Hogwarts
O Crepúsculo das Pedras Vivas
A névoa negra que subia das masmorras não era apenas fumaça; era uma presença senciente, um frio que não atingia a pele, mas a própria alma. No corredor do terceiro andar, o ar tornou-se espesso, saturado por um cheiro de ozônio e terra molhada, como se o castelo estivesse exumando seus próprios mortos.
Noah sentiu um aperto firme em sua mão. Era Josh. O lufano, geralmente a personificação do otimismo e da força física, estava pálido, mas seus dedos entrelaçados nos de Noah eram a única coisa que mantinha o corvino ancorado à realidade. A relação entre os dois era um segredo guardado sob sete chaves e mantido em salas de aula vazias e beijos roubados na Torre de Astronomia. Entre os lençóis de seda e os suspiros compartilhados nas madrugadas, Noah encontrara em Josh um refúgio para sua mente inquieta. Mas ali, diante do abismo, o desejo parecia uma memória distante.
— Fique atrás de mim — sussurrou Josh, a voz rouca.
— Não seja idiota, Josh — Noah rebateu, embora não soltasse a mão do amigo. — Se aquilo for o que eu penso, músculos não vão ajudar.
A névoa subitamente se condensou. No centro do corredor, a escuridão se moldou na figura de um homem alto, cujas vestes pareciam feitas de sombras líquidas. Ele não tinha a aparência cadavérica de Voldemort; era um homem de feições aristocráticas, cabelos brancos como a lua e olhos que brilhavam com um azul elétrico e predatório. Era um bruxo de eras passadas, alguém cujo nome fora apagado dos livros de história, mas cujo poder ainda pulsava nos alicerces de Hogwarts.
O bruxo antigo ergueu a mão, um gesto casual e quase entediado.
— Tão jovens... — a voz dele era um sussurro que ressoava dentro dos crânios dos estudantes. — Tão despreparados para a herança que carregam.
Sem aviso, um grupo de alunos do quarto ano, que voltava tarde da biblioteca, surgiu no final do corredor. Estavam desarmados, com os livros debaixo do braço e o riso ainda morrendo em seus lábios quando viram a entidade.
— Não! — gritou Victor, mas era tarde demais.
O bruxo antigo apenas fechou o punho. Um estalo seco, como o de um galho quebrando, ecoou pelo corredor. Dois dos alunos caíram instantaneamente, seus corpos colapsando como marionetes cujas cordas haviam sido cortadas. Não houve luz verde, não houve som de feitiço. Apenas a morte súbita e silenciosa.
— Monstros... — sibilou Sophia, encostada à parede, os olhos arregalados.
Lionel Dumbledore deu um passo à frente, sua varinha de madeira escura surgindo em sua mão com a rapidez de uma serpente. Seu rosto não demonstrava medo, apenas uma concentração fria e calculista.
— Saiam daqui! Agora! — ordenou Lionel, sua voz trovejando com uma autoridade que fez as armaduras ao redor vibrarem.
— Diretor, ele está drenando a magia do castelo! — gritou Victor, correndo em direção aos alunos sobreviventes que gritavam de terror.
O bruxo antigo riu, um som seco e sem alegria, e lançou uma rajada de energia pura contra Lionel. O Diretor rebateu com um escudo de luz dourada que iluminou todo o corredor, revelando as rachaduras que começavam a surgir nas paredes de pedra. O duelo que se seguiu foi uma sinfonia de destruição. Lionel movia-se com uma elegância letal, transmutando o ar em lâminas de vidro e o fogo em correntes de ferro, enquanto o bruxo antigo desintegrava cada ataque com um simples olhar.
Victor sabia que Lionel não conseguiria manter aquela defesa por muito tempo. Ele olhou para Kael, Sophia, Noah e Josh.
— Precisamos tirar os outros daqui! Kael, Sophia, levem os sobreviventes para o Salão Comunal! Noah, Josh, ajudem-me com a barreira!
— Victor, você não pode enfrentar isso! — gritou Noah, tentando puxar Josh para longe da linha de fogo.
— Eu não vou enfrentar. Vou conter — disse Victor.
Ele se posicionou entre o duelo titânico de Lionel e os alunos restantes. Victor fechou os olhos por um segundo, buscando aquela fonte de poder que ele sempre temera. Não era a magia ensinada em Hogwarts; era algo mais profundo, algo que ele sentia em seus ossos sempre que lia sobre maldições proibidas.
— *Obsidiana Murus!* — bramiu Victor.
Uma parede de chamas negras e sólidas ergueu-se do chão, criando uma barreira entre o bruxo antigo e o caminho de fuga dos alunos. Era um feitiço de alto nível, uma magia que exigia um sacrifício de vitalidade que nenhum aluno de dezoito anos deveria ser capaz de oferecer.
Lionel, enquanto trocava feitiços rápidos como relâmpagos com o inimigo, lançou um olhar de soslaio para Victor. Havia uma aprovação sombria em seus olhos.
— Josh, ajude o Victor! Ele vai desmaiar! — Noah gritou, soltando a mão do parceiro.
Josh correu até Victor, segurando-o pelos ombros enquanto o grifinório tremia sob o esforço de manter a barreira negra. Noah, por sua vez, começou a traçar runas no ar com sua varinha, tentando estabilizar a estrutura mágica do corredor para que o teto não desabasse sobre todos eles.
— Você é louco, Victor — grunhiu Josh, sentindo o calor sobrenatural que emanava da pele do amigo. — Essa coisa vai te matar.
— Se eu parar... todos morrem — respondeu Victor entre dentes, o suor escorrendo por seu rosto.
