Hm
O Banquete de Vidro e Veneno
A corrida de Abel era um borrão de adrenalina e sombras. Seus pulmões ardiam, mas o frio da noite de Elfhame agia como um tônico, mantendo-o alerta. Ele conhecia aquela parte da floresta, ou pelo menos achava que conhecia. Em Elfhame, as trilhas tinham o hábito de se curvar e se esconder quando se sentiam observadas, e Cardan, com sua linhagem real e sua conexão intrínseca com a terra, era o observador mais atento de todos.
Abel saltou sobre uma raiz retorcida que parecia ter tentado agarrar seu tornozelo. Ele não parou. Ele sabia que Cardan estava logo atrás, movendo-se com aquela calma irritante de quem sabe que o tempo é uma ilusão e a vitória é inevitável.
— Dez! — A voz de Cardan ecoou, não de um ponto específico, mas como se as próprias árvores estivessem anunciando o fim da contagem. — Eu avisei que não seria gentil, Abel!
Abel mergulhou em um arbusto de folhas prateadas, sentindo o corte leve das bordas serrilhadas em seus braços. Ele se agachou, tentando abafar o som de sua respiração. O silêncio que se seguiu foi pior do que os gritos. Era um silêncio pesado, carregado de expectativa. Ele fechou os olhos por um segundo, tentando acalmar o batimento frenético em seu peito.
Ele gostava disso. Era uma confissão pecaminosa que ele guardava apenas para si mesmo. Ele gostava do medo, da perseguição e do modo como Cardan o olhava — como se Abel fosse a única coisa sólida em um reino de ilusões. Cardan era cruel, sim. Ele era um príncipe que bebia vinho de fada como se fosse água e que tratava a vida mortal como um entretenimento passageiro. Mas, para Abel, ele era o único que não usava máscaras de polidez excessiva. Cardan era honestamente terrível, e havia uma segurança estranha nisso.
Um estalo seco de um galho à direita fez Abel girar a cabeça. Nada. Então, um sussurro à esquerda.
— Você está se escondendo como um coelho, Abel. — A voz de Cardan estava tão perto que Abel sentiu o hálito frio do príncipe em sua nuca. — E eu sempre preferi a carne de coelho.
Abel tentou se levantar e correr, mas uma mão enluvada de couro fino agarrou o colarinho de sua túnica, puxando-o para trás com uma força bruta. Ele caiu sobre a grama macia, e antes que pudesse se recuperar, Cardan estava sobre ele. O príncipe o prendeu contra o chão, os joelhos pressionando as coxas de Abel, as mãos prendendo seus pulsos acima da cabeça.
Cardan estava ofegante, embora seus olhos negros brilhassem com uma satisfação maníaca. Sua coroa de espinhos de ouro estava levemente inclinada, e um fio de cabelo caía sobre seus olhos, dando-lhe uma aparência selvagem e desvairada.
— Peguei você — sibilou Cardan.
Abel forçou um sorriso, apesar da pressão em seus pulsos.
— Você demorou. Achei que o grande príncipe de Elfhame estivesse ficando velho.
Cardan apertou os dedos em volta dos pulsos de Abel, não o suficiente para quebrar os ossos, mas o suficiente para deixar marcas que durariam dias.
— Cuidado com a língua, mortal. Eu poderia arrancá-la e guardá-la em um frasco de cristal para que ela nunca mais pudesse me insultar.
— Mas então você não teria ninguém para lhe dizer a verdade — rebateu Abel, arqueando as costas, tentando se libertar ou talvez apenas querendo sentir o peso de Cardan mais plenamente. — E nós dois sabemos que você é viciado na minha verdade, tanto quanto é viciado nesse vinho que mancha seus lábios.
Cardan inclinou-se, seu rosto a centímetros do de Abel. A possessividade em seu olhar era quase tangível, uma névoa escura que parecia isolar os dois do resto do mundo.
— Você acha que me conhece — disse Cardan, sua voz uma mistura de escárnio e fascínio. — Você acha que, porque eu permito que você me toque, você tem algum poder sobre mim. Mas eu sou o mestre das mentiras que não podem ser ditas, Abel. Eu sou o caos que você tanto teme e deseja.
