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Homem Aranha

Entre Bits, Beijos e Balas de Prata

A luz azulada dos monitores de Tatsuyo era a única coisa que iluminava o quarto naquela madrugada de terça-feira. O silêncio do apartamento era quebrado apenas pelo som rítmico das teclas mecânicas sendo pressionadas e pelo zumbido quase imperceptível dos servidores que ela mesma havia montado sob a escrivaninha. Tatsuyo Nakamura não era apenas uma estudante de dezessete anos com notas perfeitas; ela era o centro de comando, o olho no céu e o coração pulsante da operação que mantinha o Homem-Aranha vivo.

Naquela noite, a tensão era palpável. Kuro estava em uma perseguição em alta velocidade pelos telhados do Distrito Financeiro. O alvo? Uma remessa de componentes eletrônicos experimentais que haviam sido desviados das Indústrias Stark.

— Kuro, ele está virando na Wall Street. Se ele alcançar o túnel, o sinal de GPS vai oscilar por causa do isolamento de chumbo nas paredes — avisou Tatsuyo, ajustando o headset e aproximando o microfone da boca. — Você precisa interceptar o caminhão agora.

— Eu estou tentando, minha gatinha! — A voz de Kuro veio acompanhada pelo som do vento cortante e pelo estalo característico de uma teia sendo disparada. — Mas esses caras instalaram propulsores de íons na traseira do caminhão. Quem faz isso? É um caminhão de entrega ou uma nave espacial?

Tatsuyo revirou os olhos, embora um sorriso involuntário surgisse em seu rosto. Mesmo em perigo, ele nunca perdia a chance de reclamar com humor.

— É tecnologia roubada, Kuro. Foco. Eu vou sobrecarregar o sistema de navegação do caminhão. Quando eu der o sinal, você atinge os pneus traseiros.

— Entendido. Só me diz que você está me vendo bem. O ângulo da câmera da máscara está meio sujo de poeira de tijolo.

— Eu vejo tudo o que você vê, Kuro. E vejo que você está se exibindo com esse mortal para trás desnecessário — provocou ela, seus dedos voando pelo teclado enquanto invadia o mainframe do veículo. — Pronto. Três... dois... um... Agora!

Kuro saltou de um poste de luz, descrevendo um arco perfeito no ar. Ele disparou duas redes de teia reforçada com polímero líquido, exatamente onde Tatsuyo havia indicado. O caminhão derrapou, os pneus travando enquanto a eletrônica de bordo entrava em colapso sob o comando da garota. Com um estrondo, o veículo parou a poucos metros de um hidrante.

— Peguei! — exclamou Kuro, pousando no teto do caminhão com a graça de um ginasta olímpico. — Viu só? O tanquinho de oito gomos continua intacto.

— Ótimo. Agora amarre os motoristas e saia daí antes que a segurança da Stark chegue e comece a fazer perguntas difíceis — Tatsuyo suspirou, recostando-se na cadeira e sentindo a adrenalina começar a baixar. — Eu já apaguei as gravações das câmeras de rua num raio de dois quarteirões.

— Você é um gênio, sabia? — A voz de Kuro ficou mais baixa, mais íntima. — Às vezes eu esqueço que você não tem superpoderes. Você faz parecer tão fácil.

— Meu superpoder é ter paciência com você, Hatake — ela retrucou, mas seu olhar suavizou enquanto observava a silhueta dele pela câmera do traje. — Agora volta para cá. O café que eu fiz já deve estar frio, e você me deve aquela explicação sobre o dever de física.

— Física? Gatinha, eu acabei de derrotar a física saltando de um prédio de trinta andares!

— Justamente por isso. Você é a prova viva de que a gravidade é apenas uma sugestão, mas o professor Miller ainda quer os cálculos no papel. Vem logo.

Cerca de quinze minutos depois, a janela do quarto de Tatsuyo se abriu silenciosamente. Kuro entrou, removendo a máscara e revelando os cabelos brancos bagunçados e o sorriso de canto que sempre fazia o coração de Tatsuyo errar uma batida. Ele estava ofegante, o suor brilhando em sua pele clara, e o traje apertado deixava pouco para a imaginação.