Do outro lado da barreira, a batalha entre Lionel e o bruxo antigo atingia um clímax aterrador. Lionel conjurou uma fênix de fogo branco que avançou contra a sombra, mas o bruxo antigo simplesmente a atravessou, suas mãos se transformando em garras de pura escuridão.
— Você é fraco como seu pai, Lionel — disse o bruxo antigo, sua voz sobrepondo-se ao caos. — Ele acreditava no amor. Você acredita na ordem. Mas a única verdade é o vazio.
Lionel sorriu, um sorriso que não chegou aos olhos.
— Meu pai era um idealista. Eu sou um pragmático. E o meu pragmatismo diz que você é um anacronismo que precisa ser apagado.
Com um movimento violento, Lionel cravou sua varinha no chão. Uma onda de choque de magia pura varreu o corredor, empurrando o bruxo antigo para trás. A explosão foi tão forte que a barreira de Victor estilhaçou-se como vidro.
Victor foi arremessado contra a parede, e Josh caiu por cima dele, tentando protegê-lo com o próprio corpo. Noah, Sophia e Kael foram jogados ao chão pela força do impacto.
O silêncio que se seguiu foi pesado. A névoa começou a se dissipar, e a figura do bruxo antigo parecia menos sólida, como se a explosão de Lionel tivesse interrompido sua conexão com o mundo físico.
— Isso foi apenas o despertar — disse o bruxo, sua imagem tremeluzindo. — O castelo pertence aos que vieram antes. E eles estão voltando.
Com um último suspiro de sombras, a entidade desapareceu, deixando apenas o cheiro de queimado e os corpos sem vida dos dois alunos no chão.
Lionel Dumbledore permaneceu de pé, embora suas mãos estivessem tremendo levemente. Ele guardou a varinha e ajeitou as vestes, recuperando sua máscara de calma absoluta em questão de segundos.
— Diretor... — Noah começou, levantando-se com dificuldade e ajudando Josh a se erguer. — O que foi aquilo?
Lionel olhou para os corpos dos alunos mortos com uma frieza que gelou o sangue de todos os presentes.
— Uma falha de segurança que não se repetirá — disse ele, voltando seu olhar para Victor, que ainda estava no chão, apoiado por Josh. — Victor, você foi... impressionante. Mas o uso daquela técnica de contenção terá consequências.
— O senhor sabia — acusou Kael, saindo das sombras com os olhos injetados de raiva. — O senhor sabia que aquilo estava lá. O senhor o provocou.
Lionel caminhou até Kael, parando a poucos centímetros do rosto do sonserino.
— O que eu sei, Kael, é que Hogwarts está segura por enquanto. O que eu sei é que vocês cinco demonstraram habilidades que a maioria dos bruxos adultos levaria décadas para dominar. E o que eu sei é que, a partir de hoje, suas vidas mudaram.
Sophia aproximou-se, cruzando os braços, tentando esconder o tremor em suas mãos.
— E os alunos? O que vamos dizer?
— A verdade oficial é que houve um vazamento de gás mágico antigo durante a restauração de uma ala — Lionel respondeu, sua voz voltando a ser melódica e benevolente. — Professora McGonagall cuidará dos detalhes e das famílias. Vocês, no entanto, virão ao meu escritório amanhã ao amanhecer. Temos muito o que conversar sobre o futuro de vocês nesta escola.
Lionel virou as costas e caminhou em direção à Torre do Diretor, sua capa flutuando atrás dele como as asas de um corvo.
Josh ajudou Victor a se levantar. O grifinório estava pálido, e um filete de sangue escorria de seu nariz. Noah aproximou-se de Josh, tocando seu braço em um gesto de apoio silencioso. Por um momento, as barreiras entre as casas — Grifinória, Lufa-Lufa, Corvinal e Sonserina — pareciam ter desaparecido diante da carnificina.
— Ele está nos usando — sussurrou Sophia, olhando para o lugar onde Lionel desaparecera. — Ele nos colocou aqui de propósito.
— Talvez — disse Victor, limpando o sangue com a manga da veste. — Mas agora não importa. O que importa é que aquilo que estava no corredor... não era o único. Eu senti, enquanto mantinha a barreira. Há outros. Hogwarts não está sendo atacada por fora. Ela está acordando por dentro.
Kael olhou para Victor, a desconfiança ainda presente, mas agora misturada com um respeito relutante.
— E por que você conhece feitiços que matariam qualquer um de nós, Victor?
Victor olhou para as próprias mãos, que ainda brilhavam fracamente com o resquício da magia negra.
— Porque, como o Diretor disse, talvez eu seja a chave. Ou talvez eu seja a porta que ele quer abrir.
Noah olhou para Josh, e o lufano apertou sua mão novamente. Eles sabiam que o segredo de seu relacionamento era agora o menor de seus problemas. Hogwarts, a escola que deveria ser o lugar mais seguro do mundo bruxo, tornara-se um tabuleiro de xadrez onde eles eram as peças principais, e o mestre de cerimônias era um homem de vinte e oito anos com o nome de uma lenda e o coração de um enigma.
Enquanto se afastavam do corredor, deixando para trás o rastro de morte, os cinco sentiram que a infância e a inocência haviam morrido junto com aqueles alunos. A guerra não havia mudado de face; ela apenas estava esperando o momento certo para revelar sua verdadeira forma. E em algum lugar nas sombras do castelo, o bruxo antigo ria, pois sabia que a semente da discórdia e do poder proibido já havia sido plantada no solo fértil daquelas jovens mentes.