— Você não é o caos — sussurrou Abel, sua timidez voltando em um lampejo antes de ser esmagada por sua própria provocação. — Você é apenas um garoto solitário que se esconde atrás de uma coroa de espinhos e de um sarcasmo barato. E você me persegue porque eu sou o único que não precisa de nada de você... exceto de você mesmo.
O silêncio que se seguiu foi tenso. Cardan parecia estar lutando entre o desejo de estrangular Abel e a necessidade de beijá-lo até que ambos perdessem os sentidos. O príncipe soltou um dos pulsos de Abel e deslizou a mão pelo seu pescoço, o polegar traçando a linha da mandíbula do mortal com uma delicadeza que era mais aterrorizante do que a violência.
— Você é perigoso para mim — admitiu Cardan, e a honestidade feérica da frase vibrou no ar. — Mais perigoso do que as intrigas de Balekin ou as ambições de Dain. Você me faz querer coisas que um príncipe de Elfhame não deveria querer. Você me faz querer ser... visto.
Abel estendeu a mão livre e tocou o rosto de Cardan, os dedos traçando as maçãs do rosto altas e pálidas.
— Então me veja, Cardan. Não o "humano", não o "brinquedo". Veja a mim.
Cardan fechou os olhos por um breve momento, entregando-se ao toque. Era uma rendição momentânea, uma rachadura na armadura de crueldade que ele cultivava com tanto zelo. Mas, tão rápido quanto veio, a vulnerabilidade desapareceu, substituída por um brilho de depravação.
— Eu vejo você — murmurou Cardan, abrindo os olhos. — E o que vejo é alguém que precisa aprender o preço de desafiar um príncipe.
Ele se levantou abruptamente, puxando Abel consigo com um solavanco. Sem dizer uma palavra, Cardan começou a arrastá-lo pela floresta, não mais para uma caçada, mas em direção às luzes distantes e bruxuleantes de um pavilhão que Abel não tinha visto antes.
— Para onde estamos indo? — perguntou Abel, tentando manter o passo.
— Para o banquete — respondeu Cardan, sem olhar para trás. — Meus irmãos estão dando uma festa em honra a alguma trivialidade que já esqueci. E eu decidi que você será meu convidado de honra. Ou talvez minha peça de exibição. Veremos como o humor da noite me atinge.
Abel sentiu um frio na barriga. As festas da alta corte de Elfhame eram conhecidas por sua decadência e perigo, especialmente para mortais desavisados.
— Cardan, você sabe que eu não pertenço a esse lugar. Suas irmãs e irmãos... eles não gostam de mim.
Cardan parou e virou-se, um sorriso cruel e possessivo iluminando seu rosto.
— Eles detestam você. Eles odeiam o fato de que um mortal tem mais influência sobre o príncipe mais novo do que qualquer um deles. E é exatamente por isso que você vai entrar lá de cabeça erguida, Abel. Porque você é meu. E ninguém em Elfhame ousa tocar no que pertence a Cardan Greenbriar.
— Eu não pertenço a ninguém — murmurou Abel, embora a forma como seu coração disparou com as palavras de Cardan dissesse o contrário.
— Veremos — disse Cardan, puxando-o para a luz.
O pavilhão era uma estrutura feita de vidro vivo e trepadeiras de flores que brilhavam com uma luz fosfórica. No interior, fadas de todas as formas e tamanhos dançavam ao som de uma música que parecia feita de gritos de pássaros e batidas de coração. O cheiro de comida encantada e vinho forte era quase opressor.
Quando Cardan entrou, carregando Abel pelo pulso, o salão pareceu prender a respiração por um segundo antes de retomar seu ritmo caótico. Olhares carregados de desprezo e curiosidade foram lançados em direção a Abel, mas um simples rosnado baixo de Cardan e um movimento de sua cauda foram suficientes para fazer com que os cortesãos mais próximos recuassem.
Cardan conduziu Abel até uma mesa farta, coberta com frutas que brilhavam como joias e cálices de cristal cheios de líquidos de cores impossíveis.
— Coma — ordenou Cardan, sentando-se em uma cadeira esculpida em osso de dragão e puxando Abel para ficar em pé entre suas pernas.
— Você sabe que eu não posso comer nada daqui sem ser encantado — disse Abel, olhando para uma fruta que parecia uma mistura de pêssego e estrela.
