Hit me 2
O Peso do Silêncio e o Brilho das Cinzas
O dia seguinte na Pine Academy começou com o mesmo céu azul monótono de sempre, mas para Mizi, o ar parecia mais denso. Ela caminhava pelo corredor principal entre Marty e Mary, segurando sua lata inseparável de Monster branco. O som de suas risadas e o falatório alto de Mary sobre como o professor de história parecia um figurante de filme de terror eram os únicos ruídos que Mizi permitia processar.
— Eu tô falando, Marty! O cara não pisca! — Mary exclamou, gesticulando freneticamente. — Ele fica lá, parado, olhando pra gente como se estivesse decidindo quem vai sacrificar primeiro.
— Você é muito dramática, Mary — Marty riu, ajustando a alça da mochila. — Ele só está cansado de aturar a gente.
Mizi deu um sorriso de canto, distraída, olhando para o lado oposto enquanto tentava abrir a lata. Foi nesse segundo de distração que o impacto aconteceu. Ela colidiu contra algo sólido e imóvel, como se tivesse batido em uma parede de tijolos revestida de tecido social. O impacto fez a lata escorregar de sua mão, mas ela conseguiu segurá-la antes que o líquido derramasse no chão polido.
— Opa, foi mal — disse Mizi rapidamente, recuperando o equilíbrio. Ela nem sequer olhou para cima de imediato, apenas ajeitou a gola da camisa branca. — Não vi você aí.
Ela começou a dar o primeiro passo para continuar seu caminho, mas uma voz grossa e carregada de desprezo a interrompeu, fazendo o corredor parecer subitamente mais frio.
— Tinha que ser a demônio rosa.
Mizi parou abruptamente. Ela conhecia aquela voz. Lentamente, ela se virou, encontrando o olhar severo de Acorn. Ele estava parado ali, com os braços cruzados, a estrutura física imponente bloqueando o caminho. Logo atrás dele, o grupo estava reunido: Ivan, Till, Luka, Hyuna e, é claro, Sua.
Mizi arqueou uma sobrancelha, o sarcasmo voltando à sua face como uma máscara de defesa.
— Como é que é? — perguntou ela, a voz baixa, mas afiada. — Eu já disse que foi sem querer, Acorn. Não precisa de um show.
— "Sem querer" é a sua especialidade, não é? — Acorn deu um passo à frente, a irritação emanando dele. — Você tromba nas pessoas, destrói a vida delas e depois diz que foi "sem querer". Você não passa de uma egoísta que só pensa no próprio umbigo.
Mizi deu um riso nasal, uma mistura de choque genuíno e ironia amarga. Ela olhou para Marty e Mary, que estavam tensos ao seu lado, e depois voltou a encarar o namorado de Sua.
— Caramba, você realmente comprou a história toda, né? — Mizi inclinou a cabeça, os olhos dourados brilhando com um desafio perigoso. — É impressionante como você fala com tanta propriedade sobre algo que não estava lá para ver.
— Eu vi o que você deixou para trás! — Acorn rebateu, elevando o tom de voz. — Eu vi como a Sua ficou por causa das suas merdas! Você é podre, Mizi.
O corredor começou a ficar silencioso. Alunos paravam para observar a cena. A tensão era quase elétrica. Mizi abriu a boca para retrucar, para dizer que ele não sabia de nada, que a verdade era muito mais complexa do que o papel de vilã que lhe atribuíram. Mas ela não teve tempo.
O movimento foi rápido demais para prever. Sua, que até então estava em silêncio absoluto atrás de Acorn, avançou. O som do tapa ecoou pelo corredor, um estalo seco que fez o coração de Marty saltar.
A cabeça de Mizi virou bruscamente para o lado com o impacto. O silêncio que se seguiu foi absoluto, quebrado apenas pela respiração pesada de Sua. Mizi permaneceu naquela posição por alguns segundos, o cabelo rosa e azul cobrindo seu rosto, a bochecha começando a arder intensamente.
— Você não tem o direito de abrir a boca para falar do que aconteceu — Sua disse, a voz trêmula de ódio, as unhas cravadas nas palmas das mãos. — Você é um monstro, Mizi. Você nos destruiu e ainda tem a audácia de andar por aqui como se fosse a dona do lugar. Some da minha frente antes que eu faça pior.
