História de Viagem
Reflexos na Água e Tensões no Quarto
O segundo dia em Paraty havia sido uma maratona de pedras coloniais e sol implacável. O centro histórico, com seu calçamento irregular "pé de moleque", havia testado a resistência dos tornozelos de todos, e o calor úmido do Rio de Janeiro parecia ter sugado a última gota de energia do segundo ano. Por volta das quatro da tarde, após a última palestra sobre a arquitetura das igrejas, o veredito dos professores foi recebido com gritos de euforia: tempo livre total na área da piscina do hotel até o jantar.
— Água! Eu só preciso de água que não seja salgada e que não tenha um guia turístico explicando a salinidade dela! — exclamou João Mendes, já correndo em direção aos quartos para trocar de roupa, quase atropelando um grupo de turistas estrangeiros no caminho.
Mota vinha logo atrás, rindo da desgraça alheia.
— Se o Mendes pular de bomba e a água espirrar no meu celular, eu vou aplicar um mata-leão nele antes mesmo dele emergir — comentou Mota, ajustando os óculos enquanto caminhava com Eduarda e Julia.
— Deixa de ser ranzinza, Mota — Julia rebateu, saltitando de animação. — Eu vou colocar meu melhor biquíni e tirar fotos incríveis. Nero, você vai levar o tablet para a beira da piscina ou vai finalmente se molhar?
Nero, que caminhava encolhido com os braços cruzados, deu um sorriso tímido.
— Talvez eu só fique na espreguiçadeira desenhando vocês se afogando. É mais seguro para o meu sistema nervoso.
Eduarda riu, ajeitando um de seus tererês coloridos.
— Eu vou fazer barquinhos de papel vegetal que flutuam. Vai ser um espetáculo.
Enquanto o grupo se dispersava em direção à área de lazer, no quarto masculino 204, o ritmo era consideravelmente mais lento. Thiago já estava pronto, vestindo apenas uma bermuda de tactel preta que realçava seu porte atlético e o colar com a cruz balançando contra o peito moreno. Ele estava encostado no batente da porta, observando Mozart com uma mistura de impaciência e divertimento.
Alexander Mozart, por outro lado, parecia estar se preparando para um desfile de moda, e não para um mergulho. Ele estava diante do espelho, ajeitando o cabelo azul que insistia em cair de forma rebelde. Ele vestia um calção de banho estampado por baixo de uma calça larga que ele ainda não tinha terminado de abotoar, deixando o cós baixo, quase caindo, revelando a linha do quadril e algumas marcas na pele — cicatrizes finas e antigas, vestígios de quedas de skate e de uma história pessoal que ele raramente compartilhava em voz alta.
— Cara, a gente vai perder o sol — Thiago reclamou, batendo o pé no chão. — Você demora mais que a Julia e a Duda juntas. É só uma piscina, Mozart, não é a capa da Vogue.
Mozart se virou, ajeitando os óculos de sol de lentes escuras sobre o nariz, os *snake bites* brilhando sob a luz que vinha da janela.
— A estética é fundamental, Barbosa. Diferente de você, eu não saio por aí parecendo que acabei de ser cuspido por um treino de futebol.
Thiago deu um passo para dentro do quarto, fechando a porta atrás de si com um clique suave, quase imperceptível. O ar condicionado zumbia baixo, contrastando com o silêncio repentino que se instalou entre os dois. Thiago caminhou até Mozart, parando a uma distância perigosamente curta. O contraste de altura era evidente; Mozart precisava inclinar levemente a cabeça para trás para encarar os olhos escuros do outro.
— Você está muito tenso hoje — Thiago disse, a voz descendo uma oitava, perdendo o tom de brincadeira. — O dia inteiro tirando foto de parede e me ignorando.
— Eu não estava te ignorando. Estava trabalhando — Mozart retrucou, embora sua voz tenha saído um pouco menos firme do que ele gostaria.
