos sozinha agora há pouco — Clara sorriu, as lágrimas voltando a cair. — Foram três passos, Aaron. Ela foi buscar o coelhinho. Ela foi tão corajosa. Ela olhou para o objetivo com aquele mesmo olhar que você tem quando está focado em algo. Eu queria que você estivesse lá. Eu queria que você tivesse visto.
Warner permaneceu imóvel. Por um momento, Clara viu o pai surgir através da máscara do comandante. Viu o desejo de largar tudo, de descer até aquele quarto escondido e ver a filha caminhar de novo. Viu o brilho de orgulho que ele tentava esconder.
Mas então, o som de uma explosão controlada vinda do campo de treinamento ecoou pela parede. Juliette estava praticando seus golpes de novo.
Warner fechou os olhos por um segundo e, quando os abriu, o gelo havia retornado.
— Fico feliz que ela esteja bem, Clara — disse ele, a voz voltando ao tom monótono e profissional. — Mas você não pode vir aqui por causa disso.
Clara deu um passo para trás, como se tivesse levado um tapa.
— "Por causa disso"? Aaron, ela andou! É um marco. É a vida dela acontecendo enquanto você está aqui, brincando de mestre de armas com uma garota que nem quer estar aqui!
— Eu não estou brincando! — ele explodiu, aproximando-se com uma fúria contida. — O que eu faço aqui garante que ninguém entre naquela ala e mate vocês duas enquanto dormem. O que eu faço aqui é o que mantém o Restabelecimento longe do meu pescoço e do segredo que você carrega. Se eu falhar com Juliette, eu falho com a proteção de Melanie. Você entende isso?
— O que eu entendo — disse Clara, a voz trêmula de indignação — é que você está perdendo tudo o que realmente importa. Você está tão preocupado em construir um muro ao redor dela que está esquecendo de viver dentro desse muro. Ela não vai ter um ano e seis meses para sempre, Aaron. Ela não vai dar os primeiros passos de novo.
— Eu não tenho escolha! — ele gritou, a voz ecoando na sala pequena.
— Você sempre tem escolha — rebateu ela. — Você escolhe estar aqui. Você escolhe olhar para ela — ela apontou para a porta, referindo-se a Juliette — com essa obsessão, enquanto sua própria filha está aprendendo a ser humana sem o pai por perto.
Warner desviou o olhar, o maxilar tenso. Clara viu a dor ali, mas viu também a teimosia cega que o definia.
— Volte para baixo, Clara — ele disse, a voz agora baixa e perigosa. — Cuide dela. É para isso que você serve.
O golpe foi profundo. "É para isso que você serve". Clara sentiu o coração se estraçalhar, mas não permitiu que ele visse a extensão do dano. Ela ergueu o queixo, limpando o rosto com as costas da mão.
— Você está certo, Comandante — disse ela, friamente. — Eu sirvo para cuidar da luz que você tem medo de encarar. Mas saiba de uma coisa: quando você finalmente decidir que terminou de treinar seus monstros e quiser ser pai, pode ser que ela já tenha aprendido a correr. E pode ser que ela corra para longe de você.
Clara saiu da sala sem olhar para trás. Ela passou pelo campo de treinamento, vendo Juliette destruir um alvo de metal com um grito de angústia. Aaron saiu logo atrás dela, mas não a seguiu. Ele parou na borda do campo, observando Clara desaparecer pelo corredor.
Juliette olhou para ele, limpando o suor da testa.
— Está tudo bem? — perguntou a garota, sua voz carregada daquela vulnerabilidade que Warner tanto tentava eliminar.
Warner não respondeu de imediato. Ele olhou para as próprias mãos, as mãos que poderiam destruir vidas, mas que não tinham estado lá para amparar o primeiro tropeço da filha.
— De volta ao trabalho, Juliette — ele ordenou, mas sua voz não tinha a mesma força de antes. — Temos muito o que fazer.
Lá embaixo, na ala isolada, Clara voltou para o quarto. Melanie estava sentada no chão novamente, tentando empilhar dois blocos. Ao ver a mãe, ela largou tudo e tentou se levantar de novo.
— Vem, Mel — sussurrou Clara, ajoelhando-se a alguns metros. — Vem com a mamãe.
Melanie firmou as pernas, balançou os braços para ganhar equilíbrio e deu mais dois passos antes de cair nos braços de Clara. A mãe a apertou contra o peito, chorando silenciosamente.
— Não importa, meu amor — Clara disse contra os cabelos dourados da menina. — A mamãe viu. A mamãe sempre vai ver.
Naquela noite, Warner não apareceu para a medicação. Ele não apareceu para ver a filha caminhar. Ele ficou no campo de treinamento até as luzes se apagarem, socando um saco de areia até que seus nós dos dedos sangrassem sob as luvas. Cada golpe era um protesto contra o homem que ele precisava ser e um lamento pelo pai que ele não conseguia se permitir ser.
Ele sabia que Clara tinha razão. Ele estava perdendo os momentos de ouro por causa de um mundo feito de pó. Mas, enquanto ele observava a lua através da janela de seu quarto luxuoso e frio, ele se prometeu que, um dia, as coisas seriam diferentes.
O problema era que, no Setor 45, o "um dia" era uma promessa que muitas vezes chegava tarde demais. E enquanto Melanie dormia o sono tranquilo de quem acabara de descobrir como conquistar o mundo, um passo de cada vez, Aaron Warner permanecia na escuridão, prisioneiro de suas próprias muralhas, sentindo o peso de um coração que, por mais que tentasse, nunca conseguiria ser puramente de pedra.
Clara, deitada ao lado do berço da filha, olhava para a porta trancada. Ela sabia que ele não viria. Mas ela também sabia que, toda vez que Melanie desse um passo, seria a força dela, a persistência de Clara e o sangue de Aaron que a impulsionariam. Mesmo que o pai fosse apenas uma sombra distante, Melanie caminharia em direção à luz. E Clara estaria lá para garantir que ela nunca caísse sozinha.