Hyuna deu um passo à frente, colocando a mão no ombro de Sua, lançando a Mizi um olhar de puro nojo. Till desviou o rosto, incapaz de olhar para a cena, enquanto Ivan permanecia com uma expressão indecifrável, embora o desapontamento estivesse escrito em cada linha de seu rosto.
Sua esperava uma resposta. Ela esperava que Mizi gritasse, que revidasse, que fosse a pessoa ácida e cruel que todos acreditavam que ela era. Mas Mizi apenas sentiu o gosto metálico do sangue onde o dente cortara levemente o interior de sua bochecha.
Ela sabia a verdade. Ela sabia que, naquela briga que destruiu tudo, ela não tinha sido a única culpada. Na verdade, ela tinha tentado explicar. Tinha tentado mostrar que as coisas não eram pretas no brancas. Mas ninguém acreditou. No momento em que a briga aconteceu, o veredito foi dado: Mizi era a culpada, e Sua era a vítima. E Mizi, cansada de lutar contra uma maré de julgamentos, simplesmente aceitou o papel. Se eles queriam uma vilã, ela lhes daria o silêncio de uma.
Lentamente, Mizi virou o rosto de volta. Seus olhos dourados estavam opacos, desprovidos de qualquer emoção. Ela não disse uma única palavra. Não xingou, não chorou, não se explicou.
— Vamos embora — disse Mizi para Marty e Mary, sua voz saindo estranhamente calma.
Ela passou pelo grupo, os ombros retos, sem olhar para trás. Marty e Mary a seguiram rapidamente, em choque total. Só quando dobraram o corredor e entraram em uma área menos movimentada é que Marty quebrou o silêncio.
— Mizi! Caralho, você tá bem? Aquela garota é maluca! — ele exclamou, parando-a.
— Mary, pega gelo na enfermaria. Agora! — Marty comandou, e a garota saiu correndo sem questionar.
Mizi encostou as costas na parede fria e deslizou até o chão, soltando um suspiro longo. Ela tocou a bochecha, que agora exibia uma marca vermelha vívida.
— Eu estou bem, Marty — murmurou ela, fechando os olhos.
— Não, você não está. Por que você não disse nada? Por que deixou ela te bater daquele jeito? Você podia ter acabado com eles!
— Pra quê? — Mizi abriu um dos olhos, olhando para o amigo com uma tristeza exausta. — Eles já decidiram quem eu sou. Se eu tentasse dizer a verdade agora, seria só mais uma "mentira da Mizi". Deixa eles com a versão deles. É mais fácil assim.
Marty sentou-se ao lado dela, em silêncio, percebendo que a dor no rosto de Mizi era o menor dos seus problemas.
***
No dia seguinte, o clima na Pine Academy parecia ter voltado a uma normalidade superficial, embora o tapa de Sua ainda fosse o assunto principal das rodas de fofoca. O grupo de amigos estava reunido perto da entrada principal, esperando por Sua, que havia prometido trazer uma surpresa.
— Ela disse que é uma amiga de infância que acabou de se mudar para cá — explicou Hyuna, ajeitando a mochila. — Elas não se veem há anos, mas mantiveram contato.
— Mais uma pessoa pro grupo? — Till perguntou, parecendo indiferente. — Desde que não seja outra pessoa dramática, por mim tudo bem.
— Você é o rei do drama, Till — Ivan provocou, ganhando um empurrão no ombro.
Momentos depois, Sua apareceu no portão, mas não estava sozinha. Ao seu lado, caminhava uma garota que parecia ser o reflexo melancólico da própria Sua. Ela era baixa, com a pele tão pálida que parecia quase translúcida sob a luz da manhã. Seus cabelos cinzas eram longos, lisos e desciam até o meio das costas, emoldurando um rosto de traços delicados. Os olhos eram de um cinza profundo, quase pretos, com cílios longos que davam a ela um ar permanentemente sonhador e triste.
— Pessoal, essa é a Vane — apresentou Sua, com um tom de voz visivelmente mais suave do que o habitual. — Ela estudava em outra cidade e conseguiu transferência para o nosso último ano.