Thiago estendeu a mão, tocando levemente a lateral do rosto de Mozart, o polegar roçando perto do piercing. Mozart estremeceu, mas não recuou. O clima de "enemies to lovers" que sempre pairava sobre eles, alimentado por meses de ragebait e provocações, parecia ter atingido um ponto de ebulição naquele quarto abafado de Paraty.
— Deixa eu te chupar — Thiago soltou, a frase saindo direta, crua, sem nenhum filtro.
Mozart, pego totalmente de surpresa, abaixou os óculos de sol até a ponta do nariz, revelando os olhos arregalados e as pupilas dilatadas.
— O quê?
— Você escutou — Thiago repetiu, dando mais um passo à frente, encurralando Mozart contra a cômoda. — Você está precisando relaxar, e eu estou com vontade de calar essa sua boca sarcástica de um jeito diferente.
O choque inicial de Mozart foi rapidamente substituído por uma onda de calor que subiu pelo seu pescoço. Ele, que sempre tinha uma resposta pronta, um comentário ácido ou um revirar de olhos desdenhoso, viu-se subitamente desarmado. O "Rei Nonchalant" estava perdendo a coroa.
— Thiago, a gente... os outros estão esperando — ele gaguejou, a respiração ficando curta.
— Eles podem esperar — Thiago murmurou, ajoelhando-se lentamente à frente de Mozart, as mãos subindo pelas coxas do garoto de cabelo azul, puxando o calção que já estava frouxo.
O que se seguiu nos minutos seguintes foi uma desconstrução completa da fachada de Alexander Mozart. Aquele que se orgulhava de ser o observador frio, o artista distante, transformou-se em um emaranhado de suspiros e dedos nervosos cravados nos ombros de Thiago. Mozart era sensível, muito mais do que deixava transparecer, e a entrega aos estímulos de Thiago o deixava vulnerável, quase suplicante. Ele murmurava desconexamente, pedindo, sentindo cada sensação como se fosse uma nova nota musical que ele nunca tinha ouvido antes.
Quando tudo terminou, o silêncio no quarto era diferente. Thiago se levantou, limpando o canto da boca com as costas da mão, exibindo um sorriso de satisfação que beirava a arrogância, mas com um brilho de afeto que ele só reservava a Mozart.
— Agora sim, você parece pronto para a piscina — Thiago provocou, dando um tapinha leve no rosto de Mozart.
Mozart estava encostado na cômoda, as pernas ainda meio bambas, o rosto de um vermelho tão intenso que parecia que ele tinha passado o dia inteiro sob o sol sem protetor. Ele rapidamente subiu o calção, ajeitou a roupa com mãos trêmulas e colocou os óculos de sol de volta, tentando desesperadamente recuperar sua dignidade.
— Você é um idiota completo, Barbosa — Mozart sussurrou, a voz ainda levemente rouca.
— E você está adorando ser o "idiota" comigo. Vamos, antes que o Mota venha arrombar a porta.
***
Na área da piscina, o caos estava instalado. Mota e Mendes estavam em uma competição de quem conseguia fazer o maior "splash", para o desgosto das meninas que tentavam ler ou tomar sol.
— Onde é que vocês estavam? — Julia perguntou assim que viu os dois cruzarem o portão da área de lazer. Ela estava sentada na borda da piscina, balançando as pernas na água. — A gente achou que o Mozart tinha tido um colapso nervoso por causa de algum inseto no quarto.
— Problemas com a mala — Thiago respondeu rapidamente, jogando sua toalha em uma espreguiçadeira e mergulhando de cabeça na água sem hesitar.
Mozart, por outro lado, permaneceu de óculos escuros, caminhando até a espreguiçadeira mais afastada. Ele não entrou na água de imediato. Sentou-se e abriu seu caderno de desenho, tentando focar em qualquer coisa que não fosse a sensação do olhar de Thiago sobre ele a cada vez que o outro emergia da piscina.
