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O Peso da Hostilidade

O auditório da Pine Academy cheirava a carpete velho, poeira aquecida pelas lâmpadas do teto e o tédio coletivo de quase quatrocentos adolescentes amontoados em poltronas retráteis de vinil vermelho. A direção da escola havia decidido, no meio do intervalo, enfiar todas as turmas do terceiro ano ali para uma daquelas palestras intermináveis sobre "preparação para a vida adulta e escolhas de carreira".

No palco, um homem de terno cinza sem graça falava ao microfone com uma voz monótona que parecia projetada em laboratório para induzir o coma.

Lá no meio da plateia, Mizi afundava o corpo no assento, com as pernas esticadas e cruzadas no tornozelo, puxando a saia preta para baixo por puro reflexo. A lata de Monster branco já tinha ido para o lixo há mais de uma hora, e a cafeína parecia ter evaporado do seu sangue de uma vez só. O cansaço bateu como uma marretada na nuca.

— Juro por Deus, se esse cara falar a palavra "networking" de novo, eu vou me jogar daquela janela — sussurrou Diana ao lado dela, mascando o chiclete com força suficiente para estalar.

— Se você pular, me leva junto — respondeu Mizi, soltando um bocejo longo que ela mal se deu ao trabalho de cobrir com a mão. — Meu cérebro tá derretendo, juro.

— É a falta de sono, gata — disse Anne, inclinando-se para a frente na fileira. — Eu avisei que você devia ter trancado o cachorro na lavanderia.

— Ele chora se ficar trancado, Anne! — rebateu Mizi, em um sussurro indignado. — Aquele bicho é manipulador. Ele me olhou com aqueles olhinhos pretos e eu já tava deitada de lado na ponta da cama pra dar espaço pra ele. Dormi que nem um camarão atrofiado.

— Ai, mas deve ter sido a coisa mais fofa do mundo... — suspirou Nuxy, rindo baixinho.

— Dá pra calar a boca, caralho? — murmurou Diana, rindo também. — Olha o inspetor olhando pra cá.

Mizi soltou uma risadinha abafada e continuou conversando, gesticulando com deboche para o projetor no palco. Mas a sorte delas acabou rápido.

Uma sombra pesada se projetou sobre a fileira. A professora Collins, conhecida por ter o humor de uma cerca de arame farpado, parou no corredor lateral, com os braços cruzados e uma expressão lívida.

— Já chega da palhaçada aí no fundo — sibilou a professora, a voz baixa, mas afiada o suficiente para cortar vidro. — Acharam que isso aqui é salão de festas?

Diana fechou a boca no mesmo segundo, fingindo olhar compenetrada para o homem de terno no palco. Nuxy ajeitou o blazer e Anne olhou para o colo.

— Você aí, de cabelo rosa — a professora apontou o dedo magro na direção de Mizi, com desdém evidente. — Levanta. Agora.

Mizi franziu a testa, os olhos dourados faiscando de pura irritação.

— Qual foi? Eu nem tava falando alto — rebateu Mizi, sem fazer menção de se mexer.

— Levanta antes que eu te mande direto pra detenção assinar termo — retrucou a mulher, sem paciência. Ela apontou para duas fileiras à frente, onde havia um único assento vazio isolado. — Vai sentar ali. E se abrir a boca mais uma vez, vai pra sala da diretoria.

Mizi bufou tão alto que alguns alunos da fileira ao lado olharam. Com movimentos lentos e deliberadamente cheios de má vontade, ela se levantou, ajeitou a gravata torta no pescoço e desceu os degraus do auditório pisando duro.

Só quando chegou à dita fileira é que ela percebeu a merda em que tinha se metido.

A cadeira vazia ficava bem ao lado de Sua.

A postura de Mizi endureceu imediatamente. Por uma fração de segundo, ela pensou seriamente em mandar a professora Collins para a puta que pariu e simplesmente ir embora para a detenção. Qualquer coisa parecia melhor do que ter que passar o resto daquela tortura sentada colada na pessoa que ela menos suportava naquele colégio.

Sua estava sentada com a coluna perfeitamente ereta, as mãos descansando sobre os joelhos cobertos pela saia preta. Ela mantinha os olhos violetas fixos no palco, o rosto pálido e impassível emoldurado pelo corte reto dos cabelos curtos. Não parecia prestar atenção no palestrante, mas sim perdida em sua própria melancolia particular.

Com um estalo irritado de língua, Mizi se jogou na poltrona vazia.

O estofado rangeu. Mizi cruzou os braços com força, jogando o corpo para a esquerda, inclinando-se o máximo possível em direção ao corredor para manter a maior distância física que o espaço apertado permitia. Se ficasse a menos de dez centímetros daquela garota, sentia que ia explodir de azedume.