Vane apenas acenou levemente com a cabeça, um gesto tímido e reservado.
— Oi — disse ela, sua voz sendo um sussurro calmo.
— Bem-vinda ao hospício, Vane — Ivan sorriu, tentando ser receptivo. — Eu sou o Ivan, o irmão mais legal da Sua.
Luka, Hyuna e Till se apresentaram brevemente, e o grupo começou a caminhar para dentro da escola, com Sua fazendo as honras de mostrar as instalações. Vane observava tudo com uma curiosidade contida, mantendo-se sempre perto de Sua.
— A escola é grande — comentou Vane, olhando para os armários. — E barulhenta.
— Você se acostuma — disse Hyuna. — O segredo é saber com quem andar.
Enquanto atravessavam o corredor principal que levava ao refeitório, o fluxo de alunos era intenso. Foi nesse momento que o grupo ficou rígido. Vindo na direção oposta, Mizi caminhava conversando com Marty e Mary. Ela usava um curativo discreto na bochecha, mas seu porte continuava o mesmo: a saia curta, a camisa social aberta e a lata de Monster na mão. Ela estava rindo de algo que Marty dizia, o cabelo rosa brilhando sob as luzes fluorescentes.
Mizi passou por eles sem sequer desviar o olhar, agindo como se o grupo fosse invisível. A indiferença dela era sua nova armadura.
Vane, no entanto, parou de andar. Seus olhos cinzas seguiram Mizi até que ela desaparecesse na curva do corredor. Havia um brilho de interesse genuíno e algo mais profundo em seu olhar — uma faísca que não passou despercebida por Hyuna.
— Quem é aquela? — perguntou Vane, sua voz carregando uma curiosidade que ela não demonstrara por nada na escola até agora.
O grupo parou, a atmosfera tornando-se pesada instantaneamente. Sua apertou as alças da mochila, o rosto obscurecido.
— Ninguém importante — respondeu Sua, o tom de voz gélido.
— O nome dela é Mizi — Till disse, com uma amargura que tentava esconder. — Mas é melhor você ficar longe dela, Vane. Ela é... complicada.
— Complicada é apelido — Hyuna interveio, cruzando os braços. — Ela é o tipo de pessoa que atrai você com essa aparência bonita e depois te destrói por dentro. Ela fez coisas imperdoáveis com a Sua e com todos nós. É uma manipuladora nata.
Vane olhou para a direção onde Mizi tinha ido e depois voltou para os amigos, processando a informação.
— Ela parece... triste — comentou Vane, quase para si mesma.
— Aquilo não é tristeza, é veneno — retrucou Acorn, que tinha acabado de se juntar ao grupo. — Não se deixe enganar pela cara bonita, novata. A Mizi é a última pessoa nesta escola com quem você deveria querer falar.
Vane não disse mais nada, mas o interesse não desapareceu de seus olhos. Ela era lésbica e sempre tivera um instinto aguçado para pessoas que carregavam segredos. E Mizi, com seu brilho rosa e seu silêncio cortante, parecia um mistério que Vane, em sua própria melancolia, sentia uma vontade súbita de desvendar.
Enquanto o grupo continuava a caminhada, mergulhando em avisos e regras escolares, Vane deu uma última olhada para trás. Ela sentia que a Pine Academy seria muito mais interessante do que Sua havia descrito, especialmente se aquele "demônio rosa" tivesse mais a dizer do que o silêncio que demonstrava.
Longe dali, no banheiro feminino, Mizi lavava o rosto. Ela olhou para o próprio reflexo no espelho manchado, tocando o curativo na bochecha. O tapa de Sua ainda doía, mas não tanto quanto a percepção de que ela estava completamente sozinha em sua verdade.
— "Demônio rosa", hein? — sussurrou Mizi para o espelho, dando um sorriso triste que não chegou aos seus olhos dourados. — Pelo menos a cor combina com o meu cabelo.
Ela ajeitou a gravata de qualquer jeito e saiu do banheiro, pronta para enfrentar mais um dia sendo a vilã da história de outra pessoa. Ela não sabia que novos olhos a observavam, e que talvez, apenas talvez, o silêncio que ela tanto cultivava estivesse prestes a ser testado por alguém que via o mundo em tons de cinza, assim como ela.