Hilda furacão
O Protocolo da Bagunça e a Teoria do Desejo
O silêncio que se seguiu à saída de Hilda era preenchido apenas pelo som da chuva fina que começava a açoitar as janelas de vidro do apartamento. Roberto Drummond, o homem que tinha uma resposta irônica para cada mazela do Brasil, sentia-se, pela primeira vez, sem vocabulário. Ele olhou para Eva, cujos cabelos agora pareciam uma nuvem escura e rebelde ao redor do rosto sardento, e sentiu uma vontade absurda de rir e de se esconder debaixo da cama ao mesmo tempo.
— Você percebe que, a partir de amanhã, eu serei a pauta principal das fofocas dela no Maravilhoso Hotel, não percebe? — Roberto perguntou, tateando o ar em busca do seu paletó de linho, que jazia órfão num canto do quarto.
Eva soltou uma risada cristalina, sentando-se na beira da cama e ajeitando a alça do vestido que insistia em cair.
— Deixe de ser dramático, Roberto. Hilda guarda segredos melhor do que qualquer agente do DOPS. O problema não é ela contar para a cidade, o problema é ela nunca mais me deixar esquecer que te encontrou sem fôlego contra a parede. Ela adora uma munição para brincadeiras.
Roberto finalmente resgatou o paletó e o sacudiu, tentando devolver-lhe a dignidade perdida.
— É uma ironia histórica — comentou ele, ajustando os óculos que insistiam em escorregar pelo nariz. — Eu vim aqui para desvendar o mistério da "Vênus de Belo Horizonte" e acabo sendo flagrado por ela numa situação que faria o meu editor-chefe ter um enfarte fulminante. Se meu pai sonha com isso, ele me manda para um exílio forçado em Araxá.
Eva levantou-se e caminhou até ele, envolvendo-lhe a cintura com os braços. O calor do corpo dela atravessou a camisa de Roberto, fazendo-o esquecer instantaneamente de editores, pais ou exílios.
— E você se importa? — perguntou ela, com os olhos azuis faiscando sob a luz âmbar. — O grande cronista da alma mineira está com medo de um pouco de escândalo doméstico?
— Eu não tenho medo do escândalo, Eva. Eu tenho medo é de você — confessou ele, com um sorriso de canto. — Porque você é a única pessoa nesta cidade que consegue me fazer perder o fio da meada. E eu vivo de fios de meada.
— Pois trate de recuperar o seu fio — disse ela, dando-lhe um selinho rápido e travesso —, porque Hilda não vai desistir daquele vinho. E se não aparecermos na sala em cinco minutos, ela volta aqui com a garrafa e duas taças para nos entrevistar.
Roberto suspirou, derrotado pela lógica impecável da convivência com Hilda Furacão. Ele terminou de abotoar a camisa, passou a mão pelos cabelos para tentar domar o topete e seguiu Eva para fora do quarto.
Na sala, o cenário era digno de um filme de Hollywood rodado nas ladeiras de Minas. Hilda estava confortavelmente jogada em uma poltrona de veludo, com as pernas cruzadas de forma que a fenda do vestido revelava o suficiente para deixar qualquer conservador de cabelo em pé. Ela girava uma taça de vinho tinto com uma elegância que parecia inata, como se tivesse nascido para comandar salões, fosse na alta sociedade ou no baixo meretrício.
— Sobreviveram? — perguntou Hilda, sem desviar os olhos do líquido rubro. — Achei que teria que chamar os bombeiros ou, quem sabe, o comitê central do Partido para mediar o conflito de classes que acontecia naquele quarto.
— Hilda, por favor — pediu Eva, sentando-se no sofá e fazendo sinal para que Roberto fizesse o mesmo. — Roberto estava apenas... me contando sobre as novas diretrizes do jornal.
Hilda soltou uma gargalhada que ecoou pelo apartamento, um som cheio de vida e deboche.
— Sei, sei. As diretrizes agora são passadas através do contato epidérmico? Que moderno! Roberto, sirva-se. A garrafa está ali. É um vinho chileno que um admirador me mandou. Ele jura que é de uma safra especial, mas eu acho que ele só queria que eu tirasse a roupa. O que, convenhamos, é um objetivo muito mais honesto do que querer discutir política às onze da noite.
Roberto serviu-se, sentindo o peso do olhar de Hilda sobre ele. Não era um olhar de julgamento, mas de uma curiosidade quase científica.
— Então, Drummond — começou ela, inclinando o corpo para a frente —, agora que já quebramos o gelo e quase quebramos a mobília, me diga: o que um sujeito inteligente como você viu na minha Eva? Ela é perigosa, sabia? Ela acredita em coisas. Pessoas que acreditam em coisas tendem a ser muito cansativas.
— Eu vi nela o que falta nesta cidade, Hilda — respondeu Roberto, recuperando seu tom de cronista. — Belo Horizonte é uma cidade de fachadas. As pessoas saem da missa e vão direto para o pecado, mas fingem que o caminho foi reto. Eva não. Ela é o que é. Ela quer mudar o mundo enquanto o resto da cidade só quer mudar a decoração da sala de jantar.
Hilda arqueou uma sobrancelha, visivelmente impressionada.
— Ora, temos um poeta! Eva, minha cara, você arrumou um homem que fala bonito. Cuidado, esses são os que mais demoram a ir embora.
— Eu não quero que ele vá embora, Hilda — disse Eva, com uma simplicidade que desarmou Roberto.