— Eu sei — disse Cardan, pegando uma faca de prata e cortando uma fatia fina de uma fruta vermelha e suculenta. — Mas eu estou aqui para garantir que você não coma nada que o faça dançar até a morte. Apenas o suficiente para que você se sinta... mais receptivo.
Ele levou a fatia de fruta aos lábios de Abel.
— Abra — comandou Cardan.
Abel hesitou. Ele sabia que era uma armadilha. Cardan adorava manipular, adorava ver até onde Abel iria por ele. Mas havia um desafio nos olhos do príncipe, uma promessa de que, se Abel aceitasse aquilo, ele seria recompensado de formas que sua mente mortal mal conseguia conceber.
Abel abriu a boca e aceitou a fruta. O gosto era explosivo — uma mistura de mel, sangue e sol de verão. Instantaneamente, o mundo ao seu redor tornou-se mais vívido. As cores ficaram mais brilhantes, a música mais profunda, e o toque das mãos de Cardan em sua cintura pareceu incendiar sua pele.
— Gosto? — perguntou Cardan, observando a dilatação das pupilas de Abel com um prazer sombrio.
— É... é demais — ofegou Abel, apoiando as mãos nos ombros de Cardan para não cair.
— É apenas o começo — sussurrou o príncipe.
Cardan o puxou para mais perto, escondendo o rosto na curva do pescoço de Abel, inalando o cheiro de suor e da fruta encantada.
— Você é tão pequeno, tão efêmero — murmurou Cardan, sua voz vibrando contra a pele de Abel. — Às vezes, eu quero quebrar você apenas para ver se posso consertá-lo. Outras vezes, eu quero escondê-lo do resto do mundo para que ninguém mais possa sequer saber que você existe.
Abel, sob o efeito da fruta, sentiu sua timidez evaporar completamente. Ele inclinou a cabeça para trás, expondo a garganta para o príncipe.
— Então me esconda — disse Abel, sua voz carregada de um desejo que ele não conseguia mais controlar. — Me leve para longe daqui, Cardan. Longe de seus irmãos, longe da corte.
Cardan soltou uma risada baixa e rouca.
— E perder a chance de mostrar a todos como eu reduzi o orgulhoso mortal a isso? Jamais.
Ele se levantou, mantendo um braço firme em volta da cintura de Abel, e o conduziu para o centro da pista de dança. As outras fadas abriram caminho, observando com uma mistura de horror e fascínio enquanto o príncipe bêbado e seu mortal encantado começavam a se mover.
A dança não era elegante; era uma luta de vontades. Cardan guiava com uma força possessiva, seus movimentos sendo seguidos por um Abel que parecia estar em um transe de puro êxtase. Eles giravam sob as luzes de vidro, um borrão de veludo preto e pele mortal.
— Eles estão olhando — sussurrou Abel, sua cabeça encostada no peito de Cardan.
— Deixe que olhem — respondeu Cardan, seus olhos fixos em um ponto invisível por cima da cabeça de Abel. — Deixe que vejam o quanto eu sou patético por desejar algo tão frágil. E deixe que vejam que, mesmo sendo patético, eu ainda sou o monstro que eles temem.
De repente, a música parou. No topo da escadaria do pavilhão, uma figura imponente apareceu. Era Balekin, o irmão mais velho de Cardan, com seu olhar de aço e sua aura de crueldade absoluta.
— Cardan! — a voz de Balekin cortou o salão como uma chicotada. — O que é essa abominação no meio da minha festa?
Cardan não soltou Abel. Pelo contrário, ele apertou o aperto em sua cintura, puxando-o ainda mais para perto, quase como um escudo ou um troféu.
— É um convidado, meu caro irmão — disse Cardan, sua voz recuperando todo o sarcasmo afiado. — Algo que você claramente não sabe como tratar com cortesia.
Balekin desceu os degraus lentamente, seus olhos fixos em Abel com um nojo indisfarçável.
— Você traz um animal humano para o nosso banquete? Você se rebaixa a esse ponto, irmãozinho?
— Eu me rebaixo a onde eu quiser — respondeu Cardan, dando um passo à frente, levando Abel consigo. — E este "animal", como você o chama, é mais inteligente, mais leal e muito mais divertido do que qualquer uma das criaturas rastejantes que você chama de amigos.
Abel sentiu o perigo emanando de Balekin. Ele tentou se afastar, mas Cardan o segurou com firmeza.