— Missão cumprida — disse ele, caminhando até ela e apoiando as mãos no encosto da cadeira dela, cercando-a. — Onde está o meu café e, mais importante, onde está o meu beijo de "bem-vindo ao lar"?

Tatsuyo girou a cadeira, ficando de frente para ele. Ela cruzou os braços, tentando manter a expressão severa, mas seus olhos pretos brilhavam de admiração.

— O café está na cozinha. O beijo... depende. Você rasgou o traje de novo?

Kuro fez uma careta de culpa e apontou para um pequeno rasgo na lateral da coxa, onde um estilhaço de metal havia passado raspando.

— Foi só um detalhinho. Quase imperceptível.

— Kuro! — Ela suspirou, levantando-se e caminhando até uma gaveta onde guardava o kit de reparos tecnológico. — Você sabe quanto tempo eu levo para selar essas fibras de kevlar? É um trabalho microscópico!

— Eu sei, eu sei... — Kuro se aproximou por trás dela, envolvendo a cintura de Tatsuyo com os braços e apoiando o queixo em seu ombro. — Mas você gosta de cuidar de mim. Admite.

Tatsuyo sentiu o calor do corpo dele e o cheiro de ozônio e aventura que sempre o acompanhava. Ela relaxou contra o peito dele, fechando os olhos por um segundo. Ser a parceira do Homem-Aranha era exaustivo, mas ser a namorada — ou quase isso — de Kuro Hatake era a coisa mais emocionante de sua vida.

— Eu gosto que você esteja vivo — corrigiu ela em um sussurro. — Às vezes, quando eu vejo você cair por aquela câmera... meu coração para por um segundo, Kuro.

Ele apertou o abraço, deixando um beijo suave no pescoço dela, logo abaixo da orelha.

— Eu nunca vou cair de verdade enquanto tiver a sua voz no meu ouvido, gatinha. Você é a minha rede de segurança.

Kuro a virou em seus braços, forçando-a a olhar para ele. A diferença de altura era considerável, o que o obrigava a se inclinar ligeiramente. Ele levou uma das mãos ao rosto pardo de Tatsuyo, acariciando a maçã do rosto com o polegar.

— Você é tão linda quando está brava comigo por causa de um rasgo no uniforme — ele brincou, mas seus olhos castanhos estavam carregados de um desejo profundo.

— E você é um idiota tarado que sabe exatamente o que dizer para me desarmar — ela respondeu, as mãos subindo para o peito dele, sentindo os batimentos cardíacos acelerados.

— Eu sou o seu idiota tarado — ele murmurou, aproximando o rosto.

O beijo começou lento, uma exploração suave que carregava todo o alívio de mais uma missão bem-sucedida. Mas, sendo Kuro, logo a intensidade aumentou. Ele a puxou para mais perto, suas mãos descendo para a curva dos quadris dela, enquanto Tatsuyo enroscava os dedos nos cabelos brancos e curtos dele, puxando-o para si.

— Kuro... o dever de física... — ela tentou dizer entre os beijos, embora sua voz estivesse falhando.

— A física pode esperar até amanhã — ele respondeu contra os lábios dela, a voz rouca. — Agora eu quero focar em biologia. Ou talvez em anatomia. O que você acha, gatinha?

Tatsuyo soltou um riso baixo, mas não o afastou. Ela o empurrou levemente em direção à cama, e Kuro se deixou levar, caindo de costas enquanto ela se sentava ao lado dele. Ele a puxou para que ela ficasse entre suas pernas, olhando para cima com aquela expressão provocadora que ela tanto amava e odiava.

— Você não presta — disse ela, ajustando os óculos que haviam escorregado.

— Mas você não me trocaria por nenhum gênio do MIT, trocaria? — Ele arqueou uma sobrancelha, exibindo o abdômen definido enquanto puxava a parte superior do traje para baixo, ficando apenas com a malha de compressão.