O jornalista sentiu um nó na garganta. Ele, que escrevia milhares de palavras por dia, não conseguia encontrar uma única que fizesse justiça ao que sentiu naquele momento. Para disfarçar, tomou um gole generoso de vinho.
— Mas vamos falar de negócios — continuou Hilda, mudando de tom com a rapidez de um relâmpago. — Roberto, você ainda quer escrever sobre mim? Ou a sua fonte de pesquisa agora se tornou o objeto principal do seu interesse?
Roberto ajustou os óculos, voltando ao modo profissional, embora o coração ainda estivesse acelerado.
— O interesse em você, Hilda, é de ordem pública. Você é um mito urbano. Mas o meu interesse na Eva... bem, esse é de ordem estritamente privada. E revolucionária.
— Pois bem — disse Hilda, levantando-se e caminhando até a janela, observando as luzes distantes da zona boêmia. — Escreva o que quiser sobre mim. Diga que sou um escândalo, diga que sou o demônio de saias. Mas não ouse colocar a Eva nas suas crônicas. O mundo não está pronto para mulheres como ela. Eles tentam queimar o que não conseguem entender.
— Eu sei disso — concordou Roberto, seriamente. — É por isso que ela é o meu segredo mais bem guardado.
Hilda virou-se, com um sorriso suave que raramente mostrava.
— Ótimo. Agora, se me dão licença, eu tenho um encontro com a noite. E vocês... bem, tentem não incendiar o apartamento. Eu gosto destas cortinas.
Com um aceno teatral, Hilda Furacão pegou sua bolsa e saiu, deixando para trás um rastro de perfume caro e uma aura de liberdade que parecia vibrar nas paredes.
Roberto e Eva ficaram sozinhos novamente. O silêncio agora era confortável, como uma música que se conhece de cor.
— Ela gosta de você — disse Eva, quebrando o silêncio. — Se não gostasse, já teria te expulsado daqui com um pontapé e uma frase de efeito em francês.
— Eu tenho esse efeito nas pessoas — brincou Roberto, embora soubesse que tinha passado por um teste de fogo. — Mas agora, Eva... sobre aquela discussão acadêmica que estávamos tendo no quarto...
Eva sorriu, aproximando-se dele e tirando-lhe a taça da mão, colocando-a sobre a mesa de centro.
— Você fala demais, Drummond. Às vezes, o materialismo dialético precisa dar lugar à prática.
— Você está sugerindo uma ação direta? — perguntou ele, puxando-a para perto.
— Estou sugerindo que a teoria, sem a prática, é morta — sussurrou ela contra seus lábios.
Roberto riu baixo, sentindo-se o homem mais sortudo de toda a Minas Gerais. Ele sabia que, no dia seguinte, teria que enfrentar a redação do jornal, as pressões da família e o clima tenso de um Brasil que caminhava sobre ovos. Teria que escrever sobre crimes, política e as falsas moralidades da Rua da Bahia. Mas, naquela noite, sob o teto que dividia com a lenda de Hilda Furacão e o amor de sua Eva, Roberto Drummond não era o jornalista cínico ou o herdeiro da imprensa.
Ele era apenas um homem que tinha descoberto que, em Belo Horizonte, as melhores histórias não eram as que iam para a primeira página, mas as que eram vividas intensamente, entre sussurros e beijos, enquanto o resto da cidade fingia que nada estava acontecendo.
— Sabe — disse ele, entre um beijo e outro —, eu acho que vou escrever um livro sobre tudo isso um dia.
— E como vai se chamar? — perguntou Eva, com a voz embargada pelo desejo.
Roberto parou por um segundo, olhando para o teto, como se visse o título flutuando no ar.
— Talvez "Hilda Furacão". Mas o subtítulo... o subtítulo seria "Como eu perdi a pauta e encontrei a revolução nos olhos de uma certa morena".
— Longo demais — criticou ela, rindo. — Melhore isso, jornalista.
— Eu tenho a noite toda para editar — respondeu ele, e dessa vez, não houve mais interrupções.
Lá fora, a chuva aumentava, lavando as ruas de Belo Horizonte, escondendo os segredos dos amantes e as conspirações dos políticos. No apartamento de Hilda, a luz do abajur finalmente se apagou, deixando que apenas a penumbra testemunhasse a única verdade que importava naquela década de aparências: que o amor, assim como a revolução, não pede licença para entrar; ele simplesmente arromba a porta e muda tudo de lugar.
E Roberto Drummond, com seus óculos e seu cinismo, finalmente entendeu que a maior lenda urbana de Belo Horizonte não era a loira do bonfim ou a mulher da capa preta. Era a capacidade de, em meio ao conservadorismo de ferro, encontrar um coração que batesse no mesmo ritmo subversivo que o seu.
Afinal, como ele mesmo diria anos depois em suas crônicas, a vida é uma sucessão de furos de reportagem que o destino nos dá, e aquele, sem dúvida, era o seu maior exclusivo.
— Roberto? — chamou Eva, no escuro.
— Sim?
— Se você colocar aquela parte do paletó no livro, eu te entrego para o Partido como um elemento burguês infiltrado.
Roberto soltou uma gargalhada genuína, abraçando-a com força.
— Prometo que serei o cronista mais discreto da história, meu amor. Pelo menos até a Hilda resolver contar a versão dela.
E assim, entre o medo do escândalo e a euforia do afeto, a noite seguiu seu curso, provando que, em 1950, Belo Horizonte podia até tentar ser séria, mas, no fundo, ela sempre teve alma de furacão.