Na fileira logo à frente, uma cabeça com cabelos castanhos longos virou-se discretamente para trás.

Hyuna apoiou o queixo no encosto da poltrona, os olhos azuis faiscando de puro divertimento ao notar a situação. Ela encarou Sua, que continuava encarando o vazio, e abriu um sorriso largo e descarado. Hyuna arqueou as sobrancelhas de maneira sugestiva, mordendo o lábio para não soltar uma gargalhada no meio do auditório silencioso.

Sua sentiu o olhar da amiga. Um tremor quase imperceptível percorreu seus ombros. Ela não virou a cabeça para encarar Hyuna, apenas estreitou os olhos roxos em um aviso silencioso de "nem pense em começar".

Mas, por dentro, o estômago de Sua parecia ter despencado em um poço sem fundo.

Mizi estava ali. A poucos centímetros.

Sua podia sentir o cheiro característico dela: uma mistura marcante de xampu doce de morango, o cheiro cítrico e químico do energético e o ar fresco do corredor. Era sufocante e hipnotizante ao mesmo tempo. Sua respirava devagar, tentando controlar as batidas descompassadas do próprio peito para que Mizi não ouvisse.

Alguns assentos mais para a esquerda, Till estava esticado para tentar ver o que estava acontecendo, os olhos verdes arregalados por trás da franja cinza rebelde.

— O que aquela garota tá fazendo ali? — resmungou Till, tão baixo que só Ivan, sentado ao seu lado, pôde ouvir. — Ela nunca senta perto da gente.

Ivan, que estava entretido desembrulhando uma bala de caramelo que tinha tirado escondido do bolso da calça, olhou de soslaio. Ele notou a tensão ridícula nos ombros de Till e o modo como o garoto não tirava os olhos de Mizi.

— Collins mandou ela pra lá por estar conversando — Luka comentou do outro lado, ajeitando os óculos no nariz com a maior calma do mundo. — Fascinante ver como uma punição disciplinar afeta a ecologia da sala.

— Fascinante é o jeito que o Till tá quase babando no chão de novo — alfinetou Ivan, enfiando a bala na boca com um sorriso sádico. Ele cutucou a costela de Till com o cotovelo. — Para de encarar, idiota. Vai secar a garota. Nem parece que ela caga pra sua existência.

— Vai tomar no cu, Ivan! — sibilou Till, com o rosto esquentando de raiva enquanto dava um tapa no braço do moreno. — Eu só achei estranho, caralho!

— Sei. Muito estranho — zombou Ivan, deliciando-se com a irritação pura nos olhos de Till, ignorando a pontada incômoda que sempre sentia no peito quando o cinzento ficava daquele jeito por causa de Mizi.

Enquanto isso, os minutos se arrastavam como tartarugas no auditório.

Dez minutos se passaram. Depois quinze.

A voz monótona do palestrante continuava ecoando pelas caixas de som, falando sobre estágios, formulários e cartas de recomendação. O calor humano acumulado na sala começou a deixar o ar pesado e abafado.

Mizi tentou lutar. Piscou várias vezes com força, mordeu o lábio inferior, apertou os próprios braços cruzados para se manter acordada. Mas o corpo dela simplesmente se recusava a colaborar. Ter ficado acordada até as três da manhã tentando acalmar uma bolinha de pelos brancos que cismou em latir para a porta do guarda-roupa estava cobrando o preço agora.

Os olhos dourados foram pesando. As pálpebras pareciam feitas de chumbo.

Ela pendeu para o lado do corredor uma vez, assustou-se com o próprio vacilo e se endireitou, balançando a cabeça. Mas a gravidade era implacável. Dois minutos depois, o queixo dela caiu contra o peito. A respiração foi ficando cada vez mais lenta, profunda e compassada.

Completamente apagada pelo sono, o corpo de Mizi relaxou por inteiro.

A inclinação teimosa que ela mantinha para longe de Sua cedeu. A cabeça pesada, coberta pelas mechas volumosas em rosa e azul, pendeu suavemente para a direita.

E, sem qualquer cerimônia, desabou direto no ombro de Sua.

O choque foi tão repentino que Sua quase deu um salto da cadeira.

Ela paralisou no mesmo milissegundo. Cada músculo do seu corpo se transformou em pedra sólida. Os olhos roxos se arregalaram em pânico absoluto, encarando o topo da cabeça de Mizi encostada bem na junção entre seu pescoço e seu ombro.

O peso era real. Era quente. O cabelo macio de Mizi fazia cócegas na pele exposta da clavícula de Sua, logo acima do colarinho fechado do uniforme. A respiração suave e compassada da garota batia contra seu tecido social branco a cada segundo.