— O pessoal do MIT não costuma pular de prédios para me trazer donuts de madrugada, então acho que você está seguro por enquanto.

Kuro riu e puxou-a para outro beijo, desta vez mais longo e profundo. Por alguns minutos, o mundo lá fora, com seus vilões, alienígenas e vingadores, deixou de existir. Eram apenas Kuro e Tatsuyo, dois adolescentes de dezessete anos tentando equilibrar o peso do mundo com a leveza do primeiro amor.

— Ei, gatinha — disse Kuro, algum tempo depois, enquanto eles dividiam o café frio na cama, rodeados por livros de física e diagramas de circuitos.

— Hum?

— Você acha que os outros Vingadores desconfiam? Quero dizer, o Stark é inteligente, mas ele não percebeu que o meu software de combate melhorou uns 200% desde que você começou a me ajudar?

Tatsuyo deu um gole no café, pensativa.

— O Stark é egocêntrico demais para admitir que uma garota do ensino médio pode otimizar os sistemas dele. Ele provavelmente acha que você finalmente aprendeu a usar o cérebro.

— Ei! Eu uso o meu cérebro!

— Você usa para fazer piadas de duplo sentido e para lembrar o cardápio de todas as lanchonetes do Queens, Kuro. Para a parte tática, você tem a mim.

Kuro sorriu, um brilho de orgulho nos olhos. Ele sabia que ela tinha razão. Tatsuyo era o segredo mais bem guardado de Nova York. Ela não precisava de uma máscara ou de um nome de super-herói; ela era a mente por trás da lenda.

— Sabe o que eu estava pensando? — Kuro disse, aproximando-se novamente, o tom de voz mudando para algo mais malicioso. — Já que terminamos a missão e o café está acabando... que tal a gente testar a resistência desse novo polímero que você colocou no traje?

Tatsuyo arqueou uma sobrancelha, um sorriso travesso surgindo em seus lábios.

— Ah, é? E como você sugere que façamos esse teste, Sr. Hatake?

— Bem... — Kuro deslizou a mão pela cintura dela, puxando-a para o seu colo. — Eu li em algum lugar que o atrito é uma excelente forma de gerar calor e testar a durabilidade de materiais flexíveis.

Tatsuyo sentiu o rosto queimar, mas não recuou. Ela aproximou o rosto do dele, seus narizes se tocando.

— Você é incorrigível, Kuro. Mas, por sorte, eu sou uma cientista. E cientistas nunca recusam um experimento bem fundamentado.

— É por isso que eu te amo, gatinha — ele sussurrou, antes de selar seus lábios novamente.

Lá fora, a cidade de Nova York continuava seu caos habitual. Sirenes ecoavam ao longe e as luzes da Times Square pintavam o céu de rosa e roxo. Mas naquele quarto, entre telas de computador e cadernos escolares, o Homem-Aranha estava em paz. Ele não precisava ser o herói de ninguém naquele momento; ele era apenas o garoto de cabelos brancos que tinha a sorte de ter a garota mais inteligente do mundo ao seu lado, cuidando de cada passo seu, seja no vácuo entre os prédios ou no silêncio de um abraço.

— Só mais uma coisa — disse Tatsuyo, afastando-se apenas um centímetro, seus olhos brilhando com uma inteligência afiada.

— O que foi?

— Se você rasgar o traje de novo durante o "experimento", você mesmo vai costurar.

Kuro soltou uma gargalhada alta, que ecoou pelo quarto.

— Justo. Mas acho que vou precisar de uma aula particular de costura depois.

— Idiota — ela riu, puxando-o para baixo mais uma vez.

A noite ainda era jovem, e para Kuro Hatake e Tatsuyo Nakamura, a melhor parte da missão estava apenas começando. Entre o dever e o desejo, entre a teia e o bit, eles haviam construído um mundo onde o impossível era apenas mais um problema a ser resolvido juntos. E enquanto Tatsuyo estivesse no comando, Kuro sabia que nunca estaria sozinho na escuridão.