— Cardan, por favor... — sussurrou Abel.
— Shh — sibilou Cardan em seu ouvido. — Fique quieto e observe.
Balekin parou a poucos metros deles. Sua mão foi para o punho da espada em sua cintura.
— Você está testando minha paciência, Cardan. Tire essa coisa daqui antes que eu a use para decorar as paredes deste pavilhão.
Cardan soltou um sorriso que não chegou aos olhos. Era o sorriso de uma fada que estava prestes a cometer uma atrocidade.
— Se você tocar em um único fio de cabelo dele, Balekin, eu juro pelas raízes de Elfhame que farei você se arrepender de ter nascido com o sangue dos Greenbriar. Eu posso ser o mais novo, o bêbado e o bobo da corte, mas eu sou o único que não tem nada a perder. E um homem que não tem nada a perder é a coisa mais perigosa que você já enfrentou.
O silêncio no pavilhão era absoluto. Até a brisa parecia ter parado de soprar. Balekin e Cardan se encararam, uma batalha silenciosa de vontades e ódio acumulado por séculos. Por fim, Balekin soltou uma risada fria e desviou o olhar.
— Leve seu brinquedo, Cardan. Ele cheira a mortalidade e medo. Está estragando o aroma do meu vinho.
Cardan não esperou por uma segunda ordem. Ele virou-se e arrastou Abel para fora do pavilhão, de volta para a escuridão da floresta. Eles caminharam em silêncio por um longo tempo, até que as luzes da festa fossem apenas um brilho distante atrás deles.
Quando finalmente pararam perto de um riacho de águas cristalinas, Cardan soltou Abel. O efeito da fruta estava começando a passar, deixando Abel exausto e trêmulo.
— Você é um idiota — disse Abel, sentando-se em uma pedra e escondendo o rosto nas mãos. — Ele poderia ter matado nós dois.
Cardan ficou parado à beira da água, sua silhueta recortada contra a lua. Sua cauda se agitava nervosamente atrás dele.
— Ele não ousaria — disse Cardan, embora sua voz estivesse menos firme do que antes. — Ele sabe que eu falava a verdade.
Abel levantou os olhos.
— Você me defendeu. Por que?
Cardan virou-se, e a expressão em seu rosto era uma mistura de raiva e uma dor profunda que ele raramente mostrava.
— Porque você é meu! — gritou ele, sua voz ecoando entre as árvores. — Porque eu não permito que ninguém, nem mesmo meu irmão, olhe para você com desprezo. Só eu posso desprezar você. Só eu posso desejar você.
Abel levantou-se e caminhou até o príncipe. Ele não tinha mais medo, apenas uma compreensão clara da possessividade doentia e obsessiva de Cardan.
— Você é louco — disse Abel, parando diante dele.
— Eu sou uma fada — corrigiu Cardan, recuperando um pouco de sua arrogância característica. — Nós somos todos loucos pelos padrões mortais.
Abel sorriu e, em um movimento audacioso, puxou Cardan pela túnica, forçando-o a se inclinar para um beijo. Desta vez, não houve perseguição, nem jogos, nem frutas encantadas. Foi apenas o contato de dois seres que, contra todas as leis de Elfhame e da lógica, haviam se tornado o centro do universo um do outro.
Cardan respondeu com uma intensidade que quase derrubou Abel. Suas mãos percorreram o corpo do mortal como se estivesse tentando memorizar cada curva, cada batida de coração.
— Eu odeio você — murmurou Cardan contra os lábios de Abel.
— Eu sei — respondeu Abel, puxando-o para mais perto. — E eu odeio o fato de que você nunca consegue parar de mentir sobre isso.
Cardan riu, um som suave e genuíno que raramente era ouvido nas terras feéricas. Ele pegou a mão de Abel e entrelaçou seus dedos, os dedos longos e pálidos da fada contra os dedos curtos e quentes do humano.
— Venha — disse Cardan, começando a caminhar. — A noite ainda é jovem, e eu ainda não terminei de mostrar a você o quão depravado um príncipe pode ser quando tem o que deseja.
Abel seguiu, deixando-se levar para a escuridão, sabendo que, enquanto estivesse com Cardan, ele seria a presa, o tesouro e o rei de um coração feito de espinhos e sombras. Em Elfhame, o amor era uma maldição, mas para Abel, era a única aventura que realmente importava.