Sua prendeu a respiração. Não ousava mover um único dedo. Nem mesmo engolir a saliva ela tinha coragem, com medo de que o menor tremor no ombro pudesse acordar Mizi e quebrar aquele momento impossível.

À frente, Hyuna virou o rosto para trás novamente, provavelmente para checar como a amiga estava aguentando o tédio.

No instante em que Hyuna viu a cena, os olhos dela quase pularam para fora das órbitas.

Ela cobriu a boca com as duas mãos para abafar um grito de surpresa, os ombros tremendo incontrolavelmente enquanto começava a ter uma crise de riso mudo. Hyuna apontou freneticamente com os olhos para Mizi e depois para a cara em pânico de Sua, mordendo os lábios até ficarem brancos para não gargalhar alto.

Sua lançou a Hyuna o olhar mais desesperado e assassino que conseguiu produzir, implorando em silêncio para que ela não fizesse nenhum barulho.

Sua voltou a olhar para a frente, sentindo o próprio coração disparado, batendo tão forte que ela tinha certeza de que Mizi sentiria a pulsação através do osso do ombro. Era ridículo. Era aterrorizante. Mizi a detestava. Mizi a olhava nos corredores como se ela fosse um inseto nojento. Mas ali, dormindo profundamente, o rosto dela parecia incrivelmente suave, despido de qualquer cinismo ou frieza.

Sua deixou o ar sair bem devagar pelo nariz. Manteve o ombro firme, servindo de apoio, e simplesmente ficou ali, imóvel, deixando o tempo passar.

Mais dez minutos se esgotaram até que o homem no palco finalmente soltou a frase redentora:

— E com isso, encerramos as considerações sobre planejamento profissional. Tenham um bom restante de dia.

Uma salva de palmas fraca, arrastada e cheia de alívio ecoou pelo auditório. As luzes principais do teto se acenderam com um zumbido elétrico alto, banhando tudo em uma claridade branca desconfortável. O barulho de centenas de alunos se levantando, cadeiras retráteis estalando e conversas simultâneas tomou conta do lugar.

Diana, Nuxy e Anne foram as primeiras a descer as fileiras para resgatar a amiga.

— Finalmente essa porra acabou, achei que ia morrer — resmungou Diana, passando a mão pelos cabelos verde-azulados. — Cadê a Mi...

Ela travou no meio do degrau.

Anne quase bateu nas costas de Diana, esticando o pescoço para ver. Nuxy deu um gritinho abafado, os olhos brilhando em choque.

Ali, no meio da fileira, Mizi continuava profundamente adormecida, com o rosto praticamente enterrado no ombro de Sua. E Sua continuava estátua, pálida como um fantasma, encarando o chão com uma postura excessivamente rígida.

— Não. Mentira. — Diana soltou uma risada incrédula, aproximando-se com passos rápidos. — Puta que pariu, eu não tô vendo isso.

— Gente... ela tá dormindo na garota que ela vive xingando? — sussurrou Anne, com a mão na boca, alternando o olhar entre a doçura da cena e a ironia absurda da situação.

— Eu preciso tirar uma foto, caralho, ninguém vai acreditar — disse Diana, enfiando a mão no bolso da saia.

— Nem brinca com isso, ela mata a gente! — avisou Nuxy, rindo e cutucando o braço de Mizi com a ponta dos dedos. — Ô, bela adormecida. Acorda. A palestra acabou, porra.

Mizi resmungou algo ininteligível, virando o rosto contra o tecido do ombro de Sua antes de piscar os olhos devagar. A claridade do auditório fez seus olhos arderem.

— Que foi...? — murmurou Mizi com a voz rouca de sono, esfregando a bochecha onde o botão da camisa de Sua havia deixado uma pequena marca vermelha.

— Acorda, sua folgada — zombou Diana, com um sorriso de orelha a orelha. — Achou um travesseiro de luxo aí e esqueceu da vida, foi?

O cérebro de Mizi finalmente processou as palavras.

Ela franziu a testa, confusa. Olhou para as amigas à sua frente, rindo com cumplicidade. Depois, lentamente, olhou para o lado.

A compreensão bateu como um balde de água congelada.

Sua estava sentada bem ao lado dela, o ombro ligeiramente amassado onde o peso da cabeça de Mizi estivera apoiado até um segundo atrás. Os olhos roxos de Sua encontraram os dela por um instante fugaz, guardando uma fragilidade silenciosa que Mizi nem se deu ao trabalho de interpretar.

O choque no rosto de Mizi durou apenas meio segundo antes de ser substituído por pura e absoluta repulsa.

Ela se afastou com tanta violência que a cadeira bateu com força de volta no encosto. A expressão dela se contorceu em uma careta ácida de nojo evidente, como se tivesse acabado de encostar em lixo hospitalar.