— Alê, você está bem? — Eduarda se aproximou, entregando a ele um pequeno cisne de papel. — Você está mais vermelho que o normal. O sol está batendo aqui?
— É o calor, Duda. Paraty é um forno — ele mentiu, sem tirar os olhos do papel, embora sua mão estivesse desenhando linhas abstratas e sem sentido.
— Sei... — Eduarda sorriu, aquele sorriso de quem sabia muito mais do que dizia. — O Thiago também parece bem... animado. Ele acabou de apostar com o Mendes que consegue atravessar a piscina nadando de costas sem usar os braços.
Mozart soltou um riso curto, escondendo o rosto atrás do caderno.
— Ele é um exibido.
Durante o resto da tarde, a dinâmica entre os dois foi um jogo de gato e rato. Thiago, satisfeito e transbordando energia, fazia questão de passar perto de Mozart, jogando água nele "sem querer" ou fazendo comentários de duplo sentido que só os dois entendiam. Mozart mantinha sua postura de rei da indiferença, ignorando as provocações com uma maestria que só era traída pelo tremor ocasional em suas mãos.
***
A noite chegou com a promessa de um descanso merecido. Após o jantar, onde Mota quase foi expulso do restaurante por tentar convencer o garçom de que Pokémon era uma religião reconhecida, o grupo se recolheu.
No quarto 204, o ritual de banho começou. Mota foi o primeiro, saindo do banheiro e caindo direto na cama, apagando em questão de minutos. O dia de "trollagem" e piscina tinha exaurido suas energias.
Thiago saiu do banheiro apenas de toalha, o vapor saindo atrás dele. Ele viu Mozart sentado em sua cama, mexendo no celular com uma expressão concentrada.
— Sua vez, Mozie — Thiago disse, passando por ele e dando um peteleco na orelha de Mozart.
— Já vou — Mozart respondeu, sem olhar para cima.
Quando Mozart saiu do banho, já de pijama — uma camiseta larga e calças de flanela, apesar do calor —, encontrou o quarto na penumbra. Thiago estava deitado, mas acordado, os braços atrás da cabeça.
— Ei — Thiago sussurrou quando Mozart se deitou na cama ao lado. — Não vai me dar boa noite?
— Boa noite, Thiago — Mozart respondeu, virando-se de costas.
— Só isso? Depois de tudo o que aconteceu hoje? Você é mesmo um "nonchalant king", né? — Thiago riu baixo. — Mas eu sei que por baixo desse cabelo azul e desse sarcasmo, você ainda está sentindo o que a gente fez.
Mozart sentiu o rosto esquentar novamente contra o travesseiro. Ele apertou os olhos, recusando-se a dar o braço a torcer.
— Eu não sei do que você está falando. Eu estava apenas sendo educado com um colega de quarto carente.
— Educado, é? — Thiago se inclinou, sua voz agora bem perto do ouvido de Mozart, já que as camas eram próximas. — Então amanhã, na viagem de volta, eu vou ter que ser muito "educado" com você no fundo do ônibus. O que você acha?
Mozart permaneceu em silêncio por alguns segundos, o coração batendo forte contra as costelas. Ele finalmente suspirou, uma pequena rendição.
— Acho que você fala demais, Barbosa. Dorme logo.
Thiago riu, voltando para sua posição.
— Boa noite, Alê.
— Boa noite, idiota.
Enquanto o silêncio de Paraty envolvia o hotel, Mozart finalmente fechou os olhos. Ele sabia que a viagem de volta para São Paulo seria longa, barulhenta e cheia de provocações de Mota e Mendes. Mas, acima de tudo, ele sabia que, entre as fotos em sua câmera e os desenhos em seu caderno, havia agora uma memória nova, vibrante e intensamente colorida, que nem mesmo o seu sarcasmo mais afiado seria capaz de apagar.