Não houve um pedido de desculpas. Não houve um "obrigada por não ter me empurrado". Não houve nem sequer uma fração de constrangimento educado.

Apenas acidez.

Mizi lançou a Sua um olhar carregado de desdém e frieza cortante, como se a culpa de tudo aquilo fosse unicamente da morena por ter ousado existir naquele mesmo espaço geométrico. Com as mãos rápidas e irritadas, Mizi bateu no próprio ombro e na manga da blusa social branca, sacudindo-se como se estivesse limpando poeira tóxica, antes de passar os dedos com força pelos cabelos rosa para desamassar as pontas azuis.

— Que merda — cuspiu Mizi entredentes, sem dirigir a palavra diretamente a Sua, apenas levantando-se bruscamente e passando direto pelas amigas em direção à saída do auditório. — Vamos embora dessa bosta de lugar logo.

Diana soltou uma gargalhada alta, seguindo a amiga de perto.

— Caralho, Mizi, você é intragável até acordando! A garota nem se mexeu pra não te derrubar e você sai com essa cara de cu?

— Fica quieta, Diana! — rosnou Mizi pelos dentes, sem olhar para trás, sumindo no meio da multidão de alunos que empacava nas portas duplas de saída.

No assento agora vazio, Sua permaneceu imóvel por mais alguns instantes.

Ela levou a mão pálida até o próprio ombro direito, onde a ponta dos dedos tocou o tecido da camisa. O lugar ainda guardava o calor do corpo de Mizi. O cheiro cítrico misturado a morango ainda pairava ali, teimoso, como uma lembrança física que se recusava a ir embora, mesmo após o veneno daquele olhar de desprezo ter cortado o ar.

Sua engoliu em seco. A sensação de vazio no peito doeu mais do que ela gostaria de admitir.

— E aí, Romeu... sobreviveu ao contato de primeiro grau?

A voz de Hyuna veio acompanhada de um tapinha leve nas costas. A morena mais alta já estava de pé no corredor da fileira, rindo com o canto da boca, embora os olhos azuis carregassem uma preocupação genuína.

— Ela me odeia — disse Sua baixinho, a voz neutra, mas com aquele tom melancólico que nunca conseguia apagar por completo. Ela se levantou devagar, alisando a saia e ajeitando a alça da bolsa no ombro. — Você viu a cara dela.

— Eu vi que ela dormiu que nem um bebê no seu ombro por quase meia hora — rebateu Hyuna, dando de ombros com um sorriso convencido. — O orgulho dela só é grande demais pra admitir que o travesseiro era confortável. Relaxa.

— Que porra foi aquela ali? — a voz irritada de Till cortou a conversa quando ele se aproximou, com a jaqueta enfiada debaixo do braço e as sobrancelhas cinzas franzidas até quase se tocarem. — Aquela garota usou você de encosto de cabeça e saiu com cara de quem ia vomitar? Que mina maluca, na moral. Ela se acha demais.

Ivan vinha logo atrás, com as mãos nos bolsos da calça preta e um pirulito agora na boca. Ele parou ao lado de Till, inclinando o corpo de forma invasiva para perto do ouvido do rebelde.

— O que foi, Tillzinho? Ficou com ciúme porque ela encostou na minha irmã e nem olhou na sua cara de novo? — provocou Ivan, a voz arrastada transbordando um deboche afiado. — Se quiser, eu peço pra Sua te dar um abraço pra você ver como é a sensação de ter contato humano.

— Vai se foder, Ivan, antes que eu quebre a sua cara aqui mesmo! — Till explodiu, empurrando o peito de Ivan com força e virando as costas furioso. — Eu tô falando sério! Essa escola inteira é cheia de gente babaca!

Luka apenas balançou a cabeça, soltando um suspiro paciente enquanto descia os degraus atrás dos outros dois.

— O nível de cortisol de vocês dois vai reduzir a expectativa de vida do grupo em pelo menos vinte anos — comentou Luka, com o humor seco de sempre.

Enquanto os garotos se afastavam em direção ao corredor, trocando xingamentos habituais e empurrões barulhentos, Hyuna passou o braço pelos ombros de Sua, puxando-a de leve para caminharem juntas.

Sua olhou uma última vez para as portas abertas do auditório, onde os cabelos em degradê rosa e azul de Mizi haviam acabado de desaparecer na maré de estudantes. O ombro ainda parecia estranhamente pesado. E, por mais que tentasse forçar sua mente a focar na frieza do olhar que recebera, o coração teimoso de Sua continuava batendo no ritmo da respiração calma que ela havia guardado em segredo durante aqueles vinte